                           Uma esposa Perfeita
  Samantha James



        Resumo:

     Devon Saint James, filha bastarda de uma perceptora, sobrevive como pode no escuro e fedorento bairro de Saint Gilles. 
Uma noite  assaltada por dois criminosos que deixam o seu corpo nas ruas frias e sujas da cidade. 
Mas o destino quer que naquela mesma noite, Sebastian Sterling, Marqus de Thurston,  v at ao bairro  procura do seu irmo rebelde, e pela localizao das tabuletas 
e bordeis, depara no seu caminho com o corpo da jovem moribunda.
Quando Devon recobra a consciencia desperta em um quente e confortavel quarto, debaixo do atento olhar do homem mais bonito que alguma vez imaginara.
  

Disponibilizao e Traduo: Yuna, Gisa, Mare e Rosie
Reviso: Maria F. Almeida
Reviso Final e Formatao: Lica Antunes.
     Projeto Revisoras Tradues
     
     
     Prlogo
     
     Inglaterra, 1794
          
     Sebastian Lloyd William Sterling estava deitado na cama. Com os olhos muito abertos e um n frio e apertado no estomago, olhava para as sombras que havia na 
parede do seu quarto. No tinha nenhuma inteno de dormir, por mais que fechasse os olhos com fora quando Nana entrou por um momento antes para ver conciliara 
o sono.
     Sempre que a sua me e o seu pai discutiam, o sono negava-se a aparecer. A janela de Sebastian estava aberta, o dia havia sido quente para finais de Setembro, 
e o seu quarto situava-se diretamente em cima dos posentos da sua me. Atravs da noite, atravs da escurido, chegavam-lhe as suas vozes.
     Claro que no era a primeira vez que os ouvia discutir. Esse ano fora particularmente sangrento, no s em Londres, durante  a poca do isolamento, mas aqui 
em Thurston Hall. Acontecia sobretudo quando tinham convidados porque a marquesa adorava entret-los. Naquele momento discutiam acerca das suas infidelidades, da 
sua natureza frvola e alegre.
     As observaes provinham do seu pai, William Sterling, marqus de Thurston, que no era um homem muito inclinado a esquecer as coisas que lhe desagradavam. 
Muito pelo contrario, preferia impor castigos e criticar. Desde que Sebastian raciocinava, no se lembrava de uma s vez em que o pai lhe dirigira palavras de reconhecimento; 
nem a ele nem a ningum.
     Quando Sebastian foi para a cama, sabia que a discusso dessa noite seria inevitvel. Havia esperado tensamente pelo momento em que comeasse, visto que os 
pais deram uma festa na sua casa de campo nesse fim de semana e o ltimo convidado havia sado h algum tempo.
     Mas a dessa noite foi uma das piores. Sebastian tapou as orelhas com as mos, tentando afastar o som que no cessava. O seu pai discursava retoricamente, e 
gritava e amaldioava. A me queixava-se, defendia as suas razes, e gritava. Ele no podia det-los. Ningum podia. Quando discutiam, os empregados desciam as escadas 
nas pontas dos ps e mantinham-se  distancia.
     Por fim, ouviu-se uma porta batendo no andar de baixo, e a casa ficou de repente em silencio.
     Sebastian sabia que o pai se retiraria para o escritrio com uma garrafa de genebra. Ai!, teria um humor de co pela manh, j podia ver aqueles olhos vermelhos 
e inchados que o olhavam com a testa franzida, uma viso que o fazia temer a chegada do novo dia. As lies de leitura estavam programadas para o dia seguinte, e 
o marqus sempre assistia nesse horrio quando residiam na residncia de Hall. Embora estivesse habituado aos seus comentrios e 
as duras acusaes, sem sombra de dvida a manh seguinte seria mais torturante do que o normal. O rapaz suspirou. Tambm teria que manter o seu irmo mais novo, 
Justin, afastado. Ele sabia contornar o mau humor do seu pai, mas Justin no.
     Na escurido, o pequeno ficou deitado sem mover um msculo, sem fazer um rudo. Ficou assim um bom tempo e, finalmente, saltou da cama e cruzou o corredor. 
Tinha o hbito de fazer uma visita aos seus irmos quando os pais discutiam, para se assegurar de que estavam bem. A razo, desconhecia-a. Talvez fosse por ser o 
mais velho e, portanto, era seu o dever de cuidar deles.
     Saiu furtivamente para o corredor. Nana estaria dormindo, sem dvida (ouvira os roncos que chegavam do seu quarto). Uma vez dera uma bronca quando o descobriu 
na biblioteca no meio da noite. Ao contrrio das outras crianas, Sebastian no temia a escurido. Muito pelo contrio, a noite era uma oportunidade para desfrutar 
da solido que raramente encontrava durante o dia. Sem tutores, sem Nana a vigi-lo, sem criados que controlassem os seus passos.
     Com cuidado para no fazer rudo, Sebastian cruzou a sala de estudo e entrou no quarto de Justin. O seu irmo mais novo tinha quatro anos. Dormia com a testa 
franzida e o lbio inferior apertado para fora, como se tivesse algum pesadelo. Sebastian penteou com uma mo o cabelo escuro do seu irmo, to parecido com o seu. 
Quando tocou-o no lbio, este voltou  sua posio normal, embora no por muito tempo.
     No fim do corredor, a pequena Julianna, de trs anos de idade, dormia feito uma bola, com as pernas coladas ao peito e no regao, a sua boneca preferida presa 
sob o queixo. Sebastian admirou os cachos castanhos e sedosos caindo sobre o travesseiro e desenhou a forma do seu pequeno corpo, esticando o lenol que a cobria. 
A sua irm parecia um anjo, pensou ele carinhosamente.
     L fora, o crculo da lua havia comeado a cair no incio da noite. Uma lua incrivelmente grande e brilhante. Centenas de estrelas deslumbravam a noite, brilhando 
to perto que Sebastian pensou poder alcan-las apenas ao esticar o brao.
     Antes de perceber, encontrou-se fora de casa. No seu caminho, parou por baixo dos ramos estendidos do olmo. Permaneceu ali, muito quieto, contemplando o cu 
maravilhoso... quando um rudo de folhas no caminho chamou a sua ateno.
     - Mam? -sussurrou.
     A sua me no podia v-lo na sombra. Sebastian deu um passo detrs da rvore. Como sempre, a sua me vestia a ultima moda. Usava um casaco de pele escocesa 
e uma mala de mo combinando; na cabea, um chapu de penas que segurava de maneira descuidada os seus cabelos escuros.
     Se Julianna parecia um anjo, pensou Sebastian, a me era seguramente a criatura mais bonita da terra.
     Ficou parada ao ver que a descobriram.
     - Sebastian! O que est fazendo aqui?
     Sebastian caminhou at onde ela estava. Com a cabea inclinada, ficou ali, a observ-la. Apesar de no passar dos dez anos de idade, j era mais alto do que 
a sua me.
     - No conseguia dormir, mam!
     A me no respondeu. A verdade  que parecia bastante aborrecida. Por trs dos ombros, Sebastian viu uma carruagem junto ao banco do caminho. Entrecerrou os 
olhos, deslizando alternadamente o olhar da carruagem para a mala que a me levava na mo.
     - Vai a algum lugar, mam?
     - Sim, querido.
     - Onde vai, mam?
     A expresso da marquesa transformou-se ligeiramente.
     - Bom,  que, ainda no sei! A Pars, talvez - disse alegremente, - ou a Veneza. Sim, Veneza. O tempo l nesta altura do ano est esplndido. E faz algum tempo 
que no vou a Veneza. Na realidade, h anos que no vou a lado nenhum, a lado nenhum do continente.
     Sebastian sentiu uma tenso estranha no fundo do estmago. Mesmo na sua juventude, sabia que no era correto que a sua me partisse no meio da noite.
     - Veneza  muito longe, mam. No gosta de Thurston Hall?
     Para Sebastian era difcil entender que houvesse algum que no gostasse da tranquilidade e da vastido de Thurston Hall, dos jardins engalanados e das suaves 
colinas que o rodeavam. Ele adorava a manso ancestral. Sete geraes de Sterlings tinham nascido ali. Quando ficava livre das lies, no havia nada que gostasse 
mais do que percorrer as colinas no lombo do seu cavalo.
     Algum dia, pensou com orgulho, quando fosse um homem, Thurston Hall e as outras propriedades da famlia seriam suas. Por isso tinha que ser diligente nos estudos, 
por isso no podia fugir de suas responsabilidades. O titulo de marqus e tudo o que isso significava, no podiam ser levados na brincadeira. E alm disso, Thurston 
Hall era o tesouro mais estimado para ele.
     Continuava  espera da resposta da me, que olhava para a carruagem. A porta j estava aberta, e Sebastian conseguia distinguir sem dificuldade a figura de 
um homem no interior.
      A sua me voltou-se.
     -  que eu... eu no sei como te dizer isto. Sinceramente, no posso ficar com o seu pai por mais tempo. Pensei que podia ser uma me, uma esposa, mas... bom, 
no  esse o meu caminho. O seu pai  rigoroso demais e... sei que s jovem, mas voc conhece o seu tempermento. Preciso de algo mais, meu amor. Preciso viver, preciso 
de alegria e de festas... e se ficar, tenho a certeza de que morreria, me mataria a vida!
     Sebastian sabia que a sua me precisava de ser amada acima de tudo. Adorava ser o centro da ateno. Tambm sabia que a me tinha amantes. H h algum tempo, 
vinham hspedes de Londres para  visit-la. Sebastian tinha visto um homem em particular que olhava a sua me descaradamente. Sabia que os homens gostavam de olhar 
para ela. E ela devolvia-lhes o olhar. Pouco depois, a me e o homem saram em segredo para o terrao. Eles no o tinham visto, mas Sebastian tinha-os seguido. Foi 
l que os viu se beijando. Um, dois, trs beijos ardentes.
     Beijos nunca partilhados com o seu pai.
     A me no sabia que ele os tinha visto, claro. Nunca tinha dito, nem a ela nem a ningum, e muito menos ao seu pai. Sabia que se o dissesse, provocaria outra 
das suas discusses. Foi ento quando Sebastian percebeu pela primeira vez o significado da palavra infidelidade.
     E soube ento dos amantes da me.
     Era um segredo que tinha mantido profundamente na sua alma. E tinha o horrvel pressentimento de que essa noite teria um novo segredo para guardar.
     - Daphne!
     Era o homem da carruagem que chamava a sua me. Perguntou-se se seria o mesmo homem que tinha visto beijar a me to ardentemente. No tinha a certeza.
     A sua me voltou-se e agitou a mo para que esperasse. Depois, virou-se para Sebastian e apertou os lbios.
     - Tenho que ir - disse bruscamente. - Vem c. D um abrao na mam.
     Sebastian ficou onde estava, a erva molhando a bainha do seu pijama e gelando os ps descalos.
     - O pap vai se aborrecer. - disse.
     - O seu pai se aborrece sempre. Agora, entra e volta para a sua cama. Cuide de seus irmos por mim. Cuidar, querido? Mas porque pergunto? Sei que o far.  
um menino excelente.
Sorriu e acariciou-lhe com douras as faces para lhe dedicar depois um ultimo beijo na cabea, quase como uma coincidncia de ultima hora. Finalmente, saiu correndo 
para a carruagem.
     O homem ajudou-a a entrar e desapareceu atrs dela. Por um instante, mesmo antes da porta se fechar, as suas silhuetas viram-se claramente  lux da lua. A cabea 
do homem inclinou-se e a sua me elevou o rosto para o beijar, e um rudo familiar de gargalhadas vagou pelo ar.
     Foi a ultima vez que viu a sua querida me.



Captulo 01


     
     Londres, finais de Maro de 1815
 
     Devon Saint James tinha problemas.
     Dentro de dois dias, teria que pagar o aluguer do soto onde vivia. O proprietrio, o senhor Phillips, tinha subido a mensalidade de maneira vergonhosa. Devon 
estava furiosa e assustada ao mesmo tempo. O quarto no era mais que um casebre onde dificilmente cabiam um banquinho e uma cama que tinha partilhado com a sua me 
at  sua morte. O pior,  que o proprietrio da casa no a informara do aumento at o dia anterior.
     - Monstro ladro! - Devon amarrou com fria os laos do seu chapu. O mesmo tratamento receberam os laos da volumosa capa com que cobria os ombros. Uma pea 
triste e lamentvel, rematada com uma orla roda e desigual, e muito grande para um corpo to pequeno como o seu. Um dos lados, quase tocava o cho manchado de cerveja. 
Mas cumpria o seu propsito, assim como o resto da sua roupa, e por isso estava agradecida.
     Com cuidado, passou a mo pelo vulto redondo da sua barriga, e parou na entrada traseira do Crow's Nest, a taberna prxima  Strand onde trabalhava. Fechou 
com fora a porta ao sair, e deparou-se com a nvoa e a humidade da noite. No havia noite em que no tivesse medo de cruzar as ruas escuras que havia no caminho 
de volta para casa. Essa noite era ainda mais tarde do que o habitual, porque o ltimo cliente tinha ficado at mais tarde. Com inteno de se tranquilizar, recordou 
a si prpria que j fazia um ano que percorria o mesmo caminho sem que nunca lhe acontecesse nada.
     Um ano. Deus bendito, um ano.
     A fraqueza derrotou a sua alma por um breve instante. Meu Deus, era como se tivesse passado uma vida desde ento. A causa da morte da sua me era como uma faca 
cravada no seu corao. De fato, pensou com tristeza, havia vezes em que se sentia desfalecer. Mas algo dentro dela dizia que no podia se resignar a ser sempre 
uma camareira. A sua me odiava que trabalhasse ali, e ela tambm. No, no abandonaria os seus sonhos. Tinha mais certeza do que nunca. Algum dia encontraria uma 
maneira de sair de Saint Gilles. Algum caminho.
     Tinha feito essa promessa a si prpria j h muito tempo. Uma promessa que no estava disposta a abandonar. Mas no que dizia respeito ao senhor Phillips, as 
palavras dessa manh ressoavam no seu crebro. Teve que engolir o seu orgulho para lhe suplicar. Se lhe desse um pouco mais de tempo para reunir o dinheiro.
     - Nem pensar! - tinha gritado ele. - A deciso est tomada. Ou me paga ou vai para a rua!
     O seu olhar no deixava margem para duvidas. Nada podia faz-lo mudar de opinio. O senhor Phillips, decidiu Devon, era um rato de esgoto. Sempre o odiara, 
pelo rude e mal educado que tinha sido com a sua me. No entanto, por mais que desejasse as chamas mais torturantes do inferno para ele, isso no solucionaria o 
problema. S o dinheiro poderia fazer.
     No seu caminho por Saint Martin's Lane, Devon pensou nas valiosas moedas que guardava no bolso esquerdo do seu vestido. At h uma semana, tinha pensado que 
o salrio recebido hoje seria suficiente para pagar o aluguer. At tinha pensado em comprar um vestido com o que sobrasse, o que sem duvida poderia ajud-la a encontrar 
outro emprego diferente do de camareira. Mas agora, precisaria de cada centavo do seu salrio para o aluguer e, nem assim, seria suficiente.
     Um tremor frio apoderou-se dela, um tremor que no tinha nada a ver com o ar frio da noite. Santo cu, o que aconteceria se o Phillips a colocasse na rua?
     Ao rodear a esquina, conseguiu superar o n que oprimia seu estmago. Tentou desviar a ateno observando o lugar que a rodeava. Era uma rua tranquila, tanto 
quanto podia ser nesta parte de Londres. A escurido desfocava os telhados. Durante o dia, cavalos e carruagens lutavam para atravessar a ruas e os gritos dos vendedores 
enchiam o ar, lutando por serem ouvidos entre o ir e o vir das pessoas.
     A sua capa voou  altura dos joelhos quando apressou o passo em  Seven Dials, sentindo o peso do pacote que levava preso  cintura. Escorregou uma vez no passeio, 
ainda hmido pela gua. O peso da sua barriga f-la balanar, mas conseguiu manter-se de p sem mais contratempos. Inspeccionou uma vez mais os arredores para se 
assegurar de que no havia ningum.
     "Poderia melhorar o seu salrio se levasse alguns clientes ao quarto de trs de vez em quando - Bridget tinha comentado essa manh, - isso  o que eu fao quando 
preciso de encher a bolsa."
     A facilidade com que a sua companheira tinha pronunciado estas palavras no a surpreendeu: Bridget no pensava duas vezes em tais atividades. Embora Devon soubesse 
que sua amiga tinha razo, era incapaz de fazer o que ela sugeria. Ela negava-se a viver do seu corpo.
     Era outra das promessas que tinha feito a si mesma.
     Tapou com a capa o vulto do seu corpo e fixou a vista na esquina seguinte. A sua me tinha trabalhado como costureira desde que Devon se lembrava, mas antes 
de ela nascer, tinha sido perceptora. Contudo, pensou com tristeza, a sociedade no tinha perdoado que uma mulher solteira decidisse criar a sua filha sozinha, e 
a condenou  pobreza.
     Quase sem perceber, a sua mo alcanou o bolso do vestido. Uns dedos finos acariciaram o frio metal da cruz. Recordou como tinha apanhado o colar do bolso da 
sua me no dia em que deu o ultimo suspiro, e como o tinha introduzido depois no seu. O fecho estava quebrado, razo pela qual, a sua me o trazia no bolso.
     Devon quebrara-o.
     Por duas vezes na sua vida havia feito sua me chorar. Essa foi uma delas, e ao recordar, Devon ainda sentia a culpa no peito. No tinha ideia de quanto o colar 
vali, e tambm no se importava. Era o maior tesouro que a sua me possua.
     E agora era o maior tesouro que ela possua.
     Nunca iria se desfazer dele. Nunca. No importava o preo que tivesse que pagar por ele, a fome que tivesse que passar, no importava que tivesse que dormir 
ao relento; mas por Deus, que isso no acontecesse! Com o colar, conservava uma parte da sua me.
Devon subiu a capa para cruzar um charco. De ambos os lados as casas apinhavam-se como crianas que tiritam ao vento. Uma mulher dormia num portal, com os joelhos 
esquelticos apertados contra o corpo. Embora h pouco tempo tivesse demonstrado a sua firme esperana no futuro, um temor percorreu a sua espinha dorsal. "Eu no 
quero ser como ela,  - pensou desesperada, - no quero!"
Seus passos tornaram-se mais lentos. De repente, reparou na fachada da casa de Buckeridge Street onde viveram por um tempo quando era pequena.
     Era um lugar horrvel e malcheiroso, cheio de entulho e de putrefao, e tanto ela como a me odiaram esse lugar. Lembrou-se que uma vez j sobreviveram  fome 
e  misria.
     Apesar de tudo, nunca foram indigentes. Sempre houvera um teto sobre as suas cabeas, embora fosse com goteiras.
     Com um suspiro, afastou aqueles tristes pensamentos. No podia se render. Tirando foras da fraqueza, disse a si prpria que tinha suas mos, a determinao 
e alm disso, o colar da sua me.
     - Mas o que temos aqui? Mas claro,  uma moa  procura do seu paizinho.
     A voz estremeceu a noite. Devon deteve-se ao ver que um homem lhe bloqueava o caminho. Outro saiu das sombras,  sua esquerda.
     - Ol, linda.
     O cabelo da sua nuca eriou-se e, de alguma maneira, soube que recordaria aquela voz durante o resto da sua vida. O homem fez um sinal chamando-a:
     - Vem com o pai, meu amor. Vem com o Harry!
     - Deixa-a! - protestou o outro. - Eu a vi primeiro.
     - Ah, mas est mais perto de mim, Freddie!
     Harry. Freddie. Ficou sem respirao. Aqueles nomes foram como um balde de gua fria para os seus ouvidos. Conhecia aquele par, ou pelo menos, ouvira falar 
deles. Faziam parte de um dos piores bandos de Saint Gilles!
     - E o que acha de partilharmos, eh, Freddie?
        A sugesto veio de Harry, um homem vestindo casaco tweed pudo, rosto sujo e com a cabea coberta com um chapu. Ao seu lado, Freddie deu um sorriso amarelo, 
deixando alguns dentes cheios de cries a mostra. Aqueles dois homens eram criaturas perversas, com rostos sinistros e uma eterna atitude em que os seus comportamentos 
se guiavam sempre por maus instintos.
     Ganncia.
     Podia v-la nos olhos. E agora era Freddie quem impedia seu caminho. Este era mais pequeno que seu irmo, no muito mais alto do que ela.
     Levantou a cabea. Por Deus, no mostraria medo. Embora isso era precisamente o que a invadia: um calafrio de terror que subia pelas suas costas e que a deixava 
sem flego.
     Obrigou-se a no se deixar vencer pelo pnico. A sua me sempre dissera que tinha uma constituio robusta. No gritaria, porque, o que ganharia com isso? Se 
antes tinha agradecido a solido, agora...
     Conseguiu esconder o seu medo com um escudo de bravura.
     - O que querem? - perguntou o mais friamente que pde.
     - Depende do que queira nos dar! - a gargalhada de Freddie no foi mais do um riso sinistro. Deu um passo para ela e agarrou-a pelo queixo. As ruas estavam 
mal iluminadas e s escuras, mas, de repente, como se o cu estivesse tambm combinado com eles, um raio de lua conseguiu atravessar a nuvem que a cobria.
     Freddie elevou a cabea para dizer:
     - Olha Harry, apanhmos uma das boas! Tem que ver os olhos dela. So ouro puro!
     Devon amaldioou o seu descuido. Sempre tinha cuidado com o que vestia antes de sair do Crow's Nest. A ponta do seu chapu era grande o suficiente para esconder 
o seu rosto e segurar o seu longo cabelo louro no interior. E se isso no bastasse, sujava-se de lama para que no vissem a juventude das suas faces e pescoo. Infelizmente, 
essa noite estava muito ansiosa para chegar em casa e tinha esquecido de tomar todas essas precaues.
     - No tenho nada! - disse levemente. - Deixe-me. Ou ser capaz de atacar uma mulher indefesa?
     A pergunta parecia estpida. Aqueles dois no hesitariam.
     - No v que estou quase dando a luz? - Fez sobressair o seu estmago para que pudessem ver a protuberncia por baixo da capa. E foi o seu ventre que atraiu 
o olhar do cretino. Embora no da forma que ela tinha desejado.
     - Oh, entendo - disse Freddie com um rugido. - Gostamos de ver que gosta dos paizinhos, no  verdade Harry?
     Harry inclinou-se com grande afeto.
     -  isso mesmo, Freddie.
     Os lbios de Freddie torceram-se num sorriso. Com um movimento de cabea perguntou:
     - O que tem no bolso?
     Devon empalideceu. Percebeu que havia feito a nica coisa no mundo que no deveria fazer: levar a mo no bolso do seu vestido. De repente pensou na faca que 
usava escondida na bota. Diabo! Estavam muito perto! Se jogariam sobre ela antes de poder tir-la.
     Tirou as mos para que pudessem ver.
     - Nada - apressou-se a dizer. - Agora me deixem ir embora!
     - Queremos dar uma olhada em voc, est bem?
     Isso era algo que os dois sabiam fazer bem. Com os dedos hbeis, Harry encontrou dentro de um bolso o porta moedas em que Devon guardava o salrio. De um golpe, 
Freddie tirou-lhe o colar.
     Nesse instante, Devon explodiu.
     - No! - gritou. Podiam roubar as moedas, bater at a deixarem sem sentidos, mas no levariam o colar! S poderiam roub-lo tirando-lhe a vida. Sem ter conscincia 
do perigo, reagiu sem pensar, movendo-se rapidamente por trs de Freddie. Harry j tinha desaparecido nas profundezas do beco, mas Devon pouco se importou. Estendeu 
a sua mo e conseguiu agarrar com fora a gabardina de Freddie. Foi o suficiente para faz-lo perder o equilbrio. Caiu no cho arrastando Devon com ele que rapidamente 
se viu agarrada pela garganta.
     - Puta! - Apertou as suas mos com fria. Podia sentir o dio nas unhas que lhe mordiam a carne mesmo por baixo da mandbula.
     Tentou respirar. Emitiu um som entrecortado. No conseguiu que se parecesse com um grito. Arranhou o rosto dele, mas no serviu de nada. Ento lembrou-se da 
faca que usava na sua bota.
     Freddie pressionou com mais fora. Devon tentou desesperadamente bater em seu rosto, certa de que se no se libertasse rapidamente, o pescoo quebraria com 
a presso daqueles dedos ossudos. Uma gargalhada insuportvel envenenou o ar. 
     O mundo parecia cada vez mais negro. Tentou lutar com ele, enquanto os seus dedos agarravam o cabo da faca. Apertando os dentes, levantou com todas as suas 
foras e cravou-a to fundo quanto pde.
     O ar entrou rapidamente nos seus pulmes. A escassa luz s permitia ver os olhos de Freddie que sobressaam como se fossem rebentar. Foi quando percebeu que 
a surpresa do rosto dele no era seno um reflexo do seu prprio rosto, porque foi ento que entendeu que a lmina da faca tinha alcanado o objetivo.
     - Voc...Me matou!
     Devon no quis esperar mais tempo. Deu um grito e libertou-se dos ombros que caam sobre ela com um empurro. Exausta e aturdida, rodou sobre ele. Quando tentava 
ficar de joelhos viu a faca ainda na sua mo. O sangue gotejava da lmina e corria pela rua. Horrorizada, abriu a mo para deixar que casse.
     Foi ento que viu o colar, mesmo por baixo dos joelhs dele. Deixou escapar um grito de alivio ao recupar-lo e guard-lo contra o peito. Por trs dela, ouviu 
um gemido. Seu corao deu um salto. Era Freddie!
     "Corre! - disse uma voz em sua cabea - Corre agora!"
     Tarde demais. Ele j pegava a faca, que estava no cho. Embora tentasse dar a volta, um golpe forte alcanou-a por trs. Cambaleou para a frente, deslizando 
pela pedra escorregadia do cho. Um fogo abrasador atravessou-a, como se colocassem brasas em seu ombro. Um grito ensurdeceu os seus ouvidos; o seu prprio grito!
     Apesar da sua vista se nublar por momentos, viu que Freddie se punha em p e que caminhava para o beco por onde Harry tinha desaparecido momentos antes.
     Os passos cambaleantes de Freddie desvaneceram-se e a cabea de Devon tornou-se como o cu numa tempestade. O mundo parecia girar ao seu redor. Sentia-se tonta 
e doente. O seu corpo havia cado num charco de lama. Por baixo das suas faces, as pedras eram duras e molhadas; podia sentir como a humidade transpassava o vestido. 
Tiritava. J sentira frio antes, mas no desta forma. Este frio era como um formigueiro gelado que se estendia de dentro para fora, fazendo-a tremer de cima abaixo.
     Ento lembrou de sua me nas suas ltimas horas. Havia sussurrado algo acerca do frio, tinha tremido e tiritado.
     Deus meu. Isto significava que sua morte havia chegado? "No! - gritou a sua mente. - No quero morrer, no desta forma. No no meio da escurido e do frio..."
     Apertando fortemente os lbios, reprimiu um soluo. Sabia que no tinha sentido chorar agora. No, porque sabia que ningum podia escut-la. Ningum se importaria: 
estava em Saint Gilles, o lugar dos malfeitores e ladres, dos pobres e indesejados.



    Captulo 02
          


     Maldita estupidez, a do seu irmo!
     A carruagem da famlia Sterling circulava com rapidez pela esquina de Saint Martin's Lane, brilhante e prateada. Qualquer transeunte - embora fossem poucos, 
dada a hora da noite - pensaria que o esplndido veiculo enganara-se ao entrar nas ruas malcheirosas de Saint Gilles.
     No interior, Sebastian Sterling tentava segurar firmemente tanto as correias como o seu mau humor, embora ele raramente perdesse o controle, naquele momento 
roava os limites.
     Para dizer a verdade, havia passado uma agradvel noite no baile do jantar com os Farthingale. A festa estivera animada, e a prova disso  que durara at depois 
da meia-noite. Justin tambm fora convidado, mas no final no aparecera. De fato, fora Stokes, o mordomo, quem informou Sebastian, ao sair de casa, que Justin planeava 
passar a noite sentado numa mesa de jogo.
     Por esse motivo, Sebastian parou no White's depois de deixar os Farthingale. Viviam debaixo do mesmo teto mas s vezes podiam passar vrios dias sem que Sebastian 
e seu irmo se encontrassem. Com Julianna de viagem, no havia ningum em casa alm dos criados, que certamente j estariam deitados. Por isso pensou que podia tomar 
um brandy com o irmo antes de se deitar. Alm disso, preferia falar com Justin sobre os seus planos nessa noite antes que olhasse a coluna das intrigas na manh 
seguinte.
     Mas Justin no estava no White's. no seu lugar, havia encontrado seu amigo Gideon: bbado, como sempre. "mas alguma vez esteve sbrio?", pensou. Foi ele que 
lhe indicou que viu Justin h uns minutos numa... numa maldita mesa de jogo e  Saint Gilles.
     E por isso estava ali, partindo o pescoo dentro da carruagem.
     L fora, Sebastian podia ouvir Jimmy, o condutor, soltando as rdeas. "Maldita ousadia de Justin!", pensou de novo. Havia vezes em que acreditava que seu irmo 
no se importava com nada, nem com ningum. Em que diabos Justin estaria pensando para ir aquele lugar? "Caramba, Justin era assim." Na sua vida havia s trs prioridades: 
jogar, ir aos bordeis e beber. E quanto a Gideon... bom, os dois eram uns malandros, mas no sabia qual deles era o pior!
Em outras circunstancias, Sebastian no teria se atrevido a pr um p em Saint Gilles, porque era seguramente o lugar com mais escoria na face da terra, cheio de 
ladres, criminosos... e quem sabe que outro tipo de pessoas. Aparentemente, nestes dias um homem no podia caminhar pelas ruas de Londres sem medo de ser assaltado. 
Mas em lugares como Saint Gilles, o risco no era s de perder o relgio, mas tambm a prpria vida.
        Apertou a expresso do rosto. Sem sombra de duvidas, pensou com pesar, preferia Thurston Hall a Londres.
     O carro virou cautelosamente. No momento em que Jimmy puxava as rdeas, Sebastian mudou de posio para se acomodar no movimento. Naquele preciso momento, houve 
uma curva brusca e a carruagem parou. Sebastian saltou do banco e por um milagre no bateu com a cabea. Recomps-se como pde no banco e bateu na janela que comunicava 
com o condutor.
     - Jimmy!  aqui?
     - No, senhor.
     - Ento continua, homem de Deus! - Sebastian no conseguia disfarar a sua impacincia.
     Jimmy assinalou com o dedo:
     - Senhor, h um corpo no meio da rua!
Sem duvida, algum que tinha bebido demais. Sebastian esteva quase dizendo ao seu homem para que proseguisse. Mas algo o deteve. Olhou com mais ateno. Talvez fosse 
a maneira em que o "corpo", como Jimmy tinha dito, jazia no pavimento, por baixo das dobras de uma capa que parecia desfocar o que parecia uma forma diminuta. As 
suas botas bateram no asfalto quando desceu da carruagem e se dirigiu ao corpo com determinao. Jimmy permaneceu onde estava, olhando em volta com ateno, como 
se temesse que tudo fosse obra de alguns ladres que esperavam pelo momento de os assaltar.
        " Uma possibilidade improvvel" pensou Sebastian em silncio. Inclinou-se para ela. Estava suja e desalinhada. Uma prostituta que bebera demais? Ou talvez 
fosse um truque, uma manobra para atra-lo para si e ser capaz de lhe retirar a carteita?
     Com muita precauo, sacudiu-a. Maldio! Tinha deixado as luvas no banco da carruagem. Emfim, j era tarde demais!
     - Menina! - disse em voz alta. - Menina, acorde!
     No se moveu. Uma estranha sensao percorreu-o. As suas desconfianas desvaneceram-se. Reparou na sua mo, a ponta dos dedos estavam molhados, mas no pela 
gua da chuva. Era um lquido escuro e pegajoso, espesso.
     - Santo cu! - implorou. Moveu-se sem ser consciente do que fazia, aproximando-se dela para ver melhor. - Menina! - disse com voz grave. - Ouve-me?
     Ento ela fez um leve movimento, gemendo ao levantar a cabea. O corao de Sebastian deu um salto. Estava um pouco atarantada, mas estava viva!
     Entre a escurido e o chapu exagerado que lhe cobria a cabea, mal podia ver seu rosto. Ento ele soube que tinha voltado a si. Quando os seus olhos se abriram 
e o viu inclinado sobre si, encolheu-se e tentou reagir.
     - No se mova! - disse-lhe com rapidez. - No tenha medo.
     Os seus lbios fecharam-se e os olhos moveram-se pelo rosto de Sebastian no que pareceu uma eterna explorao. Depois, sacudiu levemente a cabea.
      - Se perdeu - sussurrou, quase numa orao. - No foi?
     Sebastian piscou. Embora no soubesse o que esperava ouvi-la dizer, claro que, no era aquilo.
     - Claro que no me perdi.
     - Ento devo estar sonhando - uma mo pequena tocou-lhe nos lbios, - porque nenhum homem no mundo pode ser to lindo como voc.
     Um sorriso divertido desenhou-se no rosto de Sebastian.
     - Porque no viu o meu irmo - comeou a dizer apesar de ter sido incapaz de terminar. Os olhos da moa fecharam-se. Sebastian agarrou-lhe a cabea antes que 
ela batesse no cho. Em seguida, levantou-se e dirigiu-se para a carruagem levando a moa nos braos.
     - Jimmy!
     Mas Jimmy tinha previsto a sua necessidade.
     - Aqui senhor. - tinha descido e abria-lhe caminho para a carruagem cuja porta j estava aberta.
     Sebastian subiu e colocou a moa no banco. Jimmy olhou para ele:
     - Para onde senhor?
     Sebastian olhou a figura imovel da moa. Deus santo, precisava de um medico. Pensou no doutor Winslow, o medico da famlia, mas lembrou-se que tinha se aposentado 
no ano anterior. E no havia tempo para percorrer a cidade  procura de outro.
     - Para casa - ordenou. - E rpido, Jimmy.
          
     No foi Stokes mas Justin quem abriu a porta a Sebastian.
     - Olha, olha. - A voz de Justin estava cheia de ironia. - chegando tarde.
     Calou-se ao ver seu irmo. Trazia nos braos uma mulher, mas definitivamente no do tipo que o seu irmo gostava. Nem das que ele gostava.
     Uma capa molhada pingava sobre o cho da entrada, a cabea da moa colada ao brao de Sebastian e o rosto na direo do seu elegante casaco.
Justin olhou espantado para o irmo.
     - Sebastian! Que diabo...
     - Est ferida, Justin. Est sangrando.
     - Deus bendito! Um tiro?
     - No sei. - O tom de voz de Sebastian foi cortante. - Vamos subir. Para o quarto amarelo.
     Os dois subiram as escadas e caminharam pelo corredor, movendo ao mesmo tempo apressados.
     - Que raio aconteceu?
     - Encontrei-a estendida na rua, em Saint Gilles. Jimmy quase a atropelou.
     - Saint Gilles! Voc? - Justin abriu a porta do quarto.
     Sebastian dirigiu-lhe um olhar reprovador.
     - Sim.
     Foi ento que apareceu o mordomo, coando o peito e ainda de pijama:
     - Senhor, precisa dos meus servios?
     - gua quente e faixas limpas - ordenou Sebastian. - E por favor, depressa Stokes.
     Deitou a moa na cama e inclinou-se para observ-la com ateno. Estava encharcada, tremia e tinha o rosto branco como a neve. No demoraram muito para chegar 
em casa, apenas um quarto de hora, mas nesse tempo a moa no tinha voltado a recobrar a conscincia, algo que lhe pareceu preocupante. Sobretudo, ao perceber que 
estava prestes a dar  luz.
     - Temos que averiguar por onde est sangrando. - comeou a tirar-lhe o estpido chapu que usava. Uma cascata de ondas douradas caiu sobre a almofada atravs 
dos seus dedos. Retirou a mo com cuidado e inclinou-se sobre ela. Uma careta de desgosto enrugou o seu nariz aristocrata ao tentar libertar o n da capa. Era uma 
pea bolorenta e a sua cor era igual  das guas do Tamisa.
     - Deus, que cheiro  este? Cheira a peixe e a fumo...
     - Mmm - assentiu Justin - e a cerveja ranosa, e a gordura. Uma mistura explosiva, no acha?
     Sebastian amaldioou a dormncia dos seus dedos. Por fim, conseguiu desfazer o n e retirar a capa atirando-a ao cho.
     - Tenha cuidado - advirtiu Justin - Est... parece encontrar-se numa condio delicada.
     - Sim. - Sebastian voltou a olhar para ela. Devia de estar prestes a dar  luz, a julgar pelo tamanho da sua barriga, desmesurada para uns ombros to estreitos 
como os dela. Franziu a testa. Continuava pensando que havia algo peculiar na sua forma. Agora que no tinha capa que a cobrisse parecia mais evidente que a barriga 
parecia quase... desigual.
     A sua suspeita comeou a tomar corpo. Ao tocar-lhe com o dedo, percebeu que era to mole como parecia. Os seus lbios ficaram tensos. As mos rondaram entre 
os trapos do vestido.
     Justin permaneceu de p s suas costas, vendo como uma corda se enrolava nos dedos do seu irmo e caa sobre a capa empapada que jazia agora sobre os elegantes 
motivos da almofada Aubusson. Um almofado seguiu-lhe o caminho.
     - Por Deus - disse Justin profundamente surpreendido - no est...
     - Parece que no.
     Houve uma longa pausa antes de ouvir a voz de Justin.
     - Porque que uma mulher pretenderia aparentar o estado em que estava?
     Sebastian fez um som de desgosto:
     -  uma ttica. Na minha opinio, a corda e o almofado so ultilizados para esconder os seus despojos.
     - Os seus despojos... - repetiu Justin.
     -  uma ladra, Justin.
     - Mas no tem nada para esconder!
     - Srio? - Sebastian puxou algo numa das suas mos, fechada com fora debaixo do queixo. Tentou afrouxar a mo, mas os dedos da moa fecharam-se ainda com mais 
fora.
     -  meu - murmurou - Meu!
     De um puxo, libertou uma corrente enredada com fora na palma da sua mo. No parou para a observar, mas levou-a violentamente ao bolso com uma maldio.
     - Deus nos ajude. Trouxe uma ladra para casa.
     - Vamos - protestou Justin - no podia deix-la ali no meio da rua. Teria sido atropelada. Se te serve de consolo, eu teria feito o mesmo.
     - Como? Agora tem conscincia?
     - Quem sabe? Talvez comee a seguir seu caminho e leve uma vida respeitvel, se bem que no possa imaginar nada to aborrecido!
     Esta brincadeira era comuns entre os dois. Enquanto falavam, Sebastian entreteve-se tirando o resto do vestido da jovem.
     Enquanto ia aumentando a pilha de roupa na almofada, Justin suspirou:
     - Olha ali. No atiraram, apunhalaram-na!
Sebastian viu naquele instante, tinha um corte dentado j seco na carne do seu lado direito. Com sorte, podia ser que a lmina da navalha apenas roara na costela. 
Se fosse assim, a ferida no seria mortal e deixaria de sangrar brevemente.
     Stokes havia depositado com cuidado uma bandeja com faixas e gua sobre a cama. Sebastian escorreu um monte delas e pressionou-as sobre a costela, segurando 
com a outra mo o ombro. Pouco depois, uma sinal carmesim comeou a filtrar-se pelo tecido. Sebastian disse um palavro enquanto pressionava com mais fora.
     A moa retorcia-se de dor por baixo das suas mos. Os seus ombros balanaram-se e gritou muito alto, um som que ressou nos seus ossos, nas suas mos. Ela voltou 
a cabea e Sebastian pde ver que tinha os olhos dilatados. Estava olhando diretamente para o seu rosto. Suplicava com os olhos, dos mais exticos que j vira. Eram 
ouro puro que brilhavam como um raio de vida. A moa era jovem, no mais de vinte anos, pensou Sebastian.
     Os seus esforos foram recompensados. No muito tempo depois o sangue comeou a sair em menor quantidade. Com a ajuda de Justin, aplicou um pano limpo e grosso 
sobre a ferida, e enrolou depois com varias faixas o corpo e o vestido para mant-las seguras no seu lugar.
     S ento se permitiu respirar. Com uma ponta de tecido, limpou a lama que cobria as suas faces.
     - Est muito plida - observou Justin.
     - Eu sei. - Sebastian j percebera a sua cor, assim como todo o resto. A seu corpo era delicado, as suas pernas pequenas e esbeltas, muito parecidas com as 
de sua irm Julianna. - Caramba, sabia que devia t-la levado a um medico.
     - E onde encontraria um a esta hora da noite? - Justin ps uma mo sobre o ombro do irmo e apertou-a. - alm do mais, confio mais em voc do que em qualquer 
medico. O meu irmo, o heri, assistindo os feridos no campo da batalha. Me atrevo a dizer que tem mais experiencia com estas coisas do que muitos mdicos.
     Sebastian no lhe deu razo, mas tambm no o contradisse. Estava orgulhoso de ter servido o seu pas contra Napoleo, mas depois da sua chegada a Inglaterra, 
a nica coisa que queria era relegar as suas memorias de guerra para algum lugar longe e no pensar nelas novamente. Na verdade, nunca pensou que voltaria a utilizar 
os seus conhecimentos, e muito menos na sua prpria casa.
     Com muito cuidado, fez sua paciente deitar sobre as costas.
     Houve um momento de completo silencio. Talvez os dois homens tivessem um pouco desconcertados. Talvez por estarem muito absortos todo aquele tempo no perceberam 
o que tinham  sua frente. Mas agora, tanto ele como Justin olhavam-na extasiados. Nenhum dos dois podia evitar, muito menos ignorar.
     Foi Justin quem se atreveu a explicar o inexplicvel.
     - Bom, bom, bom - sussurrou - conhece aquela rosa de cor coral plida que cresce no jardm de Thurston Hall? Julianna adora-as, lembras-se? Amanhecer creio 
que se chama. - Depois de um segundo de silencio concluiu - Os mamilos so como essa rosa.
     Sebastian puxou o lenol para cobri-la.
     - Pelo amor de Deus, Justin. Est ferida!
     - E eu no estou cego! E posso dizer que voc tambm no!
     Dirigiu um olhar reprovador a Justin. 
     - Se for possvel, gostava de cuidar dela sem o beneficio do seu olhar luxurioso.
     - Est dizendo que quer que eu v embora?
     - Isso mesmo. Mas manda o Stokes com mais gua quente. E sabo. E diz  Tansy que traga uma das camisolas de Julianna.
     - Assim se far, meu senhor. Mas antes de me ir embora, devo dar-lhe um conselho.
     Sebastian olhou para ele com curiosidade.
     - Deveramos dizer a Stokes que guarde as coisas de valor. De fato, seria conveniente que fechssemos as nossas portas. Temos uma mulher da rua em casa, sabe? 
Podia roubar-nos e assassinar-nos nas nossas camas esta noite.
     Sebastian franziu a testa. Justin apenas sorriu e fechou a porta.
     Sebastian inclinou-se sobre a sua paciente uma vez mais. Estava claro que Justin achava a situao bastante divertida. Maldita seja! No precisava que ninguem 
o lembrasse que tinha trazido uma ladra para sua casa, Deus santo, o seu lar!
     No entanto, no conseguia acreditar.


Captulo 03
     


     Quatro badaladas no relgio de nogueira sobre a lareira de mrmore, indicaram a hora a Sebastian no momento em que se dirigia ao escritrio. O som perdeu-se 
na grandeza do teto arqueado. A presena de Justin tornou-se evidente pelo cheiro a brandy que impregnava na sala.
     Justin virou-se quando o irmo entrou. Abandonou rapidamente o seu lugar ao lado do fogo e cruzou a sala para apanhar a garrafa de brandy na mesa auxiliar. 
Sebastian j estava sentado na escrivaninha quando Justin lhe estendeu um copo. Os acontecimentos da vspera trouxeram-lhe toda a ateno.
     - Como ela est?
     Sebastian bebeu um gole de brandy:
     - A ferida no  to profunda como pensei a principio. - Coou o queixo com os dedos, e considerou a necessidade de se barbear. - Com o tempo vai ficar bem.
     - timo. - Justin tinha aproximado uma das cadeiras. - Devo confessar que tenho curiosidade por saber o que fazia em  Saint Gilles.  seguramente o ultimo lugar 
da terra onde esperava te encontrar.
     - Poupe-me o sarcasmo, Justin. Quando sai para baile dos Farthingale, Stokes me disse que voc planejava passar a noite jogando. Ao sair da casa dos Farthingale, 
parei no White's pensando que o encontraria l. Gideon disse-me que o havia deixado em um salo de Saint Gilles. - Sebastian no tentou esconder a sua desaprovao 
sobre este ponto.
     - Ento, decidiu me resgatar?
     - Algo parecido.
     - Sou um homem adulto, Sebastian. No acho que seja necessrio que te informe sobre cada uma das minhas atividades.
     - Saint Gilles  um lugar perigoso - disse Sebastian com aspereza, -  tenho a certeza que sabe disso.
     - Claro que sim. Mas como v, no estou assim to mal quanto parece, salvo pelo mau vinho e pela m sorte que tive ontem  noite.
     Deus sabe que Justin sempre tinha desafiado a censura imposta por seu pai, mesmo antes de sua me ter dado rdea solta aos seus desejos de liberdade. Os trs 
irmos cresceram sabendo que s podiam contar com eles mesmos: ele, Justin e Julianna. Mas se a vida lhe ensinara algo, era que um homem no podia ser moldado; no 
devia ser moldado.
     Sebastian no conseguia esquecer o escndalo que os tinha afastado do mundo quando era criana. Vivera com esse peso desde ento. Justin possua o carisma e 
a vivacidade da sua me. Tambm tinha herdado dela a sua veia mais selvagem, e isso preocupava-o. Quanto a Julianna, era muito jovem para entender o que aconteceu 
e tivera saudades da me, mas apenas durante um tempo.
     Mas Justin... o seu pai tentara domin-lo com as suas inflexveis atitudes. Sebastian tentara proteg-lo, mas como a me, o irmo sempre fora dos que seguem 
o seu prprio caminho. Sebastian compreendera algo que o pai nunca foi capaz de entender: que refre-lo, control-lo, alimentava ainda mais a sua rebeldia.
     Algumas vezes se perguntava se havia acontecido algo entre o seu pai e Justin que ele desconhecia. Em varias ocasies, havia tentado falar no assunto, mas Justin 
sempre o desviava daquela maneira to despreocupada que era sua caracterstica.
     Na realidade, Sebastian considerava que havia certas coisas que um homem devia guardar para si prprio. E ele no tentaria moldar seu irmo para transform-lo 
em algo diferente do que j era.
     - M sorte - murmurou - Quem? Voc?
     - Sim. E lembre-se que ontem  noite, fui o primeiro a chegar em casa, querido irmo.
     -  verdade. - Sebastian riu e a tenso entre os dois desapareceu. - A meu favor tenho a dizer que no esperava encontrar uma mulher na rua. Ou da rua, se queremos 
ser mais exatos. E que outra coisa podia ser se estava a essa hora da noite naquele lugar?
     Justin franziu a testa.
     - No est pensando em denunci-la s autoridades, no?
     - Porqu? Acha que no devo?
     Justin olhou para ele fixamente.
     - No, acho que no.
     - Mas as circunstancias so bastante suspeitas. A moa foi apunhalada. Porqu? O que provocou isso? Quem o fez? E onde est agora?
     - Exatamente. No  melhor esperar que acorde e nos conte ela mesma o que aconteceu? - Ao ver que Sebastian no dizia nada, Justin sacudiu a cabea. - Apesar 
de tudo, no  muito prprio de voc agir de maneira impulsiva.
     Era verdade. Sebastian podia ser muitas coisas, mas no impulsivo. Ele preferia a ordem. Era metdico, meticuloso. Conseguia tudo a que se propunha.
     - No considero que notificar as autoridades seja um ato impulsivo - disse lentamente, - mas suponho que tenha razo. Devamos falar com ela antes.
     - Devo admitir, me surpreende cedendo to cedo. Ser que gostou da criatura?
     Sebastian lhe deu um breve sorriso.
     - Creio que prefiro uma mulher mais refinada e no uma ladra.
     - Ah, sim.  aquele assunto da respeitabilidade. Mas admita, tem seios gloriosos.
     Sebastian destinou um olhar de desagrado ao irmo.
     - O que , Sebastian! Vai me dizer que no reparou? Vai me dizer que no olhou?
     Uma vez mais, Sebastian ficou em silncio. Mas desta vez, amaldioou o rubor que o delatou.
     Justin riu.
     - Eu te conheo, Sebastian. Sabe o quanto admiro a sua discrio, mas sou seu irmo, apesar de tudo. E estou sabendo das amantes que teve durante todos estes 
anos. Por favor, diga-me: quem  a ltima? - Levou um dedo  sobrancelha simulndo um gesto de grande concentrao. - J sei.  a Lilly, no ?
     Sebastian suspirou, mas sem responder  pergunta. Que o cu o ajudasse, Justin no precisava que o animassem!
     - Vamos, Sebastian. Eu sei que ama as mulheres.
     - Assim com voc, Justin. - Por Deus, que afirmao! Esvaziou o copo e sentou-se ao seu lado. - De qualquer maneira, h algo que deveria saber, antes que oua 
em outro lugar qualquer. Decidi procurar uma esposa e me casar.
     Justin explodiu em uma gargalhada e calou-se depois bruscamente.
     - Deus bendito - disse incrdulo - est falando srio!
     - Muito srio.
     - E fez o anuncio esta noite?
     - Pode-se dizer que foi mais ou menos isso. - Sebastian sorriu para si.
     - Bom, fez ou no?
     Justin escutava o relato de Sebastian, a cena em que no inicio da noite, Sophia Edwina Richfield, a viva do duque de Carrington, fizera ao se despedir. Tinha 
olhado-o com muito afeto, daquela maneira to hbil que sabia fazer, emoldurada pelos seus cachos de cabelo branco. E, ento, disse, sempre direta, sempre franca.
     "Pequeno,  tempo de se casar e de ter filhos."
     Como era de se esperar, ouviu-se uma gargalhada coletiva. Depois, todo o som cessou e no houve necessidade de examinar com ateno a sala para saber que todas 
as cabeas se voltaram, todos os ouvidos  espera da sua resposta.
     Sebastian limitou-se a beijar a mo da duquesa.
     "Duquesa - murmurou - creio que tem razo."
     Sebastian soube ento o que aconteceria depois, ele era um homem que no fazia nada sem medir as suas consequncias. Ao concordar com a duquesa, tinha feito 
tudo mudar de uma vez. As fofocas ficariam descontroladas, e a sua presena em cada festa ou celebrao seria destacada pela alta sociedade. O que vestisse, o que 
comesse, com quem falasse, e, sobretudo, as mulheres com quem danasse, se transformariam sem duvida em assunto para conversas. Um hbito lamentvel, pressups.
     - Deveria ter visto - concluiu com um sorriso quase imperceptvel. - Acharia tudo muito mais divertido.
     - As festas dos Farthingale so sempre aborrecidas! Mas agora que penso, no me pediu conselho para uma deciso to importante. Feriu os meus sentimentos, Sebastian.
     - Sim, claro. J sei qual teria sido o teu conselho.
     Justin olhou para ele atravs de uma nuvem de fumo.
     - E qual  o motivo dessa deciso to repentina?
     - No  repentina. Tenho considerado este assunto h algum tempo, se quer saber. Alm disso, a maioria dos homens casam-se e tm filhos.  um dever.
     - Ah, sim, o dever. Que previsvel! Posso perguntar pelas candidatas que acha que poderiam ser sua esposa?
     - Pode perguntar, mas no h nenhuma em mente, honestamente. Decidi, simplesmente, que podia reduzir o crculo.
     - Entendo. Embora me pergunte se exista uma mulher capaz de te satisfazer.
     Sebastian arqueou uma das suas sobrancelhas.
     - O que quer dizer exatamente com isso?
     - Perdoe-me. Mas no consigo evitar perguntar-me se as suas exigncias no sero, digamos, muito perfeitas.
     - Explique.
     - Com todo o prazer. Creio que no exigir menos de uma mulher do que exige de si mesmo. Em poucas palavras: uma mulher perfeita.
     Sebastian tinha a sua resposta preparada.
     - No uma mulher perfeita, mas uma mulher perfeita para mim.
     - Bom - remarcou Justin, - pode ser to exigente quanto queira, porque as senhoras da sociedade costumam te perseguir.
     - Da mesma forma como ficam extasiadas com voc.
     - Pelo que parece, trazemos no sangue esta habilidade para atrair o sexo oposto, no acha?
     Sarcasmo custico muito tpico de Justin. Sebastian ignorou a brincadeira relativa s infidelidades da sua me.
     Justin continuou:
     - H um tempo que andam dizendo que voc o solteiro mais desejado de Londres. Agora,  oficial.
     -  verdade. Mas no vamos confundir as coisas. No meu caso, o que elas querem  o titulo, a minha fortuna. O que me recorda que... - Levantou uma sobrancelha, 
olhando para Justin atravs da cortina de fumo que o rodeava, - no  hora de voc comear a pensar em casar tambm?
     Justin no conseguiu evitar a gargalhada:
     - Tire essa ideia da cabea de uma vez por todas! Nunca assentarei a cabea, sabe muito bem.
     Com isto, Justin apagou o cigarro e ficou em p. Sebastian desejou-lhe boa noite, sem o seguir. Afroxou o n da gravata, bebeu a ultima gota de brandy do seu 
copo, e afundou-se na grande poltrona de pele a frente do fogo.
     Coou a nuca com os dedos. Jesus, que noite! Durante um bom tempo ficou ali sentado, desejando que a paz e a solido fossem descontraindo seus msculos. Deus 
sabia que depois de uma noite como aquela, precisava disso. Alm disso, este era um bom momento para planejar e ponderar o futuro assim como a deciso de procurar 
uma esposa.
     A duquesa estava certa. Era hora de casar. Ao contrrio do que Justin pensava, no se tratava de uma deciso repentina. No, pensava nisso h semanas.
     Era o momento. Estava preparado.
     Mas no podia haver nenhum erro.
     No podia haver escndalos. Nem enganos, nem manchas sobre o seu nome. Era uma promessa que Sebastian fez a si prprio h muito tempo, uma promessa que ia manter 
custasse o que custasse.
     Haviam passado dez anos desde que assumira o titulo. J no era uma vergonha ser um Sterling. Muito havia mudado desde ento.
     Embora em alguns aspectos, havia mudado muito pouco.
     Ele continuava cuidando dos irmos. O que tinha acontecido nessa noite no era uma prova? Justin no gostara da sua incurso em Saint  Gilles, sorriu levemente, 
mas era difcil mudar aquele instinto desenvolvido durante anos. Ele devia lembrar-se a todas as horas que eles deveriam viver suas vidas, que devia permitir-lhes 
tomar as suas prprias decises.
     Cometer os seus prprios erros.
     Mas Sebastian no podia permitir. Era um dever, uma questo impossvel de tomar de nimo leve.
     Dever.
     Seu irmo desprezava o dever. A irm tambm o desprezava, mas de uma maneira diferente da de Justin. Quanto a Sebastian... William Sterling ensinou muito bem 
o seu filho mais velho.
     Casar era o seu dever. O dever para com o seu nome, para com seu titulo. O dever era o legado que seu pai e os ascendentes dele tinham lhe deixado.
     Mas, no era s isso. Havia outras coisas, coisas que Justin no entenderia, talvez nunca, por ser to parecido com  sua me que s vezes o amedrontava.
     Claro que no se tratava apenas do dever. Amava Justin e Julianna acima de tudo, estava contente por serem to unidos, mesmo agora, como adultos. Mas havia 
uma fome nele, uma necessidade de alguma coisa mais. Ele queria a sua prpria famlia. Um filho seu. Que diabo! Uma dezena de filhos, a quem pudesse dar tudo o que 
ele e os seus irmos nunca tiveram. Era isso, no podia imaginar maior prazer que o sentimento de ter um corpo pequeno e quente colado ao seu peito, uma verdade 
completa e profunda, um filho do seu sangue.
     Um filho. Uma filha. Qual a diferena! No se importava. O pensamento de um ou outro fazia o seu corao encher-se de emoo. Seria maravilhoso ouvir a alegria 
das suas gargalhadas fazendo eco pelas salas, tanto na sua residencia da cidade quanto em Thurston Hall.
     Mas para que houvesse crianas, de qualquer sexo, deveria ter uma esposa.
     A ponta de seu dedo deslizou uma e outra vez pela borda do copo. De repente ficou pensativo. Graas  sua me, o nome da famlia foi motivo de escndalo ao 
longo de toda a sua infncia.
     Mas pelo menos, estes ltimos anos foram tranquilos. As tempestades foram desaparecendo, o mal foi reparado. A morte do pai foi repentina e Sebastian surpreendeu-se 
ao saber que o seu progenitor havia descuidado das finanas da famlia nos ltimos anos da sua vida.
     Agora, os Sterling eram uma vez mais uma das famlias mais ricas de Inglaterra. De fato, pensou com um pouco de cinismo parecido com o de seu irmo, que com 
o poder, a riqueza e a classe vinha o respeito. A viva do duque teve que suportar o escndalo h uns anos tambm - dizia-se que o seu filho era a causa - e, no 
entanto, agora era a mulher mais influente da cidade.
     Sebastian no permitiria que o escndalo tocasse a sua esposa e os seus filhos da forma como tinha feito com ele e seus irmos. E isso, Sebastian Sterling sabia 
que devia escolher com muito cuidado. Ele era um homem que preferia a ordem na sua vida, um homem a quem desagradava o inesperado.
     Pelo menos Justin tinha razo numa coisa: no precisava se preocupar em encontrar uma esposa. Claro que no possua a beleza clssica do seu irmo. Como uma 
vez dissera uma senhora a primeira vez que viu Justin: "Contempl-lo  como morrer e ir para o cu". Sebastian, pelo contrrio, era muito moreno, muito grande, tinha 
muito cabelo. "Muito parecido com um cigano." E realmente era assim que o apelidavam quando criana.
No, decidiu Sebastian, ele no era to bonito quanto o irmo, mas seria um pai presente e carinhoso. Um bom marido. Aprendera com a frieza de seu pai, com sua irritante 
natureza rgida... e com a me o abandono e a negligencia.
     Mas como seria a mulher que escolheria para sua esposa?
     Devia fazer o correcto ou no fazer de todo.
     No queria uma daquelas meninas que sorriem por tudo e por nada, isso era certo. A sua esposa seria uma mulher de tato, gentil e tranquila; culta e bem educada. 
Uma mulher de inegvel lealdade e devoo. Uma mulher com escrpulos, to forte e slida quanto ele prprio. E a sua esposa seria uma mulher de natureza estvel, 
uma me amorosa e atenta.
     Algo se partiu em seu interior, algo que lhe chegou at ao fundo do corao. Deus, sobretudo, uma mulher amorosa!
     E a beleza? No era importante, decidiu. Muitos homens procuravam a beleza nas suas esposs. Mas ele no. Claro que, no se opunha a um rosto bonito. Se fosse 
uma mulher agradvel, harmoniosa na sua figura e nas suas formas, tanto melhor. Mas era a beleza interior o que mais lhe interessava.
     De repente, sorriu. Justin o chamaria de tonto se soubesse que a beleza no estava no primeiro lugar em sua lista de exigncias. Sebastian conhecia bem os gostos 
do irmo. Justin no daria nem um olhar para uma mulher que no fosse a primeira rosa do seu jardim.
     O sorriso tornou-se menos intenso. O seu corao encolheu-se.
     Poderia ser um sapo, desde que o amasse e no o abandonasse. Estava decidido a no cometer os mesmos erros que o seu pai e a sua me, e muito menos com os futuros 
filhos.
     Nem com a sua esposa.
     A garrafa estava quase vazia quando se levantou e dirigiu-se para as ecadas que conduziam ao andar superior. Ao chegar no primeiro andar parou. Seus olhos repararam 
na primeira porta  direita do corredor, ligeiramente entreaberta.
     Seria melhor dar uma olhada em sua inesperada hospede. De repente, recordou as palavras de Justin: "Deveramos mandar Stokes guardar as coisas de valor. Na 
verdade, seria conveniente que fechssemos as nossas portas. Temos uma mulher da rua em casa, sabe? Poderia nos roubar e nos assassinar em nossas camas esta noite."
     Pensou no colar que a moa tinha agarrado to fortemente. Permanecia ainda quente em seu bolso. Era espantoso que tivesse resistido na sua mo todo aquele calvrio. 
Devia ter passado muito medo e quem sabe o mal que lhe teriam feito antes que ele a encontrasse. Mas apesar de tudo, a ganncia continuava a ser um incentivo poderoso. 
Conhecia o valor de uma pea apenas em v-la, e suspeitava que este era um artigo genuno.
     Havia muitas coisas que queria perguntar. Antes de se dar conta, estava de p  frente dela. Atravs das frestas da janela, a lua entrava em dbeis feixes inundando 
o quarto e desenhando o contorno do seu corpo. O que  que Justin tinha dito? Que ele se sentira atrado por ela?
     Nada mais absurdo.
     E dissera a Justin. A criatura era uma ladrazinha. E s Deus sabia quantas outras coisas mais! O fato de saber to pouco das circunstancias em que tinham desenrolado 
o acidente preocupava-o. No momento em que estivesse disposta, tudo se esclareceria.
     Os seus olhos se fixaram nela.
     Uma mo pequena, a mesma mo com tinha segurado o colar, jazia enroscada contra o seu peito. Havia lavado cuidadosamente a lama e a sujeira do seu corpo e a 
vestiu com uma das camisolas da sua irm. Era estranho, mas assim limpa e vestida, era difcil recordar que se tratava mais de uma ladra, de uma mulher da rua.
     No que ele tivesse conhecido muitas dessa maneira to intima. O pensamento desenhou uma careta em seu rosto, mas afastou-o depressa da sua cabea. Lentamente, 
o seu olhar voltou a recair sobre o corpo que tinha a sua frente. Dormia, embora sem encontrar o descanso. Tinha afastado o cobertor com que ele a cobrira. A sua 
boca, diminuta, tremia ligeiramente. As sobrancelhas finas e rosadas arqueavam-se sobre aqueles olhos extrardinarios que lembravam topzios.
     Ao diabo com a respetabilidade! Para uma mulher da rua, era uma criatura de estrema delicadeza. No podia negar a sua beleza selvagem... por todos os cus, 
estava ficando excitado!
     Tinha a ver com a pose? Ou com a mulher? Por baixo do fino tecido da camisola, a sua pele reluzia como as fascas do fogo. A camisola subira enrrolando-se acima 
das coxas, as suas pernas moveram-se de lugar; uma mo diminuta percorreu o seio e depois caiu de lado. Os seios elevavam-se e baixavam ritmicamente, os mamilos 
como coroas de coral redondo se sobressaiam impudicamente.
     No havia nenhuma provocao nessa franca sensualidade. Sebastian respirou profundamente, sentido uma tenso inesperada no seu ventre. Era algo pouco gentil 
da sua parte... mas no havia nada de repreensvel na admirao masculina daquela cabeleira dourada que se derramava pela almofada num caos sedoso, fulgurante como 
um raio de sol; ou dos seus membros bem torneados e esbeltos, o seu estmago aveludado. E... sim... oh, sim...
     Aqueles gloriosos seios.


    Captulo 04
     
     
     O calafrio de uma presena despertou Devon. A cadencia desconhecida de uma voz, a voz de um homem, profunda e cultivada, melodiosa. Devon voltou-se procurando 
a procedncia daquele som. O seu corpo moveu-se apenas.
     - Com cuidado, agora - disse a voz. - Machuquei-a.
     "Machuquei-a", repetiu a sua mente num eco vago. Uma estranha calma parecia percorrer a sua cabea, quando as recordaes a apanharam abruptamente. Estremeceu 
ao ver Harry e Freddy a rode-la como abutres. Lembrou-se de ter cado, ter se precipitado contra o vazio mais negro, num lugar em que no havia mais do que frio 
colando-se aos seus ossos... j sentira frio antes, mas no daquela maneira. Nunca daquela maneira! E depois, aquele medo aterrador em que no podia ouvir nada. 
Acreditou que morreria ali, como a sua me, no frio e na escurido.
     Mas agora no sentia frio, pensou. Sentia uma dor profunda nas costas, mas estava envolta numa suavidade em que nunca antes tinha estado.
     E havia algum ao seu lado. Muito perto.
     Com essa certeza, Devon ambientou os olhos para focar bem a imagem. Um homem estava sentado ao seu ldo, to perto que poderia alcanar e tocar em sua manga. 
At sentado, parecia espantosamente grande, os ombros to largos quanto o rio Tamisa. Atrs dele, de p do outro lado do quarto, havia outro homem, com o cabelo 
um pouco mais claro, mas tambm abundante.
     Devon olhou outra vez o outro homem. No, era o homem que estava sentado junto a ela que captou sua ateno. Era ele que a fazia conter a respirao. Agora 
lembrava-se. Lembrava-se de ter despertado e de v-lo, lembrava-se de como tremera ao despertar e ver aquele homem inclinado junto a ela.
     No era apenas o seu tamanho que irradiava poder. Era algo mais, muito mais, pois a sua presena dificilmente podia ser ignorada; nem por ela, nem por mais 
ningum, suspeitou.
     O seu terno era do mais elegante. Nem uma ruga para estragar o seu casaco. Por baixo dele, usava um colete de seda azul e uma camisa de cambraia. O leno era 
de um branco luminoso que fazia ressaltar o bronzado da sua pele.
     Os olhos, duros, de um cinzento penetrante, profundos entre umas sobrancelhas escuras e escarpadas. O cabelo da cor da escurido da noite. O rosto quadrado 
havia sido bem barbeado, muito diferente dos homens aos quais ela estava habituada. A nica parte suave do seu viril e angulado rosto era a covinha em seu queixo.
     - Onde estou? - As palavras saram com um som rouco, estranho  sua voz habitual.
     - Encontrei-a ferida na rua e trouxe-a para minha casa, aqui em Mayfair.
     Mayfair. O olhar de Devon percorreu o quarto lentamente. Estava decorado. Por alguma razo no podia deixar de admirar as cortinas de seda amarela que pendiam 
da janela, atados com um cordo de prata. As paredes eram revestidas com um papel salpicado de pequenas rosas. Nunca pensou que houvesse camas to grandes como aquela 
em que se encontrava agora, uma cama to macia que se sentia flutuando em uma nuvem. Na realidade, se no fosse pela dor que sentia nas costas, teria acreditado 
que tudo era um sonho.
     A sua maneira de falar era cortante e precisa, como a de sua me.
     - Voc  um cavalheiro - disse sem pensar. - E esta casa...  to grande que imagino que s um grande lorde possa viver aqui!
     O inicio de um sorriso embelezou os lbios cinzelados.
     Devon virou os olhos.
     - Voc  um lorde?
             Ele fez uma reverencia.
     - Sebastian Sterling, marqus de Thurston, ao seu servio. E este  o meu irmo Justin.
     Devon ficou sem palavras. Caramba, nada menos que um marqus!
             - Menina. - O outro cavalheiro fez uma breve inclinao de cabea, o seu olhar no possua a agudeza penetrante do marqus, mas olhava para ela tambm 
de muito perto.
     - E voc? - perguntou o marqus. - Tem nome?
     - Devon. Devon Saint James - murmurou.
     - Bem, senhorita Saint James. Agora que  uma hspede em minha casa, talvez no se importe de nos contar as suas atividades... de ontem  noite.
     Percebeu a frieza que mascarava o seu olhar. S ento, Devon ficou em alerta. Ao faz-lo, as suas memorias tornaram-se mais ntidas. Lembrou-se com clareza 
dos dedos de Freddie em seu pescoo, cortando-lhe a respirao. Por isso, descobria agora, sentia como se estivessem cravando agulhas em sua garganta; por isso a 
sua voz era rouca ao falar.
     Freddie, pensou furiosa. Lembrou-se de como tinha agarrado a faca e de ter cravado em suas costas, a estranha sensao da roupa rasgando, separando da carne, 
como ele a tinha apunhalado. Quase lanou um grito. Onde ele estava? O que lhe tinha acontecido?
     Baixou o olhar.
     - Havia um homem - disse com impacincia - onde ele est?
     O marqus sacudiu a cabea.
     - Quando a encontrei, estava sozinha.
     - Mas ele estava l! Digo-lhe que estava l!
     - E uma vez mais devo dizer que estava sozinha.  evidente que voc no poderia se machcar  sozinha. Ento, falemos desse homem com quem estava.
     - No estava com ele. Eu... - De repente calou-se. A maneira como ele a olhava...
     - Senhorita Saint James? Peo-lhe que continue.
     No era muito difcil saber o que ele estava pensando dela. continuava olhando-a como se fosse um inseto, e isso enfureceu-a. Estava surpreendida por ele se 
ter sentado to perto.
     Devon no esconderia o que era. No podia mudar o que era. Tinha crescido nas ruas ftidas e sujas de Saint Gilles, onde aprendera que a confiana no era algo 
que pudesse dar a qualquer um.
     Marqus ou no, no permitiria que lhe roubasse seu orgulho, porque, na realidade, era a nica coisa que tinha. Alm disso, conhecia bem os tipos como ele. 
Muito tempo antes de sua me morrer, Devon propusera-se a no falhar, cumpriria a sua promessa de encontrar uma vida melhor. Percorrera as grandes casas da cidade, 
 procura de outro trabalho. Desde muito jovem, Devon aprendera a costurar, limpar o peixe no porto, tinha estendido carpetes para a alta burguesia no seu caminho 
atravs das ruas ou a descer de um carro, aproveitara as sobras das cozinhas quando o trabalho da sua me no havia sido o suficiente para viver.
     Mas nunca conseguiu encontrar trabalho em nenhum lugar das manses dos senhores e senhoras, em Londres, nem em qualquer outra respeitvel instituio, ou como 
uma empregada de mesa ou de cozinha. Quando a viam fechavam-lhe a porta no nariz. Fez o que pde para parecer apresentvel, mas nem sempre era fcil: havia colocado 
uma bacia no exterior para guardar a gua da chuva e poder tomar banho, mas uma alma mal intencionada a roubou. Se pudesse tomar banhos e se arrumar, talvez fosse 
diferente. Tambm no ajudava que o seu velho vestido ficasse to pequeno. No podia gastar dinheiro em roupa, ento sua mo arrumava os vestidos da melhor maneira 
que podia.
     - Senhorita Saint James, porque tenho a impresso que h alguma coisa que no est nos  contando?
     Uma resposta ficou na sua garganta. O olhar de Justin era quase to cortante quanto o de seu irmo. Ficou plida, sentia-se incomodada. Aqueles dois eram da 
aristocracia, e as pessoas da aristocracia no estavam habituadas a lidar com pessoas como ela. Se admitisse que tinha apunhalado Freddie, o que lhe fariam? A enviariam 
para as autoridades sem demora.
     - Senhorita Saint James? Aconteceu-lhe alguma coisa?
O seu corao precipitou-se sem controle.
     - No me aconteceu nada - disse com rapidez, meio temerosa, meio desafiante. De repente lembrou-se de algo.
     - O meu colar! - A sua mo procurou desesperadamente pelos lenis de linho. - O meu colar, onde est. No posso perd-lo. Eu estava com ele, eu sei...
- Tranquilize-se. Est num lugar seguro.
Mas a sua expresso no a tranquilizou em absoluto.
     -  meu! Quero que me devolva!
O marqus se ps em p. Pensou nele como num gigante, vendo-o de cara para a lareira lavrada em mrmore. Ento voltou-se para ela, com as mos cruzadas nas costas. 
Junto  porta, o irmo no deixava de olh-la.
- Quando descobrir quem  o seu verdadeiro dono, ser devolvido  pessoa determinada.
     - O seu verdadeiro dono? O que quer dizer?
     Os seus olhos tinham adquirido a cor da pedra.
     - Significa que no sou estpido, menina Saint James. Tenho uma pequena ideia de como foi ferida, e no pode me enganar. No que diz respeito a lutas entre ladres...
     - No sou uma ladra! - gritou - Roubaram minha carteira!
     - A sua carteira - repetiu - cheia de dinheiro, imagino.
     - Sim, sim! Havia dois homens, entende...?
     - Ah, ento agora eram dois homens. E encapuados, no tenho duvidas.
     Sentiu uma dor profunda e horrvel dentro do estmago.
     - Devo reconhecer, menina Saint James, que voc se expressa muito melhor do que eu esperava.
     - A minha me falava muito bem. - Respondeu elevando o queixo.
     - E quem foi a sua me?
     - Com certeza, a rainha de Inglaterra!
     - O que a transforma numa princesa. Nesse caso, elogio ainda mais a sua predileo por disfarces.
     Devon levantou a vista para ver bem o quarto. Dobrados nas costas de uma cadeira estava o seu vestido, a capa... e o almofado que utilizava como barriga.
     Maldito arrogante! Como se atrevia julg-la! Assim como a sua me ela era diferente daqueles que viviam e trabalhavam nos lamacentos arredores de Londres. Apesar 
dessas diferenas, ou talvez devido a elas, tinha aprendido a sobreviver. No  que fosse pior ou mais forte, s a meno lhe parecia ridcula, nem sequer que fosse 
mais inteligente. Mas era esperta o suficiente para evitar situaes indesejveis.
     Esta era a razo da sua ateno. Se tinha que enfrentar a ruas a cada noite, era melhor faz-lo dessa maneira. Quando comeou a trabalhar no Crow's Nest, Devon 
tinha pensado em disfarar-se de rapaz, mas claro, teria sido muito difcil se fazer passar por rapaz com aqueles seios e aquele cabelo que caa pelos ombros de 
maneira incontrolada. Pelo menos daquela maneira, no pareceria to diferente dos ladres e malfeitores  e, felizmente, haviam poucos que quisessem olhar para uma 
mulher que, como Bridget dizia, parecia estar a ponto de dar a luz a qualquer momento.
     - Um homem no pode deixar de perguntar, o que fazia voc na rua quelas horas da noite. Pegando um ar fresco, talvez?
     Devon olhou para ele fixamente. Estava dizendo o que parecia que estava dizendo?
     - No acredita que sou apenas uma ladra. Tambm me considera uma qualquer.
     O marqus no respondeu, no havia necessidade de faz-lo. Estava tudo ali, na maneira em que aqueles olhos cristalinos mediam o comprimento de suas formas.
     Os olhos de Devon injetaram-se de clera quando puxou o lenol para o seu queixo. A necessidade de o magoar transformou-se num assunto de vital importncia.
     - Como disse que se chamava? Lorde "Estpido"?
     O seu rosto contraiu-se.
     - Desculpe?
     - Ai, desculpe, desculpe o meu lapso de memoria. Deve ser Lorde "Cretino".
     Em trs passos cruzou o quarto e colocou-se junto  cama.
     - Tome cuidado com sua lngua, menina Saint James. No tolerarei a linguagem da escoria em minha casa. Embora claro, suponho que no posso esperar outra coisa 
de uma mulher da rua.
     No se moveu do seu lado. Alto. A sua pose no parecia ameaadora e muito menos impositora. No entanto, Devon estava muito aborrecida para se desculpar do que 
acabara de dizer. Ao longo da sua vida, teve muitas ocasies em que lamentara a sua ndole impetuosa, mas esta no era uma delas.
     - Ento talvez eu deva ir embora, senhor!
     - No, at que fique restabelecida! - Sem duvida, uma ordem que no podia desobedecer.
     Os olhos de ambos enfrentaram-se num combate.
     - Quero que saiba que o meu pai provinha de uma famlia muito mais respeitvel que a sua - respondeu-lhe, - e vivia numa casa muio maior do que esta!
     - Ah, claro, com a sua me, a rainha. Desculpe o lapso de memoria. Ainda que, na realidade, tenho a impresso de que h muito mais que pode nos dizer em relao 
 noite passada.
     - Parece-me que no.
     - Ento, talvez deva voltar quando voc estiver mais disposta a conversar.
     - Talvez fosse melhor que no voltasse.
     - Oh, mas voltarei. E prometo-lhe que continuaremos esta discusso. - No fez nenhum movimento para se retirar, ficando junto  cama, olhando para ela daquela 
maneira assassina que ela tinha comeado a detestar.
     Devon passou a mo pelas delicadas pregas da camisola que vestia.
     - Isto no  meu.
     - No. Pertence  minha irm Julianna, que viaja neste momento pelo continente. Se estivesse aqui, teria sido ela a cuidar de voc e no eu. Ela sempre foi 
mais disposta a ajudar animais desamparados e coisas parecidas.
     Devon apertou os dentes.
     - Eu no sou um animal.
     - Peo-lhe desculpas. A minha escolha de palavras foi bastante infeliz.
     Devon olhou para ele. O marqus no parecia muito arrependido.
     - Suponho que foi voc que me vestiu esta roupa tambm.
     - Fui sim.
     O rubor subiu pelas faces.
     - Achei que disse ser um marqus!
     - E sou.
     - Ento, porque que no tem criados? Embora, a verdade  que me surpreenda que se digne a pr as suas mos em algum to inferior como eu.
     - Ai, vai precisar de muito mais para me dissuadir, sendo assim,  melhor pensar em mim como sua enfermeira, menina Saint James, e descanse que cuidarei para 
que a sua recuperao seja o mais rpido possvel. E, - acrescentou com suavidade quando viu que o olhava boqueaberta, - se vai me perguntar porque no chamamos 
um mdico... bom, previno-a que um mdico teria feito muito mais perguntas s quais voc parece estar disposta a no responder.
     Devon mediu a sua rplica. Ele tinha razo, devia ter cuidado com a lngua. A sua me repreendia-a frequentemente por no o fazer. Lamenteve a sua arrogncia 
e as suas maneiras impetuosas, mas pouco havia a fazer sobre o seu destino naqueles momentos. Lembrou a si mesma que se encontrava num lugar seco e quente, longe 
de Harry e de Freddie.
     Ele moveu-se, to prximo que podia cheirar o perfume da sua camisa. Tentou retroceder perante a sua proximidade, mas no havia lugar para onde ir. Tocou com 
a ponta dos dedos a delicada pele do pescoo, por baixo da orelha.
     - Bateram aqui - observou com seriedade.
     Devon ficou calada. Tentou ler o que se escondia no seu pensamento, por baixo da profundidade daqueles olhos, mas no conseguiu antever nada que no fosse a 
escurido de uma noite sem lua.
     - Importa-se de me dizer como foi?
     A dor em sua ferida tornou-se mais intensa, mas no foi nada comparado com a dor em seu peito. O desespero estava escureendo sua alma. De que servira? Os da 
sua classe nunca acreditariam nela.
     - No - respondeu.
     - Di?
     Embora a sua expresso continuasse a ser intensa, a sua voz tinha deixado de ser cortante. Devon no queria ser brusca. Limitou-se a negar em silencio com a 
cabea.
     - Talvez um pouco de ludano - disse com persistncia.
     - Para qu, para me obrigar a falar?
     Fez-se silncio.
     - No - disse finalmente. - Para ajudar a descansar.
     - Ficarei bem. - mordeu o lbio e descobriu horrorizada que umas lgrimas estavam prestes a delat-la. Tinha se proposto a no se deixar vir abaixo, mas se 
ele permanecesse ali mais tempo, no tinha certeza de poder conter as lgrimas.
     - Se no se importa, gostaria de ficar sozinha.
     Viu pelo canto do olho como a sombra do seu irmo desaparecia pelo corredor, mas o marqus continuava ali sem fazer movimento algum. Podia sentir a intensidade 
do seu olhar.
     - Deve ter fome. Vou enviar algum com comida.
     - Muito bem. - murmurou. - Desde que no seja voc.
     - Dado o estado em que se encontra, menina Saint James, farei como se no tivesse ouvido. Entretanto, esperarei ansioso pelo nosso prximo encontro.
     Devon, pelo contrrio, no esperava.




Captulo 05
         

     J na entrada, Justin cruzou os braos e olhou para Sebastian.
     -  teimosa, no ?
     Sebastian soprou.
     - Teimosa? Lembrei-me de outros adjetivos que se ajustam melhor  sua pessoa e que so muito menos educados.
     - A moa  desembaraada, devesadmitir. Achei muito divertido quando te chamou lorde "Estpido".
     - No tenho duvidas que achou; e sim, concordo que a moa  despachada, mas esconde alguma coisa, Justin. Tenho a certeza disso.
     Os olhos de Justin iluminaram-se.
     - Apostamos?
     - Perderia - predisse Sebastian com franqueza.
     Justin limitou-se a sorrir.
          
     Depois do jantar, Sebastian retirou-se para a biblioteca e acomodou-se em sua cadeira favorita. O dia tinha sido esgotante. Os negcios tinham ocupado a maior 
parte da tarde, assim como alguns pensamentos inquietantes sobre a moa que descansava no andar de cima. Contudo, no estava seguro de porque no podia deixar de 
pensar nela. Embora, pelo que parecia, ela no tinha tido dificuldade em esquec-lo. Tinha passado pelo seu quarto uma vez, mas no instante em que o viu, fechou 
os olhos e fingiu estar dormindo.
     O baile de Wetherby era essa noite mas tinha enviado um bilhete declinando o convite. No queria deixar uma mulher ferida sozinha com os criados para cuidar 
dela. Haveria, sem dvida, murmrios sobre a sua ausncia, sobretudo depois do anncio feito em Farthingale, mas no foi  difcil recusar o compromisso.
     A sua deciso de procurar uma mulher teria que ser adiada.
     Sentado comodamente na sua cadeira, disps-se a ler o jornal. Havia chegado pela manh cedo mas, at agora, no houve tempo para ler.
     No foi muito tempo depois, ouviu Justin entrar e pedir uma carruagem para ir  festa. Justin deteve-se na porta da biblioteca.
     - Pensei que voc estaria se arrumando para ir ao baile de Wetherby.
     Sebastian negou com a cabea.
     - No vou. - disse secamente enquanto assinalava com o dedo o piso de cima.
     - Ah, sim, esqueci que tem que vigiar a prataria. - Justin calou as luvas. - De qualquer maneira, como ela est?
     - Melhor do que eu esperava, embora ainda no parece ter muita vontade de me ver.
     - Sim. No consigo imaginar porqu. - Justin fez uma pausa. - Tem certeza de que no quer ir ao baile?
     - Absoluta.
     - No encontrar a esposa perfeita aqui sentado. Sei que as mais belas damas de Londres estaro l esta noite.
     - E todas estaro olhando para voc, Justin. Alm disso, aguentei trinta anos sem mulher, no creio que me faa mal estar sem ela um pouco mais. - Sebastian 
abriu o jornal peremptrio.
     Justin riu.
     - Creio que est errado nesse assunto, melhor, tenho a certeza de que est. - Antes que pudesse par-lo, arrancou o jornal das mos de Sebastian. Ornamentando 
a pose com um floreio, esclareceu a garganta: - Aqui - anunciou - no final da coluna da sociedade do dia. - E comeou a ler:
     "Senhoras, ajustem os chapus! Segundas as suas prprias declaraes, o marqus de Thurston, o solteiro mais falado da cidade, procura uma esposa. J  oficial."
     - Oh, Senhor! - suspirou Sebastian recostando-se sobre as costas da cadeira.
     - Sabe, Sebastian, que depois destes rumores, todas as belas casadouras ficaro desiludidas se no aparecer esta noite. E eu no terei outro remdio seno consol-las.
     - Tenho certeza de que encontrar uma maneira de o fazer. - Sebastian j estava ocupado com o jornal.
     - No tenha duvidas. Que tenha uma noite agradvel.
     Justin j cruzava a sala quando o irmo emitiu um palavro. Justin virou-se e olhou para ele.
     - O que aconteceu?
     - Eu sabia, sabia que escondia alguma coisa! - A expresso de Sebastian era de preocupao quando assinalou um dos artigos do jornal. - Lembra do homem de quem 
ela falou? Bem, um homem foi encontrado morto na rua adjacente  que encontrei a nossa convidada.
     - Caramba!
     - Pelo que parece, era membro de um dos bandos de Saint Gilles. Descobriram um punhal perto do seu corpo.
     Justin olhou para o irmo.
     - Sinceramente - disse lentamente - no est pensando que...
     - O que eu penso  que deveria fazer outra visita  menina Saint James. Creio que poder nos esclarecer bastante o assunto. - Alcanou a porta e deu-lhe um 
puxo para abrir. - Maldita seja - murmurou - nunca devia t-la trazido para c.
     Justin subiu        as escadas seguindo o seu irmo. No quarto amarelo, Devon estava sentada na cama, com as costas encostadas numa pilha de almofadas. Tansy, 
uma das criadas, acabava de lhe tirar a bandeja de seu colo. Em alguma parte remota do seu crebro, sentiu-se aliviado ao ver que tinha comido quase todo o jantar.
     - Olha,  o meu querido lorde "Estpido"! - Elevou o queixo ao v-lo.
     Sebastian apenas sorriu.
     - Agrada-me ver que se sente melhor. Talvez agora estejamos mais perto de conhecer a verdade. - deteve-se ao lado da cama e deixou cair o jornal sobre as pernas 
dela. - Creio que vai achar esta noticia muito interessante. - E assinalou o titulo com o dedo.
     Uns grandes olhos dourados moveram-se de seu rosto para o jornal sem dizer uma palavra.
     - E?
     Manteve-se em silencio.
     - Senhorita Saint James?
     Moveu ligeiramente a cabea.
     - No, no sei ler. Quero dizer que... conheo as letras, mas no sei junt-las para que faam sentido, alm do meu nome.
     Amaldioou a si prprio. Devia ter imaginado!
     - Bem, ento, vejo-me obrigado a explicar-lhe. - E apanhou o jornal: -  Um homem foi encontrado em Saint Gilles esta manh. A pouca distancia de onde encontrei 
voc.
     O seu rosto ficou de uma cor mais plida.
     - Segundo o jornal, foi visto com uma mulher que usava uma capa grande manchada de lama e um grande chapu.
     O seu olhar dirigiu-se ao desalinhado chapu pendurado nas costas da cadeira de damasco que estava do outro lado do quarto.
     - A mulher - Continuou - estava quase dando a luz.
     Dirigiu um olhar furtivo ao almofado que descansava na cadeira e depois voltou a olhar para ela.
     Ela mordia o lbio inferior. Os seus olhos encontraram-se com os dele por um momento, e depois retirou-os imediatamente. Um olhar de culpa.
     - Esse homem foi assassinado, menina Saint James. Apunhalado no peito.
     - Como? - Disse desesperada. - Quer dizer que est morto?
     -  isso mesmo. Encontraram um punhal ao seu lado. A policia pensa que  a arma do assassino.
     - Meu Deus! - sussurrou.
     - A minha pergunta  esta: voc apunhalou aquele homem?
Os seus lbios entreabriram-se. No foi a nica resposta que obteve; na realidade, a sua expresso foi mais do que suficiente.
     - Quem atacou primeiro?
     Ela evitou encontrar os olhos dele.
     - O punhal  meu - admitiu num tom muito baixo, - mas no foi como voc pensa. A srio que no foi assim.
     - Tentava roub-lo?
     - No!
     - Ento foi uma rixa de amantes?
     - Amantes?... eu no tenho nenhum amante. - Disse com a voz embargada. - Disse-lhe ontem que ele tentava me roubar! Roubou a minha carteira, e tentou roubar 
o meu colar.
     Sebastian ignorou os seus lbios trmulos. O momento da verdade estava prximo, tinha a certeza disso.
     - O jornal diz que era membro de um bando - disse Sebastian, - conhecia-o?
     - No, juro-lhe. S o conhecia de ouvir falar. Chamava-se Freddie. - O seu olhar saltou para Justin, que se encontrava aos ps da cama.
     - A nica coisa que queremos  a verdade - disse com calma.
     - Eles cortaram meu caminho... o Freddie e o irmo, o Harry. - Os seus olhos viraram-se acusadores para Sebastian. - Eu disse que eram dois. Harry alcanou 
o meu bolso e tirou minha carteira. Depois saiu correndo com ela. Freddie tentou roubar o colar do outro bolso. No me importava que roubassem a carteira, mas o 
meu colar... tentei deter o Freddie, mas rodeou meu pescoo com as mos. No conseguia respirar! Lembrei-me que trazia a faca na minha bota e puxei.
     O olhar de Sebastian dirigiu-se agora para o pescoo de Devon. "Por isso  que tem estas ndoas - pensou - de quando Freddie tentou estrangul-la."
     Justin disse em voz alta o que estava pensando.
     - Deve de ter sido Harry que voltou e encontrou o corpo de Freddie.
     - No necessariamente. - Disse Sebastian. - Pode haver outro, mas talvez fosse ele quem informou a policia...
     Devon negou com a cabea.
     - No, ele no se atreveria a ir  policia. Mas talvez um dos seus informantes tenha dito. - Murmurou e baixou o olhar. Sebastian franziu a testa. - De qualquer 
maneira - disse com um suspiro - vo me procurar, tanto ele quanto a policia.
     - Eles procuram uma mulher grvida, com uma capa e um chapu ridculo. - Foi a observao de Sebastian. - Para uma mulher que afirma no ser uma ladra, devo 
dizer que a suas roupas indicam exatamente o contrrio.
     - No tente me chamar de algo que no sou! Pelo que entendi, pareo ser uma assassina, mas no sou uma ladra!
     - Como  que ganha a vida, ento?
     - Trabalho no Crow's Nest, um estabelecimento que, devo dizer, dois cavalheiros como vocs no visitariam.
     Quanta impertinncia! Falava como se fosse uma menina mal educada!
     Sebastian olhou para o irmo.
     -  uma cervejaria no muito longe do cais - informou Justin.
     Agora entendia porque cheirava a peixe, a tabaco e a fumo! Dirigiu-se a ela mais uma vez:
     - Incomodou-se muito para parecer gorda.
     - Mas no pela razo que voc imagina!
     Elevou as sobrancelhas.
     - Gostaria de conhecer essa razo, ento - disse tranquilamente.
     Os seus olhos ardiam, pensou que se tivesse foras, era ela que lhe rodearia o pescoo com as mos.
     - Vivo num quarto alugado a um homem que se chama Phillips, numa casa perto da rua Shelton. Quando volto para casa  sempre muito tarde, por isso,  uma forma 
de me proteger.
     Sebastian e Justin olharam-se, os dois estavam na verdade confusos. A hospede olhava para eles como se fossem bobos.
     - Um homem raramente olha duas vezes para uma mulher neste estado. Pelo menos era isso que eu pensava at ontem  noite. - Deteve-se. - Eu no queria matar 
o Freddie. S tentava det-lo.
     Uma explicao lgica. Talvez a nica possvel se fosse uma explicao sincera. Com cuidado, Sebastian olhou para ela, observando como os seus lbios rosados 
comeavam a tremer. Ou seria apenas um truque da luz do entardecer? Talvez tanto desafio no fosse mais do que uma armadura de coragem.
     Olhou para Sebastian.
     - Talvez devesse ter me deixado l - disse em voz muito baixa - Talvez fosse o melhor...
     - No diga besteira! - o seu tom foi cortante.
     -  verdade. A policia nunca acreditar em mim, o juiz tambm no. Sou pobre e vivo em Saint Gilles.  tudo o que precisam saber para me prender. E o Harry... 
- Um calafrio trespassou-a, - ele  mesquinho e cruel. Pude ver isso nos olhos dele. E eu... eu matei o irmo dele. Se alguma vez me encontrar, far com que eu deseje 
ter morrido.
     Desta vez foi Justin quem falou com brusquido.
     - Escute-me agora! No h necessidade de falar nesses termos. Tambm no precisa ter medo. No sofrer nenhum mal nesta casa, Sebastian e eu cuidaremos para 
que assim seja. De fato, pode ficar aqui o tempo que quiser. - levantou-se e caminhou para a porta. A sua mo j estava na maaneta. - Vamos. Tem que descansar, 
sendo assim,  melhor que lhe desejemos boa noite.
     Sem duvida, Justin possua a arrogncia dos Sterling. Sebastian no teve outro remdio seno segui-lo pelo corredor. Justin estava apoiado no corrimo quando 
Sebastian fechou a porta.
     - No foi ontem que me disse que eu fiquei encantado pela moa? - Sebastian concedeu-lhe um longo olhar, cheio de considerao. - Pergunto-me se no foi voc 
quem foi seduzido por... Como direi? Pelos seus considerveis encantos.
     - Disparates! - negou rotundamente. - Apesar das aparncias, no sou to superficial como pensa. Esta moa tem problemas, no podemos lhe virar as costas, e 
tambm no podemos jog-la na rua. - Justin arqueou uma sobrancelha perante o mutismo de Sebastian. - V! No est pensando que  mesmo uma assassina?
         Sebastian hesitou, libertando uma batalha de conscincia que lhe revirava o estmago.
     - No - admitiu - mas podemos ignorar o fato de que vem de Saint Gilles, lugar de malfeitores, ladres e prostitutas?
     - Ah, entendo. Acha que  uma mulher de carter duvidoso?
     - Na realidade, penso que  uma mulher sem nenhum tipo de carter.
     - As ruas de Saint Gilles so imundas, onde dificilmente algum consegue viver mantendo-se inocente.
     - Essa  precisamente a questo. Por ela dizer que no  uma ladra, no significa que no o seja.
     - Ela est num srio aperto, Sebastian. Se a entregarmos  policia, no a escutaro. Como ela mesma admitiu, matou o Freddie. Vem de um lugar onde o crime  
o nico legado. O que aconteceria se a policia estivesse mais interessada em ficar bem do que em fazer justia? No importaria que estivesse se defendendo. Ladra 
ou no, merece a forca.
     A observao preocupou-o.
     - Eu sei - disse Sebastian. -  muito provvel que utilizem a desculpa de que "assim haver um desgraado a menos nas ruas"... - Mas agora aquela indesejvel 
estava em sua casa, e para dizer a verdade, no se sentia muito cmodo com o convite que Justin fizera  hospede: - Considerando que a convidou para ficar o tempo 
que quiser, esperemos que no pense que pode considerar este lugar como sua casa.
     - Bom, nesse caso j no seria uma hospede, no ?
     - Nesse caso, talvez devesses lev-la com voc quando encontrar uma residncia na cidade. Creio que mencionou essa possibilidade h no muito tempo.
     - Ah, no tenho pressa.
     - J me dei conta disso.
     - Meu querido irmo mais velho. Gostaria de assinalar duas coisas. A primeira  que foi voc quem trouxe a nossa querida menina Devon para casa.
     - Obrigado por me lembrar.
     - E a segunda,  que aposto que se sentiria muito sozinho vivendo nesta casa to grande sem a minha companhia.
     - Embora Julianna esteja agora de viagem, ela ainda vive nesta casa. - recordou a Justin. - E devo dizer que gostaria que a nossa querida irm estivesse aqui 
para cuidar da mulher que temos l em cima!
     - Como voc mesmo disse, vai melhorar.
     - Ainda vai precisar de algum tempo para se recuperar de todo. Deveria engordar um pouco.  s ossos, se ainda no reparou.
     - Reparei, sim. Embora me surpreenda que tenhas reparado, com a opinio que tem dela.
     Teve que fazer um esforo para afastar o sentimento de culpa que o carroia.
     - No sou nenhum bruto insensvel, Justin.
     A expresso de Justin indicava outra coisa.
     - Eu diria que em Londres, h pelo menos uma mulher, que o considera um bruto insensvel.
     - Ah, eu diria que h mais de uma. - Os olhos de Justin brilharam e teve que se deter para esconder o sorriso do seu rosto. 
     - Estava horrorizada, Sebastian, e tentou no chorar com todas as suas foras.
     Uma viso cruzou a sua mente, a viso de uns olhos brilhantes como o mbar. Tinha dito a si mesmo que no eram lgrimas. Pelo amor de Deus, no conseguia resistir 
a uma mulher chorando. Destruia seu corao. Uma mulher chorando podia partir a alma. Julianna sabia muito bem. Um olhar baixo, um lbio a trmulo, um soluo... 
e estava perdido! No que Julianna fosse das que choravam por tudo. Ela era forte e firme, e no conhecia uma criatura mais bondosa do que a sua irm. Mas quando 
ela ou qualquer outra mulher chorava, Sebastian sentia-se transbordar. No conseguia evitar que o afetasse, no conseguia dar meia volta e partir. Faria o que pudesse, 
o que estivesse nas suas mos, para secar aquelas lgrimas.
     Agora, o estranho comentrio do seu irmo o fez se sentir pior. Deus bendito, at Justin, que se manteve imune s lgrimas femininas, que partiu mais coraes 
do que nenhum outro em Londres, ficou comovido.
     Maldita fosse. Talvez fosse mesmo um bruto insencivel. Porque a verdade  que aquela mulher que estava no piso de cima, estava num srio aperto.
     - Talvez devssemos fazer algumas investigaes sobre o que nos contou - Apressou-se a dizer, - especialmente sobre aquele rato chamado Harry.
     Justin concordou.
     - Eu me encarrego disso. - e virou-se para as escadas.
     - Ah, Justin?
     O irmo virou a cabea sem se voltar de todo.
     - Devemos ter cuidado para que no se saiba de onde vm as ditas investigaes.
     - Como? - Justin sacudiu a cabea. - Por acaso no sou um homem discreto?
     - Em absoluto. - A observao no merecia nem um olhar.
     - Ah. - o sorriso de Justin foi completamente desavergonhado, completamente perverso, completamente Justin. - Quer dizer que "nem sempre sou", no  verdade?
     - Creio que sabe muito bem o que quero dizer.
     - Pois eu sou - garantiu, - fique tranquilo. Pode confiar em mim.
     Os olhos deles encontraram-se. Um sorriso quase imperceptvel desenhou-se no rosto de Sebastian.
     - Eu sei - disse suavemente.

     
     
    Captulo 06
     

             Do outro lado da porta, Devon voltou a afundar a cabea na almofada com um soluo. Estava furiosa. Derrotada como nunca esteve antes, doente no mais 
fundo da sua alma.
     Uma dor fria se instalou em seu corao. A sua me ficaria horrorizada apenas por ela ter uma arma, muito mais sabendo que usou ela. Tinha prometido  sua me 
que nunca roubaria, nem se prostituiria, nem mendigaria.
     Em vez disso, matou um homem.
     O sentimento de culpa a deixava furiosa. Ela queria sair de Saint Gilles, era o que mais desejava neste mundo! Mas a que preo? O seu corao retorceu-se. Sebastian 
Sterling estava convencido de que era uma ladra. Uma ladra.
     Devon nunca pensou em roubar. Nunca.
     Pelo menos, nunca mais.
     Porque havia roubado uma vez um bolo de uma confeitaria. Estava ali, to tentador, colocado num prato branco de flores azuis e amarelas, regado com mel. O vendedor 
estava de costas para o balco, ento achou que no poderia ser vista. Sem pensar duas vezes, agarrou o prato e desatou a correr com quanta fora podia at chegar 
em casa.
     Ali, na entrada de sua casa, sentou-se no cho para comer. Lembrava-se do sabor, a maneira como saboreou. O sabor era incrvel, deliciosamente doce. Mas Devon 
lembrava-se de outra maneira, agora. Nem sequer estava particularmente esfomeada...
     A sua me descobriu-a. "Roubou, no foi?". O bolo transformou-se em areia na sua boca. Teve que fazer um esforo para engolir.
     No precisou dar uma resposta. A me estava furiosa: "No roubar, Devon Saint James. Pode ser que vivamos entre ladres, mas ns no somos como eles".
     Devon nunca esqueceria como se sentiu a seguir: culpada e gulosa. As duas choraram depois daquilo. Foi a primeira vez que fez a sua me chorar.
     E agora as lgrimas ameaavam sair de novo, embora ela apertasse os olhos para evit-las. No podia chorar. No o faria. No podia mudar as coisas. Freddie 
estava morto.
     Tambm no podia ficar ali, naquela casa. A casa dele. No se ele no  a queria ali. Mas antes tinha de recuperar o seu colar.
     S depois partiria.
     Olhou para a porta e decidida retirou o cobertor para um lado, tentando levantar-se. O quarto girou ao seu redor, o mundo parecia desmoronar-se diante dela. 
Sentou-se por um momento, segurando a testa com a mo trmula. Mais do que outra coisa, o que queria era voltar ao calor daquela cama macia e grande. Era um quarto 
to agradvel. Perguntou-se como seria viver num lugar to imponente, usar roupas, como a que vestia naquele momento. O cho de madeira estava to encerado que pensou 
que podia ver o seu reflexo nele, e assim tentou. Entre tanta cortina amarela e  todas aquelas mantas de motivos alegres, sentia-se no meio dos raios de sol.
     Mas ele no a queria ali.
     Nesse momento, viu o chapu que caa das costas da cadeira. O que ele havia dito? "procuram uma mulher grvida com uma capa e um chapu ridculo."
Seu chapu no era ridiculo, pensou furiosa. Gostava mais dele do que outra coisa! A sua me sempre lamentou no poder lhe comprar um chapu. Devon recordava com 
clareza o dia em que encontrou este na rua, antes de comear a trabalhar no Crow's Nest. Foi emocionante, era o seu primeiro chapu. No lhe importava que estivesse 
manchado ou que as suas penas amarelas j tivessem perdido o seu vigor. Imaginou uma mulher  bonita a us-lo por baixo da sua sombrinha ao passear por Hyde Park 
num dia de sol; at imaginara que ela era a mulher.
     Agora era seu, e para Devon, era um grande tesouro.
     Apertando os lbios, deslizou da cama para o cho. O esforo provocou-lhe uma forte dor nas costas. Levantou-se com cuidado, sentindo como as foras lhe faltavam 
e lutou com desespero. Os joelhos dobraram-se. Estava trmula e dolorida, incapaz sequer de ficar em p. Sentiu-se como uma velha e, provavelmente, era isso o que 
parecia.
     De repente, a porta abriu-se.
     - Maldio. - disse uma voz. - O que raio pensa que est fazendo?
     Fixou a vista nele.
     - Pensei que era evidente: vou embora. E acho que disse que a forma de falar da escria no era tolerada em sua casa. Embora, sem duvida nenhuma,seja diferente 
para o senhor, no  verdade, lorde "Estpido"?
     Sebastian ignorou a brincadeira. Estava ridcula, ali de p com aquele estpido chapu na cabea. Cruzou os braos e olhou para ela. 
     - Como diabo acha que vai fazer?
     - Como v, pelo meus prprios ps. - quase desafiante, puxou os laos do chapu. - E no se atreva a me deter.
     - Nesse caso devia dar mais para fora dos que d para dentro. - Encurvada, balanava-se como se estivesse bbeda, parecia que ia cair a qualquer momento. 
     Mas o seu olhar indicava rebeldia. Justin tinha razo. Era teimosa at  medula.
     - Quer usar o vestido? - Perguntou.
     - Temo que terei que levar esta camisola. Mas no se preocupe, eu devolvo  sua irm. Embora no saiba se ela a quer de volta depois de ter sido utilizada por 
mim.
     A menina mal-educada, novamente. Era um papel que desempenhava com perfeio.
     - Duvido. Sendo uma mulher pratica como , a minha irm Julianna preocupa-se em escolher o seu vesturio. Mas creio que foi uma boa ideia pedir  Tansy que 
arrumasse a sua capa e o seu vestido e limpasse s botas. Confesso que no entendi porque se incomodou tanto.
     - Por favor, agradea-lhe em meu nome. Onde esto?
     Sebastian fez um gesto em direo ao armrio. Cruzou o quarto e abriu a porta.
     - Venha busc-los, se quiser.
     O olhar que Devon lhe dirigiu foi inquisidor. Deu um passo, e dificilmente consegui dar o segundo. Com uma careta de dor, tentou manter-se em p, sem conseguir. 
A camisa abriu-se mostrando as curvas generosas. O marqus no desperdiou a oportunidade.
     Ela percebeu.
     - Bastardo arrogante de sangue azul! - O insulto f-la recordar a sua procedncia dos subrbios de Saint Gilles. Fechou o punho com a inteno de lhe acertar 
no queixo.
     No passou de uma inteno lamentvel que a fez cair entre os braos dele sem que ele tivesse que se mover.
             - Falhou. - Disse tranquilamente.
     - Deixe-me ir embora! Voc no me quer aqui.
     Deixou-se cair pesadamente nos braos dele, olhando-o furiosa atravs de uma cortina de cabelo dourado. Espalhava-se pelos ombros e roava as mangas dele. "Uma 
das cores mais invulgares - pensou - espesso, grosso e brilhante, como se tivesse sido polido por um raio de sol."
         Suspirou.
     - Querida jovem, voc est ferida. Precisa que lhe lembre que est debaixo dos meus cuidados?
     - Dos seus cuidados? Gostaria de  saber porque se incomoda tanto quando deixou bem claro que no gosta de mim. Alm disso, tambm no gosto da sua maneira de 
olhar para mim.
     Sebastian piscou os olhos.
     - Desculpe?
     - Olha para mim como os homens no Crow's Nest me olham. Mas eu no sou uma prostituta!
     Gritou com a indignao de algum que se acha com superioridade moral, de uma maneira que ele nunca tinha ouvido gritar.
     - Sendo assim, senhor, se voltar a olhar para mim, ter que olhar para os meus olhos!
         "Senhor." Um claro avano frente ao "bastardo arrogante de sangue azul". Uma considervel melhora com respeito a Lorde "Estpido". Parecia que estava ganhando 
status perante os seus olhos.
     Desta vez teve o cuidado de olhar para os olhos, to invulgares quanto o cabelo. Rodeados por pestanas escuras e espessas, eram quase de ouro, diferentes de 
todos que tinha visto antes.
     - Tem razo. No fui muito gentil.
     - Agrada-me que entenda. - Levantou a cabea para olhar para ele e, ao faz-lo o chapu caiu ao cho.
     - O meu chapu! - Gritou. - Por favor, preciso dele!
     -  um chapu deplorvel. - Disse sem pensar duas vezes.
     Devon deu um grito.
     - No  deplorvel!  bonito e  meu! Assim como o colar  meu, e assim que o recuperar, seguirei o meu caminho.
          Os seus lbios tremeram e os olhos comearam a brilhar. "Por favor - suplicou em silencio - nada de lgrimas."
     Um soluo entrecortado, e sentiu dentro de si algo que o comprimia. Diabos, devia ter adivinhado. A torrente de lgrimas era iminente se no fizesse algo rpido 
para remediar. Ento ela tentou apanhar o chapu, mas ele agarrou-a com mais fora, uma priso controlada, mas delicada ao mesmo tempo.
     - No pode ir embora - recordou-lhe. - O que acontecer com a policia?
         - Ao diabo com a policia!
     Se ficasse teria que fazer alguma coisa para corrigir aquela linguagem.
     - E o Harry?
     A pergunta atraiu a ateno da moa que olhou para ele com o corao aos pulos.
     - Harry?
     Quase podia sentir o terror. Deus sabia que podia ver naqueles olhos.
     - Sim.
     - Acha que vir me procurar?
     - No sei. - Era a verdade. - Ele no pode encontr-la. Nunca lhe ocorreria procur-la aqui. Mayfair est a um mundo de distancia de Saint Gilles.
     - No deixar que me encontre?
     - Claro que no.
     A sua fora cedeu. Incapaz de se manter em p por mais tempo, fundiu-se nos braos dele. Desta vez no houve recriminaes quando ele lhe pegou. Levou-a quase 
at  cama, quando ela disse impaciente:
     - Espere, o meu chapu! Por favor, tem a amabilidade de me trazer?
     Sebastian viu-se obrigado a voltar atrs. Ela estava pendurada em seu pescoo quando ele se inclinou para apanh-lo. Depois, com cuidado, depositou-a na cama 
e estendeu-lhe o chapu que trazia na mo.
     Sem perder tempo, voltou a coloc-lo na cabea.
     Ele observou-a enquanto secava as lgrimas dos seus olhos. Sem saber muito bem como, deu por si sentado na cama. 
     - Precisa descansar e ficar em repouso, Devon.
     Tinha os olhos meio fechados. Ao ouvir a voz dele, Devon abriu um deles.
     - No me lembro de ter lhe dado permisso para me chamar pelo meu nome prprio. - Disse com a testa franzida.
     Sem duvida, uma afirmao um tanto arrogante, considerando que acabava de lev-la em seus braos e estava agora em sua cama. Tudo bem, no exatamente na sua 
cama, mas na cama de sua casa.
         Tentou sorrir, voltando  sua expresso sria quando ela olhou para ele.
     - Posso? - Perguntou fazendo a maior solenidade.
     Devon estava esgotada. Ele pde ver na sombra que inundava os seus olhos e as plpebras.
     - Posso cham-la por Devon?
     - Suponho que sim. Mas, nesse caso, como  que eu devo lhe chamar?
     - Definitivamente, no lorde "Estpido".
     O inicio de um sorriso cruzou  a boca dela.
     - Prefere lorde "Cretino" ento?
     - Devon! Pensei que tnhamos feito uma trgua. Por favor, no a ponha em perigo. Creio que "Sebastian" seria mais agradvel.
     Os olhos encontraram-se. Por uma vez, ela sorriu e desviou a cabea.
     - Na realidade no queria ir embora - disse em voz baixa.
     - No?
     - No. Era apenas porque voc olhava para mim dessa maneira to terrivelmente sria.
     "Que lisonjeiro", pensou ele. Olhava para ela como se fosse um ogro?
     - Sim, eu sei. - Murmurou. - Justin  simptico, eu no.
     O seu olhar voltou para ele.
     - O que quer dizer?
     - Querida, acaba de dizer que o meu olhar  terrvel.
     Devon franziu a testa.
     -  srio, mas no  terrvel.
     A moa era contraditria. Tanto, que Sebastian se sentiu atrado por ela. Ento, lembrou-se  da noite que a  encontrou em Saint Gilles., Tinha lhe chamado de 
"lindo". A ele. No disse nada, ficou ali sentado, com uma estranha sensao no peito. Pouco depois, os olhos da sua convidada comearam a ceder. Mas antes de adormecer, 
o seu corpo estremeceu.
         Sebastian inclinou-se para ela, tentando reprimir o impulso de retirar uma madeixa que caia sobre a seu rosto.
     - O que houve? - perguntou com suavidade.
     - Lembrei-me de estar na rua, no frio. - a sua voz tornou-se um sussurro. - No quero acordar assim de novo.
     Sem saber porqu, as suas mos estavam entre as dele. No eram macias nem delicadas, nem usava luvas como as senhoras que ele conhecia. Estavam rachadas, vermelhas 
e secas. Contudo, eram muito pequenas junto s dele. Os dedos dele rodearam os dela.
     - No o far - disse-lhe. - Agora deite-se e descanse, Devon.
     - No sei se posso. Eu... - hesitou - tenho medo.
     - Do que tem medo?
     - De que quando acordar, tudo tenha desaparecido. Que voc tenha desaparecido.
     Ele sentiu-se, sem saber porqu, lisonjeado.
     - E o seu irmo tambem.
     Justin. Claro! O n dos seus dedos enfraqueceu.
     - Prometo-lhe que estarei aqui quando acordar.
     As suas plpebras tremeram, estava quase rendendo-se ao sono, mas ainda suspirou:
     - Este quarto...  to bonito. Srio que . H, Sebastian, gostaria... gostaria de ficar aqui para sempre.
     Sebastian sentiu-se oprimido. No tinha chorado por Harry, mas por aquele estpido chapu. Se no fosse to triste, teria rido diante da imagem que projetava 
com aquela miservel pea que cada e dobrada  sua frente. Havia algo comovente nela. Na maneira como tinha lutado com ele - no s verbalmente, mas da forma mais 
literal! - estando como estava, to dbil quanto um passarinho. O seu sorriso desvaneceu-se ao pensar no murro que tentara lhe dar. Nunca conheceu uma mulher to 
cheia de vitalidade,  exceo de Julianna. Naquele momento, a irritvel menina Devon Saint James parecia to frgil que uma parte dele tinha medo de lhe tocar.
     Mas, de alguma maneira, outra parte dele no podia deixar de o fazer.
     Os olhos dela continuavam fechados quando murmurou algo inaudvel.
Muito lentamente, com a ponta de um dedo, traou a pequena curva do seu nariz, a plenitude marcada dos seus lbios, a forma delicada do seu queixo... um n no estmago 
impedia-o de respirar. Cristo! Era linda, com aquela pele branca e perfeita. "E macia", pensou maravilhado. To macia que a textura dos seus lbios e da sua pele 
parecia de madre prola. Afastou a sua mo.
     " uma chantagem - decidiu com um olhar sombrio. - Uma chantagem emocional tramada pelo Justin." No sabia como tinha acontecido, ou porqu, mas de alguma maneira 
foi seduzido. Melhor dizendo, desarmado.
     Pelo amor de Deus, no podia jog-la na rua. Mesmo que quisesse.
     Mesmo que levasse todo o dinheiro que tinha na casa.

    Captulo 07
          
      No dia seguinte, no fim da tarde, Justin foi encontr-lo no escritrio.
     - Enviei o Avery para confirmar a historia de Devon
     Avery tinha servido a famlia durante quase vinte anos, a sua lealdade era inquestionvel e Sebastian sabia que podia contar com a discrio do seu servo.
     Entrecruzou os dedos da sua mo. 
     - E ento?
     - Tudo o que nos contou  verdade. O lugar onde vive, o lugar onde trabalha.
     O rosto de Sebastian ficou srio.
     - E aqueles com quem se encontrou? Harry e Freddie?
     - Eu diria que teve sorte em escapar com vida. Uma dupla perigosa, sem duvida. Se matou o Fredie, no tenho duvida que foi em defesa prpria. S queria que 
o Harry fosse se reunir com o irmo no inferno. O mundo estaria melhor sem ele.
     Sebastian concordou.
     - Diga ao Avery que mantenha os olhos bem abertos e os ouvidos afinados.
     - J disse
     Sebastian voltou ao trabalho. Era impossvel! Tentou afastar da sua mente a informao sobre Devon que Avery apurara. Tentou afast-la de sua mente. Mas o medo 
que havia vislumbrado naqueles olhos bonitos no deixava de persegui-lo. E ainda podia sentir aqueles dedos pequenos e gelados enredados com os seus.
             Sentiu o medo encrustado em seu prprio peito, at que no conseguiu suportar mais. Era bastante irracional, mesmo estpido. Condenadamente precipitado! 
Mas no podia adiar por mais tempo.
        No ficaria satisfeito at ver com os prprios olhos o lugar de onde Devon provinha.
            
     Uma hora mais tarde, Sebastian sentava-se entre os carregadores do porto que bebiam e comiam no Crow's Nest. A sua indumentaria era semelhante  dos outros 
clientes, todos com roupa de l grossa. Preocupou-se em no atrair olhares, quando passou por baixo da placa pendurada na rua e entrou no escuro e pouco iluminado 
estabelecimento. O interior era pequeno e incmodo, o ambiente alvoraado e barulhento, e a linguagem subia de tom. Os homens acumulavam-se uns contra os outros 
nas mesas compridas e mal cobertas. Sebastian procurou um lugar numas dessas mesas.
     Uma empregada rolia, com cabelo cor de palha, apresentou-se rapidamente.
     - Voc  novo aqui, no ? - No lhe deu a oportunidade de responder, mas cravou-lhe um dedo em seu brao. - Como se chama?
     - Patrick. - Respondeu sem pestanejar.
     - Bom, Patrick. Eu sou a Bridget. O que quer beber?
     - Cerveja.
     Um homem robusto e com barba bateu por trs dele com uma caneca de cerveja contra a mesa.
     - Pelas barbas de Cristo! O que acontesse comigo? - gritou - Ser que um homem no pode beber outra cerveja por aqui?
         - Tenha calma, Davey. Sua cerveja j vem.
     - Bom - respondeu, - mas onde diabo est a Devon?
     Cada fibra do corpo de Sebastian ficou em alerta.  O tipo sentado ao seu lado encolheu os ombros.
     - No a vejo h umas noites. O Timmy acha que ela decidiu que  superior a ns.
     Fez um gesto em direco ao dono, um homem cujo nome inocente desmentia tanto a sua expresso como a sua figura.
     - J tenho outra que comea amanh - disse, - esperemos que seja menos acanhada do que a nossa Devon, no ? - E dirigiu um piscar de olhos ao homem.
     Sebastian estava furioso. Quando Bridget colocou uma caneca de cervaja diante da sua cara, no demorou um segundo a lev-la  boca. Quando acabou, ela j estava 
a caminho do balco. O cliente que estava sentado na ponta da mesa, agarrou uma ponta da sua saia e atraiu-a para o seu colo. O  movimento foi to repentino que 
os pesados seios da empregada quase saltaram do decote do seu vestido. O homem gritou:
     - Temos aqui uma alegre gulosa! No  verdade, rapazes?
     A moa moa emitiu algo parecido com uma gargalhada e os dois caram ao cho. Ele sussurrou algo ao seu ouvido, deixando cair algo na mo dela. Ela aceitou 
com a cabea.
     Sebastian ps uma moeda na mesa e levantou-se. No havia necessidade de permanecer ali por mais tempo. Tinha visto tudo quanto precisava.
     Uma vez na rua, no voltou ao lugar onde tinha deixado Jimmy, o cocheiro. Em vez disso, deu a volta e caminhou com grandes passadas ao mais profundo de Saint 
Gilles. Os seus assuntos ali ainda no tinham terminado.
    
     Era uma hora bastante indecente quando regressou a Mayfair. Quando entrava pela porta, ocorreu-lhe que, precisamente por isso, era muito possvel que encontrasse 
Justin de volta tambm. E assim foi. Encontraram-se cara a cara na hall de entrada.
     - Sebastian? - Justin olhou para ele de cima para baixo. - Por todos os santos, homem, de que est disfarado?
     Sebastian sorriu ao mesmo tempo em que tirava a boina de l bordada que lhe cobria a cabea.
     - O meu nome  Patrick - disse com o melhor acento escoes que conseguiu, - e sou um marinheiro do norte.
     - Se tivesse encontrado voc na rua, no te teria reconhecido!
     - Foi isso mesmo que aconteceu quando me vesti assim para o baile de mscaras de Pemberton h uns anos. A nossa hospede no  a nica a dominar a arte dos disfarces.
     - Ah,  por essa razo que... - calou-se. Nesse mesmo instante, enrugou o nariz e afastou-se um passo do seu irmo, a sua boca dando um trejeito de desgosto. 
- Caramba. Cheira a cerveja e a fumo. No me diga que esteve em Saint Gilles!
     J a caminho do escritrio, Sebastian ignorou o tom acusador do irmo.
     - Tudo bem, ento. No digo.
     Justin adotou um tom desafiante.
     - Diabo! Eu disse que mandei o Avery para comprovar a historia de Devon. No acreditou em mim?
     Uma das mos de Sebastian segurava a garrafa de brandy e a outra o copo.
     - No  isso.
     - Ento o que ?  dela que desconfia? Do Avery? De mim? Ou de todos ns?
     - No fiz por isso. - Disse Sebastian com pesar. Sentou-se atrs da sua mesa do escritrio. - Queria ver com os meus prprios olhos. Precisava ver.
     O ambiente estava calmo e silencioso quando levou o copo  boca. Justin aproximou uma das cadeiras e passou a mo por uma madeixa desalinhada do seu cabelo.
     - Meu Deus. - disse com voz estranha.  como se tivesse estado no inferno e tivesse voltado. - Uma vez que comeou, no conseguiu parar.  -Pedi ao Jimmy que 
me deixasse nos arredores de Saint Gilles. Tinha acabado de virar a esquina quando me deparei com um homem que no tinha braos, numa porta perto do Crow's Nest, 
Havia uma mulher sem pernas.
     -  um truque, um estratagema. No lhes deue dinheiro, no?
     - No. Mas dei a trs crianas sem sapatos.
     Justin assentiu.
     - Bem pensado.
     - Quando deixei o Crow's Nest, caminhei at  casa dea Devon.
     - Fez o qu?
     - Ouviu bem. Caminhei.
     Justin apoiou o peso do seu corpo sobre um cotovelo.
     - Deus santo, homem! Foi abordado por algum?
     Sebastian emitiu uma gargalhada spera.
     - Ah, sim! Por um mendigo. Dei-lhe umas quantas moedas. Agradeceu e depois tentou limpar meus bolsos. - Fez uma pausa para sorrir. - Mas sem xito. Os seguintes, 
bom, eram um pouco mais persistentes, e teriam gostado de continuar onde o outro parou.
     - Eram vrios?
     - Sim, dois.
     - Meu Deus, imagino que tenha pedido ajuda.
     - Que disparate! No houve necessidade.
     Sebastian bateu com o seu punho contra a palma da outra mo e encontrou o olhar do seu irmo.
     - J percebeu que no foi preciso.
     Justin olhou para ele fixamente.
     Sebastian sorriu.
- O que ? Nunca ouviu falar dos meus dias como lutador em Oxford? No, imagino que no, porque foi para Cambridge. Ah, mas enchia os bolsos todas as noites, querido 
irmo. E ainda tenho o toque, pelo que parece, porque sa dali sem um arranho.
Justin aproximou-se da garrafa.
         - Bom, bom. Todos temos os nossos segredos, no? Embora ainda custe a acreditar que foi sozinho a Saint Gilles. E ainda me chama de malandro? Pelo amor 
de Deus, preciso de uma bebida. - Encheu o copo e bebeu o brandy em dois goles. Ia servir-se de outro quando viu a expresso de Sebastian.
     Lentamente, baixou o copo.
     - Ainda h mais?
     - Sim.
     - Sou todo ouvidos.
     - Conheci o Phillips - disse Sebastian esfregando os dedos.
     - O senhorio de Devon?
     - Sim. Na minha opinio pertence a uma espcie superior de verme.
     - Entendo.
     - No se mostrou especialmente contente quando este marinheiro escoes bateu  porta errada e o levantou da cama.
     Justin recuperou finalmente a serenidade.
     - Achou mesmo que se enganou de na casa?
     -  verdade. De repente mudou de atitude e mostrou-se bastante hospitaleiro quando lhe mencionei que no tinha lugar onde passar a noite. Claro que, me informou 
que tinha alguns quartos disponveis.
     - Ento viu onde Devon vivia?
     - Claro. Quer que te conte? O teto era to baixo que dificilmente poderia me manter em p.  S h uma janela. O nico mvel  era uma cama em um canto. Nem sequer 
havia um banco. No havia espao nem para dar uma volta sobre mim.
     Sebastian comeou a recordar tudo de novo:
     - Disse que Devon era uma "pequena rameira" que foi embora dali sem lhe pagar. Fiquei com vontade de quebrar a cara dele ali mesmo. E ento, veio a minha oportunidade. 
Quando o informei que esperava mais pela renda que ia pagar por uma msera cama, sentiu-se ofendido. Em consequncia, devolvi-lhe a ofensa.
     O seu queixo apertou-se com fora.
     - Por Deus, Justin, devia ter visto. Nunca conheci um lugar to miservel. E a Devon viveu ali. - Perdeu o olhar nas sombras e disse. - No voltar para aquele 
lugar. Nunca. No permitirei.
     Justin dirigiu-lhe um longo e lento olhar.
     -  uma afirmao e tanto, vindo do homem que no a queria em sua casa, a principio. - Elevou uma sobrancelha, mas a expresso de Sebastian manteve-se severa. 
- Porque que est assim? Bateu em trs homens esta noite.
          - Quatro. Esqueceu do Phillips.
     - De qualquer maneira, no quero ser o prximo. - Fez uma pausa. - O que planeja para ela?
     Arqueou as sobrancelhas.
     - Entendo, ainda no tem planos. Conhecendo como  organizado, imagino que o assunto deve estar sendo muito incmodo.
     - Deixa, Justin.
     - Ah, vamos. Toda esta noite foi incomum para voc, Sebastian. At poderia pensar que esse marinheiro, o Patrick, raptou o meu irmo. - Moveu a cabea numa 
fingida reprovao. - Bebendo, lutando pela rua. Se o pai estivesse vivo, duvido que tivesse aprovado.
     Sebastian ficou tenso. A raiva no era algo que o dominava sem motivo. Mas este era o lado de Justin - o seu lado custico - o que mais odiava. Justin sabia 
muito bem e, contudo, no eram poucas as ocasies em que tentava faze-lo perder o controle.
     Algum dia, refletiu Sebastian, a lngua viperina de Justin iria lhe trazer problemas e lamentaria sinceramente.
          Ainda assim, o seu tom foi seco ao avis-lo:
     - J passou, irmo. Tento no olhar para trs, e aconselho-te que faas o mesmo.
     - Sim, tens razo. Como de costume. O que me faz lembrar de outra coisa.
     - E o que ?
     - Bom, no sei se corresponde a mim assinalar, mas temos debaixo do nosso teto uma mulher solteira. E conheo a sua opinio sobre os escndalos. Assim, se alguma 
vez se falar do assunto, aceito a responsabilidade.
     A tenso desapareceu dos ombros de Sebastian. O carcter volvel de Justin s vezes era desconcertante.
     - No seja absurdo. - E naquela maneira arrogante que s podia pertencer a um marqus acrescentou - Demos guarida a uma pobre e infeliz menina da rua. Os criados 
so muito leais para questionar o assunto, ou nos trair.
     -  verdade, a sua reputao  inquestionvel.
     - E a sua bastante questionvel, devo dizer.
     - Bom, isso no discuto. - Justin tirou um cigarro do bolso. - o que me faz lembrar que... como vai a caa?
     Sebastian revirou os olhos.
     - A caa? Pelo amor de Deus, irmo, no tenho intenes de ir  caa.
     Justin deu uma gargalhada.
     - Como, j se rendeu?
     S ento captou o significado.
     - Por favor, encontrar uma esposa  a ultima coisa que passa pela minha mente neste momento!
     Franziu o rosto quando viu Justin rir com mais fora.


    Captulo 08
     
     Devon se recuperava.
      E se recuperava bem. Em poucos dias, conseguiu levantar-se da cama. A dor nas suas costas diminuiu gradualmente at se transformar num ligeiro incmodo. Rapidamente, 
sentava-se e caminhava pelo quarto. Tansy, a pequena criada que a servia, entrou uma manh no quarto carregada de vestidos de Julianna, seguindo as indicaes de 
Sebastian, segundo disse. Todos lhe serviam com perfeio; nos quadris, no comprimento e nos ombros; mas nos seios... no havia nada a fazer. As suas curvas arredondadas 
aumentavam a linha do pescoo e no havia nada que pudesse fazer para escond-lo. Julianna era claramente menos dotada de seio do que ela.
     At aos dezasseis anos, era mirrada e fraca, at lhe davam menos idade do que tinha. Sentiu-se muito orgulhsa quando os pequenos vultos do seu seio comeara 
finalmente a florescer. Por acaso alguma jovem no gostava de se ver como uma mulher? Mas ao comear a trabalhar no Crow's Nest, chegou a odiar os olhares esfomeados 
que os homens lhe dirigiam, e que atravessavam o seu corpo, em particular os seios. Olhavam para os seios, como olhavam para os seios de Bridget. Se os agarravam, 
beliscavam-nos e tentavam retorc-los.
     Porque os homens do porto se sentiam to fascinados pelos seios femininos?, tinha feito essa pergunta um dia bastante irritada. Bridget tinha encolhido os ombros 
e respondera alegremente que era a forma de ser dos homens. Durante o tempo em que Devon ali trabalhou, nunca chegou a habituar-se aos olhares lascivos.
     E de alguma maneira, sabia que nunca se conseguiria habituar-se.
     A perspectiva de ter que voltar a trabalhar l aterrorizava-a. Na verdade, era uma das coisas que estava determinada a evitar a todo o custo. Tinha que ter 
uma maneira, disse a si prpria. Pensou com convico que os milagres aconteciam. Porque, o simples fato de estar em Mayfair era uma prova disso.
     Cada manh quando despertava naquele quarto lindo, que era como um raio de luz, lembrava-se a si prpria onde estava - numa manso de Mayfair - recordava-se 
que no era apenas um sonho fruto de um desejo feito realidade, uma ansiedade que nem sequer sabia que tinha dentro de si, at que soube que era possvel. Ai, mas 
seria to fcil habituar-se a viver daquela maneira! Caf da manh na cama, ch ao lado da janela com um cobertor nos joelhos, jantar diante do calor e do crepitar 
do fogo, uma lareira para a manter quente durante a noite... o prprio cu! Sem passar fome. Sem ter que se preocupar  em arranjar dinheiro para pagar as despesas.
     Mas tambm se dizia, vezes sem conta, que no devia se acostumar demais a esta vida. Rezava para que quando estivesse bem, Sebastian a deixasse ficar o tempo 
suficiente para encontrar um trabalho numa casa idntica a esta. No lhe importaria trabalhar duramente, desde que no voltasse a Saint Gilles.
             Embora os dias estivessem cheios de esperana e comodidade, as noites passava-as com dificuldade. Quando tudo ficava em silencio e se encontrava sozinha, 
um desespero profundo apoderava-se da sua alma.
     No conseguia esquecer.
     "Com as suas mos", dissera Sebastian.
     E assim era.
     Freddie morrera por sua culpa. Matara um homem. O assassinou.
     Esta certeza estava atormentando-a.
     Deitou-se na cama uma noite, e tentou com todas as suas foras esquecer. Tentou no pensar. Deu voltas durante horas, tremendo, lutando para no deixar sair 
as lgrimas que lhe roavam a garganta. Foi inevitvel, talvez, que a sua mente se voltasse para Sebastian, que, segundo lhe tinha dito Tansy, tinha sado essa noite.
      Se soubesse o que fazer com ele! O marqus passava todos os dias pelo seu quarto para ver como estava. Vinha sempre vestido de maneira impecvel, com a sua 
forma de ser sempre educada. E de alguma maneira, s de v-lo provocava-lhe uma sensao de pesar e de falta de jeito na lngua, fruto daquela personalidade formidvel 
que ela tinha conhecido nele.
         Na manh anterior, por exemplo, ela estava na cama enquanto Tansy limpava o quarto. Se sentia mal ao ver como a pequena criada de olhos vivos trabalhava, 
e ela sem fazer fazer nada, ento levantou-se para ajudar.
     - No, no, senhorita Devon! - gritou. Claro que, Sebastian escolheu aquele momento para passar. O seu corao saltou ao v-lo. O seu olhar escuro aatravessou-a 
desde a cabea at  ponta mais remota dos seus ps, desenhando com uma sobrancelhqa uma expresso de reprovao. O silencio foi suficiente. Devon apressou-se a 
descalar-se e a puxar as mantas at que no se viu mais nada alm do seu queixo.
     Aparentemente, o seu tratamento para com ela tornara-se mais relaxado. Contudo, no conseguia deixar de pensar que ele a considerava uma meretriz. E no sabia 
como convence-lo do contrrio.
     Uma estranha dor revolveu-lhe as entranhas. De todas as formas, o que importava? Tambm no podia ficar naquela casa para sempre.
     Uns dez dias depois da sua chegada, acendeu uma vela, vestiu-se e aventurou-se pelo corredor. Era uma coisa bastante atrevida, ela sabia, e sentiu-se como a 
ladra que Sebastian dizia que era. Mas desde o inicio, tinha sentido uma grande curiosidade por conhecer a casa. A julgar pelo mobilirio do seu quarto que era imponente, 
o marqus, segundo lhe comentou Tansy, devia de ser muito rico. A moa garantiu-lhe com um sorriso decisivo.
     Eram altas horas da madrugada e, com toda a certeza, no haveria ningum acordado. Seria bom esticar as pernas. Embora o seu quarto fosse maravilhoso, comeava 
a sentir-se um pouco aborrecida em ficar l o dia todo sem fazer nada. Tentando no fazer rudo, desceu as escadas e percorreu a casa na ponta dos ps, observando 
cada uma das salas. Estava no salo, com a sua mesa gigantesca e os candelabros de prata. O aparador era delicado, com um servio de porcelana cujas peas se alternavam 
com delicadas figuras que pareciam fantasmas  luz da lua. Tudo era elegante, caro e aristocrtico como o marqus.
     Com um pouco de medo, mas determinada a satisfazer a sua curiosidade, dirigiu-se  sala seguinte. Era enorme, de tetos arqueados. Umas janelas altas ladeavam 
a lareira de mrmore e filas inteiras de livros enchiam as prateleiras alinhadas que cobriam as paredes.
     A biblioteca.
     A sua me teria ficado encantada com esta sala, pensou dolorosamente. Como desejava que a me estivesse ainda viva e pudesse v-la! Trs meses haviam passado 
desde o seu falecimento, e no havia um dia - nem sequer uma hora - em que Devon no tivesse saudades dela. As lgrimas voltaram aos seus olhos, e tentou sec-las 
com as costas da mo.
     Roou com os dedos os braos da poltrona que ficava diante do fogo e deteve-se. A pele era suave, como a de uma criana. Na lareira ainda havia brasas acesas. 
No conseguia imaginar nada mais acolhedor do que sentar-se na poltrona e sentir a luminosa calidez do fogo.
     L fora, um vento forte precipitava as gotas de chuva no vidro. O som dos troves faziam-na tremer: no esquecia o frio e a chuva que empapavam a capa at enregelar 
a pele.
     Pensou, embora no pela primeira vez, na sorte que teve por Sebastian a encontrar e permitir que ficasse em sua casa. A sua boca fechou-se com um esgar. Se 
soubesse que andava vagando pela casa, a jogaria na rua sem hesitao!
     O ventou uivou de novo. Ouviu um som estranho como de arranhes na porta. O seu primeiro instinto foi agachar-se atrs da poltrona para se esconder.
     De novo, o mesmo arranhar, mas cada vez mais forte. Mais insistente. E outro mais, muito mais insistente que os outros e acompanhado agora por uma espcie de 
lamento. Movida pela curiosidade, saiu da biblioteca em direo ao rudo, antepondo o candelabro para iluminar o caminho. Lentamente, ergueu-se e abriu a porta com 
cuidado.
     Uma rabanada de vento surpreendeu-a de tal forma que esteve prestes a perder o equilbrio. Algo frio e molhado atravessou a porta por baixo das suas pernas 
at o hall. Reprimiu um grito e olhou para baixo, inquieta. Aos seus ps, dois olhos escuros e expressivos olhavam para ela. Devon piscou: um cachorro! Molhado e 
desmazelado, tremia desde a ponta das orelhas at  cauda, empapado pela tempestade. Era bastante feio, com um focinho que parecia colado  cabea. Algo que, no 
entanto, tornava-o mais encantador. O seu pelo era longo, e arrastava-se at aos azulejos do cho. Sim, parecia uma bolinha, parecia no ter patas!
     Colocou o candelabro numa pequena mesa oval que encontrou nas suas costas, e ajoelhou-se ao seu lado.
     - Oh, meu cachorrinho! Est gelado at os ossos, no ?
     O co meteu o nariz frio entre as mos que ela estendia, e gemeu de tal forma que a comoveu profundamente.
     - Tem fome? - perguntou.
     Podia jurar que os olhos dele brilharam.
     - Vejamos se podemos encontrar algo para comer, o que acha? -refletiu em voz alta. - sobrou um pedao de queijo do meu jantar. Os ces gostam de queijo?
     Bom, descobriria, pensou, e continuou a dirigir-se a ele:
     - Agora, Pizquita, fique onde est. - Assinalou com um dedo e riu para si prpria. - "Pizquita." Precisa de um nome melhor do que esse, no acha? Como poderemos 
te chamar? J sei, Webster, ser Webster!
     Evidentemente, o nome foi recebido com um movimento louco de rabo.
     - timo - disse Devon, encantada com a sua escolha. - Fique aqui, Webster.
     No demorou mais de uns minutos para ir ao seu quarto e encontrar o pedao de queijo que guardou em um guardanapo para uma ocasio melhor. Ao voltar, comprovou 
que Webster no havia se movido do seu lugar.
     - Bom rapaz, Webster. - Sentada de ccoras, agarrou um pouco de queijo e ofereceu-o com a mo. 
     No teve que convenc-lo, porque o animal engoliu-o rapidamente. Devon riu com prazer. Uns olhos pequenos observavam-na expectantes.
     - Pacincia, Webster. - Uma virtude que ela nunca poderia dar lies.
     O bater da porta chamou a sua ateno. Sem sombra de duvidas, havia algum ali. Sebastian? Justin? Algum dos criados iria abrir a porta? Fosse como fosse, haviam-na 
apanhado com a mo na massa. No daria tempo para esconder Webster e desaparecer escadas acima: iriam v-la de qualquer maneira.
     Desesperada, escondeu o cachorro por baixo da saia.
     - No diga nem uma palavra! - sussurrou-lhe. "Como se pudesse", pensou com uma risada.
     Uma corrente de ar roou os seus ps nus. A porta abriu-se. Quando se voltou para olhar, Sebastian estava de p diante dela.
     - No estava roubando - apressou-se a dizer. S ento percebeu que escondia os restos do queijo numa mo atrs das costas.
     Sebastian no respondeu, limitou-se a mover a cabea, duvidoso.
     Devon tragou a saliva. Os seus olhos elevaram-se at se encontrarem com uns ombros largos cobertos com uma l de excelente qualidade. O intricado n da sua 
gravata, a coluna curvada do seu pescoo. Sentiu uma pontada no seu estmago, algo que no conseguia identificar. Ali de p, to perto dele, a nica coisa em que 
conseguia pensar era no quanto estava bonito, na sua intensa masculinidade, to diferente de qualquer outro homem que conhecera.
     Pareceu-lhe estranho estar diante dele, de p. No era uma postura que quisesse manter por muito tempo, pensou vagamente, porque com a sua altura, acabaria 
por padecer de torcicolo.
     Entretanto, os olhos de Sebastian ocupavam-se em inspecionar o seu comprimento. Devon lamentou no ter o cabelo penteado. Mas que espcie de estupidez era aquela? 
Irritou-se com ela prpria. Porque se preocupava com o seu aspecto na frente dele? Ele tinha expressado a sua opinio sobre ela com bastante clareza, e sabia que 
no mudaria de ideia.
     Demonios! Agora estava olhando para ela com aquela expresso reprovadora que a fazia se sentir incomodada. Levou uma mo  garganta.
     - O que foi?
     - Nada. Apenas me agrada ver que tem to bom aspecto. A cor est voltando s suas faces. - deu um passo para se aproximar dela.
     Devon quis dar um passo atrs, mas lembrou-se que tinha um cachorro entre as suas pernas.
          - Ah, sim. Estou muito melhor. - Confusa, pensou que no podia ficar ali de p para sempre com Webster entre as pernas. Meu Deus, estava frio!
     -  verdade - disse Sebastian com doura. - pelo menos j no desmaia nos meus braos.
     Devon corou, sabendo que ele veria o rubor que a cobria at ao cabelo. S de mencionar os braos dele, o seu pulso acelerou-se. Tinham sido fortes, os braos, 
seguros e quentes e, de repente, o calor das suas faces estendeu-se por cada parte do seu corpo, at  ponta dos ps. Ai, os seus braos...
     Sem duvida nenhuma, era o lugar mais seguro e confortvel.
     Entre as pernas, sentiu como Webster se virava e caia no cho.
     A ponta da saia mexeu-se. Esqueceu o calor do rosto e paralizou. "No", pensou horrorizada. "Oh, no". Os seus olhos cravados no rosto de Sebastian. "Ter percebido?"
     Um novo olhar deteve-se nas saias de Devon. Uma das suas povoadas sobrancelhas arqueou-se, daquela maneira imperiosa que tinha. Porque de fato, Sebastian tinha 
percebido. "Que raio  aquilo?", perguntou-se.
     - Menina Saint James - comeou.
     - "Devon", concordmos que me chamaria Devon, lembra-se? E que eu lhe chamaria Sebastian.
     - Muito bem, ento. Diga-me, Devon, o que  que tem escondido debaixo do seu vestido?
     - No  o meu vestido,  da sua irm.
     A criatura fugia do assunto. Apoiando-se ora num p, ora no outro. e umas vezes brilhava outras parecia culpada.
     - Mas  voc, Devon, quem o veste. Por conseguinte,  seu.
     Outra vez viu o movimento. Mudou de p, como se quisesse escond-lo. Sebastian entrecerrou os olhos como se assim pudesse ver melhor. Podia ver. No, no era 
possvel. Pelos cravos de Cristo, era uma cauda!
     - Escondeu algo debaixo da sua saia, Devon? - Podia muito bem estar perguntando pelo tempo.
     Com a ponta da sua lngua humedeceu os lbios.
     - Claro que no.
     Sebastian apenas olhou para ela. Estava muito ocupado observando aquela pequena e delicada boca, o movimento sensual e desinteressado da sua lngua sobre os 
lbios.
     Obrigou-se a afastar a vista. Por Deus, o que acontecia com ele? Obrigou-se a voltar ao assunto que o ocupava.
     - Tem certeza?
     - Claro. Se tivesse alguma coisa escondida por baixo da minha saia, no saberia?
     Enrugou as sobrancelhas. Ela no parecia muito segura.
     - Espero que sim - disse, pensando que era una pssima mentirosa: em toda a sua vida, nunca tinha visto uns olhos to grandes.
     Outro movimento por baixo das saias. Agora, um focinho tinha substitudo o rabo! O focinho de um co, se no se enganava.
     - Talves devssemos dar uma olhada. - Antes que ela pudesse replicar, agachou-se e agarrou com uma mo a ponta da saia.
     O co rosnou e atirou-se a ele, e Sebastian afastou a mo bem a tempo. Calando um palavro, voltou a por-se de p:
     - Maldita criatura!
     - No, no. Ai, desculpe! Ele s tem fome.
     - Fome! Mas ele parece que no perdeu uma refeio em toda a sua vida!
     Devon agachou-se e deu a co o ltimo bocado de queijo que tinha.
     - Tambm tem frio - Acrescentou, ficando em p mais uma vez - No v como treme?
     O desgraado agora no tremia. Na realidade, parecia um tanto agressivo!
     Sebastian olhou para ele com a testa franzida.
     - Este vira-latas parece um rato de esgoto gordo e peludo.
     Os olhos de Devon brilharam.
     - E voc disse que eu parecia uma mulher da rua!
     "J no paree", pensou Sebastian.
     - Tem a mesma barriga que voc tinha. Com a diferena, que esta no  fruto de nenhum artificio, mas sim de uma descarada gulodice.
     - Mesmo assim, no parece um rato de esgoto!
     Sebastian recusou-se a dizer o que pensava, a pequena parecia bastante ofendida.
     - Como  que entrou aqui? - perguntou aborrecido. Uns dentes pequenos cravaram-se na carne rosada do seu lbio inferior.
     - Bom - aventurou - eu o deixei entrar.
     - No te seguiu at aqui, no ?
     - Claro que no. Ouvi uns arranhes na porta e quando fui abrir, ele entrou. Pode andar perdido.
     Sebastian duvidou que algum quisesse semelhante vira-lata.
     - Nesse caso,  melhor deix-lo l fora, se algum estiver  procura dele.
     - Mas isso  precisamente o que no devemos fazer! - Devon agarrou o co nos braos. - Pode se perder de novo. Por favor, pode ficar? Pelo menos at ficar quente, 
comer um pouco e ficar seco? - Continuou em seguida. - Eu fico com ele no meu quarto esta noite, no ser um estorvo, juro. Batizei-o de Webster, e garanto-lhe que 
ter muito melhor aspecto depois de um banho.
     "Como ela", disse uma voz em alguma parte do seu crebro. Suspirou.
     - Devon...
     - Por favor, no conseguia suportar a ideia de que fique l fora outra vez, com este tempo horrvel.
     Sebastian tentou negar. Tinha a inteno de recusar a ideia. Mas todas as suas boas intenes derreteram-se quando viu a suplica naqueles enormes olhos dourados. 
E viu algo mais neles tambm.
     O indiscutvel sinal de lgrimas recentes. Deus meu, havia chorado. Chorado!
     Em toda a sua vida, nunca ficara to confuso. Queria pedir-lhe que dissesse o porqu. Mas algo no seu interior o deteve. Parecia to cheia de esperana. E pensou 
que no podia trancar essas esperanas.
     "Diabos", pensou, perplexo. Diabos! Como podia um homem dizer no? Como podia ele?
     - Suponho que no h nenhum mal em deix-lo ficar.
     O sorriso que iluminou o rosto dela foi to doce, que ficou gravado em seu corao.
     - Obrigado, senhor.
     - Sebastian - recordou-a.
     - Obrigado, Sebastian. Sim, obrigado!
     Abraando o co contra o peito, voltou-se e comeou a subir as escadas. Mas no primeiro degrau, parou e virou-se para olh-lo, mordendo o lbio.
     "Agora", pensou. Agora vai me dizer o que aconteceu.
     - Tenho uma confisso a fazer - parou hesitante - eu... eu... - desviou o olhar para o lado, depois para baixo e depois para o teto antes de voltar a olhar 
para ele. Embora no o olhasse nos olhos. - Menti - disse finalmente.
     Como se fosse uma novidade para ele. No entanto, Sebastian no se mexeu. Mais, tentou no deix-la perceber que se divertia com  sua afirmao, e cruzou os 
braos.
     - Mentiu?
     Tragou a saliva.
     - No ouvi apenas o Webster na porta. Eu... eu queria ver a sua casa.
     - Queria ver a minha casa - repetiu.
     Agora olhava para ela como se fosse tirar o chicote a qualquer momento.
     - Sim, no conseguia dormir e me aborreci no meu quarto.
     - Pensei ouvi-la dizer que o achava um quarto lindo.
     - Sim, sim, e . Mas esta casa  to maravilhosa, que queria v-la toda.
     - Entendo.
     Olhou para ele fixamente.
     - Srio?
     - Sim.
     - E no est aborrecido?
     - No - disse docemente. - Mas agora que se sente melhor, no h necessidade de vagar pela escurido - deteve-se. - Vou dizer  Tansy para lhe mostrar a casa 
amanh, se quiser. Eu mesmo mostraria, mas temo que eu e  Justin tenhamos negcios para tratar amanh. Depois, tenho um compromisso  noite. - observou-a de perto. 
- tudo bem?
     Devon olhava para ele boquiaberta, observou, e teve que refrear o seu impulso para no rir. Sentia uma necessidade indecente de a atrair para si, de lhe prender 
o rosto entre as mos e fechar os seus lbios contra os dela.
     Afastou aquele pensamento e respondeu por ela.
     - Sim? Excelente, ento. Ah, e Devon? Sinta-se livre para utilizar qualquer sala que quiser. Garanto-lhe que todas parecem muito mais bonitas  luz do dia. 
Desta forma, no terei que me preocupar que caia ao subir as escadas a meio da noite.
     - Obrigado - disse debilmente -  muito amvel da sua parte.
     -  um prazer - respondeu gentilmente.
     E era verdade! Ali estava ela sorrindo novamente, o mesmo sorriso satisfeito que quase lhe roubava o flego. Faria qualquer coisa para fazer o seu rosto brilhar 
de prazer da maneira como estava brilhando agora.
     Muito tempo depois de ela fechar a porta ao sair, Sebastian permaneceu na entrada. S ento perguntou a si mesmo se estava a ficando louco.
     Porque sem saber como, estava dando abrigo no a um desfavorecido, mas a dois.



    Captulo 09
     


     Quando Devon despertou, Webster levantou-se com os olhos brilhantes e moveu o rabo com prazer. No parecia to feio como na noite anterior, embora continuasse 
precisando de um banho.
     Tansy e ela trataram dessa tarefa. Foi ento quando Devon fez uma pequena descoberta sobre a criatura. Duas criaturas, na realidade. A principio, pareceu-lhe 
divertido, porque tambm no mudava muito as coisas. Mas depois... bom, no tinha bem certeza de como podia dizer a Sebastian, ou se devia dizer.
     Depois, Tansy mostrou-lhe a casa. Ao entrar em cada uma das salas, pensou que Sebastian tinha razo: a casa era muito mais bonita vista  luz do dia. Elegantes 
artesanatos lavrados marcavam os tetos, as janelas e as portas; o mobilirio combinava o luxo com o conforto. Ramos de coloridas e brilhantes flores adornavam cada 
mesa e aromatizavam o ambiente. No era a poca daquelas flores e Devon se perguntou de onde viriam, embora no tivesse a coragem de indagar sobre isso. Mesmo diante 
de Tansy, esforava-se por no parecer ignorante.
     O mau tempo da ltima noite tinha dado lugar a um dia luminoso, o que a fez lembrar que o calor da primavera estava perto. Tansy tinha lhe falado de um pequeno 
jardim na parte traseira da casa. Quando a criada voltou ao trabalho, Devon cobriu os ombros com um xale - outro emprstimo da ausente Julianna - e deslizou para 
o exterior.
     O jardim, vedado de ladrilho vermelho pelos trs lados, estava cheio de arbustos e rvores bem podados. Devon ficou sem respirao diante de tanta beleza. No 
vero, devia de ser maravilhoso, com o perfume das flores e o verde vibrante das plantas. Por baixo de um arco de madeira comeava um caminho que terminava em um 
banco de pedra, no canto mais afastado do jardim. Levantou a cabea para deixar que o sol banhasse o seu rosto e a brisa a envolvesse, vendo como os raios de luz 
voavam roando a copa das rvores. Ficou ali at que o entardecer a surpreendeu.
     Serviram-lhe o jantar no seu quarto. Depois, aventurou-se a descer  biblioteca.
     - Ol.
     Era Justin. Algo parecido com a desiluso passou pelo seu rosto: prefiria que fosse Sebastian. Por Deus, o que estava lhe acontecendo? Porque queria ver Sebastian 
a toda hora? No fazia sentido, nenhum sentido, sobretudo tendo em conta a opinio que tinha dela. Por alguma razo que desconhecia, quando estava na sua presena, 
o seu humor era um torvelinho de emoes. Sentia-se insegura consigo prpria, com os seus sentimentos, como se tudo girasse em diferentes direes.
     No tinha medo dele, de fato no tinha duvida nenhuma quando estava junto a ele. Para dizer a verdade, tinha um medo reverencial. No era apenas a altura, embora 
fosse verdade que nunca se encontrara com um homem do seu tamanho. Tambm no era a sua escura beleza ou a sua atraente elegncia. Era diferente de todos os homens 
que conheceu. No Crow's Nest, os homens pavoneavam-se e gabavam-se sobre eles mesmos e os seus feitos. Sempre achou isso bastante irritante.
     Mas com toda a certeza, Sebastian no precisava disso. Ele desprendia, quase involuntariamente, um halo de confiana e pose. Sem dizer uma palavra sequer. Precisava 
somente olhar para saber que ele era o melhor, um homem dotado para conseguir tudo o que quisesse.
     Fascinava-a, mesmo quando conseguia provoc-la com o seu ar de superioridade.
     Mas na noite anterior fora to bom para ela. Meigo. Mesmo no gostando, tinha consentido em que ficasse com o cachorro. No ficou aborrecido ao saber que andara 
bisbilhotado pela casa em plena noite, como a ladra que estava convencido que ela era.
     No conseguia esquecer a noite em que levantou da cama e havia anunciado que queria deixar a casa. Em vez disso, caiu nos seus braos. as memrias do que aconteceu 
depois, estavam um pouco enevoadas, mas teria jurado que ele tinha lhe acariciado o rosto, os lbios, uma carcia to gentil que lhe dava vontade de chorar s de 
pensar.
             Tentou afastar essa imagem da sua mente e centrou-se no homem que estava  sua frente. Gostava de Justin, pensou. A sua forma de ser, transmitia uma 
auto-confiana quase casual, mas sem ser pretencioso, pelo menos no com ela, e Devon gostava disso. No visitara muito, ao contrrio de Sebastian, com quem se sentia 
sempre tmida. Com Justin sentia-se livre para dizer o que quisesse. No dia anterior, por exemplo, contara a ela alegremente que passava os seus dias jogando, a 
montando cavalo ou frequentando  s corridas, enquanto que as noites se dedicava a ocupaes, que, segundo disse, no eram muito adequadas para os ouvidos de uma 
menina.
     Mas Devon, evidentemente, era toda ouvidos.
     - Ento  um malandro - pronunciou, embora no pudesse dizer que fosse verdade.
     Justin juntou os calcanhares e piscou-lhe um olho.
     - O homem mais bonito de toda a Inglaterra, ou pelo menos,  o que dizem.
     Devon nem sequer precisava pensar. Um homem bonito, sem duvida que era. Mas o mais bonito? No, na sua opinio, Sebastian era o homem mais bonito de toda a 
Inglaterra.
     - E isso o deixa satisfeito, senhor?
     Ele riu.
     -  o mais lisonjeador que j disseram sobre mim. Se disser a verdade, tambm sou conhecido por ser um malvado, um canalha, e outros nomes que tenho medo de 
repetir na sua presena.
     - Ah, duvido que seja to mau como dizem.
     - Mas sou, garanto-lhe. Sebastian  o cavalheiro da famlia. Ele foi heri de guerra, sabe? Ajudando os feridos no campo de batalha da pennsula. Diria at 
que teria sido um bom medico. Tem a pacincia de um santo.
     Devon no se surpreendeu ao saber que era um heri. Um homem intenso, que era o que ela pensava dele. No que dizia respeiro  pacincia, Devon no conseguiu 
evitar ter algumas duvidas que assim fosse. Estava convencida que ela no lhe provocava aquela virtude.
     Justin sentou-se na cadeira oposta  sua. Ao faz-lo, um nariz negro e molhado cheirou-lhe os tornozelos.
     - Bom, ol! O que temos aqui?
     Devon contou-lhe o que tinha acontecido na noite anterior.
     - No creio que o seu irmo esteja muito contente com a ideia - concluiu.
     - Oh, no se importar. Quando ramos pequenos, Julianna trazia para casa animais desamparados. Lembro-me de uma vez que trouxe um esquilo que caiu de uma rvore. 
A nossa me, evidentemente, gritou e quase desmaiou.
     - Sua me tambm vive em Londres?
     Uma sombra pareceu cruzar o seu rosto. "De tristeza?", perguntou-se. Passou um momento antes que Justin respondesse.
     - No, os nossos pais esto mortos. De todas as formas, eu j ia embora. Mas Sebastian me disse que estava aqui e decidi entrar e fazer-lhe uma visita.
     - Ele est em casa? - Fez o que pde para parecer despreocupada, mas no seu interior sentiu-se de repente vivamente atordoada - disse-me que esta noite tinha 
um compromisso at tarde.
     - Sim. A viva do duque de Carrington dar um baile esta noite. Est l em cima se arrumando. Eu no fui convidado. A aceitao na sociedade depende da aprovao 
da duquesa, entende? Creio que a duquesa s me tolera porque ela adora o Sebastian. No  que pense em passar a noite me lamentando. Na realidade, estas coisas conseguem 
ser incrivelmente aborrecidas.
     Para Devon, um baile era terrivelmente excitante.
     - Est sendo sarcstico, no ?
     - Sempre - replicou. Estendeu uma mo ao co e riu quando uma lngua hmida lambeu os seus dedos. - Uma criatura verdadeiramente sentimental, no ?
     Nenhum dos dois percebeu que Sebastian estava na porta observando-os. Aqueles dois pareciam se dar muito bem, pensou. Passou-lhe pela cabea que os dois formariam 
um casal curioso, Justin com o cabelo escuro e brilhante, e Devon com a sua cabeleira dourada e luminosa. Mas bom Deus, o que estava acontecendo. Estava com cimes.
     Sentindo-se como um intruso, entrou na biblioteca... e foi recebido com um ladrar. Justin levantou a vista.
     - A Bolinha no parece gostar de voc, velho amigo.
     - Bolinha! - As sobrancelhas de Sebastian elevaram-se com espanto ao olhar para Devon. - Pensei que se chamava Webster.
     Devon sorriu debilmente.
     - E era. Mas tive que mudar de  nome.
     - Mudar? Porqu?
     - Porque no  "ele" mas "ela".
     O vira-lata era uma fmea! Agora entendia porque gostava de Justin e no dele.
     - Meu Deus - disse - no pode cham-la de Bolinha!
     - Porque no? Levando em conta o quanto gosta de comer. E ela parece um pouco como uma bolinha daquelas cheias de carne, no acha?
     Sebastian olhou para o animal. Bolinha, era ridculo demais!
     O objeto do seu escrutnio mostrou os dentes.
     - Besta, seria melhor - respondeu.
     Devon repreendeu-a com firmeza.
     - J chega, Bolinha.
     Com um gemido, o animal afundou-se no cho e meteu a cabea entre as patas. Mas aqueles olhos negros e redondos continuaram olhandor para Sebastian com medo 
quando se aproximou um pouco mais dele.
     Justin riu, com o que ganhou um olhar de reprovao de Sebastian. Ps-se em p.
     - Creio - disse - que  o momento de ir embora. Boa noite, Sebastian. Devon, doces sonhos. - Dirigiu aos dois uma reverencia e saiu.
     Sebastian e Devon ficaram sozinhos. O marqus viu que Devon se aproximava do fogo para se aquecer.
     - Espero que tenha tido um bom dia.
     - Obrigado, e assim foi.
     Obrigado. Parecia to enigmtica, pensou, vendo como esticava as suas mos. Se no a conhecesse, pensaria que era uma menina bem educada. Pela manh, passara 
pelo seu quarto quando estava comendo, e a descobrira chupando os dedos. Nesse momento, ela levantara o olhar e viu-o. As suas faces coraram.
     Escondeu os dedos debaixo da toalha.
     A recordao veio-lhe quando percorria com o olhar a sua figura esbelta, contornada vagamente pela luz do fogo. Estava muito atraente com um vestido de gola 
alta justo no peito que realava as suas curvas. Um lao na nuca segurava a sua cabeleira, num feixe da cor do ouro que caa sobre um dos seus ombros.
     O desejo partia-o em dois, com uma fome primitiva que feria cada canto do seu corpo. Os seus dedos estremeceram. Queria tocar-lhe, fundir a ponta dos seus dedos 
com suavidade naquele lugar vulnervel onde o pescoo assenta sobre a delgada inclinao das costas; queria brincar com as madeixas que caiam da sua nuca, e faz-la 
tremer.
     De repente, algo o deixou em alerta, sem saber muito bem do que se tratava. Aproximou-se dela e viu que tinha baixado a cabea e apertava as mos no seu colo.
     - Devon? - o seu nome soou incerto.
     No houve resposta.
     Sebastian olhou para ela sem querer acreditar.
     - Devon? - repetiu -, est chorando?
     Ele s conseguiu ver a linha das suas costas.
     Sem pensar, sem uma palavra, virou-a e estreitou-a entre os seus braos.
     O vira-lata levantou duas patas.
     - Morda-me, Besta - silvou - e eu te mordo tambm.
     A besta sentou-se.
     Num instante, Devon viu-se agarrada num abrao, e os dois se deixaram cair na cadeira favorita de Sebastian.
     - Ontem tambm esteve chorando, no ?
     - No - gemeu ela.
     Sebastian suspirou.
     - Devon, no consigo suportar ver uma mulherer chorando.
     - No, no estou chorando.
     Mas estava. Os ombros estreitos subiam e desciam , com toda a certeza, pelo tremer do pranto.
     Sebastian tentou consol-la com todas as suas foras.
     - Vai gostar de saber que mandei chamar uma modista para que a atenda. Chega amanh de manh cedo.
     - Uma modista?
     - Sim, uma costureira.
     As lgrimas rodaram dos seus olhos de novo, umas lgrimas brilhantes que lhe partiam o corao.
     "Agora o que  que eu fiz de errado?", Sebastian estava desorientado. Nunca tinha conhecido uma mulher que no se entusiasmasse perante a perspectiva de um 
vestido novo!
     Na verdade, nunca tinha conhecido uma mulher como Devon.
     Com as longas pernas estendidas para a frente, suspirou:
     - Devon, pode me dizer, por favor, o que aconteceu?
     Fundiu o nariz pequeno e frio no oco da garganta. Tremia, e tentava por todos os meios engolir os soluos.
     Num gesto de infinita gentileza, Sebastian elevou o queixo de Devon para si:
     - Devon, tem de me dizer o que lhe aconteceu. - Apesar da doura do gesto, o pedido era autoritrio.
     Tambm no obteve resposta. Estava sendo teimosa? Desafiante? Ou simplesmente no o ouvia?
     - Devon - entoou ainda com mais fora.
     Conseguiu sentir o desesperado suspiro que lhe dirigiu:
     - Meu Deus - disse num soluo - voc  um homem insistente!
     - Prefiro pensar que o que sou  persistente. Em todo caso, tenho a certeza que acha isso incmodo.
     - Pois acho! Mas no me deixar at que eu diga, estou enganada?
     - No - respondeu com franqueza. - Agora diga-me o que  que a preocupa.
     Lgrimas quentes rodaram pela camisa branca imaculada, humedecendo at ao mais fundo do seu ser.
     - Enfim, eu... no sei se consigo explicar.
     - Tente - disse-lhe compreensivo.
     -  apenas que isto tudo parece estar  errado... Quero dizer, olhe para mim: vivo numa grande casa em Mayfair. Nada menos que em Mayfair! Depois uma costureira 
vem me visitar ... uma costureira! E o que eu fiz para merecer isto? - A sua voz quebrou-se. - Eu matei um homem. Matei o Freddie.
     Sebastian abraou-a com mais fora, com tanta fora que a sua respirao deixou os cabelos da sua nuca em p.
     - Ouve-me, Devon. Fez o que tinha que fazer para continuar viva. Se no fosse assim, o Freddie teria te matado.
     - Eu sei. Eu sei. - As lgrimas cobriram o rosto dela numa torrente. - Mas h uma parte de mim que diz que no mereo este tratamento. E depois voc...
     - Eu! - Sebastian sentiu-se descoberto.
     - Sim! - gemeu. - Porque est fazendo isto? Porque est sendo to generoso? Eu no perteno a este mundo. Nem sequer me conhece. Nem gosta de mim!
     - Isso no  verdade - defendeu-se.
     - Claro que . Sei o que pensa de mim, ento se quiser que eu v embora...
     - No quero que v embora. Quero te ajudar, e... - ela devia saber naquele momento - no vai voltar para Saint Gilles. Eu te proibo.
     - No serei uma responsabilidade para ningum!
     - Devon, por favor, no discuta comigo.
     - Ento, por favor, no me trate assim. No pode me proibir de nada, nem me dizer o que posso ou no fazer!
     Sebastian juntou os lbios, fazendo um esforo para no parecer aborrecido. "Esta mulher  teimosa como uma mula", pensou.
     - Sebastian, me ouviu? No serei uma responsabilidade para voc!
     - E voc me ouviu? No  responsabilidade nenhuma, Devon. No  - disse pondo especial nfase nas ultimas palavras.
     - Ento deixa que eu ganhe o meu sustento. - as lgrimas tinham comeado a secar. Dirigiu a sua cabea para ele com fervor. - Estive pensando  nisso, Sebastian. 
Deixa que ajude a Tansy ou alguma das outras criadas. Talvez possa ajudar na cozinha.
     Ele emitiu um som com a parte mais baixa da sua garganta.
     - Evidentemente que no!
     - Porque no? J o fiz antes.
     - Bom, mas no o fars de novo. Devon, pelo amor de Deus, no quero que seja uma criada.
     - No serei uma obra da caridade.
     - No  caridade o que te dou. Simplesmente, estou oferecendo ajuda a uma pessoa que precisa dela. - Detectou um reflexo de teimosia no seu olhar. - alm disso, 
posso me permitir te alimentar, sim, claro, a voc sim, ainda que... - moveu a sua cabea para um lado, pensativo - no tenho certeza em relao ... bom,  Bolinha.
     Com este ltimo comentrio, estava tentando aliviar as suas preocupaes.
     E conseguiu.
     Com rapidez, ps um dedo nos lbios da moa.
     - Isso que vejo  um sorriso? - murmurou. Uma voz dentro dele lembrou-o que estava brincando com o fogo. Brincando com o que no devia. Senti-la, sentir a maneira 
como o olhava, toda ela da cor do ouro: olhos e cabelo, os lbios inclinando-se no mais ligeiro dos sorrisos.
     O mesmo sorriso que sentiu por baixo da ponta dos dedos, o que se uniu ao seu quando dos seus lbios ouviu um pequeno suspiro.
     - Esta sala  encantadora.
     - Estou de acordo. - A sua boca roou a face dele ao falar. Sebastian teve que lutar com o desejo de continuar por aquele caminho. -  Estamos sentados na minha 
cadeira, na minha sala favorita.
     Olhou para ele com espanto.
     - Que estranho. Foi isso eu pensei no momento em que vi esta sala. -Parecia no ter pressa de tirar a cabea do seu ombro. Estava deitada sobre ele, agora sem 
soluar, ele  podia sentir a naturalidade do seu corpo, e uma mo pequena apoiada em seu peito.
     - Sebastian? - murmurou - J leu todos estes livros?
     Deus bendito. Ela falava de ler, enquanto ele no pensava em outra coisa seno lev-la para a sua cama, arrancar-lhe a roupa e fazer amor com ela durante toda 
a noite.
     Sentiu-se tentado, seduzido pelo encanto de uma pequena desamparada de Saint Gilles. Mas no queria assust-la. Muito menos amargur-la.
     - Duvido - murmurou.
     - Porque no? - Pareceu espantada por no ser assim.
     - Bom, em primeiro lugar, porque so muitos.
     - Se eu vivesse aqui, me sentiria no dever de ler cada livro desta sala. - Afastou o olhar e prosseguiu em voz muito baixa. - Se pudesse ler, quero dizer.
     Sebastian franziu a testa.
     - Diga-me, Devon. - O que fez foi dizer em voz alta o que tinha estado rondandor pela sua cabea. - Como  que falando como fala, no sabe ler?
     Percebeu uma certa reticencia nela para responder.
     - Mencionou que a sua me era uma pessoa instruda - disse com rapidez.
     Ela assentiu.
     - A minha me ganhava a vida como perceptora, antes de eu nascer -disse, por fim. - E bom, devo ser honesta e dizer que ela quis me ensinar a ler, mas eu era 
teimosa.
     Sebastian fez uma cara de interesse. Sem duvida, uma revelao espantosa. Pelo menos, era suficientemente honesta para admitir, e no muito teimosa.
     - Como no havia dinheiro para livros - continuou - no via a necessidade de aprender a ler. Creio que a desiludi - disse em voz baixa. - Mas agora, desejava 
no ter sido to obstinada e rebelde. Se tivesse aprendido a ler, poderia chegar a ser perceptora, como ela era. Ou dama de companhia para alguma viva.
     - E o seu pai, Devon?
     Os seus olhos entristeceram-se.
     - Morreu antes de eu nascer.
     - E foi isso que levou a sua me  pobreza? No tinha famlia a quem recorrer?
     - S uma irm que morreu quando eram pequenas. O nico emprego que conseguiu encontrar foi como costureira. Infelizmente, nunca conseguiu encontrar algo bem 
pago.
     - Eram muito unidas, no eram?
     Devon assentiu.
     - Chamava-se Amelia - disse com suavidade - Amelia Saint James.
     "Perceptora", pensou, Devon queria ser perceptora como a me. Podia conseguir? Deveria? Ela j estava a meio caminho. Podia sentir instintivamente.
     - Se quiser - disse lentamente - eu posso te ensinar a ler.
     Olhou para ele espantada.
     - Faria isso?
     - Claro que sim - deteve-se. - A modista vem amanh, mas podemos comear na manh seguinte.
- H, Sebastian - suspirou - ficaria encantada. Seria maravilhoso. - Mas a sua alegria durou pouco. De repente, os seus lbios tremeram. - Sebastian, eu... - com 
a voz quebrada - eu no sei o que dizer...
          - Nada de lgrimas - avisou-a com autoridade.
     - Nada de lgrimas - sussurrou desta vez sorrindo de uma maneira que o fez desejar dar voltas por toda a casa, por toda a cidade, s para ver aquele rosto iluminar-se 
da maneira como o fazia agora.
     Os seus braos abraaram-na com um pouco mais de fora. Ela virou-se levemente contra ele. O seu sangue comeou a correr mais depressa uma vez mais. O quadril 
de Devom precionava seu membro, que comeava a inchar e a palpitar, e roava-lhe as suas calas. Ela teria sentido? No, pelo menos, no deu nenhum sinal disso. 
O seu rosto estava virado num ngulo em que a delicada garganta caia aberta para ele, como num convite para um homem a ponto de morrer de fome.
     Um verdadeiro festim.
     Uma tentao que devia ser vencida.
     A sua mente reconheceu esta certeza, ainda que no pudesse evitar sentir a necessidade de arrastar a boca por aquele delicioso arco e, lentamente continuar 
o caminho que conduzia  doura voluptuosa dos seus lbios.
     Ela mudou de posio e sentou-se no seu colo.
     Contra ele. Contra aquela parte do corpo que preferia no pensar.
     Nunca antes tinha enfrentado semelhante agonia.
     Apertando os dentes, ajudou-a a levantar-se. Virou-se levemente para esconder a evidencia da sua excitao. J de p, Devon sacudiu a cabea.
     - Ai, meu Deus. Devo estar espantosa.
     - Est linda, Devon.
     - Obrigado, mas eu sei que fico horrvel quando choro. Os meus olhos incham e ficam vermelhos.
     Sebastian tirou um leno do bolso e limpou as faces dela.
     - Melhor agora?
     Devon assentiu obediente. Assoou o nariz, um som muito pouco apropriado para uma senhora.
     Sebastian queria rir, queria prender esta contraditria criatura nos seus braos - umas vezes afiada como uma faca e outras, suave como um gatinho  - e no 
a deixaria partir nunca.
     Pelo amor de Deus, era uma loucura.
     Uma mo roou a frente da sua camisa e da jaqueta. Emitiu um suspiro. Ai, Deus, se o tocasse ali, mesmo sendo um toque acidental, comearia tudo de novo...
     - Ai, olha para isto, estou amassando toda sua roupa. Estava to direito e bonito.
     Antes que pudesse responder, disse algo bastante estranho:
     - A minha me teria gostado de voc, eu acho.
     - E voc, Devon Saint James?
     - No gostei na da primeira noite. Nem do dia seguinte. Especialmente, do dia seguinte.
     O dia em que ela tentara lhe bater. Aquela franqueza surpreendeu-o, embora comeasse a perceber de que era "simplesmente a Devon".
     - Mas agora... Bom, creio que s um bom homem, Sebastian Sterling.
"Bom homem." Deus sabia que no estava tendo "bons" pensamentos. O cheiro sensual e quente da base da sua garganta o prendia, lembrando-o de outras partes macias 
e aveludadas que ele sabia estarem escondidos sob as suas roupas.
     Ah sim, os seus pensamentos eram decididamente impuros.
     - Obrigado - disse, com a voz quase rouca.
     - Justin tambm  um bom homem.
     "Bom homem." Na verdade, nunca tinha ouvido uma mulher referir-se a Justin naqueles termos. Nesse momento, no conseguiu conter uma gargalhada.
     - No diga isso na frente dele. Considera-se uma pessoa bastante perigosa.
     Uma tenue linha apareceu entre as delicadas sobrancelhas.
     - Perigoso?
     - Sim. Dizem que nenhum mulher est em segurana ao seu lado. - sorriu levemente. - E para dizer a verdade,  exatamente assim.
     Devon piscou-lhe um olho.
     - E voc, senhor? Voc  um homem perigoso?
     - Duvido muito. Justin diz que sou o homem mais honrado e correto que conhece.
     - E o melhor homem que conhece.
     - Ele disse isso?
     - No com estas palavras. - Admitiu - Mas, era o que queria dizer. Foi isso que percebi. Tambm me disse que voc tem a pacincia de um santo.
- A srio? - Sebastian sentiu um enorme prazer.
     Ouviu-se uma batida forte na porta.
     - Senhor - Chamou uma voz. - A sua carruagem est pronta.
     Devon retrocedeu um passo.
        - No quero reter-te por mais tempo.
     Sebastian no se moveu. Os olhos dele examinaram seu rosto.
     Devon leu os seus pensamentos.
     - V? No estou chorando. J no estou.
     Agarrou a mo dela e pressiou-a sobre o seu peito. Cada musculo do corpo dele se contraiu. Estavam apenas a um suspiro de distancia. As sais roava a capa dele. 
O seu peito elevou-se com uma respirao entrecortada. "Perigoso" tinha dito ela. Por Deus, ela  que era perigosa. Sentimentos estranhos o invadiram... sentimentos 
de desejo, de necessidade. Sentimentos que no tinham lugar naquele momento... naquela situao. Ela estava em sua casa, sob os seus cuidados. Por Deus, supunha-se 
que devia procurar a sua futura esposa. Tinha que lembrar a ele prprio quem ela era, onde estavam e porqu.
     Justin estava errado. Ele no tinha pacincia, no tinha pacincia nenhuma. Queria atra-la para si, beijar a sua boca, e no parar nunca.
     Conformou-se em levantar a mo dela e lev-la aos seus lbios.
     - Tem certeza que est bem?
     Ela assentiu.
     Quase desejou que dissesse que no.
     Queria mandar para o diabo os seus planos, o baile da duquesa.
     Queria mandar para o diabo o mundo e ficar onde estava. Mas no fim, obedeceu. Fez o que lhe ensinaram a fazer desde criana. Porque para Sebastian, o homem 
devia cumprir o seu dever. Sendo assim, foi ao baile da duquesa e danou com todas as moas solteiras que havia na alta sociedade.
     Mas no deixou de pensar em Devon. Levou com ele a imagem perturbadora de uns olhos dourados e brilhantes que o acompanharam durante toda a noite.


    Captulo 10
     

     Dois dias depois, Devon foi pontual, s nove da manh, na biblioteca. Sebastian j l estava, sentado numa mesa coberta de pele. Um fluxo de luz entrava na 
sala pelas cortinas, provocando um efeito de sombras que delineava as suas sobrancelhas, a curva do nariz, comprido e elegante, e o perfil dos seus lbios belamente 
esculpidos.
     Uma estranha sensao apoderou-se dela. Ficou ali, presa ao cho e incapaz de se mover. De repente, o simples ato de respirar transformou-se numa tarefa para 
a qual precisou de coragem. E o que significava aquela tenso em seu peito? Sabia por instinto que tinha pouco a ver com  a falta de ar e muito a ver com ele, com 
a sua corpulenta e masculina presena.
     Sebastian estava ocupado escrevendo numa folha de papel. Se percebeu que ela estava  porta, no tinha dado sinal disso. Devon deslizou o olhar para as suas 
mos: eram grandes e fortes, e os seus dedos finos e escuros.
     Com a respirao ainda agitada, observou como ele dobrava o papel em teros bem alinhados e os selava com uma gota de cera,  qual imprimia o seu escudo. A 
viso daquelas mos fez com que Devon quisesse esconder as suas, e assim, meteu-as entre a sua roupa. Apesar do creme que Tansy lhe deu para amaci-las todas as 
noites, as suas mos continuavam secas e rachadas.
     Foi ento quando ele pareceu notar a sua presena. Levantando o queixo, Devon deu um passo para a frente.
     - E aqui estou eu. - Anunciou energicamente. Ao avanar pelo escritrio, ia percorrendo com o indicador os volumosos livros que se alinhavam nas prateleiras.
     Deu um longo suspiro e tirou um deles.
     - Este. - Disse convictamente. Roando com um dedo o relevo da capa. - Quero ler este.
     Sebastian olhou para a capa, e depois voltou o rosto para ela.
     - Vais l-lo- disse com firmeza, - a tua fora de vontade ajudar Devon.
     Muito mais tarde, olhou para o livro com curiosidade
     - Que livro  este?
     Olhou para a capa.
     -  um livro de contos ingleses. Contos de fadas. Um dos favoritos de Julianna, agora que penso bem - deteve-se. - se gostas deste, h um dois irmos que escrevem 
umas hitrias excelentes, hitria que seduzem, devo dizer. Creio que o segundo livro deles foi publicado precisamente este ano.
     - Ento devia l-lo tambm. - Pediu Devon.
     Alguma coisa o fez mudar de expresso.
        - O que foi? Pensei que estava convencido que eu podia faz-lo.
        - E estou, Devon, estou. Mas temo que falei muito cedo. Os livros que te apontei esto escritos em alemo.
     - Dos dois irmos?
     - Sim, dos irmos Grimm.
        - Voc e o teu irmo vivem numa casa grande. Talvez um dia tambm escrevam contos de fadas
     - Contos de fadas? - O seu sorriso foi apenas momentneo. Devon podia jurar que alguma coisa triste se escondia por trs dos olhos dele. - Confia em mim, Devon. 
Deixe essa tarefa para os irmos Grimm.
     Devon ps o livro no lugar, e dirigiu-se depois para ele.
     - Sabe ler em alemo?
     - Sim. No  uma lngua bonita, creio. Disseram-me que tenho um sotaque horrvel.
     Para Devon, o fato de que pudesse falar - e ler - outras lnguas era espantoso.
     - Conhece outras lnguas? - fez a pergunta meio brincando.
     - Apenas o latim e o grego, claro.
     "Claro." A sua educao pareceu-lhe de repente um obstculo que no tinha a certeza de poder superar
     A sua expresso deve ter dado uma pista sobre as suas duvidas, porque Sebastian apressou-se a emendar.
     - Mas voc no precisa de aprender o latim e o grego. Nem o alemo. Ter algumas noes de francs  o suficiente
     - Francs? Para qu? - Devon ficou horrorizada. - Acabamos de estar em guerra com eles. Nem sequer gostam de ns!
     Sebastian riu com doura.
     - Eu sei. Mentiria se dissesse que entendo, mas vivemos num mundo estranho. Todas as coisas francesas so muito cobiadas, no apenas a moda, mesmo os seus 
chefes de cozinha! Uma costureira j no  uma costureira, mas sim uma modista. E supe-se que as crianas devem aprender francs,  portanto, as perceptoras tambm.
     Devon ficou a pensar no ultimo comentrio.
     - Seu cozinheiro  francs?
     - Oh Deus, no! Estou muito contente com o meu cozinheiro ingls. - Enfatizou.
     Mesmo assim, Devon sentiu-se dividida entre um sentimento que era meio esperana meio medo. Com certa precauo perguntou:
     - Que outras coisas devo aprender?
     -  meu dever te ensinar histria e geografia, como fazer contas e quando a minha irm Julianna voltar do continente, pode te ensinar os modos  mais requintados 
para ser uma dama: musica, dana, bordados e pintura, coisas desse tipo. A Julianna  muito boa com as aquarelas.
     Bordados? Que Deus a ajudasse, ela no tinha a habilidade da me com a agulha. E quanto s aquarelas, o que aconteceria fosse ainda menos habilidosa? O seu 
corao afundou como uma pedra num rio. Antes de perceber, uns finos dedos levantaram seu queixo; no foi mais do que um ligeiro movimento com o polegar e o indicador, 
o suficiente para fazer com que os olhos dela se encontrasem com os dele.
     - No olhe para mim dessa maneira, Devon. Voc vai conseguir. Tenho plena confiana em ti.
     A mente de Devon no parava de pensar. Poderia faz-lo? Quanto tempo demoreria? Talvez o mais importante fosse saber de quanto tempo dispunha. No tinha ideia 
de quanto tempo Sebastian permitiria que ficasse em sua casa. Queria acreditar nele com todas as suas foras. De alguma forma, a sua sinceridade fazia-a acreditar.
     "Podes faz-lo", pensou com dignidade. Podia aprender a ler e tudo o mais. O incentivo era poderoso. No tinha inteno de voltar a trabalhar no Crow's Nest. 
Negava-se a voltar para Saint Gilles. No falharia, no podia fracassar. Era a nica oportunidade que tinha para melhorar a sua vida, e seria uma estpida se no 
a aproveitasse.
     Com um sorriso, concluiu:
     - Ento, senhor, sugiro que no percamos mais tempo.
     Uns olhos enormes e cinzentos brilharam de aprovao.
     - Excelente ideia. - Elogiou-a energicamente e continuou. - Creio que a ouvi dizer que conhecias as letras.
     Ela assentiu.
     - A minha me costumava desenh-las na terra. Acho que me lembro. - Entrelaando os dedos, fechou os olhos e comeou a recitar: A, B, C...
     - Muito bem! Isso vai facilitar as coisas, creio. Descobrir que escrever e ler  a base de tudo.
     E dessa forma, comearam as suas lies.
     
     Durante os quatro dias seguintes, estritamente entre as nove e as quatro, Sebastian e Devon estiveram encerrados juntos, quer na biblioteca quer no escritrio 
de Sebastian. Paravam apenas para almoar, e terminvam com o ch. Ele era um homem de palavra, pontual, pelo que nunca chegou um minuto atrasado. 
     Tambm era uma pessoa de hbitos.
     Pouco importou ento que a culpa encorajasse Devon quando parou uma manh  porta do quarto dele.
     A tentao era irresistvel. A criada acabara de sair levando nos braos os lenis. Devon j estava familiarizada com os hbitos da casa. Sabia que a mulher 
no voltaria. E Sebastian tambm no: tinha ouvido a sua voz de bartono l em baixo, h uns minutos
     Contendo o flego, entrou no quarto.
     O lugar era muito parecido com o seu ocupante - imenso e escuro, os moveisintensamente masculinos. - Deslizou ao lado de uma cama de quatro postes e passou 
 frente do aparador da barba. Abriu depois a porta de um pesado armrio. O cheiro fresco a lenois lavados rodeou-a no mesmo instante - o cheiro inconfunsivel de 
Sebastian. - tentando no desarrumar nada, meteu os dedos entre uma pilha de roupa, bem dobrada. Era que como se estivesse tocando-o. Afastando essa sensao perturbadora, 
voltou a procura, concentrando-se empenhadamente.
     Maldio! No havia nada.
     Observou  sua volta, e o seu olhar iluminou-se ao ver a cmoda. O corao batia com fora ao abrir a gaveta superior. Em cima, um cofre delicado perdeu o equilbrio. 
Devon agarrou-o a tempo. Rindo de si prpria pelo descuido, abriu a gaveta seguinte, e depois a terceira. A sua impacincia ia aumentando. Foi ento que a luz reflectiu 
algo brilhante. Seria o seu colar? A excitao acelerou-lhe o pulso quando estendeu a mo para o apanhar.
     Algo tocou na sua saia. Paralizada, olhou para baixo. Deu uma palmada a Bolita na cabea, com uma gargalhada nervosa, e voltou a concentrar-se na gaveta.
     Um rosnar de perigo vibrou no peito de Bolita. Devon empalideceu e retirou a mo rapidamente. Sabia, mesmo antes de olhar por cima do ombro, que tinha sido 
descoberta com a mo na massa. Como diabo  que um homem podia ser to sigiloso?
     Com as faces ardendo virou-se e viu Sebastian apenas a trs passos dela. A sua postura de indolente segurana, com os braos cruzados e um ombro descado apoiado 
na parede. Vestia uma jaqueta negra apertada no peito e calava botas negras muito brilhantes.
     Parecia calmo. Caramba, ser que no havia nada capaz de fazer aquele homem perder a compostura? Desfazia-se em calma. No entanto, o seu corao deu um salto 
ao perceber que essa calma fazia-a envergonhar-se. As suas feies escuras exalavam reprovao, com a sua mandbula quadrada e o buraco do queixo mais pronunciado.
     Mesmo ardendo em vergonha pensou que no se comportaria como uma covarde.
     - E ento, Devon? - disse num tom frio. - tens algo a dizer em tua defesa?
     - Sim. - murmurou. - tems que estar sempre me espiando?
     As feies dele tornaram-se ainda mais escuras.
     - Suponho que vai me dizer que tambm no estava a roubando desta vez.
     - No estava. Estou procurando do meu colar!
     - Porque no me pediu?
     - Teria me dado?
     Algo passou pelo rosto dele, algo que a fez ferver de rancor.
     - Tria feito? - perguntou.
     - No sei.
     Os seus olhos olharam para ele, acusando-o.
     - Ento agora sabe porque no pedi. Se h algum ladro aqui,  voc! Foi voc quem me tirou o colar, Sebastian!
     - O fato de t-lo no me garante que seja seu. E alm do mais, est arrebentado.
     - Fui eu que o arrebentei.
     - Pelo menos admite. Suponho que no preciso perguntar o que aconteceu, no? - esta ultima frase foi acompanhada por uma enfase de certeza.
     Embora no tivesse perguntado, ela no teria dito nada. Estava farta das suas reprimendas e impertinncias, e uma recordao ntidas cruzou a sua memria.
Devon nunca esqueceria aquele longo dia em que arrebentara o colar. Normalmente, nunca perguntava sobre o pai; o assunto incomodava tanto a sua me que aprendeu 
a no falar sobre isso. A me limitava-se a dizer que havia sido um homem de famlia rica. A escassa informao que Devon possua servia-lhe de pouco para as outras 
crianas que gozavam com ela e lhe chamavam ilegtima.
     - Disse que o meu pai era um cavalheiro! - gemeu um dia.
     Uma expresso de dor apareceu no rosto da sua me.
     - E era. - respodeu-lhe ela.
     - Ento porque  que as outras crianas me chamam de ilegtima? - Gritou Devon. - Porqu?
     Nunca esqueceria a aflio no olhar da sua me. Com uma mo, afastou os cabelos do rosto de Devon.
     - Devon - murmurou - minha querida, minha amada filha...
     Foi ento quando a sua me contou-lhe a verdade.
     "Um vero, quando era jovem, cuidava das sobrinhas de uma famlia muito rica. Apaixonei-me nesse vero, Devon. Apaixonei-me pelo filho dos donos da casa. Foi 
ele quem me deu isto. - Tocou a cruz que usava na sua garganta. - Fui uma estpida, porque ele estava muito longe do meu alcance, eu era de uma classe inferior  
dele. Quando lhe confessei o meu amor, disse-me que no podia se casar comigo, que no se casaria comigo. Ele recusou-me."
     Ento era verdade. O seu pai era um homem de boa famlia.
     Mas dificilmente um bom homem.
      A sua me continuou com a voz embargada pelo medo.
     "Fugi de Londres porque no tinha familia prpria. Umas semanas depois, soube que ele morrera quando caiu de um cavalo. Soube tambm que carregava um filho 
no meu ventre. - A sua voz elevou-se. - O trabalho era cansativo, mas no podia te abandonar... no podia! Tambm no podia pedir ajuda  famlia dele. Talvez fosse 
o orgulho, talvez a teimosia, muito parecida a sua, creio. Sobretudo, acho, tive medo, tive tanto medo! A famlia dele tinha o poder e dinhero para te afastar de 
mim, e isso era algo que sabia que no poderia permitir, especialmente quando a vi."
     A nostalgia apareceu em seu rosto enquanto brincava com o colar que usava no pescoo.
     "Voc tem a paixo dele - sussurrou - a mesma maneira de ser impulsiva. E os olhos so como os dele, to parecidos com os dele."
     A confisso da sua me provocou em Devon um rancor que a prpria Amelia nunca havia sentido. Estava aborrecida com a tristeza constante que habitava no corao 
da sua me, que agora chegava aos olhos. Apesar da recusa, a me nunca deixara de amar o seu pai. Contudo, Devon odiava-o, odiava-o por ter feito semelhante mal 
 sua me e por ter utilizado o seu corpo. Com toda a sua raiva, puxou o colar que a me usava no pescoo.
         "Porque usa isto? - gritou-lhe. - Porqu?"
     A me comeou a chorar. Foi a ultima vez que falaram do pai - a ultima vez que fez sua me chorar. Devon nunca se perdoara por aquilo, porque naquele momento 
percebeu o quanto o colar significava para a sua me. Era o seu tormento e o seu nico consolo. O mesmo que para Devon. Alm do seu valor sentimental, recordava-lhe 
tudo o que a me passou, tudo o que Devon ainda teria que passar.
     Lentamente, elevou os olhos para Sebastian.
     - Este colar me pertenece - disse desafiante. - Um homem de boa familia ofereceu-o  minha me.
     - Seus protestos comeam a me aborrecer, Devon. Confesso que fez uma excelente representao. Comessava a acreditar que no era uma ladra. Mas agora devo prevenir-te. 
Me nego a deixar que se aproveite de mim. No roubar as minhas coisas.
     "Roubar!" Com os dentes apertados replicou:
     - Prometi  minha me que nunca roubaria, nem me venderia, nem mendigaria, e no o farei.
     O seu silncio evidenciou o seu descrdito. Ultrajada, insultou Sebastian de uma maneira que nunca pensara atrever-se.
     - A sua me tambm te ensinou a insultar assim?
     - A minha me nunca me ouviu insultar ningum. Ningum. Ela era a alma mais gentil e carinhosa que j existiu sobre a terra, e nunca a teria desonrado de semelhante 
maneira. Voc, no entanto,  bem diferente.
     - Tambm penso assim.  uma pena que nunca tenha aprendido a controlar a sua lngua. - a tenso do seu rosto transmitiu a sua desaprovao.
     Devon deleitou-se com isso.
     - O qu, senhor? - disse com uma doura custica - A minha linguagem  melhor do que esperava?
     - Pelo contrrio.  tudo o que esperava.
     Estavam frente a frente agora. Ao falar, Sebastian inclinou-se ainda mais. O sorriso de Devon evaporou-se. A boca secou, o seu corao saltou dolorosamente. 
A possibilidade de que a beijasse perturbou  sua mente. Ah, que pensamento absurdo! De repente, o terreno mudara. Confrontada por aquela masculinidade audaz e descarada, 
sentiu que o pulso golpeava na testa. Mas no se retiraria. No lhe daria essa satisfao.
     Ps a sua cabea para trs e descobriu um olhar de prazer que vagueava em direco ao seu pescoo, onde a pele de seu seio estava mais exposta. E terminou instalando-se 
no espao generoso de seu decote.
     - Deixa de olhar para os meus decotes!
     - Querida, s tem um decote.
     - Bom, ento, pare de olhar para ele!
     Os seus  olhos encontraram-se.
     - Sejamos francos um com o outro, Devon. Estive no Crow's Nest. Vi a outra empregada, Bridget, creio. Sim, o seu nome era Bridget.
     Devon sentiu o rosto arder. A vergonha queimou-lhe o corpo todo, at  s suas entranhas. Mas ainda assim, o rancor apoderava-se dela a cada segundo que passava. 
Sebastian tinha ido l para confirmar a sua historia. Para confirmar a ela.
     - Ela no parecia achar degradvel que um homem passasse as mos por ela e levantasse sua saia.
     - Bridget - disse tranquilamente - no  uma rameira.
     Os seus lbios mostraram desgosto.
     - Se  isso que pensa, ento a sua moral est ligeiramente transtornada.
     Devon abriu a boca, preparada para responder, mas antes que o pudesse fazer, ele interrompeu-a:
     - No h duvida de que  uma rameira. O que me pergunto agora : o que voc ?
     Devon esbofeteou-o, com tanta fora quanto pde.
     O choque foi gratificante.
     - Esta  uma aceitao lgica. - Defendeu-se ele com firmeza.
     - E voc  um maldito hipcrita!
     - Como? Vai voltar  antiga forma de falar?
     - . - Acusou-o com a voz trmula. - um hipcrita, e sim, sei o que essa palavra significa. Se atreve a falar de mim, quando nem sequer pode deixar de olhar 
para os meus seios. Eu vi voc olhando quando pensava que eu no percebia!
     - Se te cobrisse decentemente, no teria que olhar.
     - Lembro-o, senhor, que foi voc que me deu esta roupa! - respondeu. A modista anda no trouxera os vestidos novos.
     - Porque achei que fosse as mesmas medidas que a minha irm Julianna.
     - Pois, obviamente, no so.
     Um sorriso apagado apareceu nas faces de Sebastian
     - A verdade - murmurou -  que voc enche os vestidos de Julianna de uma forma que ela no o faz.
     - E, claro, culpa a mim por isso.
     - E o que aconteceu com o vestido que usava na noite em que a encontrei? Caramba, no era uma mulher de m reputao, aparentemente.
     - Est decidido a pensar mal de mim, no  verdade? - Espetou-lhe  furiosa. - Como se atreve? Como se atreves a julgar a Bridget, ou julgar a mim? Voc, com 
esta casa bonita e com as suas maneiras bonitas de rico! - Cravou-lhe o indicador no centro do peito. - Tenho certeza que no levou uma vida propriamente casta. 
De fato, me atreveria a dizer que teve mais de uma mulher em sua cama!
     A princpio, sentiu-se surpreendido, depois claramente incomodado.
     - Eu sou um homem. - Disse ele.
     Como se aquilo explicasse tudo. Como se explicasse alguma coisa. E mais, pensou friamente, como um homem que se achava com direito perante qualquer mulher que 
se pusesse  frente dele.
     No havia como negar que era dotado de uma intensa e vital masculinidade. Desde a primeira vez que o viu, sentiu o corpo crepitar, fazendo-a ver que qualquer 
outra mulher acharia os ombros largos, os quadris estreitos e o cabelo cor do azeviche to devastadores quanto ela achava.
     Alm disso, a evidencia era irrefutvel. Baixou o olhar. A roupas elegantes no podiam esconder a dureza do seu membro. Estava esculpido como um garanho.
     O rosto dele ficou tenso.
     - Deixa de olhar para a minha... minha...
     - Dureza? - Completou ela.
     - No seja vulgar. - Avisou-a.
     Ela respodeu condescendente:
     - Se quisesse ser vulgar, teria dito...
     - J chega, Devon!
     Com calma, voltou o seu olhar para um rosto furioso.
     - Voc disse que era um homem, achei que deveria confirmar.
     Mais tarde, Devon se sentiria horrorizada por se atrever a falar-lhe com tanta audcia. Mas naquele momento, queria deleitar-se. Ele mostrou mostrado como podia 
trat-la e ela tinha a certeza que ele no se sentia orgulhoso disso.
     Foi para junto da gaveta e voltou ao assunto que tinham entre mos. Friamente disse:
     - Agora que deixamos claro que no levou uma vida de castidade, esclarea-me uma coisa: j dormiu com uma mulher, a quem teve que pagar por isso?
     Sebastian desceu o longo e suposto superior nariz para ela.
     - J o fez, senhor?
     - No preciso pagar uma mulher para que se deite comigo. - disse secamente. - Mas se o tivesse feito...
     - Deixe-me adivinhar, senhor - interrompeu-o Devon. - seria diferente para algum de sangue azul como voc, no  verdade? - No lhe deu a opurtunidade de responder. 
- Admito, sinto curiosidade. Mantem alguma amante? Proporconas-lhe casas e roupas e...
     - Isso no  da sua conta. E est  sendo muito impertinente, Devon.
     Devon soprou. No precisava de uma resposta, porque ela estava justamente ali, diante dos seus olhos.
     Ela olhou diretamente para os olhos dele.
     - Voc nunca tem que se preocupar de onde nem como ser a sua prpria refeio, Sebastian. Nunca passou uma noite tremendo de frio. Ento, no se atreva a me 
julgat. No se atreva a julgar Bridget. Sim, ela leva os homens para o quarto, e sim, faz por dinheiro. Mas se no o fizesse, como poderia alimentar os seus irmos? 
- os seus olhos estava quase rebentando.
     Pegando as suas saias com uma mo, comeou a sair.
     Antes de o fazer, virou-se e olhou diretamente para ele.
     - E s para que saiba, encontrarei o meu colar antes de ir embora.



Captulo 11


     
     Quando Sebastian entrou no quarto e viu Devon com as mos em suas roupas intimas - bom, talvez no literalmente! - ficou furioso, tanto com ele prprio, quanto 
com ela. Sentiu-se trado, depois de ter comeado a pensar que estava enganado em relao a ela. Mas a sua presena no quarto provava o contrario.
     Sentia-se um estupido por ter sucumbido daquela maneira aos seus encantos, por ter ficado cego diante da sua tentadora sensualidade, e porque no? Diante do 
seu encanto.
     Devon era impetuosa. Impulsiva. Provocava-o. Envergonhava-o. No era nem modesta nem tmida. Era meio senhora, meio gata selvagem, e totalmente imprevizivel. 
     E sim, o seu encanto.
     Queria sacudi-la para que casse em seus braos e beij-la at que nunca mais pudesse falar. Quando a encontrou no seu quarto mexendo em suas coisas a nica 
coisa que podia pensar era em atrai-la para ele, aprisionando aqueles lbios tentadores com os dele, e beij-a at os dois se embrutecem-se de desejo. Queria fundir 
as mos no seu corpo e ench-las daquela carne cremosa, terna e nua de seus seios, e enrolar a lngua nos mamilos coloridos para o prazer.
     Os seios.
     No havia duvida que ela era particularmente sensvel no que dizia respeito a essa parte da sua anatomia, e no da maneira que um homem gostaria. No havia 
percebido que os seus olhares eram to transparentes. Ou talvez fosse apenas porque ele no sonhou que ela falaria daquele assunto dessa maneira.
     Que frgil tinha parecido! "olhe-me nos olhos", havia dito, na noite em que quis fugir. E ela tinha razo. No a olhava nos olhos quando pensava que ela no 
o via. Mas se at Justin no conseguia manter os olhos do pescoo para cima! No fundo da sua mente, perguntava-se como seria na cama. Ah, mas s havia uma maneira 
de saber, pensou com um humor bem mais negro.
     No seria assim to fcil, pensou. No havia ganho pontos aos olhos dela durante aqueles dias.
     - Madio! - Disse em voz alta.
     Com a mente ausente, passou o seu dedo na face. Caramba, ainda tremia! Ainda no acreditava que ela o esbofeteara. Nunca ninguem fizera isso com ele. Nunca 
houvera ocasio para isso. Claro que, nunca antes disse o que acabara de dizer
     A vergonha era profunda. Honestamente, devia saber a verdade. Catalogou de prostitutas aquelas muheres que abriam as pernas perante qualquer homem disposto 
a pagar por isso, mulheres como Bridget. Havia dedicado a elas o maior dos desprezos, sem considerar por uma vez as razes pelas quais as mulheres podiam prestar-se 
a uma vida semelhante. Talvez, na sua mente s pensasse que era uma deciso tomada. Decididamente, nunca considerou que poderia haver uma necessidade por trs, uma 
necessidade como a de manter os seus irmos!
     E perguntou-se se Devon teria passado fome ou frio. Teve o horrvel pressentimento que sim.
     Percebeu ento que, antes de conhecer Devon, dedicara muito pouco tempo para pensar naqueles menos afortunados do que ele. Nem todos os pobres eram ladres 
ou delinquentes, ou a escoria da terra como Harry e Freddie. Sem duvida, havia muitos outros como a me de Devon, Amelia Saint James, uma mulher sozinha com uma 
filha para criar uma mulher abandonada  merc do destino.
     Mesmo assim tinha que admitir: Devon fez um bom trabalho ao dar a volta no assunto.
     Adorvel. Foi simplesmente adorvel. Quase o fazia rir da ideia de lhe dar um sermo pela sua atitude. No entanto no teve vontade de rir quando o esbofeteou. 
De fato deu-lhe muito em que pensar.
     No demorou muito para sair trs dela pelo corredor. Temia que tentasse voltar  rua de novo. Tinha a disposio mais adequada para isso.
     Apressou o passo. Com a pressa quase tropeou com Tansy, que acabava de dobrar o corredor com uma grande caixa nos braos.
     - Senhor - gritou emocionada. - Senhor olhe! Acaba de chegar da modista. A menina Devon vai se sentir muito feliz no acha?
     - Acha que sim? - Depois da cena no seu quarto Sebastian desejava que fosse assim. - Se no se importas Tansy, eu prprio entrego  menina Devon.
     Tansy fez uma reverencia.
     - Como quiser, senhor.
     Quando a criada desapareceu da sua vista, Sebastian bateu  porta de Devon.
     - Quem ?
     Sebastian frunziu a testa. A sua voz soou apagada. Estaria chorando? Sebastian no se incomodou em responder e entrou descaradamente no quarto.
     Devon estava levantando da cama e ao v-lo seus olhos lanaram fascas. Junto ao poste da cama, Besta rosnou. Sebastian colocou o pacote junto da porta. Agarrou 
o co nos braos e voltando atrs nos seus passos, o deixou no corredor fechando a porta atrs de si sem se preocupar pelos ganidos de queixa. Depois virou-se para 
Devon.
     - Ser que vai me atormentar para sempre?
     -  o que parece.
     Observou os passos dele aproximando-se pelo quarto, e no ultimo instante, ela virou a cabea. Isso no dissuadiu Sebastian. Segurou-a e obrigou-a a olhar para 
ele. Ela tentou soltar-se das mos, mas Sebastian no permitiu.
     - Devon - suplicou-lhe - olha para mim.
     - No. - Negou freneticamente. - No!
     Deslizou os dedos por baixo do queixo.
     - Devon, por favor. Por favor.
     Umas longas e sedosas pestanas apertaram-se fortemente nos seus olhos, e depois abriram-se. Olhou para ele com uns olhos grandes e lacrimejantes. Sebastian 
ficou sem flego. No estava chorando, mas faltava pouco. Sentiu o orgulho ferido na respirao, e essa dor magoou-o profundamente.
     Ele devolveu-lhe o olhar, sereno. Nunca foi to intensamente respeitador.
     - Devon - disse, - o meu comportamento de hoje foi inconcebvel. Peo desculpas pelo que disse. Me enganei ao julgar Bridget to fcil. - Deteve-se. - E a voc, 
Devon. No deveria te julgar, sobretudo agora que comecei a te conhecer.
     Um som abafado saiu dos sbios dela. Deixou-se cair nos braos dele agarrando-se fortemente nos braos que se fecharam para a segurar.
     - Sebastian, eu tambm peo desculpa. No devia ter revistado o seu quarto. E foi horrvel me descobrir daquela maneira. Machuque voc?
     Um sorriso apareceu nos lbios dele.
     - Preciso mais do que uma bofetada de uma pessoa como voc para me machucar. - mentiu.
     Tinha chegado a cabea para trs para o ver melhor, numa expresso de profunda preocupao. A cor dourada do seu cabelo, enrolado descuidadamente na cabea 
uma hora antes, caa agora sobre os ombros numa desordem pouco artstica. Devon sentiu-se aliviada ao ouvir a negao.
     Algo dava voltas no fundo do estmago de Sebastian, algo que escapava do seu controle. Sabia, to certo como o sol que nascia a cada manh, que estava prestes 
a cometer uma estupidez. Algo fora de toda a lgica. Algo que no tinha planejado, embora, s Deus sabia quantas vezes tinha pensado desde que ela chegou a sua casa. 
Sabia que tinha que provar aqueles lbios rosados e meigos...
     Ou morreria.
             Assim, durante o tempo que dura um suspiro, a boca dele fechou-se sobre a dela. De inicio, ela surpreendeu-se, embora em nenhum momento tentou afastar-se. 
Em alguma parte recndita da sua mente, estava convencido de que o faria. De que faria chorar o seu corao e a sua alma.
     Santo cu,  ela era uma  ptala de rosa contra da fora do seu membro. O cheiro do seu cabelo era embriagante, quase o intoxicava. Segurou-a com fora, com 
medo de part-la. No entanto, ela moveu-se contra ele, e o calor, a excitao do seu flego na sua boca percorreu-o at chegar aos seus genitais.
     No foi mais do que um sussuro de um beijo, uma frao da totalidade do desejo matizado pela certeza de que se sucumbisse aos seus impulsos a deitaria na cama, 
tiraria sua saia e a fundiria ao seu estmago e muito mais.
     Recobrou o juzo a tempo. Ela gaguejou confusa. Ele balbuciou:
     - Perdoe-me - disse com tranquilidade.
     Devon moveu lentamente a cabea, afastando o olhar:
     - Est bem.
     - No - disse ele com firmeza, - no est bem. Um cavalheiro no teria feito isto. Eu no deveria ter feito isto.
     - Ento, porque o fez?
     Desta vez foi ele que afastou o olhar.
     - No sei.
     Agora, Sebastian podia sentir todo o peso do seu olhar: desorientada numa pergunta silenciosa. Se ela o precionasse que raio poderia dizer? No conseguiria 
dizer a verdade, que quando olhava para ela, no desejava outra coisa seno desnudar os seus seios e o seu corpo com os lbios e a lngua e mandar para o diabo todo 
o resto.
     Sebastan nunca fora covarde, mas naquele momento, foi. No conseguiria aguentar o seu olhar mesmo que a sua vida dependesse disso!
     Depois do que foi provavelmente o momento mais desagradvel de toda a sua vida, ela fez um gesto com a cabea em direo  grande caixa envolta em laos.
     - O que h ali? - murmurou
Sebastian alcanou a caixa rapidamente e colocou-a em cima da cama.
- A Tansy disse que acaba de chegar. - Fez-lhe sinal para que se aproximasse. - V abre-a.
Quase com cautela, puxou o lao de seda branco e levantou a tampa. Revirando os olhos inclinou-se sobre a caixa e comeou a afastar as camadas de tecido.
- As primeiras roupas da modista - disse como explicao. - Acho que chegaram a pouco tempo.
Devon ficou tensa e mordeu o lbio, embora os seus olhos danassem ao tirar da caixa um vestido feito de musselina azul e branca.
     - Ah Sebastian. - Exclamou. - Que lindo!
     Depois saram uma combinao e um saiote. Devon gritou de prazer com cada uma delas.
     Parte da tenso desapareceu dos ombros de Sebastian.
     - Experimente-o - sugeriu.
     -Ah, sim. Sim! -o seu rosto iluminou-se. - Vou precisar que me ajude com os botes.
     Antes que pudesse responder agarrou o vestido e a roupa intima e desapareceu por trs do biombo. Houve um rudo de tecido e o vestido que usava apareceu por 
cima do biomo.
     A cabea de Sebastian deslizou desde o biomo at  porta. Pensou que deveria ter chamado Tansy. "Acabou de dizer que  um cavalheiro - soou uma voz em sua cabea, 
- porque no age como tal?"
     "Porque se trata de Devon, e nenhuma das regras se aplica aqui."
     No houve muito a discutir, os seus ps mantiveram-se colados no cho. No tinha inteno nenhuma de a informar que ele era mais dado a ajudar mulheres a tirar 
a roupa do que a vesti-la.
     Como se sentia desocupado, agarrou um delicado chapu branco, passando os seus dedos por baixo do lao:
- H um chapu tambm. - Disse a Devon. - Agora pode se desfazer daquele estpido chapu . - Com desagrado, olhou para o objeto em questo pendurado num dos pilares 
da cama.
     - No o farei! - O protesto de Devon chegou rpido e energicamente. - Gosto muito daquele chapu! Foi o primeiro que tive, sabe?
     Sebastian encolheu os ombros. No que dizia respeito  moda, os gostos das mulheres podiam ser incompreesiveis. Quando Julianna era jovem, apaixonou-se por um 
chocante vestido verde que se empenhava em usar dia e noite. A ama queixava-se que o lavava entre gemidos e lamentos a cada manh em que no a deixava vestir. Quando 
finalmente lhe ficou pequeno insistiu em usar vrios vestidos pretos em sinal de dor, pela perda da sua pea mais valiosa.
     - Meias e ligas - disse quando Devon reapareceu.
     Tinha-as entre as suas mos.
     - Vire-se - ordenou-lhe.
     Sebastian viu-se obrigado a faz-lo, embora ainda visse alguma coisa pelo canto do olho. Sentada numa cadeira, levantou a saias at s coxas e puxou a fina 
seda branca, cada uma delas at em cima, enquanto Sebastian admirava o contorno dos joelhos esbeltos e as suas pernas bem proporcionadas. Pensou, divertido, que 
bem podia ter sido uma menina da rua, dada a pouca ateno que a mulher prestou  sua presena no quarto.
     - Sapatos? - perguntou, para pass-los. Viu-se obrigado a se agachar um pouco para eu ela pudesse, com uma mo no seu ombro, calar um sapato e depois o outro. 
Por fim, calou um par de delicadas luvas de renda.
     Por entre uma volta dos tecidos, deu-lhe as costas. O vestido caia pelos ombros. Sebastian queria tir-lo completamente, e no ajudar a vesti-lo! Uma fila de 
pequenos botes chamavam a sua ateno. Com a boca seca, admirou o comprimento das suas costas, dividida pelo sulco delicado da coluna, por onde a pele a cobria 
com tanta transparncia que podia calcular a suculenta carne que se escondia por baixo. Apressou-se a cumprir a sua tarefa, no sem certas reservas. Lutou teimosamente 
contra o impulso de pr os seus lbios na sedosa nuca, nua como estava para lhe permitir o acesso aos botes.
     De uma maneira inconsciente, comparou o tamanho das suas mos com o diminuto contorno da cintura dela. As suas mos, grandes e morenas, contrastavam com a sua 
pele branca e delicada. Sentiu-se quase indigno.
     Ele, Sebastian Sterling, marqus de Thurston, e ela, nada mais que uma desprotegida!
             De repente, franziu a testa.
      - Devon, onde est o corpete?
     - No gosto de corpetes. No vou usar. So instrumentos de tortura.
     - Uma senhora sempre usa corpete.
     O seu rosto manteve-se firme.
     - Est bem, mas eu no vou usar. Nunca o fiz e nunca o farei. Nunca os vesti e nunca os vestirei.
     Ela no usava corpete. Nunca tinha usado corpete. E nunca o usaria. Falava de tortura... Pelo amor de Deus, ela era a rainha das torturas, ser que no tinha 
fim?
     A verdade  que no precisava dele. Se no tivesse visto com os seus prprios olhos, sentido com os seus prprios olhos, nunca teria imaginado que no usava 
corpete.
     Uma vez completada a tarefa, olhou para ela atravs do espelho de corpo inteiro situado no canto do quarto. Se antes a tinha visto danar de excitao, agora 
quase teve que empurr-la para que se visse refletida. Ficou de p um instante, com o rosto baixo, at que por fim elevou a cabea para se ver.
     Olhou-se espantada.
     - Meu Deus, - sussurrou -  do meu tamanho. Sebastian,  do meu tamanho!
     Estava radiante.
     Os olhos encontraram-se no espelho.
     - O que te parece? - Disse sem flego.
     - Bom - disse lentamente, - mas parece que falta algo.
     - O qu? - A sua voz manifestada um profundo desconcerto. - O qu?
     - No tenho certeza. - Fingiu estud-la, primeiro de um lado, depois do outro. Levou a mo ao peito, num gesto de indeciso.
     - Sim, eu tinha razo.
     Sebastian tirou algo do seu bolso. Os olhos de Devon nunca se separaram dos dele quando deslizou uma fina corrente de prata pelo seu pescoo. A cruz descansou 
no fundo de sua garganta.
     - O meu colar. - Acariciou com a ponta dos dedos a superfcie brilhante, quase com reverencia. - Mandou arrum-lo. - Suspirou, mordendo depois o lbio.
     - Sim. - Admitiu com um sorriso de arrependimento. Na realidade, o mandei ao joalheiro um dia depois de ir a Saint Gilles.
     Lentamente, Devon virou-se para ele. Os seus olhos, escuros e cheios de curiosidade, procuraram os dele.
     - Porqu? - Perguntou, agarrando-se com medo  pergunta. - Porqu, Sebastian? Eu pensei que...
     - Tinha razo. - explicou docemente. - No pertencia a mim.
     Mordeu o lbio e olhou para ele com os olhos midos.
     - Sebastian, no sei o que dizer.
     A emoo percorreu o seu rosto. Parecia uma coisa to simples, tinha-lhe custado to pouco e, no entanto proporciou tanto prazer. Talvez, pela primeira vez 
na sua vida, Sebastian sentiu-se derrotado.
     - Agradecer-me,  o suficiente. - Disse simplesmente.
     E ela assim o fez, embora no da maneira que ele esperava.
     Com a duas mos, Devon atraiu-o para si, seus dedos roando o cabelo escuro da cabea dele e fazendo inclinar a cabea para a dela. sem uma palavra, beijou-o 
nos lbios.
     Uma dezena de campainhas advertiram-no que tinha razo. Porque se o outro beijo fora doce... este outro era muito mais.



    Captulo 12
    
    
             
Devon j beijara antes, se  que a sensao de uns lbios midos e trmulos pode se considerar um beijo.Fazia tempo, no Crow's Nest, a sua pele arrastou-se e retorceu-se 
tentando disfarar a luxuriosa invaso sobre a sua pessoa. Foi uma coisa que teve que suportar para conservar o seu trabalho.
Mas este no foi nem luxurioso nem lascivo.
Nem indesejado.
Porque com Sebastian, no se importava de ser apresada. Presa por toda a vida. E se quisesse evadir-se, era para estar ainda mais perto dele.
Embora durasse apenas um momento, ficaria gravado no seu corao para sempre.
Devon nunca esperimentou nada como o toque dos lbios de Sebastian contra os seus. Tinha aberto desesperadamente os seus braos para rode-lo com as mos e enterrar 
os dedos por baixo da camisa dele, para descobrir a fibrosidade dos msculos e a suavidade da sua pele. E se o beijo durasse um pouco mais, talvez fosse precisamente 
isso o que faria.
Nos dias que se seguiram, no conseguiu esquec-lo. No conseguia esquecer que Sebastian a beijara. Beijou ela.
Talvez fosse uma estupidez. Talvez fosse estpida, mas ela podia jurar que havia algo mais do que o sabor de um beijo. Algo sutil, embriagador e ardente que pressagiava 
fascas de sensualidade. Devon sofrera com as suas desculpas. Embora lembrasse a si mesma que ele era um homem de modos impecveis.
Algo acontecera aquele dia no seu quarto. Devon no podia identificar exatamente o que era, mas cada vez que pensava naquele beijo - que era quase a cada minuto 
- sentia um formigueiro na ponta dos dedos dos ps.
A forma como trabalhava, sentado na sua mesa, obrigava-a a observ-lo. A sua presena esmagadora acelerava-lhe o pulso e quanto mais perto o tinha, mais lhe corria 
o sangue  altura do peito. S de v-lo, sentia-se tremer por dentro. Algumas vezes, mendigava a sua ajuda quando no precisava dela, pois a sua habilidade com a 
leitura havia melhorado bastante. Uma tarde, deu um sutil olhar  covinha do seu queixo, a quadratura da sua mandbula, j escurecida por uma barba incipiente.
O seu olhar deve ter sido mais longo do que o normal porque de repente ouviu uma voz:
     - Devon. - Disse com pacincia. - Est prestando ateno?
     - No. - replicou envergonhada. - Estou muito ocupada olhando para voc.
     A tarde seguinte foi passada na mais sria contemplao, dado que ele se manteve sentado junto a ela por mais tempo. As figuras que ele ia mostrando passavam 
diante dos seus olhos enevoadas. Podia ouvir a sua caneta a rabiscando; as suas explicaes caam em saco sem fundo.
             Mesmo sentada com ele, a cabea de Devon chegava apenas aos seus ombros. Ele era to alto e to forte e to bonito. Cheirava a uma frecura limpa. Frequentemente, 
as mangas dele roavam as dela. Ela queria que ele o fizesse de propsito, que a sua simples presena o fizesse ferver por dentro. Movendo-se no seu lugar, conseguiu 
aproximar-se da borda da cadeira, e dele.
     Aqui. Assim estava melhor. Naquele momento, se ela movesse a cabea s um pouco e ele o fizesse por casualidade ao mesmo tempo, os seus lbios no estariam 
separados por mais do que um suspiro
     Se sentiria impulsionado a beij-la de novo? A imagem dos lbios dele nos seus, quentes e doces, faziam-na tremer.
     Nesse preciso momento, o que aconteceu foi o mais terrvel que poderia ter acontecido. Aparentemente, a sua fascinao ao examinar e catalogar os seus encantos, 
no tinha passado despercebido aos olhos de Sebastian.
     S que dificilmente parecia agradar-lhe. Colocou a pena no tinteiro e virou-se para ela.
     - Devon - perguntou, - h algum lugar onde precise ir?
     Ela olhou para ele com o rosto lvido.
     - Permita-me ento perguntar de uma maneira educada. Precisa ir ao lavabo?
     - No! - respondeu com a voz entrecortada.
     - Est se balanando. - Assinalou ele.
     Uma onda de calor subiu s suas faces.
     - No  por isso!
     Apoiou um cotovelo na mesa coberta de pele. 
     - Ento  porqu?
     Nessa altura, Devon tinha a certeza que o seu rosto queimava. Como podia lhe dizer que o admirava? Que pensava que ele era o homem mais bonito sobre a terra?
     - Seu ferimento est doendo? - Perguntou-lhe de repente
     - No. Sinto uma ligeira pontada quando respiro
     Na realidade, quase no conseguia respirar quando o tinha por perto. Ele assentiu com aquele olhos cinzentos e diretos.
     - O que te preocupa, ento?
     - Nada. - disse ela. - Porque pergunta isso?
     Ele respondeu-lhe com muita suavidade.
     - Porque olhava fixamente para mim. Ainda est olhando.
     - Ah - disse muito baixinho, - desculpe.  s porque... cheira - balbuciou.
     Agora foi ele quem se sentiu desarmado.
     - Como?
     - Oh, no! No significa que que cheire mal. - Apressou-se a explicar. -  s que eu nunca estive junto de algum que cheirasse da maneira como voc cheira. 
To fresco e limpo, a goma e, a outra coisa...
     -  s uma estranha mistura de louro. - Ele ficara sem palavras.
     - Mas cheira divinamente bem, sinceramente, Sebastian! E eu... eu... ai! - concluiu com um dbil sorriso. - Imagino que nenhuma mulher disse nada parecido a 
voc, no ?
     - Sobre este cheiro? Com essas palavras, no.
     - E suponho que  o tipo de coisa que uma senhora nunca deveria dizer a um cavalheiro.
     - Isso  verdade.
     Agarrou-se as dobras de sua saia.
     - Suponho que acha que sou uma estpida.
     - No. - Uma fasca apareceu nos olhos dele e um sorriso resplandeceu em seus lbios.
     - Ah! - gritou. - Est brincando comigo
     - Absolutamente! Embora eu deva admitir que as nossas conversas tendem a ser bastante... - os lbios dele desenharam uma careta - invulgares.
     - Est rindo de mim? - Perguntou.
     - Um pouco.
     Pelo menos no mentia.
     -  s que eu sinto que posso ser eu mesma com voc. - Confessou-lhe. - No preciso fingir que sei coisas que no sei. - Mordeu o lbio. - Mas peo desculpa. 
No voltarei a dizer esse tipo de coisas outra vez.
     - No - interrompeu-a abanando a cabea. - No pea desculpa. No tenha medo de me dizer tudo. No tenha medo de me perguntar o que quiser. - Devon surpreendeu-se 
ao ver que o sorriso desaparecera. - E seja sempre fiel a si mesma, Devon. No deixe de ser o que  por ningum. - O olhar dele era penetrante, a sua voz intensa.
     Agarrou as mos dela e manteve-as no seu regao.
     - Me entende?
     Os olhos de Devon moveram-se procurando as suas feies. Surpreendeu-se ao sentir um n na garganta.
     - No se importa se te disser o que quizer?
     -  evidente que no.
     - E posso perguntar uma coisa?
     - O que quiser - respondeu ele.
     - Ento, diga-me senhor, como consegue barbear-se... - inclinou-se para a frente franzindo a testa, com os olhos danando - a? - Com a ponta dos seus dedos 
assinalou a covinha do queixo.
     Ele riu com uma gargalhada sonora e melodiosa.
     - Com muito cuidado - disse, fazendo passar a mo dela pela barba dura.
     Naquele momento, sem duvida, derreteu-lhe o corao.
        
     Era assim que os dias passavam quando estavam juntos. Os sentidos de Devon cantavam, o seu corao era uma caixa de musica. Adorava a forma em que o canto dos 
lbios dele se delineavam quando tentava parecer zangado e no rir diante dela, da mesma forma como aquele dia na biblioteca.
     Gostava de o fazer rir, porque s vezes pensava que ele era muito srio.
     As seis semanas em que Devon vivia na casa dos Sterling dera-lhe uma ideia do que significava viver na alta sociedade. A cada manh, enquanto Sebastian examinava 
o seu Public Ledger, ela sentava-se junto a ele, falando em voz baixa com Charles, o mordomo. Embora a maior parte do tempo Sebastian estivesse absorto na sua leitura, 
participava da conversa com algumas palavras soltas, quando bebia lentamente  o seu ch.
     Uma manh em que Justin passou por ali, garantiu que faziam o par mais estranho que jamais conhecera. Durante o caf da manh, Devon aprendia as frvolas diverses 
da alta sociedade, comentrios que Justin fazia dando conta das suas atividades da vspera; uma verso censurada, como ela suspeitava. Ainda assim, divertia-a ouvir 
quem de entre a sociedade competia por conseguir os valiosos vales de Almack's, que significava a admisso nos mais exclusivos clubes, assim como saber quem foi 
visto cavalgando com quem em Hyde Park.
     - Bom dia - Desejou-lhe Sebastian umas manhs mais tarde.
     - Bom dia - respondeu por sua vez Devon, ocupada em untar o seu po com manteiga.
     Por baixo da mesa, Devon deu um pontap em algo. Quando Charles se colocou entre os dois para servir o ch a Sebastian, ela deu um gole no seu chocolate. Com 
a outra mo, passou algo para baixo disfaradamente.
     Assim que o mordomo abandonou a sala, o olhar de Sebastian fixou-se nela.
     - Devon, eu vi.
     - Viu o qu?
     - Por favor, no d comida  Besta por baixo da mesa.
     - A Bolita tambm precisa de comer. - No era bom que tentasse engan-lo, mas Sebastian e o co continuavam a se dar mal; os dois olhavam-se com muito desprezo.
     - Devon, a Besta no anda, arrasta-se. A barriga dela chega ao cho, tem um apetite de cavalo. A ultima coisa que precisa  de mais comida, incluindo as goluseimas 
que sei que lhe d todas as noites.
     Devon quase se engasgou. Tapou a boca com um guardanapo. Sem duvida, no era o melhor argumento para defender a Bolita!
     - Alm disso - resmungou Sebastian, -  um desperdcio de comida.
     Ai, como fosse possvel que no soubesse, mas no, aparentemente no sabia. E ela no tinha a menor ideia de como abordar o assunto. No ia gostar nada da notcia. 
Talvez este fosse um bom momento para mudar se assunto.
     Olhou o mordomo para cima e para baixo na entrada e perguntou:
     - Porqu tanta excitao?
     - Esto preparando tudo para esta noite.
     - Esta noite?
     - Sim, vou dar um jantar. - olhou para ela por cima do jornal. - No lhe falei?
     Devon negou com a cabea.
     No se surpreendeu. Os convites inundavam a casa com uma frequncia previsvel. Sebastian abria-os todas as manhs: festas, bailes, jantares... se respondesse 
a todos e a cada um deles, no dormiria nunca! Naturalmente, tinha chegado a vez de ele dar uma festa.
     Devon sabia bem que nunca poderia participar desta elegante e previligiada vida. Mas vivia nos limites, e a atrao era irresistvel...
     - Sebastian? - Murmurou.
     - Sim?
     Hesitou.
     - Se importaria se eu espiasse?
     Baixou o jornal e olhou para ela em silencio durante um bom tempo. Devon comeou a perguntar-se se no fizera algo de errado. 
     - No deixarei que me vejam. - Apressou-se a dizer. - Seus convidados no sabero que eu estou aqui. Serei to silenciosa quanto um rato, no me vero nem me 
ouviro. Por favor, diga que sim, Sebastian. Prometo, no te envergonharei.
     Conteve o flego e esperou, esperou o que lhe pareceu uma eternidade. Ele gaguejou e depois disse:
     - No me preocupo nada com isso, - sorriu levemente - e, claro que pode espiar.
     Devon saltou da sua cadeira e rodeou-lhe o pescoo com os braos cheia de alegria.
     - Obrigado. - quase cantou. - Ai, obrigado!
     Sebastian viu-a sair plena de emoo mais inocente. Essas eram as pequenas coisas que faziam Devon to feliz. Santo Deus, era apenas uma festa  qual nem sequer 
podia assistir! Ele receara falar-lhe da festa antes. Se pudesse cancel-la, teria feito, mas as pessoas da sua classe fariam muitas perguntas. A sua boca contraiu-se. 
Caramba, como desejava poder se desfazer daquele estpido anncio para procurar uma esposa. A verdade  que era um verdadeiro incmodo. Tinha pouca pacincia com 
aquelas coisas que se interpunham constantemente no seu caminho. Haviam acontecido muitas coisas desde o anncio. Coisas demais. Porque, fora nessa noite que introduziu 
Devon em sua casa, em sua vida.
     Um grande peso oprimia-lhe o peito. No gostava nada da ideia de ela ter que desaparecer, ter de se esconder dos outros. No lhe parecia nada bem. Ela era doce, 
encantadora e maravilhosa, e ele nunca se sentiu to sujo e mesquinho. Devon no pensava em nada disto, mas ele sim. Porm, no podia fazer nada para mudar as coisas. 
     Por mais que quisesse, no podia convid-la, como Justin o havia lembrado. Seria mal visto pela alta sociedade, que uma mulher solteira vivesse debaixo do mesmo 
teto que os dois jovens, e no perdoariam este fato, sob nenhuma circunstancia. Se Julianna estivesse ali, seria uma situao muito diferente. Mas a verdade  que 
tinha recebido uma carta precisamente no dia anterior, em que a sua irm lhe comunicava que estava em Itlia e permanecieria l por algum tempo. E Deus sabia que 
no podia culp-la, no depois da horrvel experiencia pela qual passara no ano anterior. Porque ela tambm foi uma vitima inocente de um inevitvel escndalo. No 
era de admirar que tivesse jurado que nunca se casaria!
     Escndalo. A palavra soava mal no seu interior. Como era desagradava ouvi-la!
     O que o fazia reafirmar ainda mais a sua deciso de que Devon deveria evitar qualquer ocasio de se ver no meio de um escndalo. Se a fosse festa hoje, lhe 
fariam perguntas que no estava preparada para responder e talvez nunca conseguisse o posto de perceptora que tanto desejava. Quando chegasse o momento, decidiu, 
inventariam uma histria para explicar a sua presena,uma histria que deixasse a sua reputao intacta.
     Alm disso, o problema com o Harry tambm o preocupava. No tinha dito nada a Devon, mas as fontes de Justin tinham-no avisado de que Harry ainda continuava 
procurando a mulher grvida que matou seu irmo, uma noticia que o deixava com cabelos em p. No podia arriscar-se a exp-la: nem perante a policia, nem perante 
Harry.
     Diabo, pensou amargurado, no havia nada que pudesse fazer.
        
     Mais tarde, naquela noite, Devon instalou-se no varandim, escondida atrs de uma grande samambaia. Era um lugar perfeito, porque podia observar a festa da primeira 
fila sem ser vista.
     Se tivesse sorte, pensou convencida, poderia aprender algumas coisas sobre bom comportamento.
     Era como as histrias que tinha lido. Jarras de flores frescas, perfumando o ar com o seu delicado aroma. As mulheres usavam bonitos vestidos de seda e de cetim 
que brilhavam  luz das velas, prolas e jias nas suas gargantas e orelhas, os cabelos decorados com laos e penas. Os homens usavam claas e casacos justos, com 
as golas dos pescoos firmes e levantadas. Era uma viso inspiradora, e aquilo era apenas um jantar.
     Mas os seus olhos voltavam para Sebastiam uma e outra vez. Passeando entre os seus convidados com aquela graa descuidada e natural, que s ele possua. Deteve-se 
uma vez, virando a cabea, e ela pode apreciar a sensualidade dos seus lbios e a masculinidade do seu rosto. Se ela ficasse de p, apenas aquela viso dele, teria 
transformado as suas pernas em gua.
     No percebeu a ausncia de Justin, at que o viu a subir as escadas furtivamente. Devon prensou-se contra a parede.
      - Oh! - Sussurrou quando ele se ps ao lado dela. - Viram-me?
     - No. - Garantiu ele. - Nem sequer sabia que estava aqui at que subi as escadas.
     - No estava ouvindo conversas particulares. - Apressou-se a dizer
     Um olhar malicioso apareceu nos seus olhos
     - Ah, Devon, -  sacudiu a cabea - no sabe quanto aprenderia se o fizesses. Podia acabar como uma mulher rica na velhice. - Devon tentava perceber o que ele 
queria dizer, quando ele lhe fez um gesto para que se calasse: - Sente-se mais  esquerda e olhe atravs da barreira. Assim poder ver tudo. Quando se  uma criana, 
aprende-se a fazer esse tipo de coisas.
     Devon viu-se obrigada a faz-lo, e de fato, tinha razo. Agora podia ver tanto o salo, quanto a entrada.
     - E um pouco mais tarde, se me vir sair para o jardim com trs moas bonitas, - sorriu malicioso - no diga a ningum que era eu.
     - Trs! - Devon olhou para ele atnita.
     - Se brigar comigo, sero quatro.
     - Voc  incorrigvel! - ralhou sem verdadeira inteno, pois sabia que estava brincando. Voltou a olhar para baixo. -Sebastian me disse que seria uma pequena 
reunio. Meu Deus, deve ter uma centena de pessoas ali em baixo.
     - V aquele homem, de p junto  lareira?
          Devon assentiu.
     -  o visconde de Temberley. Coloca enchimento nas suas calas para melhorar os seus... como dizer de maneira educada?... os seus dotes masculinos. Ou talvez 
devesse dizer a ausncia deles.
     Devon deu-lhe um murro no ombro.
     - No acredito. Nenhum homem faria uma coisa dessas!
     - No faria? Pergunte  viva de Blakewell que est junto dele. Ela sabe, sem duvida melhor do que a esposa dele.
     A boca dela abriu-se para se fechar de seguida.
     E um estranho olhar passou pelo rosto de Justin, para rir a seguir.
     - Mas, se surpreende? Ah, Devon, no se iluda. A mulher de Temberly tambm tem as suas... - uma pausa intencional - diverses.
     - E, o que diz a respeito de Sebastian? - O seu corao comeou a bater mais depressa. - A amante dele est aqui?
     Justin olhou para ela durante um minuto, em que pareceu estar pasmado. Depois disse:
     - Ele falou dela? Nem a mim ele disse nada sobre ela!
     - Bom, no disse muito... creio. - Admitiu ela.
     Justin assentiu.
     - O Sebastian  muito reservado no que se refere a estas coisas. Mas para responder  sua pergunta, no, ela no est aqui. Para ser sincero, nunca vi nenhuma 
das amantes dele. Mas ouvi dizer que  uma atriz que se chama Lilly.
     Devon deixou sair o ar que estava prendendo.
     - O Sebastian no seria to mal-educado para aparecer com a amante em publico, no diante desta multido. Acredite ou no, tem  sua frente a nata da nata da 
alta sociedade.
     Devon inclinou-se para ver os que ele tinha assinaldo como um duque, um conde e a sua condessa.
     - E ali est a grande senhora de todos eles, a duquesa viva de Carrington.
     A duquesa era bastante diminuta em tamanho, com o cabelo branco coberto por um conjunto de prolas. Embora se ajudasse com uma bengala, usava-a de uma maneira 
que Devon percebeu que era uma mulher de grande importncia. Devon sentiu um profundo respeito por ela. 
     -  Sebastian foi  festa dela na noite em que encontrei a Bolita.
     - Sim, eu me lembro. Creio que tem a maior casa de toda a cidade de Londres, e estou falando de uma das doze que possui.
     Para Devon era difcil imaginar uma casa maior do que aquela onde viviam.
     - Atrevo-me a dizer que at o prprio diabo seria aceito na alta sociedade se fosse recebido pela duquesa. O duque morreu h dez anos, se me lembro bem. O seu 
Marcus, tambm j morreu h vrios anos. O sobrinho do seu esposo  o herdeiro, mas no se do muito bem. Sebastian est convencido que ela o introduziu na alta 
sociedade sob a sua guarda porque no tem mais ningum.
     - Quanta tristeza e solido. - Murmurou Devon ainda a observ-la. - E Marcus morreu em criana?
     - Por Deus, no! Para todos os efeitos, o Marcus foi um safado que at a mim envergonharia. Escndalos com mulheres casadas, com mulheres solteiras, duelos... 
a duquesa suportou cada escndalo porque o adorava e tentava re-educ-lo. Foi um duro golpe para ela quando o perdeu.
     - Como aconteceu?
     - Caiu de um cavalo e quebrou o pescoo.
     Devon ficou observando a duquesa durante um tempo. O seu filho foi o tipo de homem que Devon desprezava. Em que benenficiava a duques, tanto dinheiro e bem-estar? 
As suas casas estavam vazias, como talvez, tambm estivesse o seu corao.
     - Mas, Devon? Est com pena dela?
     - Pois... - comeou.
     - No. - Disse ele cortante. - Ela pode dominar um homem apenas com um olhar. Uma palavra, e transforma-o num fantoche.  uma mulher que diz o que pensa e que 
pensa o que quer pensar.
     O esboo de um sorriso desenhou-se no rosto de Devon. A sua me costumava dizer a mesma coisa sobre ela.
     - E quando comea a balanar aquela estpida bengala que usa... que Deus ajude quem se encontrar na sua linha de fogo.
     Devon no conseguiu evitar uma gargalhada.
     - Uma mulher arrojada.
     - Uma mulher muito arrojada - apontou Justin.
     - O Sebastian parece no ter medo dela. - Ela fez a observao quase com orgulho.
     - Sim. Sem duvida nenhuma, o Sebastian sabe como manuse-la. Olha ali. A duquesa agarrou-se ao brao dele. E no que diz respeito a Sebastian, creio que a duquesa 
gostava de fazer de casamenteira
     "Casamenteira?"
     - V? Est conduzindo-o para junto da menina Darby. Uma oferta tentadora, embora no o suficiente para Sebastian. Se aborreceria bastante com ela. - Da sua 
posio priviligiada, Justin riu suavemente. Por diverso ou alegria? Com Justin, ela nunca podia ter certeza. - Essa  a forma, irmo. Leva a velha senhora at 
uma cadeira, exibe a sua reverencia mais educada enquanto retrocede... ah, sempre galante, sejam jovens ou velhas, esse  o meu irmo.
     No conseguia afastar os olhos de Sebastian. Apenas se afastara da duquesa quando um bando de belezas o rodeou. O sorriso de Devon desvaneceu-se.
     - Pelo amor de Deus - disse com mau humor - ser que querem esmag-lo?
     - Um comentrio muito adequado, Devon. - O sorriso de Justin tornou-se mais trocista. - Sebastian anunciou h pouco tempo que comearia  procurar uma esposa.
     O corao de Devon paralizou; tinha dificuldade em respirar.
     - Uma esposa?
     - Sim, ele  o marqus de Thurston, e j no  nenhum jovem. Precisar de um herdeiro e sucessor do titulo. E todas aquelas mulheres que espremem o meu irmo 
ali em baixo, enfim, todas pretendem caar um bom partido. Os rumores especulam sobre quem ser a escolhida.
             No seu colo Devon puxava um dos dedos da mo. Tinha ficado sem fala.
     - Mas nenhuma mulher o caar. Conheo muito bem o meu irmo e, quando se casar, ser com a mulher que ele escolher, no uma que o escolha. Tenho certeza que 
nenhuma dessas mulherzinhas ruidosas que o perseguem ser a sua mulher; esto muito ansiosas. O passado da sua futura esposa no pode estar manchado pelo mais pequeno 
vestgio de escndalo. Quando Sebastian se casar, ser com uma mulher jovem e educada, uma mulher de inquestionvel linhagem e impecvel comportamento.
     - De sangue azul - disse Devon lentamente.
     - De sangue azul - confirmou ele. - Sebastian no aceitar outra coisa. - Dirigiu o queixo para o canto, onde uma mulher parou junto  harpa. - Se tivesse que 
apostar, seria em Penelope Harding.  calada, inteligente e refinada.
     Devon no queria olhar. No queria ver a mulher que poderia acabar sendo a esposa de Sebastian. Mas nenhum poder sobre a terra podia det-la. O n na sua garganta 
machucou-a.
     -  muito bonita - disse com tristeza.
     Pequena, com cabelo preto e sedoso, Penelope Harding arrumava  suas saias sentada num banco diante da harpa. Precisamente quando Devon olhava para ela, chegou 
Sebastian. Disse-lhe algo no ouvido ao que Penlope assentiu,o que fez brilhar o seu rosto. Uns dedos cobertos de rendas dispuseram-se a acariciar as cordas da harpa.
     Comeou a cantar.
     A sala encheu-se do som mais doce e puro que Devon jamais ouvira.
     Mesmo depois de Justin ter voltado  festa, at mesmo depois da ultima nota ter morrido no ar, depois dos aplausos terem finalizado e os convidados terem passado 
ao salo para jantar, Devon permaneceu sentada na escurido. Imovel.
     Desesperadamente, tentou afastar a dor que arranhava o seu peito. Talvez fossem as palavras de Justin. Talvez a maneira em que todos na sala pararam para ouvir 
extasiados a voz de Penelope. Ou talvez fosse a maneira como Sebastian lhe estendera  a mo para ajud-la a levantar-se. Penelope cantava como um anjo e com o vestido 
branco que usava tambm parecia um.
     Devon desceu o olhar para se ver. De repente, sentia-se insignificante e vulgar no seu vestido novo.
     No incio da noite, chegara a fantasiar com o amor de Sebastian.
     Mas agora que a noite estava prestes a terminar, sentia remorsos. Apaixonar-se por um homem como Sebastian era estpido, pensou. Muito, muito estpido. Sebastian 
era to inalcansvel para ela como a estrela mais alta de um cu azul iluminado pela luz da lua.
     E ela no era mais que uma pedrinha de um rio lamacento.
     E quanto ao beijo que trocaram, no importava que ele se desculpara. Era uma tonta por pensar que para ele foi algo mais que um capricho.
     Seria melhor que no esquecesse isso.


Captulo 13

     
     Uns dias mais tarde, Sebastian entrou na bibloteca e encontrou Devon sentada numa cadeira, balanando as pernas no ar, apoiadas num dos braos.
     - Querida, uma senhora deve ter sempre os ps no cho.
     - E um cavalheiro nunca deve sair sem casaco. - Reparou como estava com os braos descobertos, com as mangas da camisa arregaadas.
     - Touch. - Arqueou uma sobrancelha, mas sem inteno de vestir a pea que descansava sobre as costas da cadeira do escritrio. Em vez disso sentou-se e observou-a 
com ateno. - Estamos zangadas, hoje, no?
      Os seus olhos denunciaram-na.
     - No gostou da festa?
     No obteve resposta. Supunha-se que estudava geografia. Devon tinha passado a maior parte da manh sentada na mesa de estudo, com o olhar perdido e uma expresso 
de desalento no rosto.
     Levantando-se da escrivaninha, Sebastian dirigiu-se ao globo terrestre e pediu com um gesto para que Devon se aproximasse:
     - Devon?
     Ela levantou-se com um suspiro.
     - Onde est o Cabo da Boa Esperana?
     Respondeu com um gesto vago assinalando os arredores do Plo Norte.
     - Interessante. - Comentou ele secamente. - Ontem no estava a.
     Ela fez uma careta de desgosto.
     - E o que importa? Nunca irei para l, de qualquer maneira.
     Isto era srio, pensou Sebastian.
     - De acordo. Ento, mostra-me onde est Londres. Constou-me que j esteve l.
     Sem muita vontade, fez um pequeno circulo com o dedo.
     - Muito bem. - Aprovou ele.
     Devon no olhou para ele. Tinha os ombros cados e no parecia ela: triste e sem a vitalidade que a caracterizava.
     - Est doente, Devon?
     - No. E est sendo bastante cansativo, senhor.
     - E voc est bastante distrada.
     Pelo menos tinha conseguido captar a sua ateno.
     Os olhos dela centraram-se finalmente nos dele.
     - Porque se incomoda em fazer tudo isto? Porqu comigo?Ao chegar em casa  noite, depois das suas festas, fica at tarde acordado. Eu sei, vi a sua luz por 
baixo da sua porta.
     Sebastian submeteu-a a um exame cuidadoso. A leve sombra nas suas plpebras indicava que no dormia, certamente, continuava com os passeios noturnos pela casa. 
No queria enfrent-la agora, no com aquele estado de animo.
     - Eu gosto da noite. - Limitou-se a dizer. - Sempre gostei.
     Embora a resposta fosse sincera, no a convenceu. Era evidente que ele no podia fazer o seu trabalho quando estava lhe dando aulas. Algumas vezes, inclinava-se 
sobre a longa mesa de mogno que havia no centro da sala, observava-a, deleitando-se com o movimento das pequenas ndegas. Ora de um lado, ora do outro, com a testa 
franzida em profunda concentrao. Ela no queria que olhassem para os seios, pelo que Sebastian se contentava com o que tinha mais perto.
     Mas era mais do que isso.
     As obrigaes, que pareciam to importantes no passado, se transformaram em algo secundrio. Preferia passar o tempo com Devon do que passar em todos aqueles 
atos sociais para os quais era convidado depois do anuncio do seu casamento. Com Devon no precisava ser formal nem respeitar as normas sociais. No precisava responder 
como um marqus. E principalmente, com ela nunca se aborrecia. No importava que no recebera uma educao, era to inteligente que a nica coisa que precisava era 
estudar. Devon dizia sempre o que pensava e no se escondia atrs de frases inteis, gargalhadas estpidas e vazias. Parecia-lhe a mulher mais interessante que j 
conhecera.
     Por isso no queria perd-la. No se importava em ficar acordado at altas horas da noite. E tambm no pretendia abandonar o seu propsito. At o momento, 
ela era excelente nos seus estudos.
     - No se trata de mim - disse ele, - creio que se diverte estudando.
     -  verdade.
      Uma resposta pouco entusiasta e, principalmente, uma resposta que no teria dado h umas semanas atrs. Sebastian franziu a testa.
     - Age de maneira estranha estes ltimos dias. O que aconteceu?
     Devon afastou o olhar.
     - Nada. - Disse em voz baixa.
     - Eu te conheo. - Disse resolutamente. - Mudou de ideia? Pensei que queria ser perceptora.
     - E quero, mas...
     A hesitao fez com que a resposta fosse ainda mais misteriosa, o que chamou a ateno de Seabstian. Apoiou o quadril na escrivaninha, estendeu o brao e agarrou 
os dedos dela com os dele, puxando-a para ele.
     - Mas o qu? - Os olhos dele inspeccionaram a expresso que tinha em frente.
     Os lbios rosados e macios fecharam-se ainda mais.
     - Devon... - comeou com uma doce preocupao.
     - Est bem, concordo! Se quer mesmo saber... eu... eu no sei cantar.
     Sebastian gaguejou.
     - Desculpa?
     - Eu j me ouvi. Se o fizesse, as pessoas fugiriam em debandada e procurariam a sada, as portas da rua.
     Ele ficou olhando para ela em silencio, durante uma frao de segundo. E ento, compreendeu tudo.
     - Ouviu a Penelope.
     Devon assentiu. Sentia-se infeliz.
     Sebastian, por sua vez, queria rir com todas as foras. Mas dadas as circunstancias, pensou que no era o momento adequado.
     - Devon - disse cuidadosamente, - poucas pessoas conseguem cantar como a Penelope.
     Os seus esforos pareciam no dar resultado. Talvez o que precisasse eram umas palavras de nimo. Tentou novamente.
     - Talvez voc acredite que no sabe cantar
     - No - disse zangada. - Eu no sei. Ouve.
     E comeou a entoar o que parecia uma melodia, com uma voz trmula e desafinada. Sebastian tentou reprimir o que ele pensou - ela podia pensar assim - um olhar 
de pnico.
     No canto, a Besta ergueu-se e comeou a uivar.
     Sebastian dirigiu ao animal o pior dos seus olhares.
     Devon tinha terminado e olhava para ele apreensiva. Podia ver o desnimo nos seus ombros. Ah, precisava ser o mais cuidadoso possvel, porque o seu ego parecia 
particularmente frgil naquele momento.
     - Devon, ser uma senhora  muito mais do que saber cantar.
     - Sim - disse amargamente - eu sei.
     - Talvez tenha mais talento com o piano...
     - Talvez no tenha talento nenhum.
     - Que estranho, pensei que era daquelas que no se desistem facilmente.
     - Quer desista ou no, o que importa! Estou sendo honesta. Valoriza a honestidade, no  verdade?
     - Mais do que qualquer outra coisa.
     - Ento deixe de me encorajar.
     - Estou tentando...
     - Por favor, Sebastian, me deixa acabar. No se trata apenas da Penelope. Eu vi as mulheres que haviam na festa. E nunca poderei ser como uma delas. Nunca - 
disse com fora. - No  que esteja de mau humor, tambm no tenho inveja delas, ou talvez tenha! J sei que como perceptora no poderia ir a essas festas, no poderia 
desejar os altos degraus da alta sociedade. Mas se tenho que educar os flhos deles, ou acompanhar uma senhora idosa rica, devo possuir o porte adequado.
     - Ters o porte adequado se te sentares direita na cadeira.
     - No  s isso. - Rodeou o globo com um dedo, todos os livros abertos sobre a mesa. O medo no seu seu rosto tornou-se mais intenso. - No sei costurar, como 
 que vou fazer bordados? Ajudei a minha me uma vez com um vestido e acabei por costurar as mangas to apertadas que pareciam a pele de um tambor! Nunca poderei 
desenhar, no faz sentido que o tente sequer, creio que enterraria as iluses da sua pobre irm! Nunca aprenderei francs, nem sequer sei ler no meu proprio idioma! 
- a sua voz quebrou-se. Tentou recompor-se antes de continuar. - No tenho possibilidade nenhuma, Sebastian. Pensei que podia fazer, mas existem muitas coisas que 
eu deixaria de aprender.
     - Devon, cala-te.
     - Sebastian, eu...
     - Cala-te.
     Os seus lbios tremeram e o corao de Sebastian contraiu-se.
     - Ouve-me, Devon - disse docemente, - e ouve-me com ateno. No imagina o quanto estou impressionado com os teus progressos.  espantoso.
     Ela moveu a cabea em desaprovao.
     - Diz isso por dizer.
     - No. - Foi cortante. - o que acredito  que tudo isto  demais para voc. No me surpreende, na realidade. Aprendeu uma grande quantidade de coisas em muito 
pouco tempo. Quanto tempo? Pouco mais de um ms desde que comeamos? No muito mais do que isso, sem duvida.
     Com o dedo, traou as duas leves linhas gravadas na delicada ponta do seu nariz.
     - Agora - disse srio, - fiz voc se sentir melhor?
     Os olhos dela ficaram presos nos dele, como se procurassem a sinceridade nas suas palavras. Parecia satisfeita, ou pelo menos concordou:
     - Sim - respondeu em tom solene, embora a sua boca desenhasse um triste sorriso -sempre faz.
     Sebastian conteve a respirao. Morria por beij-la. Mas no queria que ela pensasse que a sua nica inteno era aproveitar-se do momento. Afastou a vista 
dela e centrou-se no golobo terrestre. Ele tinha viajado por todo o mundo, tinha montado em camelo no Egito, suado na India. No dia anterior, mostrara a ela todos 
os lugares em que estivera.
     Saint Gilles era o nico mundo que Devon conhecia.
     "Deus meu - pensou, - ela esteve no inferno e voltara."
     - Se levante e respire fundo, querida. Porque acho que ainda tenho algo mais para faz-la se sentir melhor.
     Conduziu-a at  entrada, onde mandou pedir a sua carruagem e a capa.
     - Sebastian! - gaguejou. - O que est fazendo?
     - Vamos sair - anunciou.
     Devon dilatou os olhos.
     - Sair? Para onde?
     Agarrou-a pelo cotovelo suavemente.
     - Para ver o mundo que nunca viu.
             
A carruagem entrou pela Londres rural, onde o ar era doce e quente e o cu azul e brilhante. Com o nariz colado no vidro, Devon apreciava a paisagem  sua volta. 
Sebastian, ao seu lado, apreciava olhar para ela.
        Pararam para comer numa pequena e pitoresca aldeia nos arredores de Londres, numa encantadora pousada. Devon comeu com apetite, o seu humor tornou-se mais 
alegre e enrgico, e Sebastian felicitou-se por t-la retirado da cidade. Uma mudana de ares era precisamente o que precisava depois de estar fechada tanto tempo 
entre as quatro paredes.
        Quando voltaram  cidade, j era noite. Ao passar por Grosvenor Square, Devon virou a cabea para olhar a casa de propores desmesuradas no fundo da praa. 
Sebastian percebeu ao ver a expresso de surpresa no rosto da sua acompanhante.
        -  impressionante, parece um dos templos dos seus livros!
     -  verdade - admitiu o marqus. - A viva do duque de Carrington vive ali.
     - Ah, sim, ela estava na festa na outra noite. Justin falou-me sobre ela.
     Alguns minutos depois, passaram por uma casa georgiana com fachada de tijolo.
     - Ah, adoro aquela! Quem vive ali?
     - O visconde de Temberley. 
     Devon fez uma careta.
     - Pensando bem,  horrvel.
     Sebastian elevou as suas sobrancelhas espantado.
     - E essa expresso? Posso perguntar a que se deve?
     - No gosto do visconde - limitou-se a dizer.
     - Devon, voc nem o conheces.
     Sebastian parou e olhou para ela fixamente, divertido. De repente comeou a suar. Temberley era conhecido por ser um mos largas com as mulheres, no entanto, 
o irmo dele era um bom amigo de Sebastian, razo pela qual este se viu obrigado a convid-lo para a festa.
     Mas agora perguntava-se se Devon no teria se encontrado com Temberley naquela noite. Teria acontecido alguma coisa que ele no sabia? Alguma coisa que ela 
no lhe contou? Seria essa a razo da sua opinio? Deus meu, se Temberley se atreveu a olhar para ela, o estrangularia!
     Moveu-se um pouco para v-la melhor. Sabia que estava escondendo alguma coisa.
     - O que  que o Temberly fez para que mereao teu desprezo?
     - Tem uma mulher e uma amante.
     A tenso nos ombros dele cedeu.
     - Como  que voc sabe? No. - Levantou uma mo.  - Deixe-me adivinhar. Justin de novo.  - Sebastian no pode evitar de se sentir um pouco incomodado.
     Justin no era muito hbil em falar s dos assuntos dos outros, mas dos dele tambm.
     - E voc? - Perguntou ela tranquilamente. - O que me diz de voc, Sebastian? Ter uma amante quando se casar?
     Referia-se ao anuncio do casamento. No havia necessidade de perguntar como ficara sabendo, j que no era nenhum segredo. Mas nunca falou com ela sobre aquilo; 
nem era necessrio, dado que nos ltimos dias tinha se transformado no assunto central dos boatos dos jornais da cidade. Ele a viu lendo aquelas pginas nos jornais. 
No inicio, surpreendera-se que fossem os boatos que devorasse com mais fervor, mas depois pensou que seria bom que ela estivesse informada do que acontecia na alta 
sociedae.
     Devon deu-lhe um sermo sobre a honestidade, ento no teve outro remdio seno ser honesto.
     - No sei.
     - No sabe. - repetiu ela.
     - No, sinceramente, no posso excluir a possibilidade, e de fato  o que a maioria dos homens fazem.
     - Entendo - disse com tom azedo - Diga-me. E espera que a sua mulher seja fiel?
     - Claro que ser fiel - respondeu incmodo - ou vai preferir no ser a minha esposa.
     - Ento, lhe pedir lealdade?
     - A fidelidade e a lealdade andam unidas. - Foi a sua resposta.
     - Corrige-me se estiver enganada. - disse em tom cido. - A honra e a devoo da sua mulher so irrefutveis, mas voc se nega a oferecer o mesmo?
     - Eu no diria desse modo. Ela cumprir com os seus deveres como esposa e eu com os meus como marido.
     - E o que acontece se ela tiver um amante?
     Os olhos dele faiscaram.
     - Nunca. Um homem precisa saber que os seus descendentes so dele!
     - Mas voc pode ter uma amante.  a mesma coisa, no?
     - Claro que no  a mesma coisa!
     Ela olhou para ele, com os lbios apertados e os olhos dourados cheios de furia.
     Sebastian suspirou.
     - Devon, os hbitos da alta sociedade so diferentes. Voc no entenderias.
     - Ah, entendo - disse friamente. - Entendo que  to mau um homem ter uma amante quanto uma mulher o ter. Um marido deve ser fiel  sua esposa, assim como ela 
deve ser fiel a ele. Um homem deve amar e proteger a esposa, e ela a ele! E sendo voc um homem que parece se preocupar com as conversas sociais, pensei que concordarias 
comigo!
     Claro, pensou ele, era a hora de distinguir o bem do mal. Escondeu um sorriso: uma vez mais, ela impressionar-o. O sermo transmitia uma firme lealdade. Falava 
de f e de compromisso entre duas pessoas que se amavam.
     Os mesmos valores que ele venerava.
     Tentou agarrar o brao dela, mas ela retirou-o.
     - Devon - disse com ternura, - talvez se interesse em saber que j no mantenho nenhuma amante. 
     No tinha certeza porque  que contava aquilo a ela. Algo dentro dele, alguma coisa que no entendia, impelia-o a dizer.
     - Porque que me interessaria? - O seu olhar fervia de raiva.
     "Porqu?", decidiu chegar-se para trs no seu assento. A carruagem passou pela lomba do caminho. Virou bruscamente, e se ps de frente para ela para a observar 
fixamente. Desta vez ela no se retirou. O seu nariz ergueu-se novamente.
     - O que aconteceu? - Perguntou-lhe. - A adorvel Lilly, no  verdade? Discutiram?
     Como raio ela sabia de Lilly? Justin novamente, no havia duvidas. Mas ele comeou o assunto e agora no sabia como termin-lo. Custava-lhe admitir que foi 
uma noite a casa de Lilly, uns dias depois de Devon estar l em sua casa. Havia olhado para ela e... no sentira nada. O ardente beijo de boas vindas fora frio. 
No houve uma fasca de resposta, nem o menor desejo.
     Soube ento que tudo estava acabado, e assim o disse. A indignao de Lilly pareceu-lhe natural. Fez um escndalo, at que o marqus lhe ofereceu uma generosa 
compensao. Depois disso, ela praticamente desaparecera. Contudo, no estava disposto a revelar esses detalhes a Devon.
     - Chegou o momento de nos separarmos.
     - E voc deixou-a ir? Assim sem mais nem menos?
     O seu tom de voz era acusatrio. Tinha toda a lgica. Acreditara que a agradaria!
     - A adorvel Lilly, como voc a chamou, encontrar outra pessoa. Juraria que j encontrou.
     - Mas o que aconteceria se no ainda no o fez?
     - Vai faz-lo.  assim que acontessem as coisas. - houve uma pausa incmoda, - com as mulheres como ela. - Concluiu.
     - Em funo desta afirmao, devo assumir que teve varias amantes.
     Sebastian sentiu-se aborrecido. Foi uma afirmao, no uma pergunta. Mas sabia pela expresso dela, que esperava por uma resposta. Como podia responder quilo? 
As conversas deles conseguiam terminar em cursos inesperados. Precisamente por isso deveria ter previsto. Porque com Devon era sempre de esperar o inesperado.
     Encontrou-se num tnel sem sada.
     - Tenho trinta e um anos - disse hesitante - por isso, sim, j tive varias amantes.
     - Ento talvez tenhas vrios filhos. - A sua expresso era de desaprovao.
     - No, tenho a certeza disso. - Respondeu firmemente.
     - Como? - Perguntou ela?
     - Voc sabe. Existem vrias formas. - Fez um gesto vago. - Os homens tem as suas formas, as mulheres as delas. - a voz dele desvaneceu-se. Uma ideia estranha 
passou pela mente dele ao olhar para ela.
     Estavam quase chegando em casa. A carruagem diminuiu a velocidade quando se aproximaram das cavalarias.
             - Devon - disse-lhe com precauo - tem certeza que sabe como os homens e as mulheres podem evitar ter filhos?
        - Claro que no! No tenho necessidade de saber essas coisas!
     Levou um momento a digerir o que acabava de ouvir. A revelao o fez hesitar. Aquilo significava que...
     - Est me dizendo que  virgem?
     Ento a porta da carruagem abriu-se. Um criado de uniforme vermelho fez uma reverncia e estendeu-lhe a mo.
     - Senhor - disse Devon orgulhosa - a sua linguagem  abominvel.
       - A minha linguagem ser muito pior se no me responder!
        Arrumou as saias e olhou para ele por cima do ombro, com o queixo erguido.
        - Creio - olhou para ele com ponderao - que ter que tirar as suas prprias concluses.



    Captulo 14
                

Devon era virgem, pelo amor de Deus, virgem.
     Umas horas mais tarde, a mente de Sebastian ainda tentava acreditar na noticia.
     Cada poro da sua pele dizia-lhe que era verdade. Mas como podia ser assim, vivendo em Saint Gilles? Trabalhando naquele buraco infernal que era o Crow's Nest? 
Passeando por aquelas ruas perigosas a noite, uma mulher sozinha e indefesa, abandonada nos esgotos da terra?
     Uma vez mais, pensou nas circunstancias que trouxeram Devon para sua casa. Reviu minuciosamente as concluses a que chegou; talvez no fosse to indefesa. Usava 
uma faca, e possua fora suficiente para utiliz-la. E empregou a melhor arma de todas: a sua inteligncia. O recurso do disfarce de mulher grvida era sem duvida 
inteligente. Mas mesmo assim...
     E ele que achou que a conhecia; pelo que parecia estava enganado. No era a prostituta que pensou ao principio. Depois da discusso que tiveram no dia em que 
a descobriu revistando as suas coisas, pensou que no podia culp-la por fazer o necessrio para sobreviver.
     Embora lhe devolvera o colar, s vezes especulava sobre as suas origens. Mas ela usava-o sempre. Uma vez limpo e arrumado, parecia uma pea muito valiosa. Seria 
verdade que fora um presente que um homem de boa famlia deu  sua me?
Uma virgem. Deus meu, uma virgem!
        A expresso de Sebastian tornou-se irnica. Decidiu que havia apenas uma forma de averiguar.
     No seria facl, pensou com uma careta de auto desprezo. Com toda a certeza, no seria bem recebido. Devon continuava aborrecida no seu quarto.
     E Sebastian no era um safado. No era.
     O que no o impedia de querer subir as escadas e saltar sobre ela. O que no o impedia de querer fazer em tiras o seu vestido at t-la nua nos seus braos. 
O que no o impedia de querer provar, saborear e beijar aqueles gloriosos seios at que se sentisse satisfeito, faz-la gritar de prazer e fundir o seu membro dentro 
dela, uma e outra vez
     Essa era a sua parte selvagem.
     A sua parte civilizada no era muito diferente, reconheceu. Saber que dormia em sua casa, tentava-o, tentava-o de uma maneira selvagem e m
     Mas no passaria os limites da razo, pensou.
     No sucumbiu at agora, e no o faria. No era um homem tolerante com os seus desejos, no era daqueles que obedecia a cada desejo animal que lhe sobrevinha. 
Porque ele era um homem de gostos sofisticados. Acreditava que as urgncias e os desejos deveriam ser considerados e refreados. As consequncias, fossem quais fossem, 
deviam ser calculadas e medidas antes de tomar qualquer deciso.
     Alm disso, ela era uma mulher pura - pelo amor de Deus, no podia se enganar sobre isso, - e isso era algo que o fazia desej-la ainda mais. Mas vivia em sua 
casa, era sua protegida. Embora seu sangue fervesse de desejo, no a desonraria dando rdeas soltas quela paixo.
     Sobretudo, depois do que disseram um ao outro na carruagem nessa tarde.
     Um pensamento alterava-o: A me dela teria sido amante de algum homem? E Devon era o resultado dessa relao? Seria por isso que mostrara tanta raiva para com 
os homens que tinham amantes?
     Sentiu uma pontada no peito. Esta casa seria to solitria sem ela! Era ela quem a enchia de vida e alegria.
     Da mesma maneira que enchia a ele.
     Uma estranha tenso aprisionou o seu peito, no conseguia respirar. Sentiu-se vulnervel.
     - Devon - sussurrou, - ah, Devon, o que vou fazer sem voc?
     O que faria sem ela?
     Sentiu-se melanclico. O que precisava era de um brandy. Um copo do melhor e mais forte brandy. Dirigiu-se para a biblioteca decididamente, e a passos largos 
chegou  sua cadeira. Precisava de pensar.
     Mas a sua cadeira j estava ocupada.

     Devon sonhava. Sonhava com um dia tranquilo, com jardins exuberantes no vero, cheios de vegetao, onde a gua prateada saia da fonte e os raios de luz passavam 
as nuvens brancas e lmpidas.
     De repente, a tempestade veio perturbar a calma. O ar comeava a rugir, e os raios e troves descarregavam a sua fria. No seu sonho, Devon moveu-se procurando 
aquele esplndido mundo de luz...
     - Devon. Devon.
     O seu corpo deu um salto. A tempestade estava agora sobre ela. E mais, explodia diretamente nos ouvidos.
     Conseguiu abrir os olhos.
     Sebastian estava olhando para ela, com uma expresso to furiosa como a tempestade do sonho.
     - Sai daqui. - Murmurou.
     Mas ele no o fez. 
     - Devon, a Besta... a Bolita... ocupou a minha cadeira.
     - Pelo amor de Deus - grunhiu ela meio dormindo, - voc  maior do que ela, tire-a de l. - Virou-se de costas e disps-se a continuar dormindo.
     - Dadas as circunstancias, duvido muito que seja uma boa ideia.
A conscincia acordou-a. Devon levantou-se da cama e dirigiu-se  porta.
     - Chegou a hora. - Disse impaciente.
     Sebastian seguiu-a pelas escadas.
     - Voc sabia. - Disse-lhe furioso. - Sabia, no  verdade?
     - Como? - Respondeu. - Quer dizer que voc no?
     Agarrou-a pelo cotovelo para fazer com que andasse mais depressa. Se tivesse lhe respondido, se acusaria ainda mais. Ao abrir a porta da biblioteca, continuava 
resmumgando.
     - Deus meu! Esta criatura est parindo na minha cadeira!
     Devon estava perto o suficiente para o ouvir. Apressou-se a entrar na sala antes dele.
     - Sinceramente, pensei que j havia reparado. - No conseguiu resistir em brincar um pouco mais. -srio, Sebastian. Deve ter ces em sua propriedade, cavalos...
     - Por isso  que ela estava com um apetite enorme!
     Devon no era perita em partos, mas nisto, pelo menos, parecia ter mais conhecimentos do que o marqus.
     - Era pela gravidez. - Devon acomodou-se diante da cadeira de Sabastian, encarregando-se de Bolita. O animal deixou de se virar e deitou-se, suplicando em silncio 
 sua dona. Devon franziu a testa, e acariciou-lhe o lombo.
     No tiveram que esperar muito. Em questo de minutos, a cadela comeou a gemer a e aganir. Sebastian no conseguiu conter o seu nervosismo.
     - Devon! - Gritou. - Temos que fazer alguma coisa!
     Devon olhou para ele. Estava em camisa, com o rosto plido como o branco da gravata, que agora no era mais do que um monte de seda cada no cho. Os botes 
da camisa estavam abertos. O estmago de Devon contraiu-se ao ver o pelo masculino do seu peito. As palmas das mos dela ficaram hmidas. Os braos tambm, eram 
grandes e musculados, cobertos por sedosos pelos negros. Devon olhou para ele com devoo, perguntando-se se o resto do corpo estaria coberto da mesma maneira.
     Apressou-se a desviar o olhar. O que  que ele tinha dito? Ah, sim.
     - Est dando  luz, Sebastian. Ela  que deve fazer todo o trabalho.
     E assim foi: uivou, empurrou, arfou e pressionou at que Sebastian no conseguiu suportar por mais tempo. Ajoelhou-se ao lado de Devon. Engoliu em seco e depois 
estendeu uma mo para a Bolita.
     -  isso - disse tentando dar coragem. - Voc consegue, pequena, eu sei que consegue.
     Ento aconteceu algo incrvel. Um corpinho hmido deslizou por entre as patas de Bolita. Sebastian ainda estava olhando para ele quando aconteceu algo ainda 
mais incrvel.
     Bolita lambeu a mo dele.
     Outros trs corpos uniram-se ao primeiro. Quando pareceu que no havia mais nenhum, Sebastian olhou para ela esperanado.
     - J terminou, no  verdade?
     Devon aventurou-se a dar a sua opinio.
     - Acho que sim.
     Sebastian respirou aliviado. Depois secou o suor da testa com a mo.
     - Foi esgotante.
     Provavelmente, foi mais para Sebastian do que para Bolita, pensou Devon divertida.
     Inclinou-se e, prestando ateno  reao da me, agarrou os recm nascidos e examinou-os um a um. Os olhos dela dilataram-se.
     - Oh! Olha, Sebastian! - exclamou. - So todos machos!
     Ao devolv-los ao seu lugar, os pequenos procuraram instintivamente o calor da me, fazendo ruidinhos e gemendo. Ajudando-os com o nariz, Bolita empurrou-os 
na direco da sua barriga.
     - Temos que manter a biblioteca quente esta noite. - Disse Devon.
     - Eu vou acender a fogueira - Respondeu Sebastian.
             - E nomes. Precisam ter nomes, no acha?
     - Boa ideia. Como vamos cham-los?
     - No sei. Talvez - sugeriu ela - voc devesse escolher.
     - Eu? Porqu?
     - Eu escolhi o nome da Bolita e sei que no gostou da minha escolha -  A afirmao veio acompanhada de um longo e expressivo olhar. - Sendo assim, acho que 
 justo que seja voc a pr o nome dos cachorros, sobretudo porque so machos.
     Sebastian pareceu muito satisfeito. Comeou assinalando uma barriguinha suave e sem pelo.
     - Este  o maior - disse com voz autoritria - e o primeiro a nascer. Por conseguinte, deve se chamar General. Este - apontou uma pequena orelha, - Coronel. 
Seguido de Major e Capito, claro.
     Devon aplaudiu encantada.
     - Que inteligente!
     - Obrigado.  um prazer.
     Virou a cabea para observar a expresso dela, com ternura.
     - Parece muito feliz.
     - E estou. - Limitou-se a responder.
     Estavam sentados ombro com ombro, a camisa de Devon roando os ps de Sebastian. Pareciam apreciar finalmente uma alegria contida.
          Nenhum dos dois reparou quando Justin abriu a porta de uma empurro.
     - Bom, Bom - disse arrastando as vogais, - mas se no  a mam e o pap a admirar a sua prole. Quantos so?
     - Quatro, e so todos machos - respondeu o irmo, orgulhoso.
     Justin aproximou-se.
     - Confesso que comeava a achar que este bendito momento nunca chegaria.
     Devon deu um olhar furtivo a Sebastian. Ao mesmo tempo, Sebastian dedicou um aviso silencioso a Devon, que por sua vs tentava conter o riso.
      Justin aproximou-se confiante de Bolita. Esticou a mo para acariciar um dos cachorros.
     Bolita atacou-o.
     Justin teve que retirar o brao.
     - Mordeu-me! Santo cu, eu devia saber que no se pode confiar nas mulheres!
     Sebastian riu as gargalhadas
     - Bom, agora j sabe. Voc, meu irmo, recusado - brincou. -  a primeira vez, no? Talvez seja um sinal do que te espera. - Acariciou a barriga do mesmo cachorro, 
enquanto Bolita esfregava a cabea contra a sua mo.
     Justin continuava aborrecido.
     - Quero que saiba que no perdi num pice o meu encanto.
     - V l, vamos. - Sebastian voltou a rir. - Cuida a tua lngua, sob pena das palavras se voltarem contra ti.
     - Gostaria que assim fosse, no ?
     Sebastian deu-lhe um sorriso amplo.
     - Creio que sim.
     - J que gosta de me atormentar - disse Justin -  melhor que me retire. Boa noite, Devon. Boa noite, irmo.
     Nenhum dos dois se mexeu quando Justin saiu. Devon comeava a se sentir cansada de novo. Reparou que as suas plpebras estavam mais pesadas, mas no queria 
se mexer. Sentia-se to bem junto dele.
     Naquela cordialidade slida e robusta. Queria guardar para sempre esse sentimento no seu interior, no o deixar fugir, porque nunca se sentira to segura como 
agora. Se ela se aninhasse contra ele, ser que ele percebria?
     O que sentiu foi que um brao musculado lhe segurava as costas e outro a alava por baixo das pernas. Sentiu-se elevada pelo ar. 
Os seus lbios roaram uma garganta masculina ao mesmo tempo que gemia um protesto.
     - Estou vigiando a Bolita e os filhotes.
     Um gargalhada ressoou no peito de Sebastian, mesmo por baixo da mo dela.
     - Querida, est dormindo a uma hora no meu ombro.
     "Querida."
     O corao dela desfez-se. Era uma estupidez achar que aquelas palavras significavam algo mais, pensou com tristeza. Era apenas um adjetivo carinhoso, algo que 
provavelmente tinha dito sem pensar.
     - Pe o teu brao em volta do meu pescoo - sussurrou-lhe Sebastian.
     Mas os braos dela j estavam em volta do pescoo dele. Ela apertou o rosto contra o pescoo, deliciando-se com o poder que emnava dele.
     Com um olhar ascendente, percorreu os braos masculinos, terminando nos msculos bem esculpidos. Uns braos que no hesitaram em lev-la sem esforo pelas escadas 
e deix-la no quarto.
     A luz da lua brincava com as cortinas e desenhava com austeridade as feies dele.
     Nervosa, percebeu a bruta masculinidade do seu rosto. Estava to perto, que no conseguiu evitar colocar a ponta do dedo naquela covinha que tanto a fascinava.
     - to bonito - disse solenemente.
     Lentamente, Sebastian deitou-a sobre a colcha da cama. Os seus olhos iluminaram-se e ela sentiu que podia ver profundamente a sua alma. Sentiu uma sombra de 
dvida fora do comum nele.
     - No  verdade. - Disse ele negando com a cabea.  - Justin  que  bonito.
     Devon levantou-se.
     - E voc tambm  - garantiu-lhe.
     Ele suspirou.
     - Obrigado por dizer, Devon, mas eu sei muito bem como sou. Sou grande demais, moreno demais. Quando era pequeno, os outros meninos me chamavam de Cigano.
     Agarrou a mo dela e estendeu-a sobre a dele, que junto dos seus dedos pareciam imendos. A sua palma era quente e dura, uma anteviso de outros lugares quentes 
e proibidos, que o fizeram tremer. Mesmo na escurido, conseguia ver o contraste da cor da sua pele.        
     - V? As suas mos so metade das minhas.  - Os lbios dele traaram um leve sorriso. - Voc tem metade do meu tamanho. - E retirou a mo.
     Devon olhou para ele alarmada. O que foi aquilo? Sentiu uma dor profunda.
     - Todo mundo fala, Sebastian. Todas as mulheres de Londres aspiram por se casar com voc. Eu vi com os meus prprios olhos, aqui, nesta casa. Tadas as moas 
beijando seus os ps. Poderia escolher quaquer mulher desta cidade.
     - Sim, talvez seja verdade, mas deixe-me dizer uma coisa, Devon. Se o fazem,  porque todas elas querem ser marquesas. No necessariamente a minha marquesa. 
 uma tentao enorme. Os casamentos baseados no amor no so muito frequentes. O normal  que se baseiem no interesse mutuo. E no quero parecer banal, nem dar 
pena, porque eu gosto muito do meu irmo, mas se o Justin fosse o marqus, ningum olharia para mim.
     Aquelas palavras emocionaram Devon. Ficou muda. Era incrvel que aquele homem to seguro de si prprio pudesse sequer considerar uma ideia to absurda. Mas 
assim como as palavras a tinham emocionado pelo seu significado, impressionou-a ainda mais que desabafasse com ela de semelhante maneira. Suspeitou que muito homens 
no se atreveriam a expor-se assim diante de uma mulher.
     - Na realidade, o chamam "o homem mais bonito de toda a Inglaterra".
     - Sim, sim, eu sei. Mas o que acabou de dizer, que se Justin fosse o marqus ningum olharia para voc, bom, est absolutamente enganado.
     - Acho que no, Devon. Eu no me engano.
     - No  verdade - imsistiu ela - e no devia pensar assim. Quer saber porqu?
     Os lbios dele tremeram.
     - Suspeito que voc vai me dizer.
     Rodeou as mos dele com as suas - com fora, fazendo-o ver que no lhe esconderia nada - da mesma maneira que ele fizera com ela.
     - E vou. Disse que sabe como . Bem, deixa que te diga como eu te vejo. Vejo um homem que tem um peito magifico e ombros maravilhosos, na verdade, foi a primeira 
coisa que reparei. Na noite que despertei, aqui, nesta cama, no conseguia deixar de olhar para voc. Estou falando por mim, mas creio que no seja muito diferente 
para as outras mulheres. Me atrevo a dizer que muitas admirariam um homem que fosse mais alto que os outros, um homem com mos grandes, um homem que faz uma mulher 
se sentir delicada, pequena e protegida. Todas as manhs, quando o vejo sentado na sua mesa, com a luz do sol iluminando o seu cabelo preto azeviche, penso que  
o homem  mais impressionante que j conheci.
     A cada frase, a cada palavra, a sua voz ia ficando mais vigorosa e as suas emoes saiam do peito com mais intensidade.
     - Voc, Sebastian Sterling,  to lindo que, bom, sinceramente... me tira o flego... me faz tremer da cabea aos ps. Algo que o seu irmo nunca conseguiu 
fazer.
     As palvras no saram da sua boca exatamente como ela imaginou. Teria se excedido? No importava, j estava feito. E agora, resava para que conseguisse convenc-lo.
     Aventurou-se a olhar para ele.
     O ar tornou-se de repente irrespirvel. Sebastian olhava para ela fixamente. Quando os olhos deles se encontraram, algo brilhou no olhar dele, algo que Devon 
nunca vira antes. Parecia que queria devor-la.
     Tentou lutar contra a acelerao do pulso sem conseguir. Tudo parecia flutuar no sossego do ar, cada palavra, cada batida. Sim, sobretudo o seu corao. Durante 
um breve instante pensou que ia beij-la.
            Se sentira reconfortada como se as estrelas cobrissem os seus movimentos, mas de repente, sentiu muito calor. Estavam sentados um junto ao outro, o musculo 
dele roando ligeiramente o dela. Faltava-lhe o ar, t-lo to perto, a fazia tremer. Queria que ele a tocasse, desejava tanto como nunca antes desejou alguma coisa. 
Como se a terra seca desejasse ser beijada pelas gotas da chuva.
        A voz dele transpassou o tenso silencio que os rodeava. 
     - Devon - disse ele - nunca... nunca... diga a um homem o que acabou de me dizer. - afastou-se dela. - Porque se disser, esse homem abusar de voc sem contemplaes.
     Ela queria que ele abusasse dela sem contemplaes. Mas o seu sorriso se desvaneceu, e ela no conseguiu sentir outra coisa seno a confuso no seu interior. 
O que viu foi uma expresso dura, tensa e deformada.
     Devon gelou, o seu corao batia ao ritmo da sua coragem. Olhou para ele com a vista enevoada. Talvez estivesse cega, cega pela luz da lua, por ele, por todas 
as emoes que retinha em seu corao.
     Sentiu-se desfalecer. Cometera erros antes, mas Sebastian nunca olhou para ela daquela maneira... nunca.
     - Prometa-me, Devon. - e entrelaou os dedos com os dela, frios como o ao.
     A dor era imensa, como a de um punhal direto nao corao. Doa-lhe tanto a garganta que no conseguia falar.
     - Sebastian...
     - Prometa-me.
     Assentiu com a cabea.
     - Prometo - sussurrou. - Prometo.
     Ento ele libertou-a.
     Envergonhada, afastou o rosto. No conseguia ver como ele ia embora. Quando ouviu o som da porta ao fechar, levantou um punho e pressionou-o contra a sua boca, 
emitindo um soluo. No entendia nada! Era to horrvel o que lhe disse? Teria se excedido? Teria falado com confiana demais? Quando estava com ele, nunca percebia 
as diferenas que existiam entre eles. No importava que ele fosse um marqus e ela uma pobre desamparada. Ele era simplesmente o Sebastian.
     Mas no havia duvidas que algo o incomodara. Conseguia sentir com todas as suas foras. Do que se tratava? Raiva? Reprovao? Pensou em tudo o que disse; era 
verdade. Cada palavra. Era lindo, de uma beleza devastadora. E ela pensara que isso lhe agradaria.
     Mas enganou-se.
     
Sebastian era um homem que se orgulhava do seu auto controle. No s pelo temperamento, mas tambm pela necessidade. Para cobrir a vergonha com que seus pais tinham 
manchado o nome da familia e restaurar o respeito conseguido pelos seus ascendentes, vira-se obrigado a manter o controle.
     Nesse momento, naquela porta, esse controle estava quase fraquejando.
     S apertando os punhos, fechando os olhos, lutando contra a corrente interna das suas emoes e levantando o rosto para o cu, foi capaz de se obrigar a sair 
do quarto.
     Ainda no sabia de onde tirou tanta fora de vontade.
     Mas no conseguiria faz-lo de novo.
     Para um homem como Sebastian, isso era difcil de aceitar. Desde o incio, o instinto lhe dissera que Devon conseguirira por o mundo que o rodeava de pernas 
para o ar, mas no percebeu at que ponto.
     Nunca pensou que pudesse afet-lo... Estava zangado com ele prprio por sentir o que sentia por Devon. Ele era um homem que agia com ponderao. Mas no planejara 
isto, e no lhe agradava sentir-se preso naquela rede de emoes.
     O carinho era uma coisa. Isso no importava. Mas aquele torvelinho interno, aquele fogo no seu interior... "No preciso disto - pensou. - No preciso." Ela 
aprisionara seu corao, a sua alma e o seu corpo com... qu? Paixo? Evidentemente que no, era velho demais para isso. Esperto demais.
     Ento, que outra explio havia?
             Quando ela estava perto, perdia por completo o controle, todo o seu ser tremia violentamente. Ao despertar, pensava nela, apenas nela.
     E ela ocupava o seu ltimo pensamento antes de adormecer, todas e cada uma das noites.
     Santo Deus, at aparecia nos seus sonhos! Em muitas noites, a sua mente atraioava-o com vises erticas de Devon. Quantas vezes acordou, tremendo e suando, 
com o seu membro erguido e inchado como uma ponta de ferro?
     Sempre nua. Sempre nos seus braos. Via como ela se apertava contra ele, a sua lngua fundida na cavidade da boca dele, um brao sedoso aprisionado entre a 
fortaleza dos dele, as pernas abandonadas contra as dele, os seios marcando o seu peito como se fosse um ferro em brasa. Via como aqueles montculos lascivos e macios 
lhe enchiam as mos, a ponta dos seus dedos louca pelo movimento rtmico ao redor daqueles mamilos apetitosos da cor do entardecer. Entretanto, ela gritava e suplicava. 
Algumas vezes, estava deitada junto dele, com as pernas abertas, com o seu corpo quente, mido e firme, rodeando a sua haste que cavalgava sobre ela uma e outra 
vez.
     Uma noite, o cu desenhou um vago vislumbre do corpo dela, o cabelo dourado  luz da lua. Espalhou-se sobre o corpo, enquanto empurrava o seu estmago na vertical, 
em cima dele. No conseguiu afastar os olhos quando se abraou ao seu peito e lentamente desceu sobre o seu membro erecto... esta era a imagem mais viva de todas.
     Quando acordava, encontrava os lenis hmidos. Deus meu, no ejaculava em sonhos desde que era jovem e sonhava meter-se na cama com uma mulher pela primeira 
vez! At agora, podia sentir o sangue que corria quente e espesso, um calor que apertava o seu intestino.
     Que ironia! Supunha que era ele quem deveria ensin-la a ser uma senhora. Uma senhora fina e ducada. Mas no havia nada de educado nos seus pensamentos quando 
estava com ela e Sebastian no gostava nada daquele desejo irracional. No sabia muito bem como par-lo. Nem sequer sabia se poderia faz-lo.
        

    Captulo 15
                  

             Ir para o escritrio de Sebastian na manh seguinte no seria nada fcil. Enfrent-lo, suspeitou, seria difcil, pois ainda sentia o calor da reprimenda 
recebida. De fato, arrependeu-se no meio do caminho pelo menos trs vezes antes de sair do seu quarto. Apesar do que aconteceu, sabia que mais cedo ou mais tarde 
teria que voltar a v-lo. Tinha um medo atroz, mas que sentido teria em prolongar esta agonia? Com estes pensamentos, abriu a porta do quarto decididamente e encaminhou-se 
para as escadas.
     Parou na porta do escritrio. Sebastian parecia ocupado fazendo algo na escrivaninha. A luz da manh perfilava o seu rosto: impressionante, nobre, orgulhoss. 
Parecia cansado, com uns leve sulcos rodeando sua boca.
     Devon olhou para as mos dele, esbeltas e fortes. Recordou a maneira como comparou as mos dela com as dele na noite anterior e o corao saltou. Doa-lhe tanto, 
que dava vontade de voltar antes que ele a visse. No entanto, no o fez.
     Algo a mantinha presa ao cho, uma fora que a controlava, e quando ele levantou o olhar e conseguiu v-la, ela no afastou os olhos. No conseguiu fazer.
     Apenas durante um segundo, os seus olhares encontraram-se. Embora Sebastian no afastasse os olhos, ela foi incapaz de ler os pensamentos dele. Conteve o flego 
e esperou para ver como se desenrolavam os acontecimentos.
     Viu uma sobrancelha levantada e uma expresso que quase era um sorriso.
     - No tem porque ficar ai fora. No precisa de convite para entrar.
     Devon engoliu a saliva resignadamente e deu um passo a frente. A atitude dele parecia bastante normal. Dava-lhe confiana, e, por outro lado no dava. Agia 
como se nada tivesse acontecido.
     No sabia como lidar com a situao. No sabia como lidar com ele.
     E assim continuaram as coisas na residncia dos Sterling. Os dias transformaram-se em semanas, e as semanas em meses. 
     Mais do que nunca, Devon propunha-se a no fracassar nos estudos. Encontraria um emprego como perceptora ou como dama de companhia. No importava que comeara 
tarde, iria conseguir do mesmo jeito.
     E a leitura tinha lhe aberto um mundo incrvel, de dimenses nunca imaginadas. O que mais gostava de estudar era histria. Aquele tema nunca lhe parecia aborrecido. 
Adorava introduzir-se nos mundo longnquos no tempo. A matemtica, no entanto, no era do seu agrado, mas aplicava-se com esmero, e Sebastian sentia-se orgulhoso 
dela.
     Graas a esse novo interesse, lia todas as noites. Propusera-se que, enquanto estivesse na casa, tiraria proveito da biblioteca de Sebastian.
     Um desses dias, depois da meia noite, deu por concludo outro dos livros que Sebastian lhe recomendara. Encadernado em couro, o livro falava sobre folclore 
e Devon gostara imensamente dele. Ao fech-lo, percebeu que no estava com sono e pensou que seria uma boa ideia fazer uma visita  biblioteca.
     Procurou a Bolita com o olhar, e viu-a sentada na sua cama junto  lareira. O animal levantou as orelhas quando Devon afastou os lenis e ps-se de p sobre 
a almofada, ainda que sem inteno de se mover. Nada a ver com General que, ao v-la, precipitou-se para fora da cama e correu atrs dela. Coronel gatinhou movendo 
a sua pequena cauda atrs do irmo, enquanto os outros dois, Major e Capito, aproveitaram o espao que sobrava para dormir mais comodamente. Sorrindo, Devon agarrou 
nos dois corajosos, um em cada mo, e depositou-os na cama junto dos outros.
     - Vocs ficam aqui.
     Ao sair, fechou a porta com cuidado. Curiosos e brincalhes, os cachorros aventuravam-se cada dia um pouco mais longe da cama e da sua me.
     Era uma daquelas noites horrveis em que o vento soprava com fora e a chuva batia nos vidros das janelas.
     A porta da biblioteca estava aberta e havia luz no interior. Devon hesitou. Sebastian teria voltado mais cedo da pera? No queria incomod-lo se estivesse 
trabalhando.
     - Entra Devon, no seja tmida.
     Era Justin, sentado na poltrona perto da mesa auxiliar com um copo de cristal na mo. A julgar pelo aspecto e pelo cheiro que exalava, aquele no era o primeiro 
copo da noite.
     Justin percebeu o olhar que ela dirigiu  garrafa de brandy ao lado, sobre a mesa.
     - Um ano. O meu irmo s quer o melhor, j sabe. - Bebeu o contedo do copo de uma s vez,.
Devon olhou para ele. Se gostava tanto de lcool, porque fazia uma cara de desgosto?
     - Quer me fazer companhia, Devon? No? Bom, ento faz o que quiser. Ou me deixe sozinho. - Voltou a pegar a garrafa.
     - Justin - disse ela quase num sussuro, - creio que j bebeu o suficiente.
     - No. Nem sequem cheguei perto.
     Devon franziu a testa.
     - Est muito desagradvel esta noite.
     - Sou sempre desagradvel quando bebo.
     - Ento, porque bebe?
     - Porque bebem todos os homens? Para escapar da vida que conhecemos.
     - Porque quer escapar? - Devon no percebia nada. - Tem tudo o que precisa.  rico e...
     Um sorriso negro escureceu o rosto dele.
     - Devon,  uma criatura verdadeiramente ingnua! No sabe que a vida dos previligiados no  no fundo to previligiada?
     - No sei o que quer dizer, Justin. No  como voc...
     - Oh, .  sim, Devon. Quer dizer que no v como eu sou? Eu no sou um samaritano como a Julianna, pobrezinha, olha o que lhe aconteceu! Teve que se esconder 
na Europa!
     Devon olhou para ele pasmada. Sabia que Julianna estava viajando pela Europa, mas estava se escondendo?
     H poucos dias, Sebastian recebera uma carta dela, em que lhe comunicava que decidiu estender a viagem. Isso no agradou Sebastian; pde ver uma sombra de preocupao 
nos seus olhos.
     - Tambm no sou como o Sebastian. Nunca fui e nunca serei.
     Subjugada por tanta agressividade, Devon olhava para ele.
     - Eu no posso satisfazer os padres de perfeio do meu irmo, Devon. Caramba, como poderia? Porqu tentar? Estou perdido. Sou um canalha. Nada do que faa 
satisfaz o meu irmo, da mesma maneira que no satisfaria o meu pai. Nem o Sebastian conseguiu satisfazer o meu pai.
     Devon estava muito espantada para se mover.
     - Lembro-me que meu pai dizia a Sebastian que nunca deveria renunciar ao seu dever. Por isso deveria sempre fazer o que era certo, o que era correto. Se no 
o fizesse, o nosso pai batia nele com uma bengala. Devia educ-lo, dizia ele. Devia prepar-lo. Lembro-me que uma vez tentei det-lo. Pensei que ia nos matar os 
dois. E depois Sebastian repreendeu-me por ter interferido. Disse que ele podia suportar, que essa era a sua obrigao.
     Devon estava aterrorizada. O pai deles batia em Sebastian. Batia-lhe. O estmago dela estava revolvendo-se.
     Justin tinha razo. A vida dos previligiados no era to previligiada apesar de tudo.
     - Ainda bem que o meu irmo no est aqui - concluiu Justin com um sorriso triste, - ele no aprovaria que estivesse bbado.
     - O teu irmo no aprova que esteja bbado.
     Sebastian entrou pela porta, vestindo um casaco forrado de cor carmesim que cobria um terno de gala. O rosto dele era determinado, os lbios apertados.
     O seu aspecto era inquietante.
     Justin no se deu conta disso, ou talvez no se importasse. Devon imaginou como aquilo ia acabar.
     A garrafa tocou a beira do copo com um tilintar.
     - Deixe que eu acabe a histria....
     Sebastian virou-se para Devon.
     - Por favor, deculpe-nos - disse friamente, - tenho que falar com o meu irmo.
     - Oh, deixe que ela fique.  preciso que conhea os segredos da famlia Sterling dado que ela  praticamente da famlia.  Arqueou uma sobrancelha. - ela sabe 
que a mam fugiu com o amante e abandonou os filhos? No? J imaginava.
     Justin continuou a falar para Devon.
     - O escndalo foi horrvel, como deve imaginar. Que espcie de mulher abandonaria os filhos? Claro, no era a primeira vez que a mam era infiel. Embora em 
seu favor da para dizer que esperou at que os seus filhos crescessem, ela e o companheiro, tem que ser tudo dito, mataram-se quando cruzaram o Canal.
     - Justin...
     Justin parecia no ouvir o irmo.
     - Quando o pap morreu, o Sebastian tomou as rdeas e ergueu os restos que o pap deixou. Fez com que a sociedade voltasse a aceitar-nos nas melhores salas 
de Londres. Acabaram-se os escndalos, exceto pela Julianna. Ningum disse uma palavra sobre isso, porm.  como se o ltimo escndalo fosse esquecido tambm,  
exceo da Julianna,  obvio.
     - J chega. - Avisou-o Sebastian duramente.
     Um incmodo sorriso surgiu nos lbios de Justin
     - ? No preciso que me digas como devo viver a minha vida, Sebastian.
     - Nem precisa que te diga como arruin-la
     Devon teve o pressentimento de que tinham esquecido da presena dela.
     - Poupe-me o sermo. Sou um homem, no sou uma criana.
     - Ento, est na hora de agire como tal. No tem nenhum sentido de dever, nenhum sentido da responsabilidade.
     - Isso  porque voc tem o suficiente pelos dois.  como o pap, sabe. O titulo deve vir sempre em primeiro lugar. O titulo  o principal. O dever em primeiro 
plano. Ah, sim,  igual a ele. Tudo em ordem, tudo no seu devido lugar, cada um no seu lugar.
     Sebastian deu um passo atrs. A sua espinha dorsal inflexvel, ficou rgida.
     - Meu Deus - disse nervoso - gostaria...
     - De qu? De me bater? - Um gragalhada sarcstica encheu o ar. - Claro, que outra coisa poderia esperar do filho dele?
     Houve um silencio aterrador, os olhos de Justin colados aos de Sebastian. Devon conteve o flego. Os irmos Sterling encaram-se numa batalha silenciosa e brutal.
     Foi Sebastian que ps fim  situao. Virou-se e de um passo saiu da biblioteca. Os gritos tinham acordado o mordomo e fizeram-no sair da cama
     - Prepara a carruagem - ordenou Sebastian.
     Encaminhou-se para as cocheiras. Devon correu atrs dele.
     - Sebastian, espera!
     No mostrou que a tivesse ouvido.
     O ar, hmido e frio, entrou em casa quando ele abriu a porta. De alguma maneira, Devon conseguiu enterpor-se entre Sebastian e a rua.
     - Afaste-se, por favor. - Disse ele.
     A sua educao era fingida, uma mascara de auto controle. Nem sequer olhou para ela.
     - Sebastian, para onde vai?
     - Para longe. - respondeu-lhe.
     Pelo som da sua voz, parecia que ia bater em algum. Devon esperou que no fosse nela.
     - Voc est bem?
      Ele no respondeu. Umas mos fortes fecharam-se na cintura dela, para afast-la do caminho. Parecia que olhava atravs dela. Sem desistir, correu atrs dele, 
agarrando uma ponta do seu casaco.
     Sebastian deu meia volta.
     - Est tentando me enforcar?
     Ela soltou-o.
     - No me respondeu, Sebastian. Voc est bem? - olhou para ele fixamente
     Ento ele olhou para ela e ela conseguiu ver tudo. Atravs da chuva e da escurido, conseguiu ver a dor que havia no corao dele.
     E um peso de emoes comprimiu-lhe o peito. A mesma dor que ele padecia.
     Embora nem sequer chegasse a metade da dele. Compreendeu a vulnerabilidade daquela solido. O cu abriu-se, a chuva explodiu numa torrente, e ela ficou ali 
de p, ao frio e  humidade que empapavam a sua camisa.
     Aventurou-se a dar um passo em frente
     - No parece estar bem.
     Com uma palavra, tirou o casaco e tapou-lhe os ombros.
     - Vai para dentro, - Ordenou ele - ou vai morrer de frio aqui fora.
     Abrandida pelo seu calor, no calor do casaco, negou com a cabea, sentindo uma dor to intensa na garganta que a impedia de falar.
     - Devon.
     Todas as dores do mundo estavam contidas naquele grito.
     - No posso ficar, Devon, no posso. No agora. No esta noite.
     Devon pde sentir a frustrao, pde ouvir o desespero ao respirar, no sabia se a afastava do seu lado, ou se a atraia para o seu peito.
     Ela no lhe deu opo de escolha, e apertou-se contra ele.
     - Ento, leve-me com voc - suplicou-lhe - para onde for, leve-me voc.
        
     
     
    Captulo 17
     
             Pegou ele desprevenido, e tambm o seu corao.
        Encurralado num turbilho de emoes, sentiu como cada msculo do seu corpo ficava tenso, e incapaz de respirar, sentia os pulmes prestes a rebentar. No 
conseguiu encontrar foras para afast-la do seu caminho, no teve vontade de deix-la para trs.
     O cabelo dela se soltara e caa molhado pelas costas. A camisa colava-se  pele dela; cobriu-a com seu casaco muito tarde. Uns mamilos rosa escuros apertavam-se 
desafiantes contra o tecido de seda. Viu as pestanas brilhantes e midas, e perguntou-se pelo motivo: era pela chuva ou pelo pranto?
     Mas sobretudo, foi a maneira como olhou para ele... to expressiva, to delicada, agarrada  sua jaqueta com dedos diminutos. Era incapaz de lhe esconder fosse 
o que fosse, com aqueles olhos que por um lado lhe suplicavam e por outro brilhavam de esperana.
     Sentiu-se como se tivessem lhe arrancado as entranhas.
     - Devon - disse desesperadamente. - Devon...
     Ela mudou de posio e moveu a mo direita ligeiramente, at coloc-la em cima do corao dele. A outra continuava agarrada fortemente  sua jaqueta. 
     - Leve-me com voc - Disse a tremer. - Sebatian, imploro, leva-me com voc.
     Ela no se movia. 
        Ele tambm no.
     Quando a carruagem comeou a andar, estavam os dois l dentro
     Sebastian no fez perguntas, ela no o pressionou mais. Bastava t-la ali. Que estivessem juntos
     Londres ficou para trs, e a chuva tambm. Uma hora depois desciam por caminhos estreitos subindo e descendo colinas. Abraou-a de maneira instintiva, embora 
fosse um instinto muito diferente o que manteve ela entre os braos dele. Quando tentou se soltar, houve um protesto mudo.
     O dele.
     Os olhos deles encontraram-se. Nos dela, escondia-se uma pergunta silenciosa. Ele abraou-a com mais fora, como nica resposta, a nica que ela precisava. 
Quando Sebastian puxou o pequeno corpo para atrair ao seu peito, ela aninhou-se junto a ele apoiando o nariz no pescoo dele em busca de calor. Tapou a ambos com 
a capa dele e, nesse momento, pareceu-lhe ver um sorriso no rosto dele.
     O amanhecer iluminava as colinas a Leste quando a carruagem alcanou umas macias portas gmeas cobertas por hera, percorrendo jardins e reas de pasto cuidadosamente 
aparados.
     Sebastian despertou Devon, que acabou por adormecer h pouco tempo. Mexeu-se sonolenta. Ele beijou a pequena mo que descansava sobre o peito dele e levantou-a 
suavemente.
     - J chegamos - disse em voz baixa.
     Na sua boca se desenhou um sorriso  medida que se aproximavam da casa. Como sempre, pareceu-lhe uma vista magnifica. As colunas gregas dominavam o centro da 
casa; as janelas, altas e forradas a branco, cobriam at ao cho as paredes de cada ala. Devon abriu a boca maravilhada quando Sebastian a ajudou a sair da carruagem.
     - Bem vinda a Thurston Hall - murmurou.
     Embora a chegada de Sebastian  casa da familia fosse inesperada, um mordomo de uniforme vermelho e dourado saiu para receb-los, acompanhando-os depois para 
o interior. Sebastian deixou Devon aos cuidados de Jane, uma das suas melhores empregadas.
     - Porque no toma um banho e descansa um pouco? - Sugeriu ele. - Me encontrarei com voc - olhou para o relgio do av pendurado em cima das escadas - ao meio-dia.
     Os olhos dela procuraram-no tentando ler a expresso dele.
     - E voc?
     Assinalou uma barba principiante no rosto dele.
     - Bom, - disse pensativo, - parece-me que preciso de um banho e fazer a barba.
     Devon fez uma careta
     - Voc sempre precisa fazer a barba. 
     Ele tinha conscincia de que desviara o verdadero sentido da pergunta.
     Passou ternamente os ns dos dedos da sua mo pelas faces dela, maravilhando-se pela textura e sem se preocupar com o que os criados pudessem pensar.
     - Estou bem. - e era verdade. O peso no seu peito desapareceu, no havia necessidade de perguntar porqu. Amava Thurston Hall, amava acima de qualquer coisa. 
Embora desta vez tivesse pouco a ver com o fato de se encontrar em casa.
     E muito com a mulher que estava ao seu lado.
     Ao meio-dia, Devon no estava no fundo das escadas. Pensando que poderia ter ficado dormindo, subiu ao seu quarto. Jane estava fazendo a cama e disse-lhe que 
a menina j saira, um quarto e hora antes do combinado.
     Encontrou-a na galeria dos quadros. Fresca como uma rosa, com o cabelo penteado para trs e preso num lao. O colar prateado brilhava na sua garganta. Jane 
ajudou-a a se vestir com um dos vestidos de Julianna. Ao v-la, Sebastian quase gemeu de prazer.
     Aproximou-se dela, tentando no descer os olhos para o seio dela.
     - Ol - recebeu-o feliz, - estava dando uma volta.
     Sebastian riu.
     - Devia ter imaginado. Tem esse habito, no ? Tenta pelo menos no ir longe demais. Pode se perder nesta casa e passariam semanas antes que algum a encontrasse.
     - Ah, mas a verdadeira questo, senhor, ... se eu me perdesse, viria  minha procura?
     Percorreu o seu rosto com o olhar, o lugar onde uma sedosa patilha cobria a sua orelha, a deliciosa fenda dos lbios.
     - Todos os minutos - disse, tranquilamente.
             - Como se procura um tesouro perdido, sem duvida - brincou.
        - No, Devon. Procuraria por voc, s por voc. No descansaria at te encontrar. - E foi sincero em cada uma das suas palavras.
     Devon olhou para ele, interrogando-o em silencio. 
     Ento, ele sentiu uma pontada no estmago. Deus meu, o que estava fazendo? No deveria ter permitido que ela viesse.
     Mas j o permitira, e agora era tarde demais. Embora sentisse que era bom que ela ali estivesse.
     Ele sorriu.
     - Agradeo que tenha vindo. No era minha inteno a sequestrar no meio da noite, sabe?
     - No  assim que eu me lembro, mas  muito generoso da sua parte express-lo nesses termos.
     Ele baixou o olhar.
     - No tenho a certeza de conseguir explicar. O Justin... bom, como viu ontem  noite, no podia ficar. Eu s precisava estar aqui. Precisava ver... - por um 
momento a sua garganta secou-se e teve dificuldade para falar - tudo isto novamente. Precisava estar em casa.
     Uma pequena mo agarrou a dele.
     Sebastian entrelaou os dedos e virou a cabea para um dos quadros.
     - Vejo que teve a oportunidade de admirar a imagem da famlia. Foi pintado apenas uns meses antes da minha me partir. O meu pai no permitiu que o pendurasse 
enquanto foi vivo. Mas percebi que pertence a este lugar, com o resto dos Sterling.
     - Parece muito jovem - disse ela mordendo o lbio. - Quantos anos tinha?
     - Tinha dez,  o Justin seis e a Julianna trs.
     - J era alto, na altura! Quase como o seu pai. - E desviou o olhar em direo  pequena de cabelo castanho que estava de p junto ao irmo. - E Julianna parece 
muito doce.
     Os olhos de Sebastian amoleceram
     - E . No mudou nada desde esse tempo.  a pessoa mais meiga e generosa deste mundo. A voz dela  como um raio de sol pela manh.
     Devon olhou para a bela mulher de cabelo escuro vestida de veludo azul. Embora a sua pose fosse tristonha. Os olhos vivos traiam o seu verdadeiro carcter: 
era quase como se desafiasse o homem de rosto sombrio que pousava ao seu lado. 
     Uma mo invisvel parecia rodear o corao de Sebastian. No importava muito, pensou. Sempre tinha sido assim.
     - A sua me  impressionante - murmurou Devon.
     - Era, no  verdade? O Justin se parece muito com ela. A Julianna herdou a sua delicadeza, enquanto que eu... eu herdei a estatura do meu pai. 
     Mas no o seu temperamento. Pelo amor de Deus, isso nunca.
     Como se ela adivinhasse a direco dos pensamentos dele, Devon desviou o olhar para o pai da famlia. O pintor captou na perfeio o esprito de William Sterling: 
a sua austeridade, a desaprovao com que via a famlia... e o mundo! At no quadro, embora todos pousassem ao redor da lareira, ele se mantinha afastado da sua 
esposa e dos seus filhos, a uma distncia tanto fsica quanto emocional.
     Sebastian franziu a testa. Olhara para o quadro quase todos os dias quando vivia na residncia. E no entanto, aquele detalhe escapou-lhe at agora. Era como 
se visse o quadro com outros olhos, com os olhos de Devon. 
     E perguntou-se, fazendo uso do cinismo do seu irmo, se a famlia Sterling no estaria amaldioada no que dizia respeito ao amor e ao casamento. No conseguia 
imaginar Justin casado, quem iria querer semelhante malandro? E a experiencia de Julianna com o amor foi desastrosa. Para ela fora muito ter que suportar semelhante 
escndalo...
     Por isso decidiu que no voltaria a olhar para nenhum homem outra vez.
     O casamento dele seria muito diferente dos pais. Teria que ser.
     - Deve ter sido horrvel para voc - murmurou Devon, - quando a sua me foi embora.
     Por baixo da camisa branca de cambraia, os ombros de Sebastian ficaram tensos.
     - Eu a vi, sabe? A vi partir. Nunca disse isto a ningum - admitiu com uma voz estranha at aos seus prprios ouvidos. - E foi uma recordao horrvel durante 
muito tempo. Julianna pequena demais para entender. Tudo o que sabia era que a sua querida mam havia ido embora. Mas o Justin... - Sebastian sacudiu a cabea. - 
Foi ele quem sentiu mais. Tem a energia e o encanto da nossa me, a sua liberdade. Na relidade,  to parecido com ela, que s vezes assusta-me.
     - Porqu? - Perguntou-lhe ela com ternura.
     Alguma coisa entristeceu o seu rosto.
     - O Justin tem um lado negro, Devon. O que viu esta noite foi apenas uma pequena amostra. Pode ser muito malvado, como se no se importasse com nada nem com 
ningum.
     Deteve-se.
     - Eu gosto muito dele - disse de repente. - Sabe disso, no sabe? No quero que pense que estamos sempre discutindo.
     - Nunca poderia pensar isso. - Disse Devon. - Eu j os vi juntos, lembra-se?
- O nosso comportamento foi abominvel. No deveria ter perdido a cabea daquela maneira, pricipalmente na  sua frente.
        - No tem que me dar explicaes, Sebastian.
     - Mas eu quero explicar - disse ele tranquilamente. - O Justin pode ser escandaloso e no se importa com ningum. Ningum lhe d importncia. O Justin no se 
importa com os escndalos, mas eu me importo. Santo Deus, ainda me lembro como as pessoas cochichavam e olhavam para ns. Para o meu pai. Para ns. Foram precisos 
anos.
        Talvez fosse a maneira como ela olhou para ele. To compreensiva. O jeito como mexeu a cabea para escut-lo, como se entendesse como o orgulho ferido marcou 
a sua infncia. 
A recordao feriu-o, tentou sobrepor-se a ela sem conseguir. De repente teve que dizer tudo, sem que nada pudesse par-lo.
     Talvez no quisesse parar.
     - O Justin brinca com o meu dever e com a minha responsabilidade. Brinca por ser to correcto, to perfeito. - No seu rosto apareceu um sorriso de desprezo. 
- Como se eu tivesse escolha. Como se alguma vez tive outra escolha. Creio que voc j sabe a verdade, Devon. Eu invejava meu irmo quando ramos pequenos. Invejava 
o fsico dele, o seu temperamento. Gostaria de poder montar a cavalo e brincar como ele fazia, mas os meus professores no me permitiam. O meu pai no me permitia. 
Nunca serei perfeito, mas tenho que tentar. Foi isso que me ensinaram.  assim que eu sou. Talvez o Justin tenha razo. Talvez eu seja igual ao meu pai. Mas  graas 
a ele que sinto orgulho, orgulho da minha casa, do meu nome e da minha herana. Odeio o que aconteceu aqui, mas a residncia de Hall  a mais prxima e a mais querida 
para mim. Talvez seja egosta, mas no consigo evitar. No posso abandonar o meu dever. Porque  aqui, nesta casa, onde quero que os meus filhos cresam como ns 
fizemos.  aqui onde quero faz-los rir. Ouvir as suas gargalhadas, e no chorar. No quero que sofram da mesma maneira que o Justin sofreu, da mesma maneira como 
todos ns sofremos.
     Calou-se. Os ombros de Devon pareciam destroados. Assustado, observou-a.
     - Devon, o que houve?
     Ela no respondeu, no conseguiu responder.
     Alarmado, Sebastian aproximou-se dela e obrigou-a a olhar para ele.
     - Pelo amor de Deus, Devon, o que aconteceu?
     Lentamente, ela baixou a cabea.
     - Devia odi-lo, mas no o odeia, pois no?
     Sebastian ficou mudo.
     - A quem? Ao meu pai?
     - Sim.
     Ele negou com a cabea e disse.
     - No consigo. Ensinou-me a respeitar o que sou, quem sou. Ele ensinou-me a ser quem sou.
     Umas lgrimas quentes rolaram pelas faces dela. Secou-as com a mo.
     - Sebastian, ele batia em voc. No entende? Ele no te ensinou nada que no j estivesse dentro de voc. Nada que no te pertencesse.
     Ele negou com a cabea.
     - Devon - refutou, -  muito simptica por dizer isso, mas voc no sabe...
     -  claro que sei - explodiu ela. Apontou para o quadro. - Est tudo ali, Sebastian. Tudo. O seu sentido protetor, a sua lealdade, est ali na mo com a qual 
cobre o ombro de Justin, o modo como a Julianna aperta as pequenas mos, a adorao nos seus olhos quando lha para voc. Voc cuidava deles, no era? Protegia-os, 
amparava-os. Amava-os quando os teus pais no o faziam! Era apenas uma criana, mas comportava-se como um homem!
     - No, Devon. - Sentiu-se incmodo, sem escolha, como se sentia todos aqueles anos debaixo das frreas regras do seu pai. - Engana-se. Eu no podia ajud-los, 
no conseguia proteg-los.
     - Fez muito mais do que imagina. Como  que pode dizer que  egosta? Sebastian, voc  notvel e forte, creio que , provavelmente, o homem mais maravilhoso 
do mundo.
     Aquela afirmao deixou-o atnito, sacudiu-o profundamente. Ficou sem defensas.
     - Devon - disse ele roucamente, - Devon...
     Por um momento pensou que ia chorar. Que ele ia chorar.
     Puxou-a para ele com fora e beijou-a, roando os lbios na suavidade da pele dela. Precisou de algum tempo para recuperar a fala.
     Quando finalmente conseguiu falar, depositou-lhe um beijo no cabelo dela, secou as lgrimas das faces dela com a ponta do polegar e fundiu profundamente os 
olhos nos dela.
     - Vem comigo - murmurou, com um sorriso brincalho nos lbios, ao mesmo tempo que lhe oferecia o brao. - Se no se importa, gostaria muito de te mostrar o 
meu lar.
        

    Captulo 18
             


     Nunca houve um dia mais glorioso do que aquele.
     Nem uma nuvem manchava o cu que brilhava na cor azul. Os raios do sol atingiam o solo com a sua luz e o seu calor. Uma leve brisa refrescava o ar, levando 
com ela o cheiro das flores, o murmrio de uma voz feminina e o rudo forte de uma gargalhada masculina.
     Passeavam de mos dadas por um jardim rodeados por sebes bem cortadas e repleto de flores. Caminhavam sem rumo, e os seus passos levaram-nos a um bosque que 
terminava do outro lado da colina, num riacho. A meio da tarde, pararam para descansar num banco enfeitado de rosas.
     Devon estava quase sentada quando se levantou de repente.
     - Olha  - gritou encantada, - uma lebre!
     Sebastian apontou para um pequeno bosque.
     - Ali h outra.
     Vrias cabeas  apareceram por entre a erva.
     Sebastian no conseguiu conter o riso ao v-la apontar primeiro para um lado, e depois para o outro, dando voltas e correndo atrs delas.
     - Pra! - protestou ele. - est me deixando tonto.
     - Ah, mas so to engraadas. Gostaria de pegar pelo menos uma.
     - E o que faria com ela? Acho que a Bolita ia ficar ciumenta.
     - No pensei nisso. - Disse ela preocupada.
     - Por outro lado, eu sei o que faramos se apanhasse uma. - Disse ele esfregando as mos divertido. - Teramos para o jantar de hoje um delicioso manjar.
     - Como  que pode ser to cruel? Juro que nunca mais comerei lebre.
     S uns minutos mais tarde  que Devon olhou para ele de lado.
     - Ento, vamos passar a noite aqui?
     Ele no fez nenhum esforo para esconder os seus desejos.
     - Gostaria?
     - Sim. - Apressou-se a responder.
     - Bom, vou ter que pensar nisso.
     - No pense demais...
     - Devon, voc sabe que para mim  muito importante pensar nas coisas.
     - Ento, deixe que eu decida por voc. No faz sentido ir embora agora. Ainda que o fizssemos, no chegaramos a Londres antes da meia noite. - Parecia bastente 
contente com o plano. - Portanto,  melhor esperarmos.
     A sutileza no era uma das suas virtudes.
     - Isso  verdade. Mas estaramos de volta para o caf da manh. E eu sei que adora os croissants do Theodore. Por outro lado, devo dizer que o senhor Jenkins, 
que  o cozinheiro de Thurston Hall desde que nasci, faz os melhores assados de lebre de toda a Inglaterra.
     Uma depois da outra, como se tivesse todo o tempo do mundo, Sebastian cruzou as pernas e deitou-se de costas sobre os cotovelos.
     Devon ainda respirava com dificuldade pelo exerccio, com as faces rosadas. Olhou para ele com curiosidade, admirando a sua pose despreocupada. Ela, por sua 
vez, ps os braos na cintura.
     - Sebastian?
     - Sim? - Tinha os olhos fechados, com o rosto exposto ao sol.
     - O que  que decidiu? Voltamos para Londres?
     - Ainda estamos aqui, no?
     - Estamos.
     - Ento, pergunto-me o que faz a parada?
     - O que fao aqui parada?
     - Sim. - Abriu um olho, e deu um olhar  cintura dela. - Apanha o meu jantar.
     Devon gaguejou.
     - Quer que apanhe o teu jantar?
     - Acho que foi o que acabei de dizer.
     - Enquanto voc fica ai sentado, olhando?
     - Sim, se for esse o preo de ficarmos, querida.
     Um sorriso malicioso iluminou o rosto dela.
     - Nesse caso, talvez devssemos fazer um acordo.
     A ideia parecia interessante. Ele sentou-se.
     - O que prope?
     No conseguiu ver o prazer nos olhos dela, estava ocupado demais em ver como tirava lentamente um dos seus sapatos. O corao de Sebastian comeou a palpitar. 
Pelo amor de Deus, isto era mais do que podia esperar, mais do que podia imaginar. E a palavra "interessante" j no era adequada.
             Um sapato voou por cima da cabea dele. O outro acertou-lhe diretamente no peito.
     - Vou apanhar o teu jantar, senhor! Mas antes ters que apanhar a mim!
     Sebastian estava muito perturbado para se mover.
     - Devon...
     - Se rende, meu ilustre e emproado marqus?
     Nenhum homem podia resistir a semelhante dasafio.
     E a caa comeou.
     Ele estava convencido que ia ganhar, mas Devon no o deixou. Pensou que se cansaria rapidamente, mas ela danava e movia-se com uma rapidez fora do comum. Por 
fim, com as pernas doloridas e os pulmes prestes a explodir pelo esforo, Sebastian caiu sobre um carvalho.
     - Caramba, no fazia isto desde que eu era um garoto.
     Ela comeou a correr outra vez, mas Sebastian agarrou-a pelo pulso e puxou-a para junto dele. Ainda rindo, Devon se deixou cair por entre um mar de ervas e 
sais de algodo.
     - Deixe-me contar um segredo. Nunca havia feito isto. E isto tambm no.
     Moveu os dedos os dedos dos ps por entre a erva espessa e rolia. Finos e redondos, eram to deliciosos quanto o resto do corpo dela. Sem duvida, algo que 
no devia pensar! Deixara os sapatos no meio do caminho, mas no parecia preocupada.
     De repente, tiveram o mesmo pensamento.
     Devon interceptou o seu olhar e riu.
     - Eu sei. No diga que sou muito feminina.
     Sebastian sentiu-se excitado. Deus meu, estar daquela maneira ali com ela. No tinha palavras para descrever. O que mais desejava naquele momento era inclinar-se 
sobre ela e alcanar os seus lbios, abri-los com os dele, segur-la de maneira que os seus coraes se tornassem um s.
     Mas algo o deteve. No queria arruinar aquele momento. Era agradvel demais, doce demais. Perfeito demais.
     Existia um vinculo entre eles, conseguia sentir a unio. Algo que se sobrepunha  amizade, que se sobrepunha ao desejo.
     Algo que estava fora do seu controle.
     No lutou contra isso, no conseguia. De alguma maneira, percebeu que esta era uma batalha impossvel de ganhar.
     Ele era o nico a perceber?
     Deitou-se na erva, observando como o sol brincava s escondidas com os ramos das arvores. Utilizou uma mo como proteo para poder v-la com o sol de frente. 
Devon continuava sentada, com as costas encostadas contra o tronco e os ps descalos e esticados.
     Carinhosa, traava com um dedo o perfil do nariz dele e com esse mesmo dedo percorria os sulcos que lhe rodeavam a boca.
     - No dormiu nada durante a noite, no?
     - No - admitiu ele.
     - Ento, dorme agora.
     - Prefiro ficar olhando para voc. - A afirmao saiu da boca dele sem pensar, mas no se importou.
     Sobre ele, uns lbios carnudos desenharam um sorriso e uma madeixa roou-lhe o peito. Com o olhar ausente, Devon prendeu a madeixa atrs da sua orelha. Sebastian 
teve que fazer um esforo para no estender a mo e fazer descer aqueles lbios a uma altura onde ele pudesse sabore-los. Pensou com orgulho na beleza fora do comum 
da mulher que o acompanhava, e o mais fascinante era que ela nem percebia isso. Era ao mesmo tempo, inocente e discreta, enrgica e sedutora.
     Devon colocou-lhe a cabea sobre o seu colo. Com os dedos pequenos e delicados, acariciou-lhe o remoinho de cabelo da testa. Sem saber como, a dor do estmago 
foi cedendo e as carcias dela fizeram-no adormecer, relaxando os msculos e todo o seu corpo. O mundo podia girar  sua volta, mas a ele no se importava.
     - Sebastian? - sussurrou.
     Sebastian no a ouviu. Tinha adormecido no sono mais agradvel que alguma vez tivera.
     
     O prprio senhor Jenkins serviu o jantar naquela noite. Tratou cuidadosamente de cada detalhe, servindo numa bandeja o senhor e a sua acompanhante.
     - Assado de lebre - anunciou. - A minha especialidade.
     Com um floreio, o cozinheiro obsequiou Devon com o melhor pedao de carne. De p, com as mos nas costas, esperou pelo seu veredito.
     Os olhos de Devon abriram-se mais do que o normal e voltaram-se em direo a Sebastian.
     - Prova. - Pediu-lhe ele. - Juro que vai se desfazer em sua boca.
     Sebstian teve que tapar a boca com o guardanapo para esconder a gargalhada que lhe provocou ao v-la engolir o bocado de uma s vez.
     Milagrosamente, Devon no riu. Limitou-se a sorrir e a elogiar o cozinheiro.
     - Ah,  maravilhoso! O melhor que j provei em toda a minha vida!
     O senhor Jenkins deixou o salo sentindo-se o homem mais feliz do mundo. Sebastian deparou-se de imediato com umas sobrancelhas arqueadas diretamente para ele.
     - Tinha tudo planeado.
     - No. - Garantiu-lhe seriamente
     Sebastian devorou a sua poro de lebre e a dela com entusiasmo. Depois de jantar, convidou-a para jogar xadres, um jogo que a ensinou nas aulas. Enquanto Devon 
concentrava toda a ateno no tabuleiro, o marqus dedicava-se a observ-la, admirando a maneira como segurava o copo de vinho, como o levava aos lbios e enchia 
a sua boca com ele.
     Uma gotinha escorreu pelo canto da sua boca. Limpou-a com um dedo enquanto Sebastian tentava desviar o olhar sem o conseguir. Ela olhou para ele magoada.
     - O que est olhando?
     - Estou apenas apreciando.
     - A apreciando o qu?
     - O fim desta torre.
     "A impressionante simplicidade da tua beleza."
     - Isso no  uma torre,  um peo!
     E ele no era mais do que um peo aos olhos dela. Sentiu que fervia por dentro. A sua excitao era tal, que ao mnimo sinal de boas-vindas, a deitaria no cho, 
tiraria seu vestido e a montaria ali mesmo.
     Que Deus o ajudasse, nunca antes o tinha feito no cho.
     - Sebastian, est prestando ateno?
     - Sim - mentiu.
     Terminou o jogo em trs movimentos.
     Venceu.
     - Me deixou ganhar - disse ela ao levantar-se da mesa.
     - No.
     - Bom, ento deve estar desanimado.
            Sebastian parecia divertir-se.
     - Porque que teria de estar desanimado?
     - Porque est aqui, no campo, enclausurado comigo.
     Ele riu.
     -  bastante improvvel.
     - Mas se estivesses em Londres, onde estaria?
     - Certamente, bebendo um brandy na biblioteca com voc.
     - Assim vai ser muito difcil encontrar uma esposa, no acha?
     - Suponho que sim.
     - Bom - disse ela quase sem flego, - eu tenho uma teoria que explica porque ainda no encontrou uma esposa.
     Sebastian tambm, e tinha muito a ver com a pequena desamparada que sem saber como entrou na sua vida e no seu corao.
     De qualquer maneira, esperava a resposta dela com curiosidade.
     - Penso que talvez precise de alguns conselhos para escolher as mulheres. 
     O brilho de um sorriso cruzou os lbios dele.
     - Acha?
     - Sim. Alm disso, se estivesse numa das suas festas em Londres, haveria uma grande quantidadede mulheres  sua volta.
     "Nenhuma to adorvel como voc."
     - Portanto, imaginemos assim. Deve escolher uma mulher. E como eu estou aqui, bom... - suspirou exasperada - acho que terei de me fazer passar por essa mulher
     No pareceu muito incomodado com a ideia.
     - Talves devesse levar rapidamente a mulher para fora do salo e dar um passeio com ela pelo jardim - disse Sebastian.
     E assim o fez, encaminhando-se para o jardim, onde as flores brilhavam  luz da lua, e guiando os seus passos pelo meio das sebes e das rvores. Pararam perto 
de um muro de pedra. A abundncia de rosas brancas perfumava a noite, sentaram-se num banco de pedra prximo. Nas suas costas, chegava a luz das velas do interior 
atravs das janelas da casa.
     Devon olhou ao seu redor.
     - Muito bem. - Elogiou. - Agora que conseguiu estar a ss com a sua mulher no jardim, pergunto-me: vai beij-la?
     A boca dele fez uma careta.
     - Um cavalheiro nunca beija uma mulher antes de se casar.
     Por um momento, ela ficou sem fala. Depois, recomps-se rapidamente.
     - Quer dizer que se casaria com uma mulher sem a ter beijado? Eu, certamente no me casaria com um homem sem t-lo beijado antes!
     Tanta segurana deixou-o impressionado. Era possivel que a criatura estivesse tentando flertar com ele?
     E ainda por cima, com excelentes resultados
     - Bom - tentou salvar a situao, - pode ser que o fizesse, se gostasse muito da moa em questo. Se me sentisse particularmente... - olhou para ela de lado 
- apaixonado.
     - Pode ser que o fizesse? Mas no tem a certeza.
     - No. 
     - Ah, querido. Ento talvez precise de algumas lies.
     - Ah- disse ele suavemente. - agora disse tudo.
     Tinha se virado e olhava para ele de frente, com o muro as suas costas.
     Os seus olhos encontraram-se, as pernas tremeram e tocaram-se com a ponta dos dedos.
     - Talvez - disse com a respirao ofegante - devesse beijar a mim.
     - Talvez. - Elevou as mos, fingindo no saber o que fazer. - O que devo fazer?
     - Para comear, creio que devia te aproximar.
     Moveu-se at que meteu os seus ps dela por entre a botas dele. As pontas da jaqueta roavam a base dos seios. Colocou intencionalmente as suas mos no muro 
atrs dela.
     Sebastian estava gostando do jogo.
     A expresso de Devon no tinha justificao. Olhava para um lado, depois para o outro, at que finalmente olhou para ele. Estava com boca redonda, assim como 
os olhos.
     Sebastian soube o momento preciso em que ela percebeu que estava encurralada entre o muro e ele. Sorriu com uma expresso mais prpria de um safado do que de 
um cavalheiro.
     - E agora? - perguntou ele.
     - Agora - sussurrou ela, - deve me beijar.
     Viu que tragava a saliva.
     -  o homem que beija, no?
     "Nem sempre." A sua mente encheu-se de beijos desenfreados. A boca sensual e doce percorrendo o seu peito. Uma madeixa incontrolvel de cabelo a roar a sua 
pele, a parte inferior do seu estmago. Viu aquela boca quente e doce fechando-se no seu...
     Quase gemeu. O que ela dissera? Ah, sim.
     Algo diablico apoderou-se dele. Sorriu maliciosamente. Ela comeou aquele jogo, mas sem duvida nenhuma, ele no via problema nenhum em termin-lo..
     - Diga-me como - foi tudo o que disse.
     Viu como ela molhava os lbios com a ponta da lngua. Ele estava ficando louco!
     - Pe os teus lbios sobre os meus - disse ela com convico.
     Deu-lhe um beijo rpido. Os seus labios no tocaram outra coisa que os lbios dela.
     - O que achou?
     - Muito fraco - resmungou. - Volta a tentar, mas desta vez um pouco mais forte.
     "Mais forte"
     - Como... como um pouco mais? - Perguntou brincalho, - mais forte como... assim?
     Inclinando a cabea, Sebastian selou a sua boca com um longo e apaixonado beijo que foi forte, voraz e terno, tudo ao mesmo tempo.
     Quando finalmente levantou a cabea, os dois respiravam com dificuldade. Os olhos de Devon abriram-se diretamente entre os dele. Teve que se agarrar ao muro 
para no cair.
     - Devo reconhecer, senhor - brincou ela, - que  to bom aluno quanto professor.
     As mos de Sebastian rodearam-lhe a cintura. Com um estranho sorriso nos lbios, aprisionou-a com os braos esfomeados e abandonou-se ao desejo que o oprimia. 
     "Deus meu - pensou - isto  imoral;  uma loucura." mas desde o inicio, surgira fasca entre eles. Sebastian sabia-o e sabia que Devon sentia o mesmo. Como 
sabia que na sua inocncia, Devon estava experimentando, provando aqueles sentimentos de desejo que trazia dentro dela. A ele correspondia afastar-se, porque era 
ele o experiente. Se no o fizesse, sabia muito bem onde este jogo poderia conduzi-los.
             Mas afastou todas as razes para a libertar da sua mente. Era estranho, incompreensivel, mas parecia que era tudo novo para ele tambm. Esteve com outras 
mulheres antes. Apesar de tudo, com necessidades e desejos, e se permitira sucumbir a alguns.
     Mas isto era diferente. Devon era diferente. Uma voz no seu interior avisava-o que deveria deix-la ir, mas no conseguia faz-lo. Sentia-se muito bem. Ela 
era muito boa. E sobretudo, estar com ela parecia o correcto. Nunca se sentiu assim com outra mulher. E quando ela lhe rodeou o pescoo com os braos, aquela fasca 
que havia entre eles, prendeu-o.
     Um impulso possessivo inundou-o. Algo que tambm no sentira antes.
     Devon apertou-se contra ele, o que tornou mais evidente a rigidez do seu membro. As mos pequenas percorriam-lhe as costas, as unhas cravavam-se nos ombros. 
O calor sufocava-o e subia aos soluos do meio das suas virilhas.
     Houve um flego, um lamento, um suspiro. Ou talvez as trs coisas ao mesmo tempo.
     - Devon.
     Ela levantou o rosto brilhante como o mbar.
     - Lembra-se da primeira vez, Sebastian? Quando te perguntei porque me beijava?
     Percorreu com um dedo a linha das suas sobrancelhas, o nariz, a forma adorvel da sua boca. Deus, como poderia esquecer?
     - Tive tanto medo que no voltasse me a beijar, sendo eu quem sou... - as palavras dela foram como um grito trmulo contra o seu rosto.
     - Devon, no. - os braos dele cobriram-na uma vez mais, agarrou-se a ela to desesperadamente quanto ela tentou agarrar-se a ele.
     -  que... pensei que ia... bom, por varias vezes...
     - Eu queria faz-lo. Centenas de vezes. Milhares.
     - A srio? - Retrocedeu para v-lo melhor.
     - Sim, por Deus, sim. - os olhos dele escureceram. - Queria faz-lo a cada dia, eu... Bom... podia...
     Mas no muito longe, ouviu-se o som de uma porta que se abria para o jardim.
     Os dois ficaram gelados.
        








    Captulo 19
                 

     Talvez tenha comedo como um jogo, mas ela lhe abrira o corao e foi uma noite inesquecvel. Uma noite emocionante e magica. Uma noite cheia de promessas.
     S muito depois, Devon se perguntara de onde tirou tanto descaramento para dizer o que disse, para agir assim. Talvez o tivesse feito porque queria que aquele 
dia durasse para sempre. 
     E que aquela noite no acabasse nunca.
     A tentao era irresistvel. Ele era irresistvel.
     A beijara uma vez, apenas uma vez. Mas para poder experimentar o calor dos lbios dele novamente, Devon teria feito qualquer coisa.
     E foi o que fez.
     Embora ele tambm o quisesse. Foi ela quem comeara o jogo, mas foi Sebastian quem controlou a situao durante o tempo todo. O beijo no deixava margem para 
duvidas.
     Com o corao apertado se deixou acariciar por aqueles dedos que procuraram as sobrancelhas, o nariz, a linha da sua boca. Viu o brilho prateado nos olhos dele, 
e mais, viu neles algo lhe acelerou a pulsao e que fez crescer os seus mamilos. Conseguiu familiarizar-se com cada msculo, com cada tendo do corpo dele, sentindo 
a extenso dos braos dele a rodear-lhe as costas. As calas justas que usava permitiram-lhe sentir as partes mais masculinas e tensas do corpo dele...
     Todo.
     - Devon - sussurrou.
     Ento compreendeu tudo.
     Compreendeu nesse preciso momento, no espao de tempo que dura uma batida, uma respirao
     Amava Sebastian. Amava o seu orgulho. A arrogncia que o impedia de se concentrar. A necessidade de proteger todos os que o rodeavam e que lhe eram queridos.
     Ficou presa a ele, ofereceu os lbios trmula, sem se preocupar se ele conseguia adivinhar o que ela sentia na alma.
     Mas aquele beijo to desejado no chegou.
     - Sebastian? - Ouviu-se uma voz. - Devon?
     Os passos encaminhavam-se para onde eles estavam.
     Sebastian levantou a cabea. 
No ar ouviu-se um palavro dele, bastante claro e ntido, e um olhar dirigido  mulher que ele apertava nos braos.
-  o Justin. Que raio  que ele est fazendo aqui?
             
     No momento em que entraram em casa, Bolita saltou sobre Devon. Ela ps-se de ccoras e foi imediatamente rodeada por cinco bolinhas de plo
     Os cachorros lamberam-na e ganiram at que ela ficou sem flego de tanto rir..
     Com um sorriso, Sebastian ajudou-a a pr-se de p.
     - Meus meninos! - disse ela. - Tive tantas saudades!
     - Bom, no h duvisa que eles tambm tiveram saudades suas! - Disse Justin. - Pensei que gostaria de os v-los.
     - Que simptico. Obrigado.
     Sentiu o olhar de Sebastian quando se ps na ponta dos ps para dar um beijo na face de Justin. Viu uma estranha expresso no rosto dele. Estava com ciunes? 
Ficava nervosa s de pensar.
     - E onde, minha querida pequena, est o meu?
     O calor que viu nos olhos dele acelerou-lhe o corao. Enrugou o nariz.
     - Esqueceu da Bolita - respodeu-lhe com elegncia
     Justin dirigiu-se para Sebastian, que esperava de p, com os braos cruzados.
     - Boa noite, Sebastian.
     Sebastian saudou levemente com a cabea.
Os olhos de Devon centraram-se nos dois, comprovando a incomoda tenso entre os dois. Conseguiu ver, principalmente, a tenso na pose de Sebastian, que elevava os 
ombros para deix-los cair com o tempo.
     Intua a luta que estava tendo consigo mesmo, e pde ver que era difcil para Justin suportar o olhar do irmo.
     Devon levou a mo  boca, simulando um bocejo.
     - Bom, Justin. - Disse suavemente. - Desculpa ser to mal educada, agora que acabou de chegar, mas acho que  hora de me retirar. A viagem at aqui na noite 
passada foi cansativa.
     Justin teve a delicadeza de parecer tmido.
     Sebastian acompanhou-a at ao fundo das escadas e desejou-lhe boa noite. 
     - Boa noite, Devon - disse carinhoso.
     Ela deteve-se no segundo degrau para que os olhos ficassem ao mesmo nvel. O que mais queria naquele momento era aproximar-se dele, entrelaar os dedos nos 
cabelos dele e atrair os seus lbios para ela.
     Soube pela forma em que olhava para ela, que ele queria o mesmo.
     - Boa noite - sussurrou. E obrigou-se a subir as escadas.
     Ao chegar em cima, parou e olhou para onde o tinha deixado. Sebastian continuava l, incapaz de se mover. Corao dela saltou ao ver como ele olhava para ela.
     Sebastian reuniu-se depois com o irmo, que o esperava sentado numa cadeira rosa claro, estilo Rainha Ana, com os olhos fixos na prateleira de mrmore.
     - Porque - comeou Justin -tenho a impresso de que fui castigado?
     - Absolutamente. Se assim fosse, j o saberia.
     - Bom, ento talvez gostasse de me castigar.
     - Nem me passou pela cabea.
     Sebastian parou junto a mesa de pau-rosa colocada perto do sof de estilo Chippendale. Inclinou o gargalo da licoreira num copo, depois parou.
     - Talvez tambem queira um brandy.
     - Nunca mais.
     - Promessas, promessas. - Finalmente, Sebastian sorriu. Sentou-se numa cadeira perto de Justin, que tocava a cabea com as mos.
     - Di a cabea, no ?
     - Deus, nem imagina como. Bolita ps-se a latir ao ver que Devon no estava, os cachorros uniram-se a ela e fiquei com este inferno na minha cabea. Garanto-te 
que foi a noite mais longa da minha vida.
     O sorriso de Sebastian desapareceu. Deixou de lado o copo de brandy.
     - Conheo essa sensao - disse tranquilamente.
     Justin olhou para ele seriamente.
     - Sabia que ia te encontrar aqui. - Disse ela por fim. - Tinha que vir.
     - Eu sei. - Sebastian estendeu o brao para agarrar uma caixa de cigarros da India. Uma vez aberta, estendeu a caixa ao irmo: - Uma oferta de paz.
     Justin declinou com um movimento da cabea.
     - Sebastian, eu... - comeou, esclarecendo a garganta e olhando para outro lado, - diabo, diabo.
     Algo parecido com um sorriso desenhou-se nos lbios de Sebastian
     - Isso explica tudo, no ?
      Maldio, sim - murmurou Justin.
     A tenso desaparecera.
     - Para que se sinta melhor, comprei uma caixa do teu whisky escocs favorito.
     Sebastian arqueou uma sobrancelha.
     - Para ti ou para mim.
     - J no aguento mais! As tuas palavras so como veneno! - Justin forou uma expresso de tristeza. Depois, olhou em direco s escadas. - Parece-me que tenho 
de agradecer  Devon o fato de ter acalmado o teu estado de esprito.
     - No precisa.
     - Est to diferente da mulher que pegou na rua naquela noite, no est?
     - mem.
     - Ento, as aulas vo de vento em poupa...
     -  verdade. - Embora uma aula de outro tipo ocupasse a cabea de Sebastian. Em voz alta comentou: - Hoje ganhou de mim no xadrez.
     - Deixou-a ganhar. Como sempre me deixa ganhar.
     - Sempre foi um mau perdedor, ainda .
     Justin fez uma careta de sarcasmo.
     - Tudo bem, no vou discutir sobre isso. - Esticou as pernas. - Ela vai longe. Mas diga-me a verdade, Sebastian. Acha que ter alguma oportunidade de arranjar 
um emprego como perceptora ou como dama de companhia?
     Justin no fez outra coisa seno dizer em alto e bom som o que pensava h semanas.
     - No se trata apenas de conseguir. No sei se gosto da ideia de ela se transformar em perceptora. - disse Sebastian bruscamente. - Meu Deus, o que aconteceria 
se arranjasse um emprego como criada? Devon  jovem e muito bonita. O que aconteceria se o dono da casa decidisse que  uma presa fcil? No queria que casse nas 
mos de nenhum prevertido! Uma coisa que no  impossvel! Diabos,  muito possvel!
     J estava dito. O que estava afligindo-o. O que no se atrevera a admitir todas as semanas em que esteve dando aulas a Devon, estava dito. No queria admitir 
o verdadeiro propsito das suas lies. No reparou que o fez simplesmente pelo prazer de estar com ela. Estaria consciente da maneira como ela ignorou o resultado 
final? Talvez fizera de propsito, talvez o evitou deliberadamente. Porque de alguma maneira, o tempo que passaram juntos transformara-se em algo muito importante 
para ele. E Devon sentia o mesmo.
     Maldio, porque  que Justin tinha que falar do assunto?
     - Sim - Justin concordava. - Eu tambm penso da mesma forma
     Uma sombra de pessimismo inundou o rosto de  Sebastian. J que comeou, no conseguia parar.
     - Voc conhece Devon tanto quanto eu. Se isso acontecesse, eu no aceitaria. Eu no suportaria. - S a ideia aterrorizava-o.
     Pelo que parecia, no era o nico.
     - Se isso chegar a acontecer - assinalou Justin, - a Devon poderia acabar de novo na rua.
     - No podemos permitir. Ela merece uma vida melhor.
     - Eu penso da mesma forma que voc - Justin hesitou, - pelo que, acho que poderia haver outra soluo.
     Sebastian revirou os olhos.
     - Qual?
     - Bom, estava pensando que... talvez pudssemos lhe arranjar um marido.
     - Um marido!
     Justin apoiou o brao dele no brao da cadeira. Parecia divertido.
     - Porqu esse tom?
     - Que tom?
     - De irritao. E a maneira como olhou para mim...
     - No olhei para voc de maneira nenhuma.
     - Claro que olhou. - Justin deixou de rir. De repente ficou srio. - Sebastian - murmurou - consegue ser sincero?
     - O que vai perguntar desta vez?
     Algo no seu olhar fez com que Sebastian ficasse desconfiado.
     - Sebastian - disse Justin cuidadosamente. - Deus sabe que no sou um homem que possa se considerar observador da natureza humana. Mas esta noite, quando vi 
vocs passeando no jardim, uma ideia estranha me subiu  cabea. Quando vi a Devon nos teus braos, pensei que estavam...
     -... Passeando pelo jardim - interrompeu-o Sebastian.
     - Est uma noite excelente para isso, sem duvida.
     -  verdade. - Sebastian cortou-o secamente. - E sei onde quer chegar. O melhor  que fique calado. Sim, sinto uma certa afeio pela Devon. Assim como voc. 
Mas o meu comportamento com ela foi sempre a de um cavalheiro. - Porque precisava esclarecer, era algo que desconhecia. Ou talvez soubesse.
     - No estou dizendo o contrrio. - Disse Justin. - alm disso,  um marqus, e Devon ...
     Ele no queria ouvir da boca do irmo.
     - Sei muito bem o que ela . - Respondeu
     - No precisa ser mal educado comigo.
     No conseguia evitar ser assim com ele. Sabia que estava se comportando mal, mas havia algo que lhe queimava a garganta. No gostava de incertezas, no gostava 
das mudanas de planos. E quanto  ideia de Devon se casar, isso j era uma coisa que passava dos limites do educado.
     Justin riu.
     - Tem razo, claro. Nunca desonraria a sua protegida. E esqueci completamente que anda procurando uma esposa; apesar de tudo, est na hora de te casar. Meu 
Deus, em que eu estava pensando? Nunca agirias de uma maneira to selvagem, sem ter em conta o futuro ou as consequncias.
     Sebastian estava prestes a explodir. Talvez fosse estpido, mas o que Justim sugerira pegara-o de surpresa. No estava preparado para uma coisa daquelas.
     Mas no, no se tratava apenas disso. O que se passava era que no queria enfrentar a situao.
     No se atreveu a negar nem a confirmar o que Justin acabara de dizer. Estaria Justin agindo como a voz da razo ou da suspeita?
     Perguntou-se, no entanto, se conseguira enganar Justin. No saberia, Justin era mestre em esconder os seus pensamentos. Ele suspeitavas, mas no tinha certeza 
de nada.
     "No aconteceu nada esta noite - disse-lhe uma vozinha no seu interior. - Nem esta noite no jardim, nem em nenhuma outra noite."
     Pelo menos, no por enquanto.
     Mas desejava que acontecesse, muito mais do que ditava a prudncia.
     - Mesmo que desejasse fazer isso - acrescentou o irmo.
     Sebastian revirou os olhos. Dirigiu a Justin um olhar quase assassino.
     - O que foi? Porque olha para mim dessa maneira?
     - Vindo de voc,  uma mudana importante.
     - Bom, voc querias que eu fosse mais responsvel, no?
     - Sim, queria.  - disse Sebastian friamente. - Mas perguntou-me de onde vem tanta saberdoria.
     Justin sorriu.
     - Muitos brandys, suponho. De qualquer maneira, onde  que estvamos? Ah, sim. Falvamos de que em vez de arranjar um emprego para Devon, devamos lhe arranjar 
um marido.
     "Um marido. Um marido."
     Sebastian era incapaz de digerir a palavra. A ideia de Devon com outro homem o deixava plido. At aquele pequeno beijo que deu em Justin na face provocou-lhe 
uma espcie de formigueiro na pele.
     Embora no fizesse sentido, no queria que os lbios de Devon tocassem os lbios de nenhum outro homem, nem sequer os do irmo.
     Mas que outra soluo havia? A voz da conscincia ressoava em sua cabea. Se Devon tivesse um marido que a protegesse, no teria que se preocupar em acabar 
nas ruas de novo.
     Ento, porque queria estrangular o Justin por se atrever a sugerir tal coisa?
     Maldio! Porque  que Justin no ficou em Londres?
     - Como acabou de dizer, os dois sentimos um grande afeto por ela. E creio que  justo dizer que ambos queremos a sua felicidade. - Continuou Justin.
     Sebastian ficou calado.
     - Com um marido, ficar a salvo do Harry.
     Ela estava a salvo de Harry com ele.
     Mas no estava a salvo dele.
     O que queria era dizer a Justin que fechasse a boca. No entanto, perguntou-lhe:
     - Em quem est pensando?
     Antes que Justin tivesse a oportunidade de responder, Sebastian disse.
     - Espero que no seja nenhum dos teus amigos de reputao duvidosa!
     - No pensei muito nisso - admitiu ele, - mas j que voc e a Devon esto aqui no campo, creio que a comunidade de Hall  um bom lugar, no acha? Longe dos 
olhares de Londres. Podamos apresent-la a alguns dos herdeiros locais, talvez. Podemos dizer que  uma amiga de Julianna. Depois pensamos numa desculpa.
     "Se estiver perto - disse-lhe a voz no seu interior, - continuar a te tentar." Mas depois de afastada a tentao, o desejo desaparece tambm.
     Sebastian no queria pensar nisso. A ideia de ver Devon nos braos de outro homem, na cama de outro homem, fazia-o querer bater e cuspir em algum de raiva.
         Nunca antes se sentiu to selvagem.
     Agora sentia-se.
     - Um pequeno jantar depois de amanh - disse a Justin. - Convidamos o Evans, o Mason e o Westfield.
     - O Evans e o Mason podem servir, mas o Westfield? Tem idade para ser pai dela!
     -  um dos comerciantes mais ricos do pas. Talvez morra e lhe deixe a herana. Dessa forma poder cuidar de si prpria.
     Justin concordou.
     - Pensarei nisso amanh.
     Deus, como era hipcrita! Mas Justin tinha razo. No devia pensar nele, e sim em Devon. A segurana dela era o mais importante, era a nica coisa que importava.
     Tinha um sabor amargo na boca e um buraco negro no lugar do seu corao. Passara menos de uma hora desde que Justin apareceu em casa, menos de uma hora desde 
que uns lbios doces e trmulos se encontraram com os dele; e menos de uma hora desde que imaginou que faria amor com ela lentamente, carinhosamente, at o amanhecer.
     Pensou em introduzi-la na paixo de uma maneira to requintada, que poderia a beneficiar tanto quanto a ele. Teria gostado de acarici-la at que a lua e as 
estrelas, a prpria noite, explodissem, e o mundo desaparecesse.
     Pelo amor de Deus, tudo isto passou pela sua cabea naqueles gloriosos segundos em que saboreou aqueles lbios ardentes com a sua boca. Algo que nunca aconteceria. 
No esta noite. Nem nunca. No com ele.
     Doa-lhe a cabea. Podia sentir um liquido amargo a correr pelas suas veias. Nem sequer ouviu Justin quando lhe desejou boa noite.
     A noite envelheceu subitamente e a lua ficou negra diante dos seus olhos. Sebastian no era um homem muito dado a beber em excesso, mas desta vez permitiu-se 
provar o lcool sem moderao. A ultima vez que se embebedou foi durante a sua ultima semana em Oxford.
      Mas esta noite, seguiu o caminho que o seu irmo seguira na noite anterior.
     E ao amanhecer surpreendeu-se com a garrafa vazia.
        










    Captulo 20
    
             
             - O Justin e eu convidamos uns amigos para jantar amanh  noite. Pensei que gostaria de jantar conosco.
O anuncio teve lugar no dia seguinte durante o almoo, de uma maneira to natural e espontnea que Devon levou uns segundos para digerir o significado.
        Mas quando por fim o fez, o seu corao parou. Desceu lentamente a colher para o prato e brincou nervosamente com os dedos da outra mo por baixo da mesa. 
Olhou para Sebastian com uma pergunta silenciosa nos olhos. O branco imaculado da gravata dele realava-lhe a cor da pele.
Os olhares convergiram, e ela manteve o dela, trmula e incrdula. Teria dito o que ouviu?
     - Um jantar informal. Uma boa refeio. Uma boa conversa. - Sorria abertamente enquanto tamborilava os dedos de maneira casual.
     Mais calma agora, Devon sentiu-se muito leve. Queria que ela conhecesse alguns dos amigos dele! Percebeu que este no seria como o jantar que organizou em Londres. 
Era verdade que no expressou a sua opinio a esse respeito, mas Devon a essa altura percebera que a sua presena naquela festa deveria ficar em segredo. Mas agora 
era diferente, no teria que se esconder no varandim.
     A meio caminho entre a euforia e o medo, mordeu o lbio e perguntou:
     - No vo achar estranho que eu esteja aqui?
     - Diremos que vai passar uns dias aqui, que  uma amiga de Julianna e que queria surpreend-la. Isto no  como em Londres. As formalidades no so para se 
levar  letra.
     Devon assentiu. Estava to contente que no conseguia falar. Sebastian queria apresent-la aos seus amigos. No se envergonhava dela.
     No dia seguinte, passou a tarde remexendo no seu armrio. Pouco depois da chegada a Hall, Sebastian ordenou que trouxessessem de Londres os vestidos dela, que 
chegaram na carruagem dessa manh. Agora, estava impaciente, rejeitando um vestido, depois outro e outro. Este processo repetiu-se meia dzia de vezes, at que finalmente 
se decidiu por vestido de noite  de seda verde jade, que Sebastiam encomendou para ela. 
     Jane ajudou-a tomar banho e a vestir-se nessa noite. A moa era doce e reservada, embora Devon sentisse saudades de Tansy. A alegria da criada de Londres, a 
sua conversa incessante, teria acalmado os seus nervos sem sombra de duvidas.
     Finalmente, Jane retrocedeu um passo. Devon levantou-se  e dirigiu-se ao espelho que havia no canto. Um n de ansiedade a impedia de respirar normalmente. No 
queria ver a ela prpria. Tinha medo de olhar.
     Mas tambm no poderia ficar ali para sempre.
     Uma seda verde e brilhante cobria o seu corpo delineado, que parecia flutuar entre os babados suaves at chegarem aos sapatos. Como recomendava a moda do momento, 
o decote era generoso, caindo sobre os seios de uma maneira encantadora. O corte era simples, mas elegante. Uma cinta de cetim dourada rodeava o vestido, a mesma 
que rematava delicadamente as duas mangas do vestido. Alm disso, Jane parecia ter jeito para pentear os cabelos. Conseguiu prender os cabelos de Devon na parte 
de trs da sua cabea, permitindo que alguns cachos fofos cassem sobre um dos ombros.
     Mas junto da imagem que Devon via no espelho, rondavam as memrias da festa que Sebastian deu em Londres. Viu de novo todas aquelas jovens que o rodeavam, enfeitadas 
de cetim e de laos, os cabelos enfeitados com penas e peles, jias brilhando nos seus pescoos e orelhas, anis rodeando os dedos.
     O pnico inundou-a. Levou uma mo ao colar da sua me, segurando a cruz com os dedos. No tinha outra jia. Sebastian iria ach-la simples e vulgar? Sentiu-se 
dormente e pouco elegante.
     - Menina? - A voz de Jane soou nas suas costas. - Ah, senhorita, tenho que lhe dizer que este vestido foi feito expressamente para a senhorita. Reflete o brilho 
dos seus olhos, que so como duas jias de ouro. Se no se importar que lhe diga, voc est linda. - Jane bateu palmas. - Voc  uma viso!
     Devon virou-se, agarrando impulssivamente as mos da moa.
     - Jane, tem certeza?
     - Claro que sim!
     Devon aproximou-se dela e deu-lhe um abrao, vendo como se desvaneciam as sua dvidas.
     - Agradeo-te pelo teu esforo, Jane
     Com as palmas de Jane ainda a ressoar nos seus ouvidos, abandonou o quarto.
     Sebastian esperava no fundo das escadas, quando comeou a descer. Estava ali, moreno e inquietante, com as mos elegantemente guardadas nos bolsos das calas. 
Justin estava a uns passos dele. Devon agarrou o frio corrimo de madeira talhada, com o corao apertado. Queria agradar-lhe com todas as suas foras, tanto que 
lhe doa profundamente. Queria que tivesse a mesma opinio que Jane tivera. Queria ouvi-lo dizer que estava linda...
     Os dois homens olharam para ela ao mesmo tempo. Justin deixou cair o cigarro da boca. Devon teve que conter uma gargalhada quando resmungou alguma coisa para 
apanh-lo.
     Mas Devon s tinha olhos para Sebastian, e que Deus a ajudasse, ele s os tinha para ela. Tudo o resto deixou de existir. Cada poro da sua pele centrou-se nele, 
e teve a estranha sensao de que a ele acontecia o mesmo, porque nos olhos dele escondia-se um calor que lhe fez tremer as pernas e acelerar a pulsao.
     Lentamente, foi diminuindo a distancia que os separava. Mais trs passos. Dois...
     Em todo aquele tempo, o seu olhar penetrante nunca a abandonou, um olhar silencioso.
     Finalmente, parou diante dele. E ele no disse nada.
     - Bom, meu senhor, ser que no vai me dizer nada?
     O seu olhar voltou a passar ternamente em seu rosto, at chegar  sua boca. Olhava somente para ela, e o mesmo se passou com as palavras que se seguiram:
     - No consigo pensar em nada, exceto que... me deixou sem flego.
     Falou muito baixinho, tanto que teve de fazer um esforo para ouvir, mas Devon nunca o esqueceria.
     Um turbilho de emoes cresceu no seu interior, semelhante ao que sentiu quando ele lhe disse aquelas coisas na biblioteca, depois do nascimento dos cachorros. 
Algo aconteceu entre os dois, algo dolorosamente doce e ntimo. A felicidade inundava a sua alma. Rasgava-lhe a garganta, sentia como se fosse arder de emoo, e, 
por um instante, falar transformou-se numa tarefa impossvel. Tudo o que conseguiu foi sorrir.
     E foi correspondida com outro sorriso. Sebastian agarrou-lhe a mo, e beijou-lhe os dedos cobertos de renda.
     Aproximaram-se juntos do salo. Justin ocupara-se em conversar com os trs homens que estavam sentados perto da lareira. Numa mesa prxima servia-se uma refeio 
ligeira. A importncia do que estava prestes a acontecer enervou-a. Estava prestes a ser considerada uma dama, quando ela era tudo menos isso.
     - Espera - disse ela.
     Sebastian olhou para ela perplexo.
     Viu-se sacudida pelo medo. Com os dedos a frios e suados agarrou-o pelo cotovelo.
     - Sebastian, - disse ela tremendo - e se descobrem quem eu sou? O que sou? Quer dizer, que sou uma fraude. E se fizer alguma coisa inapropriada? E se derramar 
vinho na minha saia, ou tropear, ou utilizar o garfo que no  o adequado? No quero te envergonhar na frente de todos.
     Sebastian parou junto dela, olhando para aqueles olhos enormes, da cor do mbar. Conseguia sentir a insegurana que a invadia em cada poro da sua pele. Mas 
de repente, pensou em como apareceu, no cimo das escadas, h apenas uns minutos.
     Ficou imvel.
     No conseguia afastar os olhos dela, jovem e encantadora, em nada se pareia com a pequena empapada que encontrou em Saint Gilles, j estava longe de parecer 
uma orf da rua. Mesmo sendo linda na altura.
     E agora, essa beleza sobressaia com mais fora ainda.
     Tinha a certeza que poderia competir com qualquer das belezas da sociedade. Poderia super-las, na verdade. Este pensamento acertou-lhe em cheio. Porque era 
quase como se tivesse nascido para este momento. Nascido para isto.
Mas aqueles olhos aterrorizados comprimiam-lhe o corao. Tudo isto era novo para ela. Sentia-se insegura e incmoda, quem poderia culp-la?
     Um gosto amargo subiu-lhe  garganta. Naquele preciso momento, no sabia quem odiava mais: se a Justin por sugerir que tinham que cas-la, ou a ele prprio, 
por consentir.
     Deviam ter-lhe dito. No era correcto no no soubesse de nada. Mas ela no teria concordado, com toda a certeza. Era melhor assim, teria tempo depois.
     De repente, assaltou-o um incmodo sentimento de auto desprezo. Meu Deus! Pensou com amargura. Quem pensavam que eram? Pretendiam salv-la, mas na realidade...
     A primeira oportunidade para examinar os seus conhecimentos em pblico e ele atirava-a aos lees.
     Sentia-se uma besta. 
     Mascarou aqueles sentimentos como pde.
     - No o far - garantiu-lhe, e apertou-lhe os dedos entre os dele. No lhe deu oportunidade de discutir ou de se lamentar mais, porque a conduziu diretamente 
ao salo para junto dos outros convidados.
     E ela no o fez. Entrou na porta, com as costas e a cabea erguidas.
     - Cavalheiros, gostaria de apresentar a senhorita Devon Saint James, uma amiga da minha irm. A senhorita Saint James veio visitar a nossa querida Julianna, 
mas deu a casualidade de ela continuar viajando pela Europa. De qualquer forma, espero que se unam a mim para lhe dar as boas-vindas a Thurston Hall.
     Ao v-la, os trs cavalheiros alinhados no sof, levantaram-se como se tivessem uma mola. Precisamente como imaginou que aconteceria, pensou Sebastian desanimado, 
as abelhas roderavam o favo de mel...
     Mason, um tipo educado de quem Sebastian gostara at o momento, j estava agarrando a sua mo e a levando aos lbios, no mesmo lugar onde h uns minutos atrs 
ele tinha postos os seus.
     - Menina Saint James,  o nosso banqueiro local, o senhor Mason.
     - Muito prazer, senhor Mason.
     Sebastian dirigiu-se a Evans, que a obsequeou com uma reverencia.
     - Se alguma vez precisar de um advogado, posso dizer que o senhor Evans lhe prestaria um bom servio.
     - Com todo o gosto, senhor Evans. - Devon sorriu-lhe.
     Westfield entrou em cena.
     - James Westfield, menina Saint James.
     Retirou uma madeixa da testa.
     - O que acha da nossa terra?
     Devon sorriu.
     -  muito agradvel, depois do ar sufocante de Londres.
     Os olhos deles encontraram-se. Sebastian s conseguia pensar numa coisa: nunca sentiu tanto orgulho dela.
     E nunca se sentiu to envergonhado consigo prprio.
     A cada segundo que passava, a cada palavra, Devon sentia-se mais segura de si. Era como um frgil ramo de flores a abrir-se pela primeira vez, revelando a sua 
luz e o seu calor. Devon ria. Conversava.
     Era tudo perfeito.
     Para Sebastian, a noite durou uma eternidade. Evans, Mason e Westfield ficaram muito mais tempo do que esperava. Devon retirou-se no muito tempo depois de 
eles sarem. Antes de desejar boa noite, pronunciou solenemente que foi uma reunio maravilhosa.
     J sozinhos no salo, os dois irmos deram rdeas soltas aos seus pensamentos. Justin cruzou os braos e virou-se para Sebastian.
     - Bom - disse friamente - correu tudo bem.
     Sebastian dirigiu-lhe um olhar glido.
     - Ela foi estupenda e voc sabe disso.
     - Sim, eu sei, e no me referia  Devon - disse-lhe Justin rgido. - Referia-me  sua escolha dos candidatos. Porque aqueles trs vaidosos tinham dificuldade 
em no lhe pr as mos em cima.
     Enquanto ele, pensou Sebastian furioso, tivera dificuldade em no pr as mos em cima deles. Mais uma razo para a casar, pensou, e rpido.
     - Viu o Westfield? Utilizou o monculo para olhar para ela e...
     - Sim - resmungou Sebastian, - eu vi.
     - Enfim, no sero eles. Nenhum deles.
     Sebastian no disse nada.
     Justin olhou para ele.
     - No me diga que gostou de algum daqueles trs!
     - No - concordou Sebastian num tom perigosamente baixo. - A Devon no se casar com o Mason, nem com o Evans, e muito menos com o Westfield.
     - Entendo. Ento, nesse caso, vou voltar para Londres.
     - Esta noite?
     - Sim. Talvez a Devon ache o ar de Londres sufocante, mas eu no penso noutra coisa seno em voltar para l.
     Sebastian sabia que Justin estava sofrendo. Vir-o dar voltas durante todo o dia como um animal enjaulado, assim, no se surpreendia que no quisesse esperar 
at de manh para regressar a Londres. O fato de Justin o ter seguido at ali, era por si s surpreendente. Porque o seu irmo evitava Thurston Hall como a peste. 
Alm disso, dois dias no campo provocava aquele efeito naqueles que tinham o temperamento de Justin.
     Acompanhou-o  porta principal e desceu a escadaria, onde um criado depositara a sua mala.
     Justin virou-se para o irmo.
     - Parece que no avanamos muito esta noite. Meu Deus, consegue imaginar a Devon casada com algum daqueles idiotas? O candidato ideal no vais nos procurar. 
Sendo assim, onde sugere que o procuremos?
     O sentido pratico de Justin comeava a deix-lo nervoso, porque, na realidade, no queria pensar nisso naquele momento. Contudo, no foi esse o motivo da noitada?
     - Combinamos que os meus amigos ficariam fora de jogo - continuou Justin, - mas talvez algum dos teus...
     - Esquece-os! - Sebastian cortou-lhe a palavra. No conseguia suportar ver Devon casada com nenhum dos seus amigos. - Vamos ter que tentar de novo. Precisamos 
cas-la, e depressa. Se no houver outro remdio, estou convencido que podemos encontrar o marido ideal pondo um pouco de dinheiro nos bolsos dele.
     - Suponho que isso  uma possibilidade - concordou Justin. Fez uma pausa. - Quanto tempo vais ficar aqui em Hall?
     Sebastian sacudiu a cabea.
     - No tenho certeza.
     - Bom - disse Justin, - se tiver alguma ideia brilhante, eu voltarei.
     Uma despedida breve, e partiu.
     Sebastian voltou  entrada, fechando lentamente a porta. Uma sombra escura atravessou-lhe as costas. Doa-lhe tanto a cabea, que uma noite de descanso no 
o curaria.
     Um som atrs dele chamou a sua ateno. Virou-se cautelosamente, pois pensara que estava sozinho.
     Mas no estava. 
     Uma figura pequena estava de p, nas sombras, perto das escadas
     Devon.
     Os olhos dele imobilizaram-se sem outro remdio. Os dela estavam dilatados e no mexiam, dourados, a nica cor num rosto branco como a cal.
     Ela no disse nada. Apenas olhava para ele.
     Um silencio enorme e vazio separava-os.
     E na tranquilidade daquele momento interminvel, Sebastian amaldioou a si prprio, amaldioou-se como nunca antes o fez, assim como sabia que ela maldioava 
a ele. A apatia daquela certeza aoitou-lhe a cara, porque sabia, mais para l da razo.  
     Pelo amor de Deus, ela escutara tudo.
        

     Captulo 21
             

     A presso que Devon sentia no corao era forte e sufocante. Lembrava-lhe aquela vez, sendo ainda uma criana, em que correndo pelas ruas, um jovem marcado 
pela varola lhe deu uma rasteira. Perdera o equilbrio e caira de rosto no cho, numa posio que a impedia de respirar. Naquele momento, os ouvidos sumbira e sentira 
um medo atroz ao ver que os pulmes queimavam e que tudo o que podia fazer era ficar ali caida, incapaz de se mover, incapaz de respirar.
     Mas no foi apenas isso. A vergonha fora muito pior. Quando finalmente conseguiu se recuperar e respirar, levantara-se com muita dificuldade e correra na direo 
oposta.
     Agora sentia-se da mesma maneira.
     Era como se os msculos do rosto tivessem congelado. Os seus pulmes pareciam de gelo. Tinha a certeza de que se mexesse, toda a sua pele se partiria em mil 
pedaos.
     Cada parte do seu corpo se revoltou. Negava-se a acreditar no que acabava de ouvir. Sebastian no podia ser to cruel, to perverso! Mas no havia forma de 
negar, de negar a verdade. Ainda conseguia ouvir, o eco da sua voz ressoando nos seus ouvidos...
     "Estou convencido que podemos encontrar o marido ideal pondo um pouco de dinheiro nos bolsos dele."
     As suas entranhas retorceram-se de dor, num n insuportvel. O rosto queimava. Um rio de lgrimas lutava por sair, mas milagrosamente, a sua garganta permanecia 
seca e fechada ao pranto.
     Sentindo-se a mulher mais infeliz do mundo, olhou para ele. Por um instante, sentiu que ele estava to atnito quanto ela. No queria acreditar, era o Sebastian, 
a pessoa em quem ela mais confiava. O Sebastian, a pessoa a quem ela mais amava.
     - Pagaria um homem para que se casasse comigo?
     Ditas no meio do silencio, as palavras dela no foram mais que um som enferrujado. Senhor, lhe doa at diz-lo em voz alta.
     A tenso era insuportvel. Ela enfrentava-o no silencio, olhando para ele com os olhos to secos que o escoiceavam. E durante todo aquele tempo, Sebastian continuou 
ali, imovel. A posio dos ombros dele refletiam uma tranquila resignao.
     - Diga-me, Sebastian. Pagaria a um homem para que me levasse para casa dele e me metesse na cama dele?
     O silencio tornou-se ainda mais evidente. Sebastian continuava imovel como uma esttua, com os olhos cinzentos fixos no rosto dela. nem sequer gaguejou. E de 
alguma maneira, aquela tranquilidade era ainda mais devastadora do que qualquer coida que tivesse dito.
     Os olhos dele fecharam-se, e depois abriram-se. Algo cruzou pela sombra do seu rosto, algo que bem podia ser um sentimento de culpa.
      Devon sentiu uma dor profunda. Tocou os lbios com a ponta dos dedos.
     - Meu Deus! - disse com a voz rouca, - meu Deus!
     Com um revoar das saias, correu pelas escadas acima. Atrs dela, ouviu um murmrio, uma maldio pronunciada entre dentes. Uns passos seguiram-na, mas ela correu 
ainda mais depressa em direo ao seu quarto.
     Porque no a deixava em paz? J no teve o suficiente? Tudo o que queria era que a deixasse sozinha, mas mesmo quando cruzava a soleira da porta do quarto, 
pisou com a ponta do sapato a bainha do vestido. Caiu sentando-se no cho, e foi como aquela outra vez. O ar no queria sair dos pulmes e teve que se esforar para 
recobrar o flego e pr-se em p.
     Sebastian j ali estava, rodeando-lhe a cintura com as mos, ajudando-a a levantar-se.
     - Deixe-me! - gritou-lhe. Furiosa, elevou um cotovelo.
     Sebastian retirou-se a tempo de evitar um golpe no nariz. Soltou-a bruscamente.
     Finalmente em p, Devon encarou-o.
     - Fora daqui!
     Mas ele no foi. Em vez disso, com a calma que s ele possua, fechou a porta lentamente, com a palma da mo. Com a mesma lentido de movimentos, fechou a porta 
 chave e meteu-a no bolso da jaqueta.
     O olhar de Devon subiu do bolso da jaqueta para o rosto dele.
     - Que diabo pensas que ests fazendo?
     - Est angustiada. - disse ele tranquilamente.
     - E voc  um depravado - investiu ela contra ele. Tinha passado do choque  raiva e ao desprezo profundo. Batia com a mo no peito dele, batendo-lhe. - Ah. 
Claro, como  que pude esquecer! Apesar dos teus empenhados esforos para me transformar numa dama, a deprevada sou eu, no  verdade?
     Os olhos dele entrecerraram-se.
     - No se menosprezes, Devon. Voc sempre foi uma dama, e sabe disso. Provou esta noite. Alm disso, as suas origens no tm nada a ver com isto...
     - Ah, permita-me que discorde! As minhas origens, como voc diz, tm tudo a ver. Disse uma vez que prometi  minha me que no me prostituiria, no mendigaria 
e no roubaria. Nessa altura, no acreditou em mim, e  claro que a sua opinio sobre mim continua a mesma! No me vendi naquela ocasio, e no penso em me vender 
agora. No deixarei que faa de mim uma rameira.
     - Uma rameira! Pelo amor de Deus, Devon...
     - Voc pagaria a um homem para me levar para a cama! Pagaria! - Gritou ela. - No  a mesma coisa que prostituio? Bom, no vou deixar que o faa. Ouviu? No 
vou deixar!
     Ele deu um passo para se aproximar.
     - Devon, - disse ele com a voz muito baixa - Devon, por favor...
     Ela moveu a cabea lentamente. Estava to zangada e desesparada que lhe doa a proximidade dele. De repente, sentiu-se  beira de um precipcio. No sabia se 
saltava para ele, para a escurido, ou se jogava diretamente nos braos de Sebastian.
     Mas estava muito magoada, muito furiosa.
     A amargura atormentava-lhe a alma. Elevou o rosto em direo ao dele.
     - O jantar de hoje no foi uma reunio casual, pois no? Havia algo por trs, estava tudo planeado. Devia ter imaginado. Evidentemente, tinha tudo planeado, 
como planeja tudo o resto. Talvez deva me sentir feliz por no ter decidido me oferecer em leilo.
     Tanto menosprezo mordeu-lhe a conscincia.
     - Devon, tem que me ouvir.
     - No! Voc me enganou, Sebastian. Me enganou! Eu queria ser uma perceptora uma dama de companhia, e voc sabia. No te falei disso imensas vezes? Foi este 
o futuro que reservou para mim?
     - No. No!
     - Ento, se o que queria era se livrar de mim, so tinha que dizer!
     - Me livrar de voc? Meu Deus - disse ele atnito. - No  nada disso que est pensando!
     Quando tentou aproximar-se dela, ela afastou-se ainda mais.
     Ele no se deu por vencido. Agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a ligeiramente.
     - Devon, tem que me ouvir. No  o que est pensando.  to doce e encantadora, que quando descobri que ainda  virgem...eu e o Justin tivemos medo... que pudesse 
acabar nas mos de algum animal sem escrpulos que quisesse se aproveitar da tua inocncia. E sei que nunca aguentaria uma coisa dessas, eu sei! No conseguia suportar 
a ideia de que voltasse para a rua de novo. Queria te proteger, te afastar da dor. Precisava saber que cuidariam de voc para sempre. Que no teria frio, nem fome.
     Sabia que ele ia dizer que o que queria era proteg-la. Talvez em algum lugar remoto da sua alma, compreendia porque o tinha feito. Mas a sua magoa e o sentimento 
de traio estavam ainda muito frescos.
     De repente, as palavras saram da boca dela.
     - Eu estava to excitada esta noite. Pensei que queria me apresentar aos seus amigos! No queria falhar, Sebastian. Queria que tivesse orgulho de mim. Queria 
ser tudo o que me ensinou a ser.
     - E . - disse ele num impulso - E foi. E senti muito orgulho de voc. Estava linda esta noite. Voc  linda. No percebe que qualquer homem ficaria feliz por 
te ter ao seu lado?
     O corao dela partiu-se em dois, "qualquer homem, menos voc".
- Lembra-se daquela noite no meu quarto, quando me levou para a cama?
     Um sorriso apareceu num canto da boca dele.
     - Me disse que eu era lindo. Que te tirava o flego.
     - Eu teria me entregado a voc naquela noite. - A confisso saiu dos lbios dela do fundo da sua alma. - Naquela ocasio me pediu que nunca dissesse a outro 
homem o que acabava de te dizer. Me senti to envergonhada que pensei que morreria. No sabia que o que disse era to mau.
     O sorriso dele desapareceu.
     - No disse nada de mal - disse com a voz estranhamente tensa. - Eu  que errei. Eu tambm te queria, juro. S que se as coisas fossem diferentes, se eu fosse 
diferente. - A voz dele quebrou-se.
     Os olhos dela estavam cheios de lgrimas.
     - Oh! Devon... no chore. - Parecia to abandonado quanto ela. Agarrou-a pela cintura e aproximou-se dela. Apertou-a pelas costas com fora. - No chore, amor. 
Me parte o corao te ver chorar.
     Os dedos dela apertaram o tecido da camisa dele. Era isto o que ela sempre desejara: ser rodeada pelo lao protetor do seu forte abrao. Mas no desta forma. 
No quando ele estava cheio de duvidas, e ela de mgoa. No quando sentia que aquela amargura no fundo da sua alma. Embora tentasse, no conseguiu reprimir o pequeno 
soluo que saiu da sua garganta.
     Os braos dele apertaram-na com mais fora, com uma intensidade arrepiante. Os dedos deslizaram por baixo do cabelo dela, atraindo o seu rosto para o ponto 
onde o pescoo se une com o ombro. Uma lgrima solitria deslizou pelas faces dele.
     - Nunca quis te magoar. Era a ultima coisa que queria. Perdoe-me? - Com os dedos segurou-lhe o queixo, e retirou suavemente uma mexa que caa pela face. Sem 
dizer uma palavra, fez com que ela olhasse para ele, elevando-lhe o rosto para o dele. Ao inclinar a cabea, os lbios encontraram-se a menos de um gemido de distncia.
     - Devon, por favor, diga que me perdoa.
     Os olhos voltaram a encontrar-se.
     - Eu gostaria, mas... - aprisionada em um temporal de emoes contraditrias, suspirou profundamente. - No sei o que pensar, no sei no que acreditar.
     Um dedo quente e suave percorreu o arco da sobrancelha dela, o perfil arredondado do seu nariz, a inclinao da face, a curva suave do pescoo. Devon ficou 
paralizada sob as carcias dele, to leves, to insuportavelmente suaves.
      A boca dele roou a dela. Os flegos misturaram-se.
     - Acredita nisto. - Sussurrou ele. - Acredita em mim - disse, com a boca colada  dela..
         E ento beijou-a.
     Um beijo era mais do que ela esperava, embora o desejasse com todas as suas foras. Com o sabor da boca dele ainda quente, o n tenso do medo desapareceu do 
estmago dela e perguntou-se como  que um simples beijo podia ser por um lado, to meigo e to selvagem e poderoso.
     Porque era assim, e lamentou o momento em que acabaria. A doura da boca dele era um blsamo para a sua alma ferida. Fez desaparecer aquele tumulto interno 
que a atormentava e, no seu lugar, apareceu um raio de luz feroz e quente para atravess-la. Sebastian. Esfomeada por aquela doce sensao, esfomeada por ele, os 
lbios dela abrira-se diante do pedido silencioso dos dele.
     Por baixo da experiencia da sua lngua, a dela saiu das profundezas da sua garganta. Quando as lnguas se tocaram, houve um rudo profundo e vibrante no peito 
dele. Ela podia sentir os seus braos a rode-la com fora, atraindo-a cada vez mais, at que no houve uma parte dele que no pudesse sentir. As mos femininas 
percorreram o amplo peito, abertas. Estava ficando com calor, ao sentir a intensidade do seu membro contra o ventre.
     Traou com a ponta do dedo uma delicada curva pela clavcula, depois desceu at  pele nua do decote do seu vestido. O corao de Devon batia a mil por hora, 
a respirao era agitada, e a de Sebastian era igual. Os ns dos dedos acariciaram os seios redondos. Uns seios que queimavam e doam, estranhamente pesados. Era 
como se espetassem agulhas nas pontas dos mamilos. Conteve a respirao, suspensa numa agonia de desejo. Pelo amor de Deus, ser que ele nunca mais ia...
     De repente, quase impacientemente, aquela mo esbelta e escura, introduziu-se por baixo do decote do vestido. Os dedos fortes rodearam a generosidade das suas 
curvas, agarrando o seu peso na curva da sua mo. Um dedo solitrio, rodeou frentico, o contorno do mamilo, aproximando sem nunca chegar a tocar o ponto central. 
E, quando por fim, o polegar dele se aventurou a cruzar o mamilo, ela sentiu-se trespassada por um raio, fulminada pelo seu calor.
     Tudo dentro dela ficou mido. Derreteu-se diante dele, sentindo como os mamilos se endureciam e se encolhiam ao compasso das poderosas carcias.
     Quando finalmente recuperou a liberdade da sua boca, agarrou-se a ele para no cair aos seus ps.
     Ele apoiou a testa contra a dela, seus olhos emitiam um calor sufocante.
     - Te quero. - Sussurrou ele.
     As palavras foram pronunciadas em voz muito baixa, mas corajosamente. A sua intensidade fizeram com que o corpo dela tremesse.
     Seus olhos enredados nos dele, no conseguia olhar para outro lado.
     - Devon - sussurrou ele-, percebeu o que acabei de dizer?
     O corao dela batia com tanta fora, que no conseguia ouvir o que ele dizia. Engoliu a saliva, numa pergunta surda.
     O olhar dele foi mais penetrante.
     - Te quero - Disse uma vez mais. - Quero fazer amor com voc.
     A sinceridade dele a fez tremer. Naquele momento, ele j a possua tanto por dentro quanto por fora. A emoo encheu-a de tal maneira que pensou que explodiria. 
Incapaz de falar, tudo o que conseguia fazer era emitir um som rouco e abafado. Colocando em silencio os seus dedos na covinha do queixo dele, deixou que os seus 
gestos dissessem o que ela no conseguia.
     O que sentiu a seguir foi que os seus ps deixaram de a apoiar. Foi elevada pelo ar e levada para a cama. Ento, Sebastian parou. O seu olhar retificou os seus 
passos em direo  porta.
     Devon paralizou.
     - Sebastian, o que foi? Eu pensei que...
     - No aqui. - Disse ele negando com a cabela e olhando para ela fixamente. - Quero voc no meu quarto, na minha cama.
             Estava quase l
     Devon queria chorar de novo, mas desta vez de felicidade.
        


    Captulo 22
             


     Segurando-a nos braos, escutando como perdia toda a sua angustia, sentindo o seu medo, o toque gelado dos seus dedos, aquela nica lgrima deslizou pelo seu 
peito. Sebastian sentiu que algo se remexia dentro dele. Sabia que estava perdido desde que a tocou.
          No, isso no era verdade. Estava perdido h muito tempo. Estava perdido desde aquela noite em que a levou para a sua casa da cidade, diretamente para 
o seu corao.
     Estava cansado de lutar. No podia lutar mais contra aquele desejo que o incendiava dia e noite. Era forte demais. Intenso demais. Era mais do que conseguia 
suportar. Algo que nunca conseguiria superar, nem tinha a esperana de o fazer.
     Porque tambm no desejava. No agora. Tinha perdido a conscincia. Os escrpulos. No havia tempo para a culpa, para o raciocnio. Deixara de lado todas as 
regras da sociedade. O seu mundo diminuira, como se nada mais existisse.
     Porque s Devon existia.
     Devon nos braos dele, na cama dele.
     Na cama dele, pensou com fora. Na cama dele.
     Lentamente, depositou-a no cho, de p  frente dele.
     Algumas brasas iluminavam o quarto e mantinham-no quente. As pesadas cortinas carmim estavam abertas, mostrando o reflexo da lua cheia que fazia com que a noite 
ficasse clara como o dia. 
     A forma dela aparecia moldada nas sombras prateadas e douradas. Debatia-se entre uns sentimentos, que eram metade prazer, metade dor. Parecia celestial, como 
um anjo. Sebastian percorreu com o olhar as suas feies delicadas, requintadamente aristocrticas. Numa longnqua parte da sua alma, no conseguia evitar quem era. 
Quem era na verdade aquela mulher?
Uns ps pequenos deslizaram por entre os seus. Despenteado, o cabelo dela caa-lhe pelos ombros. Sebastian deslizou os dedos por baixo da abundncia de seda, enrolando 
a mo ao redor do seu pescoo. O polegar deteve-se no espao vulnervel da sua garganta, por baixo do colar da sua me. Podia sentir a pulsao, acelerada e selvagem, 
to frenetica quanto a dele.
     Cuidadosamente, aproximou o rosto dela ao seu para poder contemplar as feies dela em todo o seu esplendor.
     Nos lbios dela viu o mais tnue dos sorrisos, a imagem mais linda que alguma vez j vira. Um olhar que mostrava cada um dos seus pensamentos, incapaz como 
era, de lhe esconder alguma coisa. Era como se estivesse olhando diretamente para o seu corao, e o que viu foi o reflexo do doura, um sentimento to puro que 
o aoitou no estmago como um soco. Os seus olhos eram brilhantes e densos como os topzios. Provara por si prprio a doura de seus lbios entregues sem condies. 
E sabia, com uma certeza que ecoava em cada rgo do seu corpo, que ela o deixaria fazer tudo, tudo o que ele quisesse.
     Uma tempestade de emoes explodiu dentro dele, uma sensao arrebatadora, parecida com o poder. E ao mesmo tempo, foi um momento cheio de contradio. Ficou 
cravado ao solo. Tinha medo de se mexer, medo que ela desaparecesse, que tudo fosse um dos seus sonhos. De que aquela noite fosse apenas...
     Com uma lentido deliberada, tirou o casaco e a jaqueta. Por ltimo, tirou a camisa.
     Ao mostrar o seu peito nu, aponta de uma lngua feminina emergiu para molhar os lbios, deixando-os midos e satisfeitos, e provacando uma exploso de desejo 
em todo o seu corpo.
     - Devon. Meu Deus, Devon.  - Baixou a cabea. A sua boca procurou a dela. Ento enloqueceu e apertou-a contra ele, beijou-a como se fosse um homem esfomeado, 
longa e apaixonadamente, drogado pela intoxicante certeza de que no teria que voltar atrs.
     A cabea andava s voltas.
     - Devon - suspirou, beijando o doce lugar que se encontra por trs da orelha, - minha doce Devon.
     A sua boca descansou no espao da garganta dela, as mos quentes apoiadas nos ombros. Um s estalar de dedos e poderia deslizar o seu corpo pelas ancas dela.
     Ela inspirou de repente. Seabastian levantou a cabea, para se deparar com um olhar confuso e assustado.
     A garganta de Sebastian doa-lhe. Devon estava de p, diante dele, meio nua, meio tmida,   meio sedutora.
     Os seios eram ainda mais gloriosos do que se lembrava: redondos, montinhos resplandecentes de carne, lascivos e deliciosamente cheios, culminados por dois bicos 
perfeitos e voluptuosoas de coral rosado. Os pulmes expandiam-se com cada inspirao profunda e trmula que dava, elevando ao compasso a carne apetitosa da sua 
feminilidade.
     Apertou os dentes, porque naquele instante, cada gota de sangue do seu corpo se transferia para o seu membro. Podia sentir o pulso, batendo como bate o corao, 
numa necessidade imperiosa que no tinha nenhuma esperana de poder controlar.
     Vagamente, surpreendeu-o no ter gozado nesse instante, algo que sem duvida teria envergonhado os dois.
     Embora Devon, pressentiu, j estava se sentindo suficientemente envergonhada por outros motivos.
     - Sebastian?
     O seu nome foi uma tentativa de som, ofuscada por uma grande dose de incerteza. Consegui sentir o pnico. Olhou para ela e a tenso dentro dele tornou-se menos 
intensa. Teve que fazer um esforo para conter a gargalhada. Os olhos de Devon eram enormes. Notara a sua vida ateno e as faces dela ficaram da mesma cor deliciosa 
dos mamilos. Teve que se lembrar que ela no era uma mulher experiente. Ela engoliu a saliva, e as suas mos femininas comearam a subir, numa inteno de se proteger.
     Mas ele frustrou os planos dela com delicadeza. Agarrou as mos dela e entrelaou os seus dedos entre os dela, prendendo-os.
     - No tenha vergonha, querida - disse docemente beijando-lhe os lbios. - No tenha medo.
     - No tenho medo - disse ela quase sem flego. - Apenas pensava que... que fico feliz por no ser de dia.
     De tudo o que podia ter dito, isto era a ultima coisa que esperava. Mas era a Devon, sempre honesta, sempre direta.
     Foram os nervos que provocaram estas palavras, decidiu Sebastian. Agarrou-se  boca dela at que a tenso nervosa comeou a ceder. Um ultimo beijo naqueles 
lbios abertos... e ento a sua boca deslizou lentamente para lugares mais quentes, descendo para o incio do seu corpo.
     Ajoelhou-se diante dela, mergulhando a cabea no perfume embriagante dos seus seios. Ela contraiu-se ao sentir o hlito quente da respirao dele, mas no se 
afastou. Libertou as mos, que flutuaram para tocar as linhas elegantes dos ombros dele para se retirarem depois. Repetidamente voltaram e afastaram-se. Voltaram 
e afastaram-se. Voltaram e afastaram-se.
     As mos dele no eram to hesitantes. Pelo contrario, tinham se comprometido, cheias pela terna recompensa. As pontas dos dedos roavam a ponta dos seios. Embora 
fossem apenas carcias tnues e fugazes, o bico dos seios estavam duros e salientes por baixo da sua mo.
     - Sebastian - disse ela debilmente.
     Ele estreitou-a docemente. Os mamilos ergueram-se, oferecendo-se em sacrifcio, mas teve que declinar o convite, ao notar que era extremamente sensvel naquela 
parte do corpo.
     - Deixe-me tocar em voc. - Implorou Sebastian. - Deixe-me te amar.
     Ao falar, traou uma linha ertica ao redor daquelas coroas rosadas, evitando deliberadamente o centro escuro dos seus seios.
     - Sebastian - sussurrou.
     Levantou o olhar. Ela cravava os dentes no lbio inferior para no chorar.
     - O que , amor? O que queres?
     A voz dela saiu num pequeno sussurro.
     - Quero...
     - Diga-me, amor. Eu fao, prometo.
     - Quero a tua boca nos... nos meus seios. Isso ... pouco apropriado?
     Ele sorriu.
     - No, querida, isso  desejo. Mas diga-me onde, em que parte dos teus seios - questionou - onde especificamente?
     Para chegar at aqui percorrera um longo e rduo caminho. Mas agora, sentia-se como se chegasse casa, como se tivessem lhe tirado um peso de cima, e no conseguiu 
evitar de brincar com ela, pelo menos um pouquinho.
     Com a ponta da lngua tocou-lhe delicadamente um mamilo saliente e embriagador.
     - Aqui? - perguntou.
     A respirao dela tornou-se mais intensa, as unhas cravaram-se na pele dura dos ombros dele.
     Excitado, sugou todo o mamilo com a sua boca. Chupando com fora, com a boca quente e ardente, chupou primeiro um e depois o outro, at que ela gemeu e cambaleou 
e no conseguiu segurar-se por si prpria.
     Um grito de prazer cruzou o ar. Uma possesso feroz apoderou-se dele quando a levantou nos braos. Trs passos e depositou sua preciosa carga na cama, sem vestido, 
abandonado onde ela tinha estado antes.
     As suas prprias roupas atrapalhavam-no de tal maneira, que os botes das calas saltaram. Segurando-lhe a cabea com as palmas das mos, colocou-se em cima 
dela, consciente do seu peso. Uns braos nus e sedosos, deslizaram para lhe rodear o pescoo. Com os dedos na nuca, Devon agarrou-lhe a cabea e aproximou a boca 
dela  sua. Sebastian inspirou profundamente ao colocar o seu mambro no vale entre as suas coxas. Por baixo dele, ela moveu-se inquieta, procurando, e ele perguntou-se 
se ela seria consciente dos estragos que provocava com aqueles movimentos descontrolados.
     O desejo queimava-lhe o ventre. Queimava o corpo todo. Os mamilos queimavam-lhe o peito, ainda molhados da lngua dele.
     A necessidade de se afundar em sua profundidade era insuportvel.
     "Com cuidado" pensou ele. Sentiu-se egosta e vulgar. O seu pnis estava to dolorosamente duro que pensou que lhe rasgaria a pele. Mas ele sabia que devia 
ser cuidadoso. Esta era a sua primeira vez. Devia ser muito meigo.
     Porque no queria lhe causar mais dor.
     Tornando mais lenta a febre lasciva dos seus beijos, deitou-se de lado. Com a palma da mo, acariciou a suavidade do ventre dela, introduzindo os dedos no pelo 
dourado que crescia por cima das suas pernas. Com audcia, roou o seu boto secreto, mido e quente, antes de introduzir o seu dedo no calor do seu interior.
     Sentiu como tremia e ficava tensa. Aliviou-a com os braos e com a lngua, com a sua respirao ritmada enquanto media os limites do caminho. Finalmente, relaxou-se. 
Os quadris elevaram-se e ele introduziu-se ainda mais.
     Sentiu a convulso do seu corpo ao rodear com o polegar o boto secreto do seu prazer. O dedo aprofundou-se mais, rasgando suavemente, esticando-se com delicadeza. 
Sentiu uma necessidade dolorosa de trocar o dedo pelo pnis. "Ainda no", pensou. Podia ela aguentar ainda mais? Perguntou-se selvagemente.
     Podia, e conseguiu.
     Estava to quente, to quente e to mida... pressionou com o polegar o centro do seu desejo, esfregando com movimentos circulares, dando-lhe prazer at que 
a cabea dela se elevou da almofada e gemeu, um grito fulgurante que ecoou na sua propria garganta.
     Separou a sua boca da dela e olhou-a. Os olhos estavam muito abertos, espantados e confusos. Ela agarrou-se a ele com fora.
     - Por favor - gemeu, - Sebastian, por favor.
     As pernas abriram-se amplamente.
     Uma emoo difcil de definir embriagou-o. Com uma mo, guiou-se para o interior, com um controle forado. Gemeu, a ponta provando os caracis quentes e brilhantes
     Deus! Os pulmes ardiam, no conseguia respirar. Empurrou na fenda, sentindo a sua mida passagem pronta para o receber...
     E ento, encontraram o paraso.
     
     Apesar de todos os preparativos, a frgil barreira da sua inocncia quis impedir-lhe o caminho. Queria ser lento e cauteloso, mas o canal sedoso cobrindo o 
seu membro era mais do que conseguia suportar.
     Sabia que ele era o primeiro, que nenhum outro homem a tinha tocado daquela maneira, o que fez fluir pelas suas veias um desejo surdo e primitivo.
      Fechou os olhos. Empurrou s cegas...
     O pequeno grito que Devon emitiu foi uma faca que lhe atravessou o corao. Sabia que tentava cont-lo, mas era tarde demais. Sebastian condenou-se naquele 
momento. Maldio, a machucara...
     "Estpido!" A voz da sua conscincia castigou-o com fria. Como no o faria? Ela era to pequena. E ele to grande...
      O seu olhar deslizou para o lugar onde os corpos jaziam juntos, onde os caracis negros e densos se enredavam com o plo sedoso. Era uma imagem de intimidade 
descarada, uma imgem to ertica que a boca secou. Deus, ela tinha metade do seu tamanho...
     Tortura? xtase? O que era? Ah, Deus. Como  que poderia parar? Como conseguiria faz-lo?
     Embora o seu instinto o impelisse a seguir at o fim, foi incapaz. Ficou gelado, to paralizado como vencido, com medo de lhe provocar mais dor.
     - Sebastian? - Tinha a respirao acelerada, os dedos deslizaram pela nuca, acariciando-lhe o cabelo, com um leve grito de confuso nos lbios. - Sebastian... 
o que aconteceu?
     Odiou-se pela duvida que encharcava os olhos dela.
     - Machuquei voc - foi tudo quanto conseguiu dizer. - te machuquei.
     - No o fez. - garantiu ela.
     Conseguiu sentir a pulsao voltar s suas veias. Contra ela. Dentro dela.
     - Machuquei sim. Eu te ouvi. Ah, Devon. Te quero tanto! Consegue sentir o quanto te quero? - os olhos dele escureceram. - Mas tenho medo. Medo de te machucar 
novamente.  to pequena. - sussurrou - e eu  sou to...
     Finalmente, ela percebeu. De repente, os dedos pousaram nos lbios dele, impedindo-o de continuar.
     - Eu estou bem! - disse ela. -  srio!
     Ao falar, rodeou-o com as pernas, como se quisesse encerr-lo dentro do seu corpo. Nos lbios, um sorriso trmulo, a boca estava to perto da dele, que apenas 
um suspiro os separava. Os olhos brilhavam com uma emoo to profunda e to pura que ele se sentiu desarmado.
     - Toma-me agora, - sussurrou ela - faa-me tua.
     - Devon. - Os dentes rangeram.
     - Vai me machucar se no o fizer. - A voz dela soluou. - me machucaria se no o fizesses. - E a voz desvaneceu-se por fim.
     Como se desvaneceu a dele.
     Ela investiu contra ele, num potente ataque que o levou s portas do tero. Um abismo terno e entregue. A carne quente dela derreteu-se ao redor da dele, ardente 
e dura, impossvel de distinguir onde comeava o corpo de um e acabava o do outro.
     - Agora te perteno - gritou contra a sua garganta.
     Sebastian escondeu a cabea no espao do ombro dela.
     - Devon - sussurrou o nome , um som estrangulado, de algum que no tinha flego para mais. - Devon.
     Arqueou as costas. Os quadris procuraram as dele, dois corpo em perfeita unio. Arranhou as costas dele com as unhas e a cabea moveu-se de um lado para o outro 
na almofada. Depois, de repente, gritou e ficou tensa, com convulses que alcanaram o centro do prazer.
     O xtase dela alimentou o dele. Investindo agora, introduziu-se nela uma ltima vez. Um arrepio encolheu o seu corpo. Uivou com a voz rouca, no estava preparado 
para isto. A erupo transbordou uma e outra vez, quente e sufocante.
             Foi o orgasmo mais potente e intenso que alguma vez tivera.
        Transportado aos confins do seu ser, teve que esperar um bom tempo at ser capaz de reunir foras e enrolar-se ao seu lado. Abraando-a contra o peito, dobrou 
a cabea e beijou-a na boca, de uma maneira doce e relaxada.
     E de repente viu-a sorrir.
     Desenhou com o dedo o nariz dela.
     - Dorme, abelhinha - sussurrou.
     - Sim, meu senhor - respondeu ela, para sua surpresa.
     E assim o fez, quase com a mesma celeridade.
     Sebastian sentiu-se confuso. No tinha a certeza se lhe agradava ou se o ofendia. Para ele, no seria to fcil conciliar o sono, tendo na sua cama aquela criatura 
deliciosa.
     Mas enganou-se.
        

    Captulo 23
           

     Despertou com o click da porta.
     Abriu um olho e viu Sebastian percorrer o quarto com passos largos, vestido com um robe bordado em vermelho. Devia ter dormido profundamente porque no o ouviu 
levantar-se. A ultima coisa que recordava era de uns braos protegndo-a contra tudo, um abrao forte que ela respondeu com uma agitao. Depois, os braos dele 
a rodearam ainda com mais fora, como se no pudesse suportar que ela se fosse.
     Aquela era uma recordao maravilhosa. Queria saborear no s a paixo dedicada que compartilhavam, mas tambm o sentimento incrivel de cumplicidade e pertener 
que havia surgido entre os dois. Precisava prend-lo mais profundamente, para os dias em que... mas no. No. No pensaria nisso. No queria que nada estragasse 
aquele momento, sem duvuda, o mais importante da sua vida.
     Seabstian sentou-se na cama junto a ela, com uma mo nas costas. A outra seguiu o curso da inclinao do seu ombro nu. As de Devon acariciavam o cobertor da 
cama at que ele as agarrou, beijando cada um dos seus ns. Depois virou-as, com as palmas para cima, e beijou cada uma das pontas dos seus dedos.
     Em todos aqueles dias, no sentira nada to docemente ertico como aquilo.
     - Bom dia - disse ele por fim.
     As palavras tinham chegado com tanto atraso que Devon teve vontade de rir. Mas a ternura que viu naqueles olhos cinzentos, feriu-a na garganta. Foi ento quando 
percebeu o quanto era feliz. Intensamente feliz. No conseguia se lembrar quando se sentiu to feliz no passado.
     - Dormiu bem? - perguntou ele suavemente
     - Dormi. - Respondeu ela ternamente, mas depois franziu a testa. - ainda que no possa dizer o mesmo de voc, se j est em p a esta hora.  - Percebeu naquele 
momento, pela luz que entrava pela janela, que o dia comeava a despontar. Resmungou docemente. - Trabalha demais, Sebastian...
     - No estava trabalhando. Estava no jardim.
     - No jardim? A esta hora?
     - O sol est nascendo. - Apontou em direo  janela, onde o cu a Leste brilhava coberto por uma decena de sinais de coral
     Devon olhou para ele fixamente. Tinha a boca torcida, como se soubesse de alguma coisa verdadeiramente divertida. Na realidade, parecia um safado!
     Sebastian... um safado?
     A elegncia pura que definia a essncia daquele homem, o aristocrtico marqus de Thurston, desaparecera. Usava o robe aberto, deixando a descoberto um peito 
bronzeado, to viril que provocava uma estranha dor no seu ventre. Com o queixo escuro e sombreado pela barba, parecia mais homem do que nunca. Ainda que agora houvesse 
uma diferena.
     Uma madeixa escura caa pela testa. Nunca o vira to relaxado, to despreocupado. Aquele ar de garoto brincalho, tirava-lhe o flego.
     Com cuidado, decidiu que podia ser motivo de alarme.
     - Sebastian? - perguntou docemente.
     - Sim, amor?
     - O que est  escondendo nas tuas costas?
     As sobrancelhas escuras arquearam-se.
     - O qu? Nada. - A expresso e o tom pactuavam com a veemente declarao de inocncia.
     Embora se contradissessem no momento em tentou escapar do seu brao.
     Devon chegou-se para a frente na cama determinadamente. Para se aperceber, tarde demais, que no usava roupa. Com um grito, esticou a mo ao cobertor.
     Conseguiu cobrir-se a tempo. No  que no a tivesse visto antes, no tivesse beijado e acariciado cada canto do seu corpo! Mas j no era noite, e bom, era 
natural que se sentisse envergonhada. Aparecer nua diante dele era uma coisa que levaria um tempo para se habituar.
     Tambm no ajudava que Sabastian risse na sua cara, o parvalho! Devon olhou para ele boqueaberta, tentando obter a sua expresso mais indignada. Embora no 
fosse uma pessoa preocupada, era inteligente e conseguiu ver o brilho que transformava os seus olhos em prata fina. Pela primeira vez, viu a astcia nos seus olhos.
     - Mostre-me o que est  escondendo.
     - Vou fazer mais do que te mostrar. - Aquele sorriso astuto ampliou-se. - O que acha se deixar voc adivinhar?
     - De acordo.
     - Ento, encoste-se na almofada, e pe as mos ao lado da cabea.
     Fez como ele lhe pedia.
     - Assim? - perguntou sem flego.
     - Precisamente assim. Agora, respire, meu amor, e feche os olhos.
     "Meu amor." O elogio ps-lhe os cabelos em p. Se estivera feliz at ao delrio, agora sentia-se feliz at ao xtase.
     Uma suavidade como a do veludo roou o seu nariz, cobriu as suas faces e veio descansar entre os seus lbios. Um perfume incrivelmente doce estremeceu-a.
     Inalou-o profundamente. Os seus dedos apertaram-se nas palmas das mos.
     - Uma rosa - Disse sem flego, - por isso  que estava no jardim.
     - Sim - murmurou ele - agora, pode abrir os olhos. Mas com cuidado. Estou fazendo uma experiencia.
     A seguir sentiu que o cobertor descia at o quadril. Forando o ngulo de viso, conseguiu ver os seios nus, uma carne sedosa como o marfim coroada de coral. 
Forte demais para a sua modstia, decidiu atordoada, sentindo como o rubor proclamava a sua vergonha.
     Mas no se mexeu
     O olhar de Sebastian parou nos seios. Os olhos ficaram escuros e silenciosos. O conjunto de emoes ao ver a sua expresso foi como o rebentar de uma tempestade. 
Sentiu-se acariciada sem medida, intimidada e espantada ao mesmo tempo.
     - Gloriosos. Absolutamente gloriosos.
     Com uma lenta agonia, percorreu com a rosa o perfil de um seio, submergiu-a no vale entre os dois, e emergiu pelo outro, ali percorreu um tempestuoso caminho 
ao redor da ponta escura.
     - Amanhecer - suspirou, -  assim que se chama esta rosa. E por Deus, ele tinha razo, os teus mamilos so da mesma cor desta rosa.
     Devon, hipnotizada pela venerao que percebeu nele, esteva quase se atirando nos seus brao. Mas deteve-se a meio caminho.
     - Ele? - Repetiu. Ele? - engoliu em seco, - Sebastian, o que quer dizer? Quem  que tinha razo?
     Ele gaguejou, e finalmente afastou os olhos dos seios dela.
     - O Justin. Ele disse que os teus mamilos...
     - Sim, eu ouvi! Mas quer dizer que o Justin... que o teu irmo viu... - Deus, no conseguia dizer - os mamilos?
     - Temo que sim - disse ele divertido.
     Devon sentiu-se horrorizada.
     - No - deu um gemido, - no  verdade.
     - Bom - disse ele levemente, - se no acredita, s tem que lhe perguntar.
     Devon meteu-se entre os lenis.
     - Meu Deus! Nunca mais poderei olhar para a cara dele.
     Sebastian soltou uma gargalhada.
     - Ah, v la, no  assim to mau.
     - No foi com voc! - Olhou para ele por cima da dobra de cetim. - E quando  que isso aconteceu, exatamente?
     - Na noite em que te atacaram.
     Devon gaguejou.
     - Ou seja, enquanto eu estava indefesa, vocs dedicaram-se a me comer com os olhos!
     - No foi exatamnte assim. - Sebastian riu. - Ele me ajudou a tapar a ferida das suas costas. Depois de estar tapada, te deitamos de barriga para cima, e foi 
ento...
     - Sebastian! No fale mais nada!
     - Mas no estvamos olhando para voc - protestou. - Fui muito delicado e te cobri imediatamente. Me senti bastante possessivo, mesmo sem te conhecer.
     - E acha que isso faz eu me sentir melhor?
     Ele no respondeu. Em vez disso, o seu sorriso ficou mais intenso.
     - O que foi? - disse debilmente. - Ser que ainda h mais?
     Os olhos dele danaram alegremente.
     - Bom, eu no deixei que Justin olhasse para voc. Mas eu olhei, talvez s um pouquinho. Devo confessar que... - parou violentamente.
     - E agora o que foi? - Resmungou ela.
     - Voltei a admirar os seus gloriosos seios - confessou, - mais tarde, naquela noite.
     -  o maior patife do mundo! 
     - Obrigado - disse seriamente - creio que  a primeira vez na minha vida que me chamam assim. E devo dizer que me agrada bastante.
     Devon bateu-lhe com a almofada
     - Voc, senhor, no merece que o chamem de cavalheiro
     - Se sentiria melhor se eu permitisse que me visse nu? - as sobracelhas dele subiram e desceram.
     Devon na conseguiu resistir. Parecia um tonto. Ridculo, na realidade. Tentou conter-se, mas um sorriso apareceu nos seus lbios para se transformar numa gargalhada 
sonora. E uma converteu-se em duas. Sebastian apertou-a num forte abrao. Caram os dois rindo em cima da cama.
     E quando terminaram ele simplesmente possuiu-a. Possuiu-a e agradeceu, num momento onde o mundo exterior deixou de existir.
     Finalmente, moveram-se. Sebastian rodeou a sua orelha, prendendo uma madeixa dourada que lhe caa pelo rosto. O sorriso de Devon ficou trmulo e tnue ao mesmo 
tempo. Os seus lbios abriram-se. Tentou pronunciar uma frase ocasional, mas vendo a sobrancelha dele levantada, percebeu que a tinha descoberto.
     Incapaz de se deter, escondeu o rosto na amplitude dos ombros dele. Com os ns dos dedos, Sebastian esfregou a aveludada curva da sua face.
     - O que ? - Murmurou. - Pode me dizer, Devon. Pode me dizer tudo. Sabe? - Enrolando os dedos no cabelo dela, inclinou a sua cabea para trs para poder v-la.
     Doa-lhe respirar. De repente, viu-se incapaz de afastar o medo que havia se instalado em seu peito. Amava-o. Amava-o muito, mas onde a conduziria aquele amor? 
"Ah, Sebastian - lutou para no chorar, - o que acontecer depois?" Tentaria cas-la com algum? No. No podia. Ela no o faria.
     Mas o que aconteceria com ele? O que aconteceria com sua procura de esposa? Quem escolheria?
     - Devon - disse docemente. Intensamente.
     Ela engoliu a saliva.
     - Est bem, ento. - Disse-lhe, em voz muito baixa. - Quando saiu esta manh, tive medo.
     - Medo! De qu?
     Desviou o olhar.
     - Pensei que estava arrependido pelo que aconteceu de noite - tomou flego,  - arrependido de ns ...
     - Cale-se. Cale-se. E agora, olhe para mim. No, no olhe para a janela que h atrs de mim. No olhe para as minhas orelhas! Assim, agora est melhor.
     Cedeu contra a sua vontade. No havia duvida nenhuma quanto  seriedade da sua expresso. Contudo, havia algo no fundo dos seus olhos, os traos de que estava 
se divertindo.
     Devon suspirou.
     - Est tentando me fazer rir?
     - No sei. - Respondeu ele. - Estou conseguindo?
     Devon no riu, mas sorriu pelo menos, j que no conseguiu remediar o gesto nos seus labios.
     Sebastian devolveu-lhe o sorriso, o dele como se flutuasse. Com a ponta do polegar acariciou-lhe a face.
     - No me arrependo, - disse ele - no me arrependo de absolutamente de nada.
     A ternura que lhe transmitiram os seus olhos quase a fez peder o flego.
     - A srio? -  Comeou a tocar com a mo a barba curta na face dele. Ele agarrou-a e beijou-a na palma, para depois enredar os dedos com os dela numa presso 
forte e apaixonada.
     O seu olhar paralizou-a.
     - Devon - disse em voz muito baixa, - o que aconteceu ontem  noite, foi muito importante para mim. E queria saborear. - Deteve-se, ela sentiu que ficara sem 
palavras. - Aceite que o que partilhamos foi algo muito raro. Algo nico. Voc sabe, porque  verdade.
     - Eu sei - suspirou.
     - No quero que nada o estrague. Estamos de acordo?
     Devon assentiu em silencio, incapaz de fazer outra coisa. Impressionada pela rede que aprisionava o seu olhar, naquele momento teria sido incapaz de lhe negar 
o que quer que fosse. A rouca declarao dele havia acalmado sua alma.
     Os dedos dele deslizaram pelo seu cabelo. Beijou-a com um beijo longo e profundo. Ela suspirou, como se lhe tivessem volteado a pele. Passou um tempo at que 
Sebastian levantou a cabea. Olharam-se um ao outro, cada um com um sorriso estpido nos lbios.
     - Bom -  murmurou Devon ao fim de uns minutos, - suponho que devo me levantar.
     - Fique onde est! - foi a sua ordem enrgica. - Eu  que vou voltar para a cama. Hoje me sinto estranhamente preguioso.
     - Preguioso! Voc? - No falava brincando. -  um homem muito ocupado. Tenho certeza que tem cartas para abrir, negcios para confirmar e essas coisas.
     - Tudo isso pode esperar. Mas voc no. E aviso. Poderamos muito bem passar toda a semana sem abandonar este quarto.
     - Uma semana! E o que aconteceria com o seu trabalho? Com as suas obrigaes?
     - Ao diabo com o futuro. Ao diabo com o dever. Te tenho para mim. Toda s para mim. E vou me aproveitar disso.
     Comeou a tirar o robe, mas ela deteve-o com um protesto.
     - No - disse, - deixe-me faz-lo.
     Os seus dedos introduziram-se por baixo das ombreiras do robe, percorrendo a robustez dos seus ombros, deslizando pela pele quente e morena.
     - Pretende me superar, minha boa mulher?
     Ele rira dela apenas h uns minutos, parecia justo devolver-lhe a brincadeira.
     -  verdade, meu bom senhor - respondeu.
     - Lembra-se de ontem  noite? - murmurou com satisfao. - Disse que se alegrava por no ser dia. Teve vergonha que eu a visse  luz do dia, creio.
     -  verdade. Mas acho que mudei de ideia. De fato, - garantiu - pergunto-me como sers  luz do dia. - deteve-se um pouco aturdida pelo seu atrevimento. - Nu. 
- Acrescentou
     Ele continuou o jogo.
     - Mas eu no estou. - disse ele. - Nu, quero dizer.
     - No, ainda no. Mas vai estar rapidamente. E ento, senhor, bem, poderei ser eu a com-lo com os olhos.
     Sebastian riu abertamente.
     - Creio que ouvi uma oferta de sensualidade em sua voz. 
     - Acho que tem razo. 
     Corajosamente, puxou os lenis para trs
     Os olhos dele escureceram.
     - Devon - sussurrou, -  to linda.
     - Voc tambm.
     - Eu no. Eu sou...
     -  - insistiu ela. E para o convencer, desatou convitamente o n da cintura das calas dele.
     - A seu lado, sinto-me grande e tosco.
     - Ah, - exclamou Devon, com os olhos brilhantes - mas eu gosto de voc assim. Gosto que seja to grande e to forte. Faz eu me sentir segura e abrigada. E, 
sobretudo, gosto disto. - Roou as pontas dos dedos no pelo escuro do peito e sorriu em direo ao prateado cinzento do seu olhos.
     Ele desejava-a, pensou, entusiasmada pela revelao, Sebastian desejava-a.
     - Esta manh, lembrei-me da promeira vez que o vi. Parecia to esticado e impecvel, a sua casaca estava to direitinha, sem uma ruga. Nunca pensei que o seu 
peito estivesse coberto por este maravilhoso pelo. Gostava quando tirava a casaca, quando enrolava a manga da camisa. Costumava olhar para os seus braos, para as 
suas mos. E imaginava como seria o resto do teu corpo.
     - Devon - disse ele quase sem respirar.
     Os lencois haviam descoberto o seu corpo h algum tempo. Inclinada sobre ele, pressionou os mamilos sobre o pelo escuro do peito dele. Moveu-se, montando a 
cavalo sobre o seu quadril com cuidado. Tocou com a sua boca a covinha no queixo, deixando que a sua lngua a percorresse.
     - Sabe - disse com um sorriso maroto, - que sempre quis fazer isto?
     - Por Deus, Devon. - As mos fortes agarraram possessivamente a pequena cintura. - Tem ideia do que est me fazendo?
     - O qu, meu bom senhor? O que estou te fazendo?
     - Olha para baixo, querida.
     Obedeceu sem pensar. Os seus olhos dilataram-se
     - Ah! No - gaguejou.
     - Ah! Sim - Sebastian deu um rugido. - Ah!, sim.
        

    Captulo 24
        

     As trs manhs seguintes decorreram da mesma maneira, numa preguiosa alegria em que passavam horas nos braos um do outro. Londres era um mundo distante. O 
resto do dia, no havia momento em que Devon no estivesse ao lado dele. Passeavam pelo jardim de mos dadas. Vagabundeavam pelas margens do rio e deitavam-se ao 
sol, s vezes num silencio amigvel, outras entre risos e brincadeiras.
     No era difcil de entender porque Sebastian amava Thurston Hall da maneira como o fazia. Naquele dia na galeria de quadros, ele deixara claro que Hall estava 
mais perto e era mais querido do seu corao do que nenhum outro lugar. A simplicidade da vida no campo, a paz que cobria tudo, a serenidade, era difcil de encontrar 
na histeria de Londres. Aqui, o resto do mundo era recusado. 
     Ele disse que o que partilhavam era algo raro. Algo unico. E tinha toda a razo! Ele tocava-a frequentemente: a cada minuto: o difano toque de um dedo pela 
linha do seu rosto, uma simples carcia nos seus dedos... era como se nunca se saciasse dela!
     Protegia-a. Protegia-a muito. Podia ver nos olhos dele, quando faziam amor, em cada olhar que dedicavam um ao outro, em cada beijo.
     Quando estava com ele, sentia que arderia por completo. Amava-o com todo o seu corao, com cada fibra do seu corpo. No conseguia imaginar um prazer maior 
do que estar com ele daquela maneira. Queria que durasse para sempre, que no acabasse nunca. Porque quando estava com ele, no existia o amanh. S o agora. S 
a necessidade de pertencer a ele, de estar com ele.
     E saber que Sebastian sentia o mesmo que ela era a felicidade total.
     Uma semana depois da sua chegada, retiraram-se para a biblioteca depois do jantar, onde passaram a hora seguinte. Ao terminar a partida de xadrez, Devon levantou-se 
e ficou de p na porta do terrao. Esteve ali um momento, com as mos nas costas e olhando para o quarto crescente que iluminava o cu. Voltado-se para Sebastian, 
viu que perambulava pela sala.
     - Tenho a sensao que te aborreo, Devon. No posso consentir, concorda? - a sua sobrancelha arqueou-se maliciosamente. - Temos jogado cartas, apreciado uma 
partida de xadrez. Por favor, diga-me - arrastou as palavras, - h algum tipo de diverso que possa te interessar?
     -  possvel - respondeu atrevida, ao mesmo tempo que corava. - talvez tenha alguma sugesto.
     Os olhos dele nublaram-se.
     - Tenho vrias, na realidade. Vem aqui, e verei se posso te tentar.
     O puldo de Devon acelerou-se. Os seus passos levara-na para junto dele de uma maneira inconsciente. No momento em que se aproximou o suficiente, ele atraiu-a 
entre os braos.
     Sebastian colocou as mos na curva da cintura. Os seus lbios cobriram os dela, to perto, que o ar que respiraram foi o mesmo.
     - Posso surpreender-te - avisou-a.
     Um tremor atravessou-lhe as costas.
     - Surpreenda-me - convidou-o brincalhona.
     Devon pde ver o brilho nos olhos dele, ferozes e liquefeitos, mesmo antes da sua boca descer para capturar a dela. com uma mo segurava as costas pequenas, 
apertou-se contra ela, fazendo-a sentir o rgido tremor de desejo que corria dentro dele. Devon tremeu, rendida diante do esplendor do seu beijo.
     Nenhum dos dois percebeu que a porta da biblioteca abriu e fechou.
     Justin deu um olhar ao par e praguejou, uma praga desvastadora.
     Devon viu-o primeiro, com as mos agarradas ao casaco de Sebastian.
     -  o Justin. - Gaguejou.
     Sebastian no lhe deu ateno. Agarrou-se com mais fora  sua cintura. Beijou-a apaixonadamente.
     - Sai daqui, Justin - disse sem olhar para o irmo, nem sequer levantou a cabea.
     - Sebastian, tenha ao menos a delicadeza de olhar para mim quando fala comigo!
     Por fim, Sebastian levantou a cabea. Apertou o seu abrao, protetor. Olhou para Justin por cima da cabea de Devon.
     - O que quer? - Perguntou, glido.
     O pasmo inicial de Devon pela presena de Justin foi substitudo pela vergonha. Queria enterrar a cabea no peito de Sebastian e desaparecer dentro do seu casaco, 
mas obviamente no havia forma de se esconder. Alguma vez teria que enfrentar Justin, sendo assim porque no faz-lo de uma vez? Suspirando profundamente, virou-se 
e ps-se ao lado de Sebastian. O marqus deixou que o fizesse, mas mantendo possessivamente uma mo na sua cintura, o mais prximo possvel dela.
     Justin, como Devon observou, havia tomado posio junto  mesa de cartas. A sua expresso era um refexo ptreo da sua voz.
     - Creio que seria melhor se a deixasses ir.
     Sebastian ficou tenso. Dirigiu ao irmo um olhar glido.
     - No acho. E da prxima vez, por favor, tenha a cortesia de bater  porta antes de entrar. 
     Os olhos de Justin contraram-se.
     - Acha que no vejo o que est acontecendo aqui? No tem o direito de toc-la, Sebastian, e voc sabe. No tem direito nenhum de beij-la. Sendo assim, sugiro 
que a deixes em paz, - disse em tom duro - antes que arrune...
     De repente, deteve-se. Olhou primeiro para Sebastian e depois para Devon.
- Pelo amor de Deus,  tarde demais, no ?
     O rosto de Devon ficou vermelho escalte. Uma onda de calor subiu-lhe pelo corpo desde a ponta dos ps
     - Justin - disse segura - est correto.
     - No, Devon, no est correto.
     Os dedos de Devon brincaram nervosamente com o tecido da sua saia. Ao seus lbios abriram-se, mas no saiu nenhum som deles. Justin estava aborrecido com Sebastian, 
no com ela. Havia algo nos olhos dele, algo que no conseguia decifrar. Pena, talvez?
     Ele olhou para ela fixamente.
     - Isso no pode acontecer, Devon.  impossvel.
     Sentiu um dor terrvel na garganta. Queria tapar os ouvidos com as mos para no ouvi-lo. Sacudiu a cabea.
     - Justin...
     - No  minha inteno te magoar. Estou apenas tentando avisar! Diabo, ser que vai me fazer diz-lo! Ele no casar com voc.
     As palavras queimaram-lhe o corao, perfuraram-na por dentro.
     - No casar com voc - repetiu Justin, como se uma vez no tivesse sido suficiente. - Nunca vai se expor ao escndalo. Casar com algum como Penelope Harding.
     A sua respirao acelerou-se. Sebastian retirou o brao. Ficou ali, colada ao cho. Sozinha como nunca esteve antes. Levou a mo  boca, ainda mida dos seus 
beijos.
     - Devon - suplicou Justin com ternura. - Ouviu-me? Ele partir o teu corao.
     Nenhum poder sobre humano poderia par-la ento. Tremendo tanto por dentro quanto por fora, olhou para Sebastian, a sua expresso gelada, a linha tensa que 
perfilava a sua boca e os olhos. Junto dela, o seu corpo ficara tenso e rgido.
     Ele afastou o olhar.
     E Devon soube. Soube.
     Algo dentro dela se desvaneceu e morreu. No era que no pudesse. No o faria. Algo bastante diferente.
     O que a feriu no foi a franqueza de Justin. Isso conseguia aceitar. Mas Justin estava enganado, pensou friamente. Sebastian no partiria o seu corao. J 
estava partido. Pde sentir os milhes de pedacinhos dentro de si. Se o tivesse arrancado do peito, a dor no teria sido mais intensa.
     Chorando, cambaleou para as escadas.
     Sebastian agarrou-a por uma mo.
     - Devon!
     Teria ido atrs dela, se Justin no o tivesse impedido.
     Puxou-o pelo ombro.
     - Deixe-a sozinha.
     Sebastian virou-se.
     - Tira as mos de cima de mim! - sibilou. - J no fez o suficiente?
     Justin libertou-o, mas no retrocedeu. Encontraram-se cara a cara.
     - Eu fui honesto, Sebastian.  mais do que voc pode dizer.
     - Mantena-se longe! - Sebastian ameaou-o. - No  da sua conta.
     - Estou fazendo com que seja da minha conta! Por Deus, no percebe o que fez? Voc? Sempre to correto. O meu santo irmo...
     - Nunca pretendi ser um santo, Justin! Voc sabe!
     - Ah, agora d desculpas. - o tom de Justin foi mordaz. - Deus meu, e me chamam de canalha!
     Os olhos de Sebastian faiscavam.
     - Quem diabo pensa que  para me dar lies?
     - Exato. Exato. Senhor, convenceu-me de que estava enganado sobre vocs. Disse-me que estava! Pensei que poderia confiar em voc. Pensei que seria suficientemente 
nobre para no fazer nada desprezvel. Pensei que, sendo diferente de outros, faria o correcto e a deixaria em paz.
     - Cale-se. - Rugiu Sebastian.
     - No! Acha que no vi as estrelas nos olhos dela? Ela era virgem, no era?
     - No tem nada a ver com isso.
     Justin fez uma careta de desgosto.
     - Vim aqui com uma lista de candidatos para ela e, o que  que encontro? A nica coisa que ns queramos evitar: a Devon nas mos do dono da casa. Ah, mas agora 
pergunto - e a sua voz foi cortante, - que homem vai querer os seus restos? Ela merece algum que a ame, Sebastian. Algum que cuide dela, que lhe d tudo o que 
nunca teve. Ou pensa em mant-la aqui para tua convenincia e transform-la em tua meretriz?
     As mos de Sebastian fecharam-se dispostas a bater.
     - Ela no  nenhuma meretriz!
     - Ah, me perdoe. Sua amante, ento. A sua esposa, se decidir escolher uma, ficar encantada. - Justin emitiu uma sonora gargalhada. - Mas tenho a certeza de 
que vai pensar em algo. O planejamento sempre foi o teu ponto forte, no?
     A respirao de Sebastian tornou-se ofegante. As suas grandes mos puseram-se em guarda. Queria partir o bonito rosto do irmo.
     - Deus - apertou os dentes, - se no fosse meu irmo, eu... - Deu um passo para trs s para se controlar.
     Os olhos de Justin brilhavam.
     - Vai em frente. - disse ele. - Creio que os dois estamos precisando de uma luta corpo a corpo.
     A tenso entre os dois flutuava no ar. Os olhos deles encontraram-se. Mediram-se um ao outro, olhar com olhar, num momento de pura tenso.
     Era o mais prximo que ficaram desde crianas, e eles sabiam.
     Foi Sebastian que ps fim  situao.
     Com os lbios incrivelmente finos, caminhou pesadamente at  porta.
     - Sai daqui, Justin. - A sua expresso era fria, o tom de voz glacial. - Sai daqui antes que te expulse a pontaps.
             
     Devon estava estendida na cama feita um ovo. No conseguia chorar. Em toda a sua vida, nunca sentiu um desespero to profundo. Quando a me morreu, sentiu como 
uma parte do seu corao tivesse se feito em tirinhas. At agora, a dor no diminuira.
     Mas esta ferida superava 
     Esta superava em muito as lgrimas, uma dor que levaria dentro de si para o resto da sua vida.
     Esta ultima semana com Sebastian... quisera acreditar que duraria para sempre. Que o que partilhavam era mais do que momentos de xtase, de agitao, uma revoluo 
de membros e beijos. Acreditara que os seus coraes estavam to unidos como os seus corpos.
     Mas no poderiam prescindir do mundo que os rodeava para sempre.
     No poderia renunciar a verdade.
     No conseguia zangar-se com Sebastian, simplesmente, no conseguia.
     Estava zangada demais consigo prpria. No fundo da sua alma, sempre soubera que Sebastian nunca se casaria com ela. Amargamente, recordou o que ele lhe disse 
na noite em que descobriu que queria cas-la com outro. Quais foram as palavras?
     "Se as coisas fossem diferentes, se eu fosse diferente."
     No, ela no podia mudar quem era. No podia mudar o que era.
     Assim como no podia mud-lo.
     E, pensou, era era melhor saber a verdade agora do que viver num sonho estupido.
     Na mais profundo desolao, apoiou a face sobre a mo. Foi ento que ouviu o click da porta. Afastando o cabelo do rosto, viu uma silhueta alta e forte na porta. 
Lentamente, fez um esforo para se levantar. Nesse instante, o seu corao havia, seguramente, deixado de bater. Limitava-se a dar pesados e densos saltos. A cabea 
rodava. O tempo havia parado.
     Sebastian sentou-se na cama junto a ela e tocou-lhe com as mos. Sentiu como era rodeada por uns braos fortes, que a elevavam no ar.
     Desolada, observou o perfil dele, desenhado  luz da lua. A expresso dele era tensa e abatida. Sentiu nele uma determinao parecida com a raiva.
     Do fundo da garganta dele, saiu um som baixo e gutural.
     Abraou-a ainda com mais fora e, sem uma palavra, sem um som, levou-a at ao seu quarto. Depositou-a na cama desfeita. Antes que ela pudesse recobrar o flego, 
sentiu-se aprisionada novamente nas garras dos braos dele.
     O abrao parecia que a ia parti-la em dois, to forte que Devon conseguia sentir o bater do corao dele na palma da mo que cobria o peito. No era mais do 
que o eco do seu, forte e rpido.
     A dor paralizava-a. Estava ali, deitada na cama dele, pensou, na cama onde ele dormiria com a sua esposa. Na casa onde nasceriam os seus filhos, na mesma cama 
onde os seus filhos seriam concebidos... e tudo, dito pelos prprios lbios dele!
     No conseguia suportar. No conseguia.
      -Porque est fazendo isto? - gritou, sem se preocupar que a voz se enchesse de soluos.
     Com uma clareza espantosa, recordou a noite em que Sebastian deu a festa. Justin havia predito naquela mesma noite que o seu irmo se casaria apenas com uma 
mulher de boa origem e de linhagem. 
     Com algum de sangue azul.
     Devon sabia que seria assim, pelo escndalo que a me dele havia desencadeado. Ele no escolheria algum que pudesse provocar um escndalo parecido, pensou 
Devon amargamente. Nunca se casaria com ela, uma mulher de origem duvidosa.
     Apesar de tudo, fora muito burra ao esperar que ele lhe dissesse que a amava tanto quanto ela amava a ele. Morria por ouvi-lo prometer que a faria sua esposa, 
que as origens em Saint Gilles no importavam, nem o sentido do dever ou da responsabilidade.
     Mas essa era uma esperana etrea e impossvel. Sebastian sacudiu a cabea, com uma expresso to selvagem que quase a fez gritar. Os olhos dele viram o sofrimento 
e a debilidade da mulher que tinha diante dele.
     Um lamento terrvel saiu da garganta dela.
     - Deixe-me ir embora! - pediu-lhe entre soluos.
     - No posso! No v? No consigo! No consigo deix-la ir embora!
     Leventou-lhe o rosto com os dedos. Sussurrou o nome dela, um som aflito, e a boca dele desceu sobre a dela, provou nos lbios dela um desespero que nascia da 
dor, da paixo, misturada com uma necessidade quente e selvagem. Ela entregou os lbios com um baixo e desesperado lamento. No conseguia negar nada quele homem. 
Quando a fez elevar o rosto, Devon ofegava.
     Tirou-lhe a roupa com impacincia, e a seguir tirou a dele. Nu, deitou-se ao lado dela, com os lbios, as mos e a lngua, acariciou-lhe avidamente a pele aveludada. 
Com uma avidez semelhante  de Devon.
     Os dedos dela roaram a mata de pelo do seu ventre. Introduziram-se no centro dos seus genitais e fecharam-se ao redor do seu membro, tenso e rgido ele estava 
excitado, muito excitado. Percebeu pela maneira como engolia a saliva e se levantava, pela maneira em que lhe agarrava a mo e a punha sobre o membro.
     O quadril dele arqueram-se junto ao dela.
        - Sim - disse ofegante. -  assim mesmo. Oh, Deus, Devon...
     Ela no o soltou. Explorou-o atrevidamente, deixando que os seus dedos percorressem o comprimento do pnis, friccionando depois para cima e para baixo, a um 
ritmo compassado que o fez ofegar ainda mais.
     - J  suficiente! No consigo aguentar mais! - a respirao dele era ofegante e forte, a mo de Devon enrolou-se  dele, e ele virou-a de costas.
     Uma investida furiosa transpassou-a at o interior. A vagina encheu-se dele, quente, forte e poderoso. Gemeu em voz alta.
     Ele retirou-se, deixando apenas a cabea do pnis no interior. No era o suficiente, nem pouco mais ou menos. 
     Sentindo-se vazia e desolada, ela agarrou-lhe o quadril, tentando que voltasse a meter-se dentro dela.
Os olhos dele refletiram-se nos dela com um fogo devorador.
     - Voc  minha - disse ele. - Minha.
     Afundou uma vez mais. Os impulsos tornaram-se cada vez mais rpidos at ficarem to selvagens e profundos que acreditou tocar a sua prpria alma. Deparou-se 
com uma escura angustia, as mos de Devon coladas nas suas ancas com frenesi. Cravou os dedos nas ndegas dela, sentindo cada fibra do corpo. Cada investida aproximava-a 
mais dele. Ela rodeou-o fortemente com as pernas, como se o quisesse prender ali para sempre. Tentou atrasar o clmax, mas era intenso demais. Os seus msculos internos 
contraram-se ao redor do pnis. Ouviu o som de um gemido, o dele, e depois no houve mais conscincia de nada. Sebastian derramou-se dentro dela e o mundo explodiu, 
a libertao dela to violenta e devoradora como a dele.
     Depois daquilo, Sebastian deitou-se com um brao tapando os olhos. Tremendo, Devon virou o rosto contra a almofada.
     Uma nica lgrima rolou pelas sua face. Perguntara-se o que aconteceria depois e, ento percebeu.
     "No consigo deix-la ir embora."
     Aquele sussurro cruel repetia-se na sua cabea de tal forma que tinha vontade de gritar de dor.
     Justin tinha razo. Sebastian nunca casaria com ela. Ia convert-la em sua amante.
     Mas Devon no seria amante de homem nenhum.
     Se ficasse com ele, seria uma rameira, a nica coisa que prometera a si mesma que jamais seria. Nunca trairia a sua me daquela forma. Nunca se trairia tambm.
     Ento entendeu. Desde que soubera que era ilegtima, Devon odiara o homem que fora o seu pai. Nunca chegara a entender a sua me: recusada pelo homem que sempre 
amou, sem importar o mal que lhe fizera. Nunca entendera a tristeza profunda nos olhos da sua me.
     Mas agora entendia.
     De alguma maneira, admitiu com mgoa, seguira o mesmo caminho da me. E esta era uma infeliz realidade que deveria enfrentar.
     Amava Sebastian, sempre o amaria. Mas Sebastian pertencia a um mundo distante e diferente do seu.
     Opostamente  sua me, no se entregaria ao desespero nem viveria a vida se lamentando, desejando algo que nunca poderia ter.
     Ela era mais forte do que isso.
     Embora a deciso fosse difcil, sabia exatamente o que tinha de fazer.
     Quando voltassem para Londres, os dois teriam que se separar.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
    Captulo 25
     
     
     Quando Devon adormeceu, Sebastian levantou-se e vestiu-se. Levantando-a cuidadosamente nos braos, levou-a para o quarto dela. precisava pensar, e no conseguia 
r com ela ao lado.
     Ela espreguiou-se que ele lhe ps um cobertor por cima. Retendo a respirao, olhou para ela e esperou que ela acalmasse. Inclinou-se e beijou-a ternamente 
nos lbios, percorrendo a frgil linha do rosto com um dedo.
     Um pequeno gemido saiu dos seus lbios.
     A tenso oprimia-lhe o peito, impedindo-o de respirar. Foi ele quem fizera isto. S ele era responsvel pelas sombras nos olhos dela, da angustia na sua alma.
     Deus, queria bater com a mo contra a parede. Em vez disso, suspirou profundamente e esticou-se. Afastar-se dela era a coisa mais difcil que alguma vez fizera.
     Antes de perceber, encontrou-se junto da rvore na qual vira sua me pela ultima vez.
     Estranhamente, no foi a imagem da me que lhe veio  mente. Os seus olhos fecharam-se em concentrao, mas tudo o que conseguia ver era Devon: o cabelo como 
uma aurola sedosa caindo pelas costas; Devon, pequena e delicada, sorrindo inocentemente, com os olhos brilhantes como o ouro.
     Abriu os olhos. De repente foi como se uma corrente de ar o tivesse arrastado pela terra para o devolver depois ao mesmo lugar.
     Nada poderia fazer desaparecer as suas memrias. O tempo nunca poderia apagar a necessidade que tinha dela.
     Ela era inesquecvel.
     E o que lhe fez, imperdovel.
     Cravou um punhal em suas prprias costas.
     O que era pior, cravou um punhal nas costas dela.
     Condenava-se profundamente. Recordara-se vezes sem conta que no podia ser dele. Nunca deveria t-la tocado, mas fizera-o, e agora os dois pagariam o preo.
     Durante todo aquele tempo, convencera-se que tinha um compromisso com o futuro. Mas no o podia partilhar.
     A situao era impossvel.
     Tudo tinha a ver com a responsabilidade. Era uma questo de compromisso. De dever.
     A palavra deixou-lhe um sabor amargo na boca, que o abafava e no o deixava respirar
     Toda a sua vida fizera o que se esperava de um homem da sua posio. Esperava que casasse com uma mulher do seu status, uma mulher culta e sofisticada. Torceu 
a boca de dor. Ah, como pudera ser to presunoso! Acreditara que tudo aconteceria segundo os seus planos. Teria descendncia, preservaria o nome da familia e a 
herana. Dissera a si prprio que a vida seria completa, que seria feliz.
     Na realidade, o dever assim o obrigava.
     Mas agora, todos aqueles planos se voltavam contra aquilo que desejava, ou dizia que queria. Sentia-se dividido entre o que estava certo e o que era correto. 
Entre o que queria fazer e o que devia fazer.
     Nada acontecera segundo os seus planos. Levou a mo ao peito, como se fosse possvel dominar o corao.
     Se dependesse dele, casaria com Devon sem pestanejar. No lhe importava que fosse pobre. Se lhe tirassem a sua fortuna, o seu poder e o seu titulo, o que seria 
ele? Apenas um homem como os outros. No muito melhor do que os outros.
     Mas Devon era uma mulher como nenhuma outra.
     As palavras de Justin golpeavam-no no crebro. "merece algum que a ame. Algum que cuide dela. Algum que lhe d tudo o que nunca teve."
     Ele estivera cuidando dela. Ele dava-lhe tudo o que ela nunca teve.
     E ele amava-a. Que deus o ajudasse, amava-a.
     Mas no era assim to simples; ou era? Poderia a sociedade aceit-la como sua esposa? Fez uma lista com os nomes que receberia. Sem duvida nenhuma, Justin no 
se incomodaria que os convidasse. Cnico como era, adoraria ver como o irmo se rebelava contra a sociedade.
     Quando a me os deixou, Sebastian jurou que no haveriam mais escndalos na sua vida, mais nenhuma outra mancha no seu nome. Mas de repente, no parecia importar. 
Tanto ele quanto Justin poderiam superar outra desgraa.
     Mas o que aconteceria com  a Julianna?
     A doce Julianna. Poderia aguentar outro escndalo? Pensou no horrvel incidente que a havia obrigado a esconder-se durante meses. Odiava a ideia de que pudesse 
sofrer ainda mais desgraas, porque a sua encantadora irm na merecia o destino que a providencia lhe reservara.
     Devon tambm no merecia.
     De repente, recordou a maneira em que desceu pelas escadas naquela noite, to cheia de esperana, juventude e entusiasmo. Havia depositado tanta confiana nele. 
Tanta f.
     E ele trara-a.
     Ento, soube. No voltaria a tra-la. No o faria.
     A convico fez explodir o seu corao, fez-lhe ferver o sangue.
     O dever, pensou de novo. Ao diabo com o dever! Deus. Que importava o dever? Deixaria tudo - a fortuna, a casa, - se com isso Devon fosse sua esposa.
     Queria-a. Queria-a a seu lado. Amanh. Sempre. E no se importava com o que o mundo dissesse. Prometera a Devon fazer o correto.
     E prometera a si prprio ser feliz.
     Estava quase amanhecendo quando finalmente se deitou na cama. O peso que o atormentava antes de sair desaparecera. De manh, decidiu fechando os olhos. De manh 
tudo seria diferente.
     
     Na manh seguinte, Sebastian levantou-se mais tarde do que o habitual. Tomou banho e vestiu-se rapidamente com a ajuda do mordomo, ansioso para ver Devon. Depois 
de atravessar o corredor, confirmou apenas com um olhar que o quarto estava vazio e que a cama j estava feita. No fundo das escadas, viu uma das criadas.
     - Alice, sabe onde posso encontrar a menina Devon?
     Os olhos da moa abriram-se.
     - Creio que est l fora, dando um passeio. - Assinalou na direo das duas portas da entrada.
     Sebastian assentiu e encaminhou-se para l. A julgar pela reao da criada, calculou que os empregados estiveram cochichando durante essa manh. Era inevitvel.
     Os taces das suas botas ressoram no soalho da entrada. Um criado abriu a porta rapidamente e ele saiu. Um palavro escapou-lhe dos lbios ao ver que uma carruagem 
se aproximava da casa. Por todos os diabos, era Justin novamente.
       Mas no era Justin.
     O imponente veiculo pintado de preto, com traos dourados, pertencia  duquesa viva de Carrington. Tinha uma propriedade prxima e passava algumas vezes por 
ali, quando estava no campo.
     Sebastian no estava particularmente satisfeito. Senhor, no poderiam deix-lo sozinho?
     Um dos criados da duquesa desceu. Ficou em p, preparado para quando a porta se abrisse. A duquesa desceu da carruagem. Reprimindo a sua insatisfao, Sebastian 
decidiu dar-lhe as boas vindas.
     Foi ento quando descobriu Devon, no fundo das escadas. Estava glida, refletindo na sua pose a incerteza.
     A duquesa viu ela, e fez-lhe um gesto com a bengala para que se aproximasse.
     Sebastian conteve o flego. A pequene figura vestida de branco falava para ele, mas no conseguia ouvir o que ela dizia. E olhava para Devon de cima para baixo, 
e oferecia-lhe o brao para que ela a conduzisse para dentro!
     Sebastian permaneceu onde estava. Um pouco depois, a duquesa entrou, ele fechou a porta e ofereceu a sua mo com uma reverencia.
     - Duquesa - murmurou, -  to agradvel poder v-la aqui novamente.
     - Vou regressar a Londres - anunciou ela. - disseram-me que estava em Thurston Hall, e como h muito tempo no nos vamos... - olhou para Devon com naturalidade. 
- Quem  esta bela criatura?
     Sebastian inclinou a cabea.
     - Duquesa,  um prazer para mim, apresentar-lhe a menina Devon Saint James. Devon, a viva duquesa de Carrington.
     Devon inclinou-se numa saudao.
     - Duquesa,  um prazer conhec-la.
     Sebastian no podia estar mais vaidoso. Mas a duquesa continuou a examinando Devon.
     - Saint James. - Repetiu. - Conheo esse nome. - Procurou nos olhos dela. - Devo dizer que os seus olhos so excepcionais. So espantosos, so idnticos aos... 
- de repente calou-se. Levantou os olhar e olhou diretamente para Devon, que se sentiu claramente envergonhada. - Vire-se para este lado, pequena, - ordenou ela. 
- Sim,  verdade. Agora, outra coisa.
     O olhar da duquesa deteve-se na garganta de Devon.
     - Esse colar - disse com a voz estranha. - Como  que o conseguiu?
     O pulso de Devon acelerou-se de repente. Os olhos da duquesa eram to estranhos. Tocou a cruz com a ponta dos dedos e elevou o rosto.
     - Este colar, - disse com dignidade - era da minha me. Ela usava-o constantemente. O meu pai deu-lhe antes de eu nascer. - Olhou para Sebastian. Por acaso 
pensava que ia mudar a sua histria? No podia alterar a verdade!
     Mas ele limitou-se a olhar para ela em silncio. Foi a duquesa quem disse a primeira palavra.
     Uns dedos decrpitos agarraram-se  manga de Devon.
     - Quem  a sua me, criatura? Quem ?
     Devon respirou fundo.
     - Morreu. Mas o seu nome era Ame...
     O nome foi dito em unssono pela duquesa.
     - Amlia - concluiu a anci. - Amelia Saint James.
     Devon ficou muda. Como  que ela conhecia a...
     A duquesa cambaleou. O seu rosto ficou branco. Alarmada, Devon segurou-a pelo cotovelo. Sebastian agrrarrou-a no outro brao. Juntos, conduziram-na  cadeira 
mais prxima no salo.
     - Duquesa! - Disse Sebastian. - est se sentindo mal?
     A duquesa negou com a cabea. 
     - Estou bem. A srio, me d s um minuto para recuperar o flego - deteve-se e depois dirigiu-se a Devon.
     - Venha c, pequena. Venha c e deixe-me olhar para voc.
     Devon ajoelhou-se junto dela,. a duquesa apertou-lhe a mo. Devon apertou-a instintivamente, tentando espalhar algum calor ao dedos gelados da velha senhora. 
No pronunciaram um rudo, mas os olhos da duquesa esquadrinharam as feies de Devon. Sentiu-se mais aliviada ao ver que a cor voltava s faces da mulher idosa.
     Devon respirou profundamente, para se recompor. A sua mente pensava apressadamente.
     Sem duvida nenhuma, perderia a razo com o que ia dizer, mas no se importou.
     - Duquesa. - Comeou. - No percebo. Sabe o nome da minha me. Como  que  possvel? Como?
     No rosto da anci desenhou-se um leve sorriso.
     - Porque o colar que usas - os dedos dela roaram a fina corrente de prata, - foi meu um dia.
     Atrs de Devon Sebastian inspirou fundo.
     Nenhuma das duas percebeu.
     - No. - Disse Devon debilmente. - No  possvel...
     -  verdade, pequena. - Os olhos da idosa senhora encheram-se de lgrimas. - Eu o dei ao meu filho, Marcus. Ele morreu h muitos anos.
     Marcus. O filho da duquesa. O patife do qual Justin lhe falou no dia da festa de Sebastian.
     - Pouco tempo antes de morrer - continuou a duquesa, - disse-me que o deu  mulher com quem teve uma relao. Oh, Deus, zanguei-me tanto! Mas agora sei: essa 
mulher era Amelia - calou-se um momento - a sua me.
Uma pequena suspeita comeou a formar-se na cabea de Devon. Ficava cada vez maior, apesar de ser difcil de acreditar.
     - Voc conheceu a minha me - disse ela insegura.
     -  verdade, garota. Ela cuidou das minhas sobrinhas durante as ferias de um vero. Ah, foi h tanto tempo! Eu adorava a Amelia, sabe? E o Marcus, bom... ele 
era adorvel, de um temperamento que cativava as mulheres. No entanto, no acredito que h outra forma de te dizer isto, mas era um desavergonhado. Um mulherengo. 
Suspeito que Amelia deve ter sentido uma certa admirao por Marcus. Mas no soube a verdade at agora. Amelia foi embora de um dia para o outro, percebe? Uma manh, 
simplesmente, saiu das nossas vidas. Deixou apenas uma nota dizendo que precisava ir embora. Lembro-me que fiquei impressionadssima! Nunca mais voltmos a saber 
nada dela. nunca cheguei a perceber a razo daquela partida repentina, at agora.
     A duquesa tirou as luvas. Os dedos velhos acariciaram o cabelo de Devon, traaram o arco de uma sobrancelha, com um gesto incontrolvel. Colocou depois os dedos 
por baixo do queixo dela e elevou o rosto de Devon para os seus olhos.
     -  muito parecida com a sua me, pequena. Mas os olhos, ah, esses lindos olhos dourados... - a voz da duquesa comeou a tremer tanto como a sua mo - so sem 
duvida nenhuma iguais ao do meu filho.
     Devon achou que o seu corpo ficava dormente, que estava ficando enjoada. A emoo impedia-a de falar.
     - Duquesa, - disse sobrepondo-se ao n da garganta - no est querendo  dizer que...
     -  verdade. Voc  filha da Amelia e do meu filho. A filha do meu Marcus. - a duquesa aproximou-se de Devon e agarrou-lhe as duas mos. - Voc  minha neta 
- sussurou. - Meu Deus, eu sou a sua av!
     A duquesa desatou a chorar.
      Devon tambm. Com um soluo abraou-se  velha mulher e apertou-a entre os seus braos. Assim abraadas, abandonaram-se ao pranto.
     
     
     
    Captulo 26
     
     
     
     Vendo as duas mulheres chorando, descontroladamente, ainda por cima, Sebastian sentiu-se como uma mosca ignorada entre as paredes daquela sala. Os soluos eram 
de emoo e de felicidade. Para um homem que odiava as lgrimas, era difcil de tolerar. Portanto, vendo as duas assim, no conseguiu deixar de se sentir comovido. 
Foi impossvel manter-se afastado.
     Era verdadeiramente incrvel. Recordou aquele dia em Londres, quando Devon dissera que o pai provinha de uma familia melhor do que a dele. Pelo amor de Deus, 
era verdade! Devon era familia da duquesa!
     Sentido-se definitavamente posto de lado, ficou sem saber o que fazer durante um momento. E no final, desculpou-se - sem que nenhuma das duas percebesse - e 
foi procurar um criado para  pedir que servisse o ch no salo.
     Esperou at que a bandeja estivesse pronta para entrar novamente. Felizmente, os soluos haviam terminado. A duquesa permanecia sentada com a mo de Devon apertada 
entre as dela. Quando Sebastian entrou, as duas olharam para ele fixamente. Ele sorriu levemente.
     - Tomei a liberdade de pedir o ch. - Fez um sinal ao criado para que depositasse o servio de prata na pequena mesa de pau-rosa.
       - Devon - disse suavemente --nos d a honra?
     Ele aceitou servi-los. Os dedos dos dois tocaram-se ao passar-lhe a fina porcelana da china de Wedgwood. Retrocedeu como se queimasse e, depois, rapidamente, 
virou a cabea para o lado. Diabo, porque no olhava para ele?
     - A minha neta acabou de me dizer que passou a maior parte da sua vida em Saint Gilles - comeou a duquesa, com a franqueza que a caracterizva. - Como pode 
imaginar, este dia est cheio de revelaes. Mas devo confessar: estou confusa por encontr-la aqui, em sua casa. 
     Olhou para os dois. Devon fez um movimento nervoso. Abriu a boca mas, antes de poder dizer alguma coisa, Sebastian levantou uma mo para cortar qualquer resposta 
que ela pudesse dar.
     - Encontrei-a ferida em Saint Gilles. Levei-a para a minha casa de Londres... - Pouco a pouco, foi relatando o sucedido.
     Quando terminou, a duquesa ficou muito calada.
     - Sendo assim, resgatou a minha neta dos bandidos - disse ela por fim, - e esteve cuidando dela durante todo este tempo.
     Na frase, camuflava-se perturbador. Sabastian no fugiu ao escrutnio da mulher, mas enfrentou-o de igual para igual.
     - Ningum sabe que ela est em minha casa, duquesa.
     - Espero que continue assim, no  verdade?
     Sebastian inclinou a cabea.
     - Tem a minha palavra.
     - Excelente. - Terminou e levantou-se. - Devon, por favor, a minha bengala.
     Devon passou-a para a mo. A duquesa no demorou em aban-la para Alice, que acabava de entrar para recolher a bandeja do ch. 
     - Voc,  minha jovem! Por favor, assegure-te para que as coisas da menina Saint James sejam arrumadas e levadas para a minha carruagem.
     Os lbios de Devon abriram-se.
     - Duquesa? - murmurou confusa.
     A duquesa percebeu a sua dvida.
     - Sim, querida. Voc vem comigo. - Sorriu ao ver a expresso atnita de Devon. - O que foi? Achasque depois de saber da sua existncia vou desaparecer como 
se nada tivesse acontecido?
     - Com toda a honestidade, no sei o que pensar - admitiu. - Ainda no sei. No quero pr em duvida o seu critrio, duquesa.
     - Av - corrigiu carinhosamente.
     - Av - concedeu Devon com voz rouca. Mordeu o lbio, e de repente, explodiu. - Posso ser franca?
     Os olhos da duquesa brilharam.
     - Querida, descobrir depressa que no h outra opo.
     - No importa quem foi o meu pai, o fato  que eu sou, e sempre serei ilegtima. E considerando a sua posio na sociedade...
     A duquesa abanou a cabea.
     - No diga mais nada, querida, no diga mais nada. Agora  a minha vez de ser franca.  logico que se ouviro rumores, mas quem se importa? No, no tenho inteno 
de esconder o que s. Tenciono acolher-te como minha neta, e se a sociedade me viar as costas, quem perde  ela. Sou velha demais para me preocupar com essas coisas!
     Devon mordeu o lbio.
     - H outra coisa que deve saber.
     - Diga.
     Devon engoliu em seco.
     - A minha me amou o seu filho at morrer. - confessou. Toda a angustia do seu corao se refletiu na voz dela. - Mas eu... eu sempre o odiei por fazer com 
que ela o amasse, e por no ter cuidado dela. S pensei que o deveria saber.
     Para sua surpresa, a expresso da duquesa foi de grande sofrimento.
     - Posso aceitar, pequena, porque ningum sabe melhor do que eu o quanto Marcus era cruel. Na verdade, sinto muito o que aconteceu com a sua me porque eu gostava 
muito dela. H muito da sua compaixo em ti, creio. E tambem h algo que deve saber. Apesar de todos os seus defeitos, eu amava Marcus, amava-o como s uma me pode 
amar. Ele foi o meu nico filho e... - a sua voz ficou emocionada - voc  parte dele... Voc. A minha neta. Minha queria, s uma bno! No tenho mais nada a dizer, 
exceto que gostaria muito que pudssemos nos conhecer melhor. - havia lgrimas nos olhos da duquesa quando estendeu uma mo suplicante para Devon.
     Devon sentia a garganta apertada. Agarrou-lhe a mo com fora, profundamente comovida.
     - Eu tambm gostaria - murmurou.
     - Ento, vamos - recobrando a sua vitalidade, a duquesa comeou a caminhar. Olhou para Sebastian.
     - Sebastian, acompanha-nos  porta?
     Sebastian levantou-se corajosamente. Mais do que nunca, sentia-se ignorado.
     - Duquesa...- comeou.
     A voz da duquesa impediu-o de continuar.
     - Estou em grande dvida com voc, Sebastian. Mas agora que sei da existncia da minha neta, considero-me responsvel por ela. Pode ficar tranquilo, sou perfeitamente 
capaz de cuidar dela e de proteg-la.
     - Ah, no duvido, duquesa. - A sua voz demonstrava gratido, mas os olhos pareciam querer morder algum. - No entanto, se voc...
     -  uma longa viagem at Londres para uma mulher to velha como eu. Deveria chegar em casa antes da meia noite. - A duquesa despediu-se. - Adeus Sebastian. 
- Mais dominante do que nunca, a senhora encaminhou-se para a entrada principal.
     O criado j se encontrava no seu posto, pronto para acompanh-la  porta. Fez uma grande reverencia quando a duquesa passou ao lado dele.
     Sebastian teve que reprimir um palavro. Apertou os dentes com fora. Teve que se lembrar que era a duquesa de Carrington. Devon seguiu a sua av at  porta.
     - Devon - disse em voz muito baixa.
     Os ombros dela ficaram tensos. Ele percebeu por esse sinal que o ouviu. Ainda assim, continuou caminhando atrs da duquesa.
     Com dois passos cortou-lhe o caminho. Segurou-a por um cotovelo.
     Os passos dela tornaram-se mais rpidos.
     - Deixe-me ir.
     Agarrou-a com mais fora.
     - Devon, por favor, olhe para mim.
     Ela negou-se, concentrou-se no n da sua gravata, o quadro atrs dele, em todos os lugares menos nele.
     - Querida?
     Outra vez a duquesa. Sebastian amaldioou entre dentes. Moveu a cabea. A velha mulher tinha-o visto e olhava para ele com ateno. Os seus dedos soltaram-se. 
J solta, Devon moveu-se como um animal ao qual abrem a jaula.
     A Sebastian isso no parecia nada bom. No lhe parecia nada bom. No teve oportunidade de falar sobre a noite anterior, dos seus sentimentos, da sua deciso. 
No conseguira falar de nada!
     Estava de ps e mos atados, maldio. A duquesa levava Devon para longe, para Londres, para longe dele.
     E no havia uma maldita coisa que ele pudesse fazer para evitar isso.
     
     Sebastian teve que pensar muito para decidir o que ia fazer a seguir.
     Em uma hora, a sua carruagem j estava seguindo os passos da duquesa. Ao partir de Thurston Hall, a sua ideia foi apresentar-se na casa da duquesa a qualquer 
hora. Mas durante o longo trajeto de volta a Londres, recobrou um pouco de sensatez. A memria de encontros emocionais lhe eram familares; recordou a si prprio 
que precisariam de um tempo a ss. Isto travou um pouco os seus impulsos, embora no as intenes.
s tres horas da tarde da manh seguinte, Sebastian cruzou Grosvenor Square em direco  residncia da duquesa. Dois toques secos na porta com a aldraba de 
metal, e a porta principal abriu-se para ele.
     O mordomo da duquesa, Reginald, um homem alto, de lbios finos e maneiras austeras, ficou olhando para ele. Sebastian estendeu-lhe um bilhete com os dedos cobertos 
pelo tecido branco das suas luvas.
     - Gostaria de ver a menina Saint James.
     O fato de o mordomo no mover nem uma pestana era fruto do seu treino.
     - Por aqui, senhor.
     Foi conduzido ao vasto patamar do salo. No se sentou na cadeira que lhe ofereceram, mas preferiu caminhar pela sala. Na verdade, poderia ter andado no comprimento 
e  largura da sala com os olhos fechados, pela maneira a memorizou. E no entanto, continuava a no vir ningum. Por fim, olhou o relgio de bolso viu as horas.
     Uma hora e um quarto.
     Que diabo? Ser que o tinham esquecido? A tolerncia dele estava em baixo. Impaciente, deu voltas por todos os lados, com vontade de dizer umas palavras ao 
mordomo...
     Mas a pancada de uma bengala alertou-o.
     - Boa tarde - desejou-lhe a duquesa.
     Sebastian inclinou-se em uma reverncia.
     - Duquesa - murmurou. Ainda que na realidade, quisesse gritar a sua indignao. -  muito agradvel v-la novamente. Mas temo, no entanto, que Reginald no 
me entendeu bem; pedi para ver a sua neta.
     - No houve confuso alguma - replicou a duquesa. - Devon est descansando.
     - Ento, por favor, faa com que uma empregada a desperte e lhe diga que desejo v-la. Entretanto, posso esperar. - Aproximou-se da cadeira mais prxima e sentou-se, 
cruzando os ps com naturalidade.
     Quando levantou o olhar, ela estava diante dele, de p, como um drago a cuspindo fogo; se  que alguma vez viu algum.
     - Esta casa  minha, Sebastian. E no julgue que me importo com a sua atitude.
     - Ento, talvez deva deixar a sala. Na verdade,  o que eu prefiro.
     - Meu rapaz, posso... - Parou e fixou o olhar nele.
     Ele arqueou uma sobrancalha.
     - Sim?  - Perguntou ele. Embora o tom fosse educado, estava desconfiado. As fronteiras da batalha foram definidas. Com falta de sono, viu-se obrigado a esperar, 
estava de pssimo humor e no lhe importava nada que ela se percebesse. At era melhor que ela soubesse.
     - Est me provocando e eu estou quase pedindo ao Reginald para que o expulse daqui!
     - Voc no o faria. - foi tudo o que disse. - No poderia.
     - Faria, sim. - Respondeu ela. - E farei. Se no fosse por simpatizar com voc.
     - E eu com a senhora - interrompeu-a ele agradecido. - Mas parece que seria vantajoso que falssemos francamente.
     - Sem duvida. - As palavras eram amveis, mas o tom, no. De fato, a velha senhora bateu com a bengala no meio dos ps dele, elegantemente calados.
     Sebastian permaneceu impassvel.
     - Duquesa - comeou, - voc  uma mulher formidvel.
     - Agrada-me que o reconhea!
     - No tenho inteno nenhuma de me zangar com a senhora. Contudo, sinto-me na obrigao de lhe dizer que no sou nenhum desgraado, ao qual pode conduzir mansamente 
segundo a sua vontade. Quero ver a Devon. A ss.
     A duquesa na se amedrontou.
     - E eu devo perguntar pelas intenes da sua visita.
     Sebastian levantou-se nervoso.
     - Duquesa. Isso  algo entre mim e a Devon. Ela  uma mulher adulta, e creio que a deciso de me ver deve ser dela, e no sua.
     - Tem razo. - As palavras dela sobressaltam-no. - Mas primeiro, tenho algo para lhe dizer. Devon contou-me ontem  noite como voc se encarregou da educao 
dela, como a ensinou a ler e a escrever. Mas eu orgulho-me pela lucidez da minha mente, sobretudo na minha idade; no sou uma velha tola.
     E ele no estava com humor para sermes.
     - Duquesa, respeito-a muito para pensar tal coisa de sua pessoa. - Obrigou-se a falar com calma, apesar da sua irritabilidade. 
             - E eu sempre o respeitei, meu rapaz. Mas no sou cega. - Declarou ela. - Vi a maneira possessiva com que olhou ontem para Devon, a confiana com lhe 
que falou e lhe tocou. Vi a maneira como ela se negou a olhar para voc e a sua resistncia em deix-la partir. Nunca fui muito dada a...
     - Ento, no o fao. - Interrompeu-a ele.
     - Oua-me, Sebastian, e oua-me bem. Estou muito agradecida por t-la salvo. Mas desaprovo a maneira como manteve a minha neta debaixo do seu teto, com o risco 
de compromet-la. A julgar pelo que vi acontecer entre os dois, creio que tenho o direito de me preocupar. Ela tentou esconder, mas haviam lgrimas nos olhos dela 
quando falou sobre voc ontem  noite. E tudo o que preocupa a minha neta, preocupa a mim. Ficou entendido?
     Sebastian ento perdeu a cabea.
     - De acordo. - Disse furioso. - Agora, posso v-la ou tenho de botar esta casa abaixo para encontr-la?
     
     Davon uniu-se  sua av para o caf da manh, mas ao meio dia, sentiu uma enorme dor de cabea. Tudo aconteceu muito rapidamente. A sua cabea estava tonta. 
Sentiu-se aliviada quando a av lhe sugeriu que se retirasse para dormir uma sesta. Na verdade, gostaria de passar o resto do dia isolada, mas a av pediu-lhe para 
se encontrar com ela s trs e meia para tomar o ch.
     Os seus sapatos no fizeram rudo nenhum ao passar pelo enorme corredor que conduzia ao salo. Ouviu vozes de pessoas discutindo. Uma dessas vozes era a da 
duquesa. A outra era a de Sebastian.
     A sua inteno no era de espiar ningum, mas uma das portas estava entreaberta. Nem a mo mais forte poderia t-la obrigado a no ouvir o que diziam. 
     O marques e a duquesa estavam frente a frente. Noutras circunstancias, teria rido. A sua av, cuja cabea no chegava nem a meio do peito de Sebastian, parecia 
disposta a estrangul-lo com as suas prprias mos. A expresso de Sebastian no era menos intensa.
     - Agora, posso v-la - dizia naquele tom autoritrio que ela conhecia to bem, - ou tenho de botar esta casa abaixo para encontr-la?
     Devon aproximou-se.
     - No h necessidade disso. - Disse ela com calma. - Eu estou aqui.
     Dois pares de olhos voltaram-se para ela.
     A duquesa colocou-se imediatamente ao seu lado.
     - Querida - balbuciou a duquesa, - no sobrigada a v-lo agora se no quiser.
     Devon dirigiu-lhe um pequeno sorriso e apertou o seu ombro.
     - No h problema. - murmurou ela.
     A duquesa concordou com a cabea. Deixou a sala, mas no antes de olhar para Sebastian com olhos ameaadores.
     Deixou-os a ss. Lentamente, Devon levantou os olhos para olhar Sebastian. Estava vestido impecavelmente como sempre, com umas calas de cor beje e um casaco 
preto. S de v-lo fez com que o seu corao desse um salto.
     Moveu a cabea.
     - Como est? - Perguntou ele ternamente. Os lbios dele abriram-se num sorriso que lhe doeu na alma.
     Devon no conseguiu devolv-lo. Por sua vez, sentiu uma amarga emoo dentro de si.
     - Estou bem. - Respondeu ela com frieza. - Porque estaria de outra maneira?
     Ele gaguejou.
     - Por nada. - Balbuciou, e fez um gesto em direo ao sof.- Podemos nos sentar?
     - Sim, por favor.
     Devon sentou-se do lado mais afastado do sof. Um erro, porque ele sentou-se na cadeira a frente, to prximo que os joelhos podiam tocar-se. A proximidade 
fez com que uma onda de calor subisse pelo peito dela. Lutou contra ela com todas as suas foras, e de repente comeou a tremer.
     - Isto  estranho. - Disse ele.
     - ? No percebi.
     Sebastian no disse nada, mas ela sentiu como os olhos dele esquadrinhavam a expresso dela, como se fosse um mistrio.
     Permaneceu quieta enquanto ele lhe agarrava as mos.
     - Devon - disse ele com voz rouca, - vim fazer uma pergunta.
     - Que pergunta? - Era estranho como se sentia, como se no fosse ela que estivesse sentada junto de Sebastian, como se fosse uma estranha.
     Uma pausa duvidosa, e depois, debilmente ele disse:
     - Quer casar comigo?
     O corao dela fez um dbil rudo surdo, depois comeou a bater loucamente, o sangue chegou-lhe aos ouvidos. Pensou que estava perdendo a cabea. No, pensou, 
no podia ser. Sebastian estava pedindo que casasse com ele? Meu Deus, meu Deus.
     Uma dor rasgou-lhe o peito. Apenas h dois dias, teria cado nos braos dele, chorando de emoo. Mas a sua proposta, esta proposta, chegava tarde demais. Uma 
tenso estranha apoderou-se dela.
     - No - limitou-se a dizer.
     A expresso de incerteza que passou pelo rosto dele foi gratificante. No percebeu que por dentro, ela fervia a fogo lento.
     - Como?
     No havia necessidade de fingir. Nunca houve essa necessidade entre os dois.
     Devon soltou-se das mos dele e juntou-as em seu colo. Falou com franqueza.
     - Eu disse que no, que no quero me casar com voc.
     Tudo no corpo dele parceu congelar. Ficou aniquilado. Paralizado. E tambm aborrecido. Os lbios fecharam-se, parecia ofendido. Levantou-se, ameaador, com 
os msculos tensos. Os olhos dele fecharam-se perigosamente.
     - No pode me recusar.
     Os olhos dela brilharam.
     - Creio que acabei de faz-lo. - Docemente, quase delicadamente, encontro o olhar dele. - No percebe, no ? No, claro que no. Sem duvida, meu nobre senhor, 
esperava que eu casse aos seus ps e te devesse gratido eterna por se dignares a casar comigo, uma qualquer. Mas confesso que sinto curiosidade. Teria deitado 
comigo se fosse uma verdadeira dama? Se Penelope Harding viesse a ser sua esposa, teria levado-a para a sua cama antes do casamento?
     Um rubor percorreu a pele dele. Fez um gesto desprezvel com a mo.
     - Isso no quer dizer nada. - Disse ele. - No tenho os mesmos sentimentos pela Penelope.
     - No significa nada! - Devon sibilou e, de repente levantou-se. - Para mim significa muito! Diga-me, Sebastian.  uma pergunta simples, no? Teria... ah, como 
 que posso explicar? Teria se adiantado com a sua futura esposa? Com qualquer mulhar que considerasse para ser sua esposa? Um beijo, talvez. Nada mais do que isso. 
Entende? Eu te conheo. Com a mulher que escolhesse para ser tua esposa, teria esperado at  noite de npcias para a faz-la tua.
     Ele vociferou.
     - No despreze o que tivemos. - O olhar dele colou no dela. - O que temos. Porque faz com que parea que a usei para o meu prprio prazer.
     - Porque provavelmente o fez - respondeu ela. - Talvez eu fosse apenas uma mulher com quem se deitou segundo as tuas necessidades!
     - No foi nada disso! - A raiva estava na voz dela. - Por Deus, Devon, faz com que eu queira te sacudir. E esquece que desejava tanto quanto eu!
     Desta vez foi ela que se ruborizou.
     -  verdade. - Admitiu. - Tambm me culpo por isso, por te permitir liberdades que s se devem permitir a um marido.
     - Maldio,  o que eu quero. Ser teu marido!
     O sorriso dela foi leve.
     - Eu me lembro de outra coisa. Naquele dia, com Justin em  Thurston Hall, foi bastante claro: deitaria comigo, mas no casaria comigo.
     - Vim aqui para retificar o meu erro. Estava enganado, Devon. Muito enganado. Fui muito estpido. Percebi nessa noite, logo a seguir. J sei que no vai acreditar 
em mim, mas juro, tentei te pedir em casamento ontem pela manh. Mas depois chegou a duquesa, e ... e peo-te agora. Uma vez mais. Case comigo, Devon. Case comigo.
     As lgrimas rolaram pelas faces dela. Afastou-as com a mo.
     - Tem razo. - Disse com a voz calma. - No acredito em voc. E nunca casarei com voc.
     - Devon, ouve-me! Vim aqui para te explicar...
     - O qu, que pensou melhor? Bem, eu no preciso pensar duas vezes, senhor.  um hipcrita, que pretende ser formal e correto. Mas eu tambm tenho os meus princpios. 
Tambm tenho sentimentos. Evidentemente, me viu como algum conveniente para aquecer a sua cama quando precisasse. Quem poderia saber? Apesar de tudo, eu no era 
mais do que uma mulher irrelevante.
     - Sabe que isso no  verdade, Devon. - Disse ele com frieza.
     Em alguma parte dela, Devon sabia. A sua conscincia no a aprovava, mas ela sentia-se muito magoada para ouv-lo, para esquecer o sentimento de traio.
     - S uma tonta no veria, e eu no sou tonta. Nunca teria me feito sua esposa sendo uma mulher da rua. Mas o que voc sabe! Posso ser ilegtima, mas agora que 
descobri que a minha av  uma duquesa... aparentemente, agora acha que tenho algum valor!
     Olhou para ele tremendo. A voz tremia. Por baixo de todas aquelas palavras furiosas escondia-se a angustia. Em cada palavra, a convico se tornava mais forte.
     - No teria me aceitado, Sebastian. No teria me aceitado. Bem, agora eu no te aceito! Pensou que no era suficientemente boa para voc. Mas voc, voc no 
 bom o suficiente para mim!
     Umas mos fortes agarraram-se aos ombros dela, atraindo-a para ele. O perfil do seu rosto parecia tenso.
     - Voc me ama- disse ele convictamente. - Eu sei que ama.
     - Ah! - Gritou ela. - Presume demais, senhor!
     Os olhos dele apelaram para os dela, tempestuosos como o mar.
     - Sim, presumo, porque tambm te conheo, meu amor! A noite em que te fiz minha ficar gravada para sempre no meu corao. Nunca esquecerei a maneira como se 
derreteu quando te beijei, a maneira como tremeu quando te penetrei. E quando tudo terminou, lembra-se do que me disse? Que me pertencia - disse ele. - Disse que 
me pertencia!
     Devon estava furiosa.
     - E voc me lembrou de algo tambm. O que foi? Ah, sim, j me lembro. Ao diabo com o futuro, disse. Ao diabo com o dever. Bom, querido marqus, ao diabo com 
voc!
     
     
     
    Captulo 27
     
     
     Sem olhar para outro lado, Devon subiu as escadas direta para o seu quarto. Depois de fechar a porta, dirigiu-se rapidamente para o assento que havia por baixo 
da janela, do lado oposto da cama. Abraada a almofada rosa, ficou pensativa olhando para as sombras que comeavam a cair sobre os edifcios.
     Algum bateu  porta.
     - Querida?
     Era a duquesa, a porta abriu-se com um som rouco e a idosa mulher entrou no quarto. Sentindo-se vazia, Devon observou como avanava para ela com passos hesitantes.
     - Querida, perdoa a intromisso, mas tinha que ver se estava bem.
     - Estou bem - disse Devon com tristeza.
     A duquesa olhou para ela fixamente.
- Mas, ests tremendo! - Alarmou-se. Aproximou-se depois do armrio para apanhar um xale e cobrir-lhe os ombros com ele.
     - Me parte o corao ver que est to infeliz, filha. H algo que eu possa fazer?
     Devon negou com a cabea. Talvez a mulher idosa tivesse boa inteno, mas no tinha vontade de falar de Sebastian com ningum, e muito menos com a sua av.
     - Querida, no tive outro remdio seno ouv-los.
     Como no, pensou Devon dolorosamente. Certamente, todos na casa teriam ouvido.
     - Claro que no precisa casar com o Sebastian se no quiser. Na verdade, nem sequer precisa casar.
     Os dedos de Devon enrolaram-se na ponta do xaile.
     -  srio? - Murmurou.
     - A menos que queira, claro. Chame de egosmo, mas eu estou muito feliz por t-la s para mim. - A duquesa sorriu levemente.
     - Obrigado... av. - Que esquisito, a palavra no soou to estranha desta vez nos seus lbios.
     A duquesa apoiou-se na bengala.
     - Quando era pequena, todos os casamentos se planeavam. O seu av e eu nos davamos bastante bem, mas o mundo comea a mudar, e penso que j era hora. Se ouve 
falar cada vez mais naqueles que ousam desafiar as convenes e casam por amor. Tm sorte, creio eu. De fato, casar por amor,  o que eu desejo a qualquer jovem. 
- o tom de voz da duquesa tornou-se caprichoso. - mas posso perceber que prefere ficar sozinha, querida.
     A duqueda virou-se disposta a sair. De repente, estar sozinha era a nica coisa que Devon no queria.
     - Av, espere - gritou. A duquesa voltou-se hesitante. - Fique, por favor. Por favor.
     Uma dor insuportvel encheu o seu peito. Os seus ombros tremeram sem conseguir parar. A seguir percebeu que a duquesa sentava ao seu lado e a atraia fortemente 
para o seu peito. Nenhuma das duas se perguntou sobre o que aconteceu depois. Existia entre elas um lao que ultrapassava o tempo, os anos que viveram separadas.
     - Chore, queria, se precisar.
     Devon virou o rosto para o seu ombro.
     - Av - explodiu. - Ele... eu...
     No conseguiu suportar mais. Tambm no haveria necessidade disso. Reprimindo as suas prprias lgrimas, a duquesas rodeou os ombros dela.
     - Eu percebo, querida. Realmente, entendo.
     E de fato, entendia.
     
     Os efeitos de uma garrafa inteira de brandy foram de pouca ajuda para os sentimentos de culpa e de dor que afligiam Sebastian. O dio que sentia por si mesmo 
queimava-lhe o sangue. Deitado sobre a sua mesa, cravava os dedos na testa como se pudesse fazer um buraco na sua memria.
     Tudo comeou quando um corpo pequeno e quente se deslizou no seu colo. Um nariz frio e hmido cheirou a palma da sua mo.
     Observou-a com os olhos perdidos, espantado de que com tudo o que tinha lhe acontecido, lembrasse de trazer Bolita e os seus filhotes.
     - Bolita - disse ele. - ela no est aqui.
     O animal moveu a cabea e ganiu. E depois juntaram-se todos ao seu lado: General, Coronel, Major e Capito tentavam todos subir pelas pernas e ganiam penosamente.
     Inclinou-se para eles.
- Ela no vai voltar. - gritou. - No percebem? No vai voltar!
     O ganidos aumentaram. Uma a uma, as pequenas criaturas foram fazendo um circulo ao seu redor. Sebastian lamentou-se. No final, restavam aqueles olhos tristes 
e desamparados que fizeram com que se levantasse e se dirigisse para a porta.
     Antes de que percebesse, encontrou-se na biblioteca. A sala favorita de Devon, recordou com uma pontada de remorso.
     "Se eu vivesse aqui, imporia como dever ler cada livro desta sala."
     Mas ela no viveria aqui. Nunca viveria aqui, e saber disso era com se lhe cravassem um punhal no corao.
     Ficou furioso e meio louco, comeou a atirar potes e livros para o cho. Ento, a porta abriu-se. O mordomo Stokes apareceu seguido de algumas criadas.
     - Senhor...
     - Fora daqui! - Gritou. - Todos!
     Um a um foram se retirando. Justin que acabava de chegar a casa, apareceu tambm.
     - Sebastian! Deus meu, que demonios...!
     Sebastian levantou a cabea e olhou para o irmo furioso.
     - Se veio dobochar de mim, no se incomode.
     Justin olhou para ele espantado.
     Sebastian fechou os olhos.
     - Senhor - murmurou, - no devia te dizer isso, descupa.
     Justin fechou a porta e olhou para ele de cima para baixo..
     - Est bbado! - Disse sem poder acreditar.
     - Estou? No percebi.
     - Sebastian, que diabo est acontecendo? Esta manh estava com um humor de co e te deixei sozinho. Agora, volto para casa e encontro os criados olhando para 
voc como se fosse mord-los, e voc destruindo a biblioteca.
     - Isso no  tudo.
     - O qu, ainda h mais?
     - Sim, gritei com a Bolita os cochorros.
     - Fenomenal.
     Sebastiam encaminhou-se para a mesa de servio procurando outra garrafa. Justin encontrou-a antes que ele pudesse peg-la. Obrigou-o a sentar-se numa cadeira.
     - No h mais bebida para voc - disse impaciente. - Diga-me o que est acontecendo.
     Sebastian chegou-se para a frente na cadeira e segurou a cabea entre as mos.
     - Ela no vai voltar -disse com uma voz estranha e cansada.
     Justin conteve o flego.
     - Est com a av.
     - Voc no entende - resmumgou Sebastian. - Nunca mais vai voltar aqui.
     - O que  que quer dizer?
        -Quero dizer que me odeia, maldio! Odeia-me!
     Justin negou com a cabea.
     - Isso no pode...
     - Acredite,  verdade. - Disse Sebastian amargamente.
     Justin ficou plido.
     - Ai, Deus! Tudo por minha culpa!
     - No, Justin, a culpa  minha. Minha. Voc tinha razo, Justin. Desde o principio, eu a queria. Morria por ela, mas lutei contra isso. Disse a mim mesmo que 
podia controlar os meus sentimentos. Mas depois, fomos para Thurston Hall...
     - E eu apareci com aquela ideia estpida de cas-la com algum!
     - No se culpe. Por favor, no. Eu tambm achei que era a melhor forma. Pensei que era a nica maneira de mater as minhas mos afastadas dela, mas aquela noite, 
com o Evans, o Mason e o Westfield... ela ouviu-nos, Justin. Ouviu-nos e soube o que estvamos planejando...
     - Meu Deus...
     - Desatou a chorar, Justin. Chorou. E eu no consegui aguentar. Devia t-la deixado sozinha, mas no o fiz. Disse a mim mesmo que queria imped-la de sofrer 
mais. Mas fui muito egosta. Eu a queria e agarrei-a. E ento voc chegou e nos viu. Lembra como ela olhou para mim? Com os olhos secos. Imovel. Meu Deus, nunca 
vi ningum olhar da maneira como ela olhou para mim. Como se - nem sei como dizer - como se estivesse ferida por dentro. E fui eu. Fui eu que ps aquele olhar no 
seu rosto.
     Justin baixou os olhos. A expresso dele era sufocante e tensa.
     - No! - Disse Sebastian. - Voc no tem nada a ver com isto! Voc tinha razo, entende? Sempre teve razo. Eu apenas pensava no dever e nas obrigaes... e 
agora tudo isso me parece to ridculo! Os meus receios custaram caro! Estava to cego pela minha determinao a evitar o escndalo que no consegui ver o que tinha 
 minha frente...
     O olhar de Justin no se afastou dele nem um segundo. Apenas disse docemente:
     - Voc a ama, no  verdade?
     Sebastian assentiu. A boca dele contraiu-se.
     - Pensei que podia reparar as coisas. Fui v-la e pedi-lhe que casasse comigo. - Fez-se um silencio brutal. - Recusou. Com lgrimas no rosto, recusou-me. No 
uma, mas por trs vezes. Trs vezes.
     - Ela est confusa, Sebastian. Toda esta historia com a duquesa... senhor, ainda no acredito.
     - Eu sei, eu sei. - Sebastian ficou nervo. - Mas para dizer a verdade, no posso culp-la. No posso sequer justificar o meu comportamento perante mim, muito 
menos pedir que Devon o faa. Mas na minha arrogncia, nunca pensei que ela pudesse me recusar.
     Pouco a pouco a fora dos seus pulomes foi cedendo e comeou a tremer. Se no estivesse sentado, teria cado seguramente.
     - Roubei-lhe a inocncia. - Sussurou. - Roubei-lhe a esperana, o orgulho. Pensei apenas em mim, no meu dever e nas minhas responsabilidades, e sacrifiquei 
a Devon em troca. Tirei-lhe tudo o que tinha, Justin. Roubei e nunca me perdoarei por isso. E a Devon nunca me perdoar. Nunca.
     Justin olhou para Sebastian.
     - E vai ficar assim? Vai se render?
     Sebastian fez um esgar.
     - O qu? Acha que j no a magoei o suficiente?
     - Ela te ama, Sebastian. Eu vi naquele dia, em Thurston Hall.
     - Eu tambm achava que sim. Mas agora no tenho tanta certeza. No viu o olhar dela, Justin. A maneira como olhou para mim... como me desprezou!
     - No posso acreditar, Sebastian. - Justin foi inflexvel. - Eu fui o nico cego. Pensei que estava protegendo-a, e voc pensou o mesmo. Mas voc e a Devon, 
est to claro: pertencem um ao outro. - O seu sorriso demonstrou um cinismo familiar. - Como? A prova est em como fizeram um ctico como eu acreditar no amor.
     Sebastian ficou calado, mas olhou para as sombras sem pestanejar.
     Justin ps-lhe uma mo no ombro.
     - Vai faz-la mudar de opinio.
     - No! - O grito de Sebastian foi agonizate. - Meu Deus, Justin, no a viu!
     Justin pressionou os lbios. Inclinou-se e bateu com a mo em punho na testa do irmo.
     O queixo de Sebastian abriu-se surpreendido. Levantou-se e olhou para Justin.
     Justin levantou-se tambm, estendendo o seu brao novemente. A mo de Sebastian segurou o seu punho a tempo, antes que lhe voltasse a bater na cabea.
     - Maldito seja, est tentando comear uma briga?
     - Absolutamente. - Disse Justin com calma. - No teu estado, creio que perderias.
     - Ento, que diabos est fazendo?
     Justin olhou para ele.
     - No entanto,  o meu irmo, no?
     - Que raio de pergunta idiota  essa?
     Justin elevou as sobrancelhas.
     - Pensei que deveria ter certeza. - Murmurou.
     - O qu?
     Com uma mo na sua sobrancelha, Justin mostrava uma grande concentrao. 
     - Perdoa o meu lapso de memria, mas quando o pap morreu, deixou as nossas finanas em um estado lamentvel, no foi?
     - Pelo amor de Deus, no sofre de nenhum lapso de memria se lembra disso, Justin
     - E voc foi o homem capaz de restaurar a nossa fortuna, o homem que comeou a insupervel tarefa de fazer com que os trs fossemos recebidos na sociedade sem 
que murmurassem e nos apontassem nas nossas costas, no  verdade?
     Sebastian assentiu.
     - Onde quer chegar?
     - Basicamente a isto. O meu irmo propor-se-  tarefa de trazer para casa a sua amada com a mesma determinao e esforo. O meu irmo no perder o amor da 
sua vida. O meu irmo no perder a esperana.
     Sebastian ficou sem palavras. De alguma maneira, as palavras de Justin penetraram na sua alma repleta de brandy como nada podera fazer. Ou talvez como se ningum 
pode fazer.
     A emoo inundou o seu peito. A garganta ficou tensa e sentiu ardor nos olhos. Sempre amara o seu irmo, mesmo quando ele ficara louco com as irresponsabilidades. 
Mas nunca o amou tanto quanto agora.
     -Justin - disse quase sem flego, - ai, Deus...
     Justin rosnou.
     - Nem pense, no d uma de sentimental comigo!
     - Juro que no consigo evitar. Porque tenho muita sorte em te ter como irmo. - Riu emocionado. - No poderia imaginar nenhum outro como meu irmo.
     Justin aproximou-se e apertou-lhe o brao.
     - Eu tambm no. - disse apenas.
     
     
    Capitulo 28
     
     
     Todas as tardes, durante a semana seguinte, Sebastian apresentou-se na casa da duquesa e entregou o seu carto a Reginald junto com um pedido educado.
     - Desejo ver a menina Saint James.
     E todas as tardes, Reginald desaparecia, para voltar depois com a mesma resposta.
     - A menina Saint James no vai receb-lo, senhor.
     A ultima vez, o impassvel mordomo apareceu um pouco apressado.
     - Senhor, a menina Saint James pede para que o senhor no volte.
     Sebastian pensou.
      - Reginald, - disse educadamente - quais foram exatamente as suas palavras?
     O estico mordomo perdeu um pouco a compostura.
     - Senhor, no tenho por habito dizer essas...
     - Ah, devo supor que a sua linguagem no era das mais correta? - Sebastian no poria o pobre homem em posio de repetir com a sua voz melodiosa um discurso 
menos correto. 
     Regianald sentiu-se aliviado.
     -  verdade, senhor.
     - Entendo. - Murmurou Sebastian.- Pode ento dar uma mensagem  menina Saint James?
     - Com certeza, senhor.
     - Diga-lhe que quando ela tiver coragem para ela prpria me dizer, ento, talvez eu considere o seu pedido.
     No foi Reginald quem abriu a porta na tarde seguinte. Devon disse-lhe com termos muito precisos o que pensava dele.
     - E no volte. - Terminou ela. Nunca mais.
     E fechou-lhe a porta no nariz.
     Sebastian percebeu que no chegaria a lado nenhum com ela, assim, pensou em outra ttica. A cada dia, durante a semana seguinte, enviou uma carta  sua amada.
     Todas elas foram devolvidas sem abrir.
     Tinha que fazer alguma coisa, pensou preocupado. Algo como rapt-la, amorda-la, faz-la sentar-se diante dele e fazer com que o ouvisse. No tinha a certeza 
da maneira exata. Pensava em tudo isto quando Stokes bateu  porta do escritrio.
     - A viva duquesa de Carrington quer v-lo, senhor. Tomei a liberdade de faz-la entrar para o salo.
     Maravilhoso, pensou Sebastian irritado. A duquesa teria se proposto rir dele tambm?
     Assentiu com a cabea. Um momento depois encaminhou-se para o salo. Cumprimentou a duquesa, e sentou-se junto a ela.
     - Duquesa, deixemos de palavreados. Imagino que vem em nome de Devon.
     - Estou aqui pela Devon, mas no em seu nome.
     Ele olhou para ela com curiosidade.
     A duquesa apoiou as mos no punho da sua bengala.
     - A verdade  que ela no sabe que eu estou aqui.
     - Um subterfgio, duquesa?
     - Preferia chamar de estratgia, rapaz.
     Sebastian ficou perplexo.
     - Duquesa?
     - A ultima vez que conversamos, meu rapaz, deixou bem claro que no via com bons olhos a minha interferncia. Na verdade, creio que me disse para que no me 
intrometesse. E talvez me diga outra vez para que me ocupe dos meus assuntos, mas antes que o faa, tenho uma pergunta a fazer. Ama a minha neta?
     Sebastian no pde deixar de ser honesto.
     - Cada vez mais - disse tranquilo, - a cada dia que passa.
     - Essa era a nica resposta que esperava ouvir.
     - Estou dicidido a convert-la em minha esposa - garantiu, no queria que houvesse nenhum mal entendido. - Meu Deus, vai ser a minha esposa.
     A duquesa riu docemente.
     Sebastian arqueou a sobrancelha.
     - Devo entender que tenho a sua aprovao?
     - Importaria se no fosse assim?
     Respondeu  pergunta com outra.
     - No aprova? - E continuou. - Apesar de tudo, como deve se lembrar, foi voc que me convenceu de que devia comear a procurar uma esposa. Atrevo-me a dizer 
que nenhum dos dois pensou que seria a sua neta que subiria ao altar.
     A duquesa riu de novo.
     - Ela tambm no  a mulher que imaginou, no?
     Ele enrugou a testa.
     - O que quer dizer?
     - Os burburinhos foram muito engranados com a noticia da minha neta.
     - Sim, j vi. - Sebastian apontou para o jornal, que estava aberto na coluna dos rumores, em que aparecia Devon sentada junto da av na carruagem. -  uma foto 
espantosa, no acha?
     - Muito. - Concordou a duquesa. - Alguns dos meus amigos ficaram horrorizados ao ver que a acolhi de braos abertos. - Fez um esgar de desgosto. - Claro que, 
j no so meus amigos. Embora no os impedisse de continuar a enviar convites todas as manhs. - Olhou para Sebastian fixamente. - E o que acontecer com  voc, 
Sebastian? Sei que trabalhou arduamente para ser aceito novamente na sociedade depois da morte do seu pai. Se casar com a Devon, haver um escndalo. Seguramente, 
vai voltar a estar na boca de todos.
     - A alta sociedade pode dizer o que quiser. No me importo. Meu Deus, que ironia, mas na verdade  o que menos me importa. - A sua expresso ficou sria. - 
No quero faltar-lhe com o respeito, duquesa, mas creio que a Devon teria aceitado o meu pedido antes de descobrir que era sua neta. Agora que tem...
     - Sim, eu sei - disse a duquesa amavelmente. Quando Sebastian olhou para ela abatido, ela sorriu. - Sinto muito, meu rapaz. No ouvi atrs da porta de propsito. 
Era inevital que os ouvisse. Se lhe serve de consolo, digo-lhe que me arrependo de ter aparecido no momento menos adequado.
     - No  culpa sua. Mas devo perguntar-lhe - o seu tom de voz foi muito suave. - ele falou de mim?
     - Ela  muito reservada sobre os seus sentimentos - admitiu a duquesa. - No tenho inveja de voc, Sebastian. Parece que a nossa Devon  uma mulher teimosa. 
No pude deixar de saber que no o recebe.
     - Tambm no responde s minhas cartas. - Disse ele preocupado. - Mas esperarei  vida toda se for necessrio.
     Houve um longo silencio.
     - Talvez, - murmurou ela - no tenha que esperar tanto.
     - Duquesa?
     Ela no respondeu. Em vez disso, ergueu-se com a ajuda da bengala.
     - No se desespere. - Disse ela. - Algumas vezes apenas temos que estar preparados para qualquer oportunidade que a vida nos d.
     Sebastian ofereceu-lhe o brao e conduziu-a  entrada. "No se desespere!", tinha lhe pedido. Era muito fcil para ela diz-lo!
     Na porta, a duquesa virou-se.
     - Os Clarkston so seus amigos, no so? Seguramente, recebeu um convite para a festa da prxima sexta-feira.
     Ele franziu as sobrancelhas. Pensou que talvez a velha mulher estivesse enlouquecendo, pois no via a relao entre o que acabava de dizer e a conversa anterior. 
Alm disso, parecia radiante!
     -  verdade, recebi - reconheceu. - Assim como o Justin. Contudo, acho que no estou com pacincia para festas...
     -  uma pena. - disse ela alegremente. - Eu estou desejando ir. Juro que a ocasio merece dois vestidos novos. Um para mim e outro para a Devon.
     E a duquesa piscou-lhe um olhos. Sebastian ainda continuava paralizado na entrada quando a carruagem se afastou.

     E o dia da festa dos Clarkston chegou. Devon conhecera o casal, William e Emily, quando a sua av os convidara uma noite para jantar l em sua casa. Devon gostava 
muito deles, porque eram um casal muito carinhoso e simptico. Mas se pudesse recusar o convite, te-lo-ia feito. Durante o ltimo ms, a av a tratara como se fosse 
um tesouro valiosssimo. Devon j amava aquela velha mulher direta e pouco convencional. Davam longos passeios por Green Park, a av apoiada no seu brao: quase 
diariamente, apanhavam a carruagem para percorrer Rotten Row. A semana anterior, a duquesa levara-a ao teatro real, onde assistira  sua primeira opera e observou, 
pela primeira vez, o estilo arquitectonico georgiano.
     Ficou claro que a duquesa no tinha intenes de escond-la do mundo. Nem, aparentemente, que fossem condenadas  expulso. O numero de convites que recebiam 
diariamente era espantoso. No podia deixar de pensar no que Justin lhe dissera uma vez sobre a duquesa: "Me atreveria a dizer que o prprio demonio seria recebido 
na sociedade se fosse recebido pela duquesa".
     Mas a duquesa selecionava muito bem os seus convites. Devon suspeitava que a duquesa havia reduzido as suas atividades para que pudessem se conhecer melhor, 
e para lhe dar tempo de ajustar-se  sua nova vida. A sua av, decidiu, era uma mulher muito sbia. No que se referia a Sebastian, a duquesa no quis aconselh-la, 
nem perguntar-lhe nada, muito menos julg-la.
     Mas Devon no podia falar  sua av sobre Sebastian. As suas feridas ainda eram muito recentes, a dor muito profunda. No queria v-lo, e a principio sentiu-se 
verdadeiramente incmodada pela sua arrogncia. Pensaria realmente que podia voltar  sua vida como se nada tivesse acontecido? No queria ter nada a ver com ele! 
De fato, ficou contente quando as suas visitas dirias e as suas cartas cessaram.
     Recordava milhares de vezes a horrvel cena no salo da sua av, onde acusou Sebastian terrivelmente. Se pudesse apag-la, apagaria!
     Apesar daquele momento desagradvel, uma ideia que lha dava medo comeou  a crescer dentro de si, uma coragem que flutuva e comeava e transformar-se em esperana. 
No fora forado a pedi-la em casamento.  Ningum o obrigara. Ele sabia muito bem que se eles casassem teriam que aguentar a vergonha e o escndalo social.
     Mas no se importava. No se importava.
     S ento Devon foi capaz de procurar profundamente no se corao as respostas que escondera. S esto  que descobriu uma das verdades da vida: que s vezes, 
os sonhos tm a sua prpria maneira de mudar. Ou talvez fosse simplesmente ela que mudara.
     Por mais que tentasse, por mais que desejase, nunca poderia deixar de am-lo. Nunca.
     Nem queria que fosse assim, a partir do momento em que percebeu que o filho de Sebastian crescia dentro de si.
     Sentou-se diante do espelho na noite da festa, com um vestido brilhante, de cor prateada. Era curioso ver a semelhana de sua vida com a da sua me. Era estranha 
a forma como o presente conduzia ao passado. Porque tanto ela, quanto a sua me, apaixonaram-se por um nobre. E quanto a Sebastian, tambm estivera convencido de 
que no repetiria o escndalo e a vergonha que obscureceram a  sua infncia.
     No entanto, havia uma difenrena, uma grande diferena. E naquele momento, Devon fez uma promessa. No passaria a sua vida como a sua me passara a dela, cheia 
de arrependimento.
     E Sebastian, nunca abandonaria o filho. Nunca abandonaria a ela.
     Por todos os problemas de dinheiro, Devon conhecera a profunda devoo da sua me. Sebastian, pelo contrario, por todo o dinheiro e privilgios, nunca chegara 
a conhecer verdadeiramente o amor dos seus pais, no da maneira como que ela conhecera.
     E ela no negaria ao seu filho a nica coisa que nenhum dos dois nunca teve: a certeza de saber que ele ou ela eram amados pelos dois, pelo pai e e pela me.
     Devia ir ter com ele. Devia dizer-lhe.
     S tinha que encontrar a coragem.
     A duquesa fez um comentrio sobre o seu estado de esprito na carruagem, a caminho da manso dos Clarkston.
     - Est muito calada, querida. Est se sentindo bem?
     Devom mordeu o lbio.
     - S estou cansada. - e era verdade. No lhe agradava a ideia de guardar segredos  sua av, mas no podia lhe dizer nada antes de falar com Sebastian.
     Os seus olhos dilataram-se ao ver a fila de carruagens situada diante da manso dos Clarkston, esperando que os seus ocupantes descessem.
     - Av, pensei ouv-la dizer que seria uma pequena festa intima.
     - Ah, mas , querida, - deteve-se. - Para os Clarkston,  uma pequena festa.
     Devon suspirou.
     - Av...
     - Vai correr tudo bem, querida. - a duquesa apertou-lhe a mo.
     E de alguma maneira, Devon soube que iria ser assim. Ah, mas as hitrias rondariam pela manh por toda a cidade! Uma coisa que no lhe agradava nada. Aborrecera-se 
muito quando a noticia do seu parentesco apareceu na coluna dos jornais. Agora, compreendia perfeitamente porque  que Sebastian desprezava tanto os escndalos!
     Uma vez dentro da manso, foram recebidas por William e Emily. Umas quantas cabeas viraram-se ao v-la entrar, mas Devon manteve o queixo erguido e o sorriso 
nos lbios quando conversaram com os anfitries. William dirigiu-se a outros recm chegados, enquanto que a sua av continuou a falar com Emily. Devon escutava um 
pouco distrada, deixando que o seu olhar passeasse pela sala.
     Ento, aconteceu. O corao deu um salto. Sebastian estava ali. Sebastian. V-lo foi como um sopro para o seu corao. Um sopro que a deixou sem respirao.
     E, agarrada ao seu brao, estava a mulher mais bonita que vira em toda a sua vida. Com o cabelo castanho, pequena e graciosa com um vestido azul escuro, era 
at mais espantosa que Penelope. Uns dedos submersos em luvas brancas agarravam com fora o brao de Sebastian. Precisamente quando Devon olhava, os dedos da sua 
mo livre acariciaram-lhe a face. Sebastian respondeu-lhe com um sorriso, e depois beijou-a no rosto.
     Morreu um pouco dentro de si naquele momento. Virando-se, afastou o olhar. O sangue fervia-lhe. Agora sabia porque no a visitara nos ltimos dias. Obviamente, 
no havia perdido tempo em reiniciar a procura de esposa. Ah, mas no lhe foi muito difcil encontrar uma possvel substituta! Parecia realmente muito cativado pela 
mulher que tinha ao lado.
     Foi ento que percebeu que a anfitri da casa se retirara. Reparou que Justin tambm se encontrava ali. Teria lhe cumprimentado se... olhou para a sua av. 
No podia ficar. No podia. Pediria-lhe que fossem embora. Suplicaria.
     - Ol, Devon - disse uma voz familiar. - Duquesa. 
     Devon ficou tensa. Uma reverncia  duquesa, e depois, colocou-se diante dela, agarrou-lhe a mo e aproximou-a dos labios.
     Devon faiscava. Como se atrevia a beijar a sua mo depois de ter beijado a outra mulher!
     Puxou-a para se libertar quando ele a afroxou.
     - Duquesa, importa-se se eu roubar a sua neta por um momento?
     - No, claro que no. - Devon no conseguia entender porque a sua av parecia to feliz. - Vou cumprimentar lady Robinson. - Com a ajuda da bengala, a duquesa 
atravessou o salo.
     Os olhos deles encontraram-se. Devon forou os dela a olhar para outro lado. Oh! Como se atrevia a sorrir to angelicamente? Gostaria de lhe dar uma bofetada.
     - Estou contente por v-la novamente - murumurou ele.
     Devon tremia de raiva. Um criado passou, oferecendo-lhes champanhe. Devon aceitou, bebendo depressa antes de olhar para ele.
     - Temo que no possa dizer o mesmo. - disse ela friamente.
     - Ainda est aborrecida.
     - No. Na verdade tenho pensado em voc.
     - Gosto de saber - disse gentil.
     Ela ergueu o queixo.
     - Obviamente, no pode dizer o mesmo. Mas me d noticias da tua procura por uma esposa. Ser que a bela Penelope foi substituda pela encantadora moa que o 
acompanha esta noite?
     O sorriso dele abriu-se ainda mais. Aquele homem no tinha conscincia!
     - A minha procura por uma esposa terminou na noite em que te conheci, Devon.
     - Disparates - disse ela. O rosto dela virou-se para o lugar onde havia deixado a sua acompanhante. - Parecia bastante entusiasmado.
     Sebastian dirigiu o olhar para a mulher de azul, e depois olhou para ela.
     - No vou te mentir, Devon. Ela interessa-me. Interessa-me muito.
Devon pensou que no podia mago-la mais do j magoara. Mas aquelas palavras foram como uma faca cravada dentro de si. Mas, sem saber como, conseguiu disfarar a 
dor que a transpassava.
     - Ento, talvez deva cuidar dela - Devon olhou para ele, - porque agora est com o Justin. E, pelos vistos, parece que voc tem um adversrio, senhor. Esto 
no canto sozinhos. Ai, querido, nunca pensei que perderia as tuas intenes diante do teu irmo.
     Ele tirou-lhe o copo da mo e pousou-o de lado, depois f-la colocar a mo na curva do seu brao.
     - Sebastian! - sibilou ela.
     - Cale-se. - disse ele inflexvel.
     Era mais do que podia aguentar. Ultrapassava todas as suas convices. Ele estava conduzindo-a para aquela mulher. Teria ficado para trs, mas no podia, no 
sem provocar uma cena.
     Detiveram-se junto de Justin e da mulher.
     - Devon, no preciso te apresentar o meu irmo.
     Devon cumprimentou Justin e... Deus, no queria olhar, mas aquela mulher era mais bonita do que havia pensado. Uns olhos enormes devolviam-lhe o olhar. Os lbios 
cor de rosa perfilavam perfeitamente a sua boca.
     - Devon,  um prazer para mim apresentar-te a minha irm Julianna, que chegou ontem da Europa. Julianna, a senhorita Devon Saint James.
     Devon estava atnita demais para falar.
     Julianna, no.
     - Ento, voc  a Devon! Ouvi falar tanto de voc, que  como se a conhecesse! Perdoa o meu entusiasmo, mas no me contentarei com um simples aperto de mos. 
- Julianna deu-lhe um rpido e apertado abrao.
     Devon conseguiu finalmente recuperar-se.
     - O prazer  meu,. - O primeiro sorriso genuno apareceu nos seus lbios. - Sebastian disse-me que tem uma voz radiosa como o sol. E  verdade.
     Ainda no recuperara do susto quando Sebastian a levou para o terrao. No sorria, quando pararam a pouca distancia da porta.
     Devon olhou ao seu redor para ter certeza de que estavam sozinhos no terrao.
     - Devia ter me dito que a Julianna voltou, em vez de me fazer crer que...
     Sebastian riu abertamente.
     - Ah, mas era uma oportunidade ptima para resistir. Alm disso, gosto de te ver com cimes.
     - No estava com cimes! - Negou ela. Mas no era verdade. Deus, tivera vontade de comer algum.
     - Esclarea-me uma coisa ento. No me quer, mas tambm no quer que algum me queira.
     - Sim...quero dizer, no!
     Sebastian elevou uma sobrancelha divertido.
     - Devon, no consegue se decidir?
     Na verdade, no. Tinha um n no estmago que estava incomodando-a.
     - Sabia que deveria ter ficado em casa. - Murmurou ela. Um pensamento repentino veio-lhe  cabea. - Sabia que eu vinha, no? Voc e a minha av prepararam 
isto, no foi?
     - Meu amor - disse ele com um sorriso, - duvido muito que a sua av ou eu tenhamos alguma influencia na lista de convidados dos Clarkston.
     Porque tinha de ser to racional? Os olhos dela cintilaram.
     - Pare de rir de mim!
     Ele parou. Mas o seu olhar tornou-se quente e direto. Se aproximou dela, to perto que podia sentir a presena brutal, um odor familiar que a rodeava. De repente, 
as pernas comearam a tremer. Sentia-se to estranha, via tudo rodando, e dificilmente conseguiria se manter em p.
     - Temos que falar, Devon. -Temos que...
     - No - gemeu ela.
Que o cu a ajudasse, o enjoo aumentava e queimava-lhe a garganta.
     - O que significa esse no? - O rosto dele escureceu e o tom de voz enfureceu-se. - Pelo amor de Deus, Devon...
     - No agora. - Tapou a boca com a mo e saiu correndo.
     A expresso dele tornou-se mais alegre de repente.
     - Oh, pequena!  do champanhe. No devia ter bebido um copo inteiro.
     Agarrou-lhe a cabea com as mos. O resto do discurso dissipou-se no ar, pois Devon no conseguiu ouvi-lo. Estava ocupada vomitando entre os arbustos prximos 
do banco.
     
     Em toda a sua vida, nunca se sentiu to envergonhada. Claro que podia ter sido pior. De alguma forma, Sebastian arranjou-se para avisar Justin e pedir uma carruagem 
que ele esperou diante da casa. Justin no disse uma palavra quando o irmo a trouxe, dando uma volta pela casa at  carruagem; sentia-se muito mal para se preocupar 
em dizer alguma coisa. No conseguia nem imaginar a emoo que podia ter causado.
     A manso dos Clarkston no era muito longe da casa da sua av. Sebastian disse muito pouco, mas a sua agressividade refletia-se na preocupao dos lbios finos 
e apertados no rosto dela. Estendeu-lhe a mo solicito enquanto a ajudava a subir  carruagem, embora pudesse ver que o seu animo deixara de ser amigvel e carinhoso. 
Uma gargalhada tonta saiu da sua garganta quando a acompanhou  porta de casa. J devia saber que podia esperar dela o comportamento meno adequado!
     - Pode subir as escadas sozinha? - Perguntou-lhe.
     - Estou bem. - murmurou ela. Agora que esvaziou o estmago, sentia-se muito melhor.
     - Ento vai te trocar. Eu espero aqui.
     Devon mordeu o lbio.
     -  melhor dizer algo  minha av.
     - J falei com ela. - Foi tudo o que ele lhe disse. - Chegar de um momento para o outro.
     Devon subiu as escadas, com o corao apertado e a mente cheia de confuso. Na verdade, esperava que a av no voltasse to depressa. Havia muitas coisas para 
dizer. Muitas coisas que precisava dizer. Mas, honestamente, no tinha a certeza de como o fazer, nem sabia se a ideia a entusiasmava ou aterrorizava.
     O seu quarto estava s ecuras, porque dissera a Meggie, a sua criada, que no a esperasse acordada. O reflexo da lua ajudou-a a acender o cadelabro da mesinha 
de noite. Mas antes de fechar a porta, um calafrio eriou-lhe o cabelo na nuca.
     - Ol, linda. Estava  tua espera.
     O sangue congelou-se nas veias. Conhecia aquela voz pastosa. Sabia, mesmo antes de se virar, quem estava atrs dela.
     Harry.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
    Capitulo 29
     
     Um terror infernal apoderou-se dela. Olhou para a porta e tentou dirigir-se para ela, mas ele foi mais rpido. Dedos frios como o ao cravaram-se no brao. 
Puxou-a para ele.
     - Deixa-me! - gritou ela.
     Tentou fugir dele, mas sem resultado. Ele bateu-lhe e encostou-a na parede, depois elevou uma vela  altura do rosto. Os olhos negros investigavam o rosto dela. 
Riu de uma maneira to repentina que ela estremeceu de medo.
     - Nem sonhe, querida. Nem sonhe!
     - O que quer de mim? - perguntou ela friamente.
     Os lbios finos desfiguraram-se num sorriso.
     - Ora, vamos, querida! Matou o Freddie, achs que eu ia esquercer?
     - Como  que me encontrou?
     Ele ficou srio. Como resposta, tirou um pedao amarrotado de jornal do bolso dele. Devon reprimiu um gemido. A noticia da coluna social.
     - Aghhh, no foi difcil, vi voc mais do que uma vez! - Riu s gargalhadas. - Comeava a pensar que nunca te encontraria, e aqui est! Tenho muita sorte em 
ter amigos que sabem ler!
     O olhar mesquinho centrou-se nela. Acariciou o tecido do vestido com os dedos.
     - No sei como fez, pequena, mas a tua vida mudou um pouco desde a noite em que matou o meu irmo.
     Devon humedeceu os lbios.
     - O que quer? - perguntou-lhe de novo.
     - Oh, creio que sabe o que eu quero. - Piscou-lhe um olho e passou a mo pela garganta dela, ameaador.
     Devon teve que lutar para no perder o controle. No gritaria, no choraria. Seria agradvel demais para ele se lhe mostrasse medo. Tinha sorte, pensou, por 
no a matar ali mesmo. Devon tambm no se iludiu muito sobre as intenes dele.
     -  dinheiro o que quer? A minha av dar. - A sua voz saiu alta e clara. A porta estava entreaberta. O seu quarto no era muito longe das escadas. Pediu a 
Deus que Sebastian no tivesse entrado para o salo para esperar por ela...
     -  muito correto que elabpague! E depois voc pagar pelo que fez ao Freddie. Serei rico. - Gritou ele. - E voc morrer! - com os olhos negros a brilhando, 
agarrou-a pelo brao bruscamente. - Agora, puta, est na hora de irmos embora.
     - Acha que pode simplesmente sair daqui da mesma maneira como entrou? - Ela tremia, mas surpreendeu-se ao se atrever a dizer-lhe aquilo.
     Os olhos dele pestanejaram.
     - Vamos, iremos por um caminho diferente. E onde est a tua velha?
     - Dormindo, l em baixo. - Mentiu ela.
     - Ento no podemos fazer muito barulho, no ? - Sorriu e abriu a porta, depois empurrou-a para o corredor.
Ela tropeou de propsito. Ele levantou-a rapidamente.
     - Tente isso de novo, e te fao em picadinho logo a seguir!
     - Mas depois ficaria sem o dinheiro, no ?
Harry respondeu-lhe torcendo-lhe o pulso nas suas costas. A dor subiu pelo brao; temeu que tivesse lhe partido as articulaes. Harry deteve-se e olhou para baixo, 
para o espao da entrada. Devon forou a vista tambm para poder ver; pelo amor de Deus, no havia rastro de Sebastian!
        Por trs dela, sentiu os dedos de Harry que apertavam uma faca contra a sua capa.
     - Sebastian! - Gritou. Embora o som tivesse passado pela sua garganta, tudo no seu interior ficou tenso. Armou-se de coragem para afastar a ponta da faca de 
Harry, lembrava muito bem a sensao de atiador de fogo a transpass-la. Rezou para que desta vez fosse mais rpido.
     Mas no houve dor.
     Apenas o som mais maravilhoso do mundo; o som da voz de Sebastian.
     - No havia necessidade de gritar, amor. Estou aqui.
     Harry virou-se. S quando os seus olhos se habituaram  escurido, conseguiu ver a alta e impressionante figura que se confundia na penumbra.
     Um punho fechado saiu de algum lado e bateu diretamente no queixo de Harry. A cabea dele dobrou-se para trs. Ouviu-se um grunhido e, depois, o corpo caiu 
ao cho sem um som.
     
     As horas seguintes passaram como numa nuvem. Chamaram a policia e Harry foi detido por policiais uniformizados - aparentemente entrou na casa pelo soto. - 
Depois, tanto Devon quanto Sebastian, declararam perante o chefe da policia. Devon s  lembrava de metade, mas de repente tudo lhe veio  mente. A morte de Freddie, 
como havia tentado mat-la. O chefe da policia garantiu-lhe que no apresentaria queixa contra ela.
     - De fato, - disse ele - o mundo est melhor sem ele. E - acrescentou convictamente, - o Harry no voltar a incomodar, nem a vocs, nem a mais ningum. Eu 
me encarrego disso.
     Sebastan acompanhou-o  porta. A av anunciou a sua inteno de se retirar, beijou Devon na testa e olhou para Sebastian.
     - Espero que saiba encontrar a sada por si prprio. - Disse-lhe irnicamente.
     Sebastian despediu-se em silencio. Devon, entretanto, encaminhou-se para o salo e sentou-se, ainda um pouco amedrontada. Levantou o olhar quando ele entrou 
no salo, fechando as portas. Depois, virou-se para olhar para ela.
     O ar encheu-se de vida com a fora da sua presena. O corao de Devon batia rapidamente. Nunca o vira to bonito, com as luzes dos candelabros iluminando seu 
corpo.
     Aproximou-se dela em trs passos. Sentou-se ao seu lado e agarrou-lhe as mos, com um aperto quente e vigoroso. Ficou assim sem dizer nada durante um tempo, 
brincando distrado com os dedos dela.
     - Bom - disse ele. - Finalmente, tudo acabou.
     Devon concordou.
     - Est bem?
     - Sim - murmurou ela. Mas o seu corao tremia.
     Sebastian enrugou a testa.
     - O que tem?
     - Sebastian - disse desesperada. - Sebastian! H tantas coisas que quero dizer e no sei como comear.
     - No precisa dizer nada.
     Havia tanta ternura nas palavras dele que o corao parecia que sairia do peito.
     - Oh, mas eu quero faz-lo!
     Com um gemido acolheu-a entre os seus braos.
     - No chore, meu amor. No consigo suportar... te amo, Devon. Te amo ...
     Sentiu-se invadida pela emoo, enjoada e dbil. Doa-lhe a garganta. Enrolou-se nos braos dele e ficou ali, abraada a ele.
     - Eu tambm te amo - disse com um soluo contido. - Mas j sabia disso, no  verdade?
     Os olhos dele ficaram mais escuros. O seu olhar percorreu-lhe a expresso de cima para baixo.
     -  verdade - admitiu com um sorriso. - Mas... Deus, adoro ouvir dos teus lbios!
     Ento beijou-a, num beijo longo e cheio de infinita doura. Contra a sua vontade, libertou os lbios. Retrocedeu um pouco e traou-lhe o sorriso nos lbios 
dele.
     - E isso? - Murmurou Sebastian.
     O vestgio de um sorriso iluminou os lbios dela. Devon aninhou-se a ele.
     - Estava pensando na ultima vez que estivemos aqui sozinhos. - Um pequeno diabinho dentro dela empurrava-a a brincar um pouco com ele. - Lembra-se?
     Sebastian ergueu as sobrancelhas.
     - Essa  precisamente uma das coisas que gostaria de esquecer.
     - Mas me perguntou algo...
     - Isso eu me lembro.
     Timidamente, Devon acaricou-lhe a face.
     - Se me perguntar novamente - sussurrou, - a minha resposta seria bastante diferente.
     - Entendo. - a sua voz foi sria, embora os olhos comeassem a brilhar de novo. - e qual seria essa resposta?
     - Sim... sim, claro que casaria com voc.  bastante persuasivo, sabe?
     - Creio que a palavra "persistente"  a mais adequada.
     - Sim, essa tambm.
     A teria beijado novamente, mas ela deteve-o com um dedo na boca.
     - Espera - disse-lhe sem flego.
     - "Espere", diz ela - deu um grunhido. - Devo esperar para sempre?
     - Bom,  um homem paciente, no?
     - No, - Advertiu-a - no que se refere a voc.
     - Entendo. E no que se refere a crianas?
     Tinha tanto medo de olh-lo, como de no o fazer.
     Houve um silencio aterrador.
     - Devon - disse cuidadosamente, - est  dizendo o que eu penso que...
     - Sim. - Dirigiu a mo de Sebastian at ao seu ventre. - Vai ser marido... e pai, Sebastian. No se importa, no ?
     - Se me importo? - Os dedos dele moveram-se pelo ventre, numa carcia ligeira que a comoveu infinitamente. Ele riu roucamente. - Evidentemente que no. Sempre 
quis uma casa cheia de crianas.
     Devon sorriu. Um sorriso malicioso brilhou nos olhos dele.
     - Agora, minha futura esposa, posso te beijar?
     Ela atraiu-o para si e acariciou-lhe o cabelo com os dedos, aproximando a sua boca  dele.
     - Sim - suspirou, - ah, sim...
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
    Epilogo
     
     Casaram-se duas semanas depois, na capela de Thurston Hall. Foi uma cerimonia pequena e tranquila,  qual assistiram apenas os amigos mais prximos e a famlia. 
Devon usou um requitado vestido de saias de seda e renda.
     Quando a cerimonia terminou, no houve lgrimas - bom, exceto as da av e de Julianna, que choraram o tempo todo. - Quando foram declarados marido e mulher, 
Devon elevou os olhos radiantes e apaixonados para o seu marido.
     Sebastian, com um olhar malicioso, enlaou a sua mulher num abrao e comeou a dar-lhe, diante de todos, um beijo ardente que lhe tirou o flego.
     Claro que, foi Justin que, com uma expresso irnica, gaguejou em voz alta e provocou-os para que interrompessem o beijo.
     O escandalo foi a ultima coisa que Sebastian pensou nos dias antes do casamento. Ao ver como Sebastian havia conquistado a adorvel Devon, as mulheres da alta 
sociedade aplaudiram e suspiraram sonhadoras, admitindo que o encontro do casal era muito romntico. Desde que se anunciou o compromisso, todos desejaram o melhor 
para o casal. Evidentemente, o casamento do marqus de Thurston fez escapar mais do que um suspiro entre as jovens, que viram como o solteiro mais cobiado de Londres 
se perdia para sempre. Mas quando se viu o casal de brao dado, e a troca incessvel de olhares entre ambos, ficou claro que foram feitos um para o outro.
     Passaram os ltimos meses de gravidez de Devon em Thurston Hall. E foi l, no seu quarto, na imensa cama de dossel onde Sebastian fizera amor com a mulher que 
seria sua esposa, a cama onde havia jurado que nasceriam os seus filhos, onde Devon se contraiu, gritou e empurrou para dar  luz o seu primeiro filho.
     As dores comearam umas semanas antes, uma beno na opinio de Sebastian, porque a sua mulher sofrera os efeitos da gravidez quase desde o primeiro momento. 
Aos sete meses, Devon estava... bom, no h outra maneira de dizer, estava enorme. Embora, claro, ele lhe garantisse todos os dias que no havia criatura mais bonita 
em cima da terra.
     Mesmo estando enorme.
     Desde o inicio, colocou-se na cabeceira da cama, para desgosto da parteira. Tentou ajudar de alguma maneira: sussurrando palavras de nimo, limpando o suor 
da testa... quando na realidade, nunca se sentira to intil na sua vida. O corao dele aguardava apertado. Ai! Ela  que era corajosa, acariciando com a palma 
da mo a face dele e fazendo brincadeiras no meio da dor, para que ele se tranquilizasse!
     A dor de Devon era, agora, quase constante. Tinha as costas arqueadas e lamentava-se pela primeira vez. O corpo todo tremia, e de repente, apenas pde ver com 
medo e fascinao como saa uma pequena cabea escura como a sua. Depois apareceram uns ombros diminutos e uma pequena barriga. E depois...
     - Um rapaz! - Gritou a parteira. - Um belo varo!
     Devon estendeu imediatamente os seus braos.
     - Deixa-me pegar ele.
     Sebastian olhou para elas abismado quando a parteira limpou o rolio e diminuto corpo e o cobriu antes de  d-lo  sua me.
     Sebastian ergueu-se. Devon ps os seus lbios na testa do pequeno e procurou a mo de Sebastian, com um sorriso radiante. Ele apertou-lhe os dedos.
     - Devon...
     De repente ela deu um grito abafado.
     - Ai! - Disse debilmente, - Senhora Craver...
     A senhora Craver j controlava a situao.
     O rosto de Sebastian estava plido.
     - O que foi? - Gritou ele. - O que est acontecendo?
     A parteira passou-lhe a criana para os braos.
     - Tome, senhor. - Avisou-o com cuidado. - Parece que l vem outro.
     Com aquele pequeno vulto que era o seu filho nos braos, Sebastian no teve outro remdio que fazer o que lhe pediam. Ainda estava maravilhado quando a parteira 
saiu pouco tempo depois.
     Devon agarrou-se  mo que ele tinha livre e puxou-o para baixo, com um sorriso cintilante. Riu da sua perturbao.
     - Sebatian, parece muito confuso! Venha conhecer sua filha.
     Ele engoliu a saliva e disse a primeira coisa que lhe veio  cabea.
     - Meu Deus, - disse ele movimentando a cabea, - quando disse que queria uma casa cheia de crianas, pensei que comearamos com um, no com dois... - Observou 
fixamente a cabea dourada que descansava na curva do cotovelo de Devon e suspirou. - posso pegar ela?
     Devon colocou o outro corpinho no seu outro brao. Vendo-a com os dois ao colo, Sebastian perdeu de novo o corao. Um tremor emocionado atravessou-o, uma emoo 
insuportavelmente doce. Beijou as quatro pequenas mos que se remexiam cheias de vida e, depois os lbios ansiosos da esposa.
     Mais tarde, quando os pequenos j estavam dormindo nos seus beros, deitou-se na cama junto a ela e apertou-a entre os braos.
     Devon estava quase dormindo quando ouviu uma gargalhada repentina junto do seu ouvido. Ergeu a cabea do peito do marido.
     - O que aconteceu? - Murmurou sonolenta.
     - Pensava em tudo o que me aconteceu neste ultimo ano. Quando comecei a procurar uma esposa nunca sonhei que a encontraria nessa mesma noite... e que encontraria 
ela de bruos!
     - Bom, senhor, tem alguma coisa do que se queixar?
     - Absolutamente. - rodeou-a com os seus braos e beijou-lhe a cabea. - Te amo. - Sussurou, - te amo com loucura, de uma maneira que faz com que a minha cabea 
d voltas de felicidade. De uma maneira que me enriquece, uma riqueza que no tem nada a ver com o dinheiro.
     -Oh, Sebastian - sussurrou ela, - essa  a maneira que eu te amo tambm.
     Os lbios colaram-se num longo e apaixonado beijo. Quando terminaram, ele sorriu brincalho.
     - Na verdade, s tenho um desejo.
     - E qual ?
     - Que o Justin e a Julianna encontrem o que ns encontramos.
     Devon abraou-o com mais fora. 
     - Devo dizer que somos a prova de que pode se encontrar o amor nos lugares mais inspitos.
     - Achas?
     - Claro que sim. Apesar da Julianna ter jurado que nenhum homem voltar a conquist-la, algo me diz que algum dia ela vai encontrar um homem que a levantar 
do cho e a far to feliz quanto ns somos.  - Devon riu. - Mas o teu irmo... bom, acho que no tem remdio!
     - Eu sei. - Sebastian riu tambm. - Pergunto-me se existe uma mulher capaz de domesticar semelhante malandro.
     - Bom, - murmurou Devon - teremos que esperar para ver, no  verdade?


Fim...

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